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Nocturno, de Chopin

por blogdobesnos, em 08.05.12


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publicado às 02:46

Memórias

por blogdobesnos, em 17.04.12

Memórias. Todos as temos, mas nem sempre serão fonte de prazer, de riso, de alegrias. O que guardamos em nós não são lições edificantes, ou pelo menos não o são sempre. Então, se queremos escrever sobre memórias, o melhor é que façamos um pacto decisivo: ou publicamos a verdade ou a mascaramos, não só para nos pouparmos mas, igualmente, para pouparmos os demais que tiveram a ventura ou desventura de participar das mesmas.

Ao escrevermos memórias, temos de ser piedosos, mas não indulgentes.

Sempre carregamos em excesso nos sentidos, nos sentimentos, nas culpabilidades, como se fossemos juízes equidistantes do que já sucedeu. Ao escrevermos, podemos pensar que, se fosse hoje, teríamos tal ou qual ação ou reação, e a partir daí, teremos a tendência a julgarmos a posteriori. De todo modo, escrever sobre este tema acaba por passar por um exercício de ficção, por um romance. Estamos, de certo modo, falando sobre o que desconhecemos. Por outro lado, autobiografias podem levar à autocontemplação, o que é mais do que esperado.

Há pessoas importantes, ou assim entendidas, cujas memórias devem trazer no mínimo traços que provoquem inveja, ou os sentimentos do poder e da glória. Não nos atrevemos a lançar sombras sobre os ícones. Eles que assim permaneçam, totens de nossas imagens mentais. O contrário disse é degradar alguém, ou sua obra, ou acotovelar a memória em escaninhos estéreis. De todo modo, não é fácil sequer que determinadas lembranças aflorem: menos ainda, sermos intelectualmente honestos.

Quem se habilita?

Quem quer por alguém como se herói fosse, como se líder fosse, quem quer fabricar ou autofabricar imagens, cenários, alter egos? Por fim, qual a vantagem disso tudo, senão a de sabermo-nos todos humanos, sujeitos, portanto, às curvas mais ou menos suaves dos nossos destinos? Quem nos fornecerá o passaporte, já que Alice desapareceu, há tanto, para seu país, que, aliás, não é exatamente o das maravilhas?

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publicado às 08:50

Em nome de Deus

por blogdobesnos, em 17.04.12

A relação do homem com Deus anda muito complicada, diria que, no mínimo atendendo a preceitos capitalistas. Em outros termos, parece que a criatura cobra do criador o fato de ter sido pelo mesmo criada. O filho exige do pai coisas que são insensatas.

Pais sabem, no fundo, embora disfarcem ou se refugiem para isentar-se, que, em verdade a vida dos filhos é obra deles, filhos. É claro que os pais responsáveis e amorosos procuram, por todos os meios, ensinar aos filhos, dar-lhes os exemplos, mostrar-lhes quais as diferenças entre os caminhos a abandonar e a seguir. No entanto, haverá um momento em que o filho não mais verá seus pais como heróis, como as únicas referências em suas vidas. Filhos amadurecem ou não, estudam ou não, trabalham ou não, mercanciam ou não mas, de todo, filhos crescem. E, ao fazê-lo, buscam sua independencia, senão plena, ao menos discursiva. Há mesmo um momento em que filhos pensam que pais atrapalham suas vidas, o que se não é uma mentira deslavada, também não é uma verdade absoluta.

Somente mais tarde filhos entenderão os pais. Tempus regit actum, diriam os romanos. No entanto, quando se pensa metaforicamente em Deus, a sua imagem institucionalizada é a do Pai, um Pai Maior, assim, em maiúsculas. E, sendo assim tão Onipotente, Onisciente, Criador, os pais e filhos terrenos, crendo-se suas criaturas, passam a querer que o Pai lhes dirima as dúvidas, os afaste dos obstáculos, lhe providencie uma vida boa, saudável, longa e frutuosa, um perdão em todo redimidor das faltas cometidas e um séquito de desejos e pedidos infindáveis e por vezes inalcançáveis.

Ao instituir Deus, as religiões oficiais e oficiosas instituiram também a Benção do Arrependimento. Tudo é possível desde que nos arrependamos sinceramente do que fizemos. A Benção do Arrependimento é a grande borracha que apagará nossos limites do consciente e do inconsciente. É a nossa Fenix rediviva, é o nosso encontro com os Deuses. A Benção, portanto, é o caminho que perseguimos diariamente. Como sempre, continuamos sem alterar uma vírgula os nossos comportamentos, as nossas idiossincrasias, os nossos ódios, as nossas pequenas e grandes vilanias, pois possuímos, escondida em nossa cartola de coelho o momento do arrependimento primal.

Enquanto isso, requeremos a Deus, solicitamos a Deus, imploramos a Deus, nos martirizamos em nome de Deus, nos suicidamos em nome de Deus, matamos em nome de Deus, provocamos guerras e extermínios em massa em nome de Deus, rezamos homilias eternas em nome de Deus, nos sacrificamos a nós e aos demais em nome de Deus, ateamos fogo em nome de Deus e, talvez o pior de tudo, cremos ou mentimos crer que há pessoas especiais, iluminadas, que falam institucionalmente em nome de Deus. De certo modo, convenientemente nos associamos às mesmas, com a esperança de que sobrem, afinal, alguns lucros em meio à tanta dedicação. Talvez por isso enriqueçamos tanto os esclarecidos, os que falam A Palavra Divina.

Somos filhos que não crescemos, somos eternamente infantis, somos especialmente manipuladores. Deus, efetivamente, não pode nos tratar como adultos. De certo modo, somos pífios e, assim sendo, não nos compete querer mais do que, como crianças desamparadas, acorrermos aos seus Braços pedindo perdão para fazer exatamente igual depois. Ao jogar tudo em Deus, nos divorciamos da realidade, do que podemos fazer, esquecemos que temos livre arbítrio e de que, para o bem ou para o mal, construímos nossa casa.

Somos, ao tudo e ao cabo, regentes de um mundo que, invariavelmente nos ameaça, nos fustiga, nos tem como reféns. Fomos nós que o quisemos assim, que o fizemos assim, enquanto, entre lágrimas e arrependimentos, nos fartávamos do nome de Deus, justificativa para todos ou quase todos os crimes que, invariavelmente, cometemos.

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publicado às 08:49

Pendulo

por blogdobesnos, em 17.04.12

Quando digito, o pensamento vaga, se solta, nem sempre se tenta admitir como tal. Controlo o que posso, tento explicitar exatamente o que quero escrever, mas não consigo; por vezes a ficção me trai e me expõe como sou ou como gostaria de ser. O ficcionista pode brincar de ser assassino, de ser ralé, de ser anjo, de ser feminino, de ser solitário, de ser um míssil, pois tudo escoa sob o manto de sua – por vezes desvairada – imaginação. Nada é tão inverossível quanto a escrita, desde que ela não seja pública, sorumbática, discursiva. As vidas não são memorandos, então viva a tragédia, o romance, o inusitado, o prenhe, o absurdo!

Podemos criar seres mitológicos, podemos criar mundos, podemos destruir ilusões, fabricar ironias, lidar com o infinitamente menor e com o que se nos avizinha de medos, de frustrações, de desejos,  podemos criar sentimentos, cenários, confusões, humores, amores, tudo, tudo em favor da escrita e do sentido em que ela opera. Personagens que crescem, partos que se sucedem, histórias malresolvidas, olhos de lassidão, tudo cabe quando estamos assim, sós, cavaleiros quixotescos empunhando teclados, manejando canetas, manipulando lápis, deixando fluir os pensamentos que convivem dentro de um espaço particular, privado, ousado, como uma mente que é individual, mas que também é coletiva, porque a vida é plural.

Nossos ressentimentos, nossas mentiras, ideias, idiossincrasias, pontos de fuga, nosso rufianismo e violências podem estar aqui, comprimidas em uma linha, em um parágrafo, em uma palavra. Não sei quem criou a criação, mas, em tudo o criador abriu espaços para que nos movamos em direção àquilo que quisermos, ao frio, ao calor, à tepidez.  A escrita é um pouco assim, movimento, vontade de dizer, vontade de calar, um pouco de mudez, sempre que necessário for. Escritores são assim, um pendulo em constante movimento.

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publicado às 08:48

Assim, flutuo

por blogdobesnos, em 17.04.12
Assim, flutuo

Não foram poucas as vezes em que o tempo escorreu entre os meus dedos, em que a vontade não foi suficientemente grande para que eu pudesse enfrentar aquilo que me afrontava. Reconheço agora, com o passar das oportunidades, o que em minha vida se fez poeira, o que declinou em mim, inclusive posso ter a nitidez de que, embora em meio a muitos, cada vez mais eles diminuem, findam por se ausentar. No final da minha vida estarei só, da mesma maneira em que ingressei no mundo. Minha morte será então um exercício de descoberta. Por ora, aferro-me à vida, como quem se nutre de sua própria necessidade. Importa viver, importa fazer, e, dizem alguns, minha vida é valiosa.

Caí muitas vezes no conto ácido e espesso da paixão, e dela, francamente, até hoje não me desencantei, pois muitos dos prazeres que tive tiveram ali a sua origem. Paixão pela paixão, pelo desejo puro e simples, mas com o decorrer dos anos, percebi que sorrisos de amigos sumiram, simplesmente porque eles, os amigos, igualmente o fizeram. Me dei conta do que os outros esperavam que eu fizesse, como queriam que eu me comportasse, como desejariam que houvesse um padrão muito nítido no que faria ou deixaria de fazer e, por outro lado, como os contrariei, como os deixei insatisfeitos. Decorrências da própria paixão, por um lado, e da inadequação por outro.

Lutei muito, mas não venci, pelo menos até hoje, a expectativa daqueles que me amam, pois as exigências são de diversas ordens, e eu não dou conta delas. Sou crítico, abusivo, por vezes destemperado, mas me ponho ao par dos meus conflitos. Talvez me amem apaixonadamente ou me odeiem com um certo lustro de raiva mal disfarçada pela educação.

Sou um ponto flutuante, não tenho as características das certezas absolutas, e nem sou dono de convicções irretorquíveis. Simplemente flutuo, mas as vezes o peso de tudo me faz tão denso que desabo, que não há força que me mova, que me altere o ritmo de lassidão. Não tenho medo do futuro, não renego o que passei, sequer de admitir meus incontáveis erros. Disse Seneca que é impossível nadarmos duas vezes no mesmo rio, fato que a física quantica confirmaria séculos depois.

Assim, flutuo.

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publicado às 08:46

Eu e o enxame

por blogdobesnos, em 17.04.12

Este é um post antigo, mas merece ser publicado.

Ocorreu em 2009, por aí. Hilton.

 

Falo com uma colega a respeito de irmos para um evento, as Conversações Internacionais sobre Educação promovidas pela Secretaria Municipal de Educação. Ela me pergunta que horas a escola liberaria os alunos para que os professores fossem assistir a inauguração do evento, no centro da cidade, hoje à noite.

“Às cinco da tarde, parece”, respondi.

Ela considerou que iria ao centro (onde ela mora) e teria tempo de “um lanche rápido” antes de estar lá no cais do porto (local do evento) as 19 horas. E eu, o que iria fazer? me perguntou.

“Vou pra casa, faço a barba, tomo um banho, faço um lanche, troco de roupa e vou”, foi o que disse.

Ela: “Mas aí você não vai estar lá às sete”, disse a controller.

Eu: “ A maioria dos colegas vai fazer isso; é muito ruim trabalhar a tarde inteira e ir para um evento sem tomar um banho, de barba por fazer e com fome. Além disso, há tempo suficiente”.

The controller: “Não, na EJA não, todos vão juntos”.

Esta última frase teve um objetivo sentencial.

De repente muita coisa ficou clara, o porquê de me sentir, muitas vezes, inadequado e desconfortável na escola. Nada como prestar atenção ao cotidiano. No livro “Vida para consumo”, S. Bauman, em sua habitual acuidade fala a respeito de um conceito que serve justo como uma luva na situação descrita: o conceito de enxame.

Para o autor, o enxame “…não são equipes, não conhecem a divisão de trabalho. São … agregados de unidades dotadas do autopropulsão unidas unicamente …. pela solidariedade mecânica”, manifestada na reprodução de padrões de comportamentos semelhantes e se movendo numa direção similar”. …  “Os enxames, de maneira distinta dos grupos, não conhecem dissidentes, nem rebeldes – apenas,  por assim dizer,  ‘desertores’, ‘incompetentes’ e ‘ovelhas desgarradas’. As unidades que se desviam do corpo principal durante o voo apenas ‘ficaram para trás’, ‘perderam-se’ ou ‘cairam pelo caminho’.” Em um enxame ” não há intercâmbio, ou cooperação ou complementaridade, apenas a proximidade física e a direção toscamente coordenada do movimento atual.”

Ora, se ao conceito de enxame acrescentarmos o de panóptico,  um centro de controle e de vigilancia full time, onde o observado tem suas ações e inações contabilizadas como em um banco 24 horas, que credita pontos positivos e debita desvios comportamentais, entenderemos um pouco do meu desconforto.

Em minhas vivências, embora muitas vezes – na maioria, presumo, não tenha conseguido alcançar meus objetivos, sempre busquei privilegiar a inteligência interpessoal, o que, entendo, é uma forma de arte. Divorciado do comportamento gestor busquei sempre alternativas humanas de me relacionar com terceiros, fossem pessoas de carne e osso, fossem instituições. Não me arrependo, nem creio que deva ser diferente. No entanto, o enxame me aborrece profundamente.

Eu não me adapto àquele, não sou autopropelido, abomino seguir ordens quando quem as dá não tem capacidade  para tanto. No caso, a minha colega se entende assim, o que me causa uma irritação maior.  Uma das características do imbecil é tentar impor sua vontade mas não ter experiência real suficiente para fazê-lo. A estupidez não respeita a inteligência alheia. Pelo contrário, quer produzir não grupos de trabalho, não equipes, mas simplesmente enxames.

O imbecil ou, no caso, a imbecil não se furta de dar palpites desastrosos e confundir conceitos. É-lhe necessário, a todo tempo e a toda hora, estabelecer ligações baseadas na fofoca, no desacato e nas pequenas e abundantes misérias humanas. O poder que possui é circunstancial, não respeitoso e absolutamente inócuo. Talvez por isso eu tenha tanta dificuldade para conviver com tais personalidades. Na verdade eu as incomodo, não de modo proposital, mas por minhas posturas. Nada pior para um rebanho do que uma ovelha desgarrada. No meu caso específico, propositadamente.

Ah, sim, é claro que fiz o que disse que iria fazer, e cheguei por volta de 19 horas e trinta no evento, sem qualquer prejuízo, nem para mim muito menos para o evento, que mostrava painéis sobre educação. No entanto, a carcereira do panóptico deve ter anotado em seus escaninhos o meu débito, para cobrar a qualquer hora e em qualquer circunstãncia, de preferência a menos apropriada para tanto.

Não importa, não reconheço a minha dívida.

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publicado às 08:45

Nicht so gut

por blogdobesnos, em 17.04.12
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Resistência ao Nazismo

Homem contraria a multidão e se nega a saudar Hitler.

A foto foi feia em 1936, no Porto de Hamburgo, e o homem que resiste na imagem é August Landmesse, operário do estaleiro de Hamburgo. Landmesse foi expulso do Partido Nazista em 1935 por ter se caso com uma judia. Em 1941, foi enviado à guerra e algum tempo depois desapareceu em combate, tendo sido como morto. Sua história ganhou publicidade em 1991 quando August foi identificado. Sua filha o reconheceu quando a foto foi publicada em um jornal alemão. A imagem tornou-se recentemente uma febre em redes sociais como o Facebook.

Fonte: Felipe Sáles, da Revista de História da Biblioteca Nacional

http://www.revistadehistoria.com.br/secao/nota/a-coragem-de-dizer-nao

Retirei em 26/02/2012

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publicado às 08:39

Viagens e sabores locais

por blogdobesnos, em 17.04.12
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Viagens e sabores locais

Muitas vezes, quando viajamos, ignoramos tudo que circunda o ponto de chegada, normalmente por que, mesmo em férias, nos planejamos para seguir determinadas metas. Então, o que é circunstancial passa batido, os entornos passam batidos, e, de certo modo, perdemos muitas fragrâncias, muitas sensações, muitos finais de noite em locais que talvez achássemos interessantes, mas que, provavelmente não conheceremos, o que é uma pena.

Passe de carro pelas estradas de Minas e você entenderá o que estou dizendo. Pequenas cidadezinhas, vilarejos que se espraiam pelas montanhas como pequenos cartões postais que convidam a dar uma parada, caminhar um pouco pelas suas ruas e descobrir a beleza do simples, do natural, mas o automóvel, na estrada principal, não baixa de cem por hora.

Se não apreciamos tudo que gostaríamos, seria razoável aproveitar o que é possível. As coisas, as pessoas, as ladeiras, os sorrisos, a arquitetura, os costumes e a música locais, os cheiros, as conversas, o outro, enfim, tudo passa como uma folha em branco. Adotamos o ritual e como uma novidade balsâmica, como uma inviolabilidade civilizatória, e assim perdemos os sabores locais. E os locais não são transferíveis, não são globalizados e no interior do Brasil, com a graça de Deus, uma moda de viola é mais apreciada que a Britney Spears ou a Lady Gaga.

Sabores locais são intransferíveis, quase que inegociáveis. Como os seus olhos quando, apressados, ignoram os meus.

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publicado às 08:20

Saber se dar valor, by Rose Chiappa

por blogdobesnos, em 17.04.12

 

Ontem, fui ler a letra da canção que tornou Whitney Houston conhecida aqui no Brasil: Greatest love of all. Eu me lembro de quando essa música estourou por aqui junto com sua cantora, era o ano de 1986, eu tinha 16 anos e, como todas as minhas amigas, me derretia ouvindo esta música que julgávamos ser uma canção de amor, nenhuma de nós entendia inglês e não havia ainda Internet a nos oferecer a tradução da música e os vídeo clipes não eram legendados, aliás, sequer havia programas específicos de vídeo clipes naquela época. Havia a palavra “love” na música, não havia? Isso e mais a forma apaixonada com que Whitney a cantava nos dava a certeza de que era uma canção de amor, então quando era executada no rádio, abraçávamos nossos ursinhos de pelúcia e ficávamos a sonhar com um grande amor. Então, meus mitos foram sendo derrubados: grandes amores são tão raros quanto ossadas de mamute, amor não traz felicidade (não trouxe para mim) e a canção fala sobre crianças e ensiná-las a ter autoestima. Acho que foi na rádio Cidade que eu ouvi a tradução de Greatest love of all e perdi meu interesse por ela, isso já por volta de 1988.

Vinte e seis anos se passaram, sua cantora está morta e, há algum tempo, voltei a me interessar pela música, afinal, promover a autoestima é importante para uma professora do Laboratório de Aprendizagem. Hoje, não preciso da tradução de uma rádio para entender a sua letra, isso é uma coisa que ainda me espanta: a capacidade que eu tenho hoje de entender o que é cantado nas canções que me encantavam, quando eu ainda não dominava a língua inglesa. E lendo a letra de Greatest love of all não posso deixar de ficar chocada, triste e pensar que Whitney deveria ter prestado mais atenção ao que estava cantando e seguido o conselho que cantou na música que a tornou mundialmente conhecida.

Greatest love of all é basicamente uma canção que fala sobre autoestima, sobre se dar valor, amar a si mesmo, não se deixar diminuir ou não se sentir diminuído por ninguém e fala da importância de ensinar estas lições às crianças. Greatest love of all também deixa muito clara a ideia de que é preciso saber amar a si mesmo e de que este é o amor mais importante.

A tragédia de Whitney foi não ter seguido os conselhos que ela cantou tão apaixonadamente em Greatest love of all. Ela apaixonou-se por um traste – tudo bem, isso é perfeitamente compreensível e desculpável, quase toda mulher já se apaixonou por um traste em sua vida, há mulheres que se apaixonaram por mais de um traste e há aquelas que  se apaixonam por trastes (acontece, infelizmente, eu mesma faço parte do último grupo). A tragédia de Whitney é que ela se apaixonou por um traste, casou com ele e deixou que ele destruísse a sua vida, a sua carreira e o seu talento. Whitney permitiu que esse homem a convencesse que ela valia pouco. No fim das contas, o amor de Whitney por si mesma não era tão grande ou forte e ela aceitou as traições e bebedeiras de Brown, passou a consumir cocaína e crack – drogas que lhe foram apresentadas pelo marido, e se permitiu abusar física e psicologicamente por ele. O que Whitney não percebeu é que os sentimentos que ela nutria por Brown eram mais fortes do que o amor e o respeito por si mesma, não viu que ela valia mais do que aquilo e passou a viver na sombra dele, permitiu que ele embaçasse a sua luz, fazendo exatamente o contrário do que cantou.

Mulher nenhuma deveria acreditar que vale menos do que o traste que a abusa. Nós deveríamos ter a capacidade de ensinar às nossas meninas que nenhum amor pode ser maior do que o amor por si próprias. Nenhuma mulher deveria se amar tão pouco a ponto de continuar com o traste que a maltrata, que a abusa, que a espanca. Whitney não encontrou inspiração na música que cantou, foi sua filha, Bobbi Cristina, quem abriu os olhos de Whitney para o seu valor. Em entrevista para Oprah, Whitney contou do dia em que Bobby cuspiu em seu rosto e que sua filha viu e perguntou:

- Mamãe, ele cuspiu em você?

- Está tudo bem, filhinha… – teria sido a resposta de Whitney à filha horrorizada com o que presenciara.

E sua filha, uma criança ainda, lhe devolveu:

- Não, mamãe, não está tudo bem. Ele não pode fazer isso com você…

Ouvir essa verdade tão simples, tão contundente e tão sábia da boca da própria filha acordou Whitney para o seu valor, para o que ela estavapermitindo que fizessem com ela e, em seguida a este fato, Whitney deixou o traste e entrou com o pedido de divórcio. Pelo que eu me lembro, se não estou confundindo com outra história, Bobby Brown era tão violento que, para deixá-lo, Whitney saiu de casa com a roupa do corpo, saiu dizendo que ia comprar leite e uma amiga mandou para o aeroporto a passagem que a tiraria da cidade.

Agora é torcer para que sua filha aprenda as lições que sua mãe não aprendeu e saiba se dar valor. Realmente, Whitney deveria ter ouvido mais Greatest love of all.

ROSE CHIAPPA

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publicado às 08:15

Chatice abissal

por blogdobesnos, em 17.04.12
 
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Sair de casa significa ingressar em um mundo no qual te pedem. Como eu fumo, a coisa fica ainda pior. Pedem cigarro, pedem fogo, pedem dinheiro, contam histórias  – claro – todas dramáticas para, logo em seguida, vir o pedido.

De carro, sempre vou encontrar, ou mais provavelmente serei encontrado pelos seres de flanelinha, aqueles que irão cuidar, arrumar uma vaguinha, defender até a morte os meus direitos de motorista, os que vão me ensinar a manobrar, etc, tudo isso até o momento em que eu me afaste, para que então volatizem, desapareçam, sumam, virem fumaça.

Andando de carro em Porto Alegre, se não houver o encontro fatal com os flanelinhas não oficiais, haverá a prestimosa EPTC Empresa Portoalegrense de Transporte e Circulação, que providencialmente criou as faixas azuis de estacionamento, que servem para que paguemos por estacionar em via pública, não contraprestando qualquer serviço, a não ser manter o zelo de aplicar multas de transito aos motoristas que desavisadamente infringirem alguma regra de estacionamento.

De modo genérico, a cidade está cada vez mais ficando assemelhada a  um nicho do politicamente correto, o que significa que há um sentimento de patrulha ideológica que perpassa aos comportamentos do dia-a-dia; se você fuma, te olham de modo reprovador, e mais, se autorizam a te recriminar publicamente, independentemente da situação. Se você responde, passa por grosseiro.

Porto Alegre iniciou uma bela campanha para que as pessoas estendam a mão e possam atravessar faixas de segurança; bastou isso para que as mesmas entendam que podem cruzar as faixas sempre, mesmo com semáforo aberto para o tráfego. Por aqui todos querem ser sujeitos de direitos e obrigar aos outros, mas poucos se colocam em uma situação de empatia. Na real não se quer saber nada do outro, especialmente se esse outro não fizer parte da nossa tribo, do nosso grupo, do nosso clã.

 

A palavra é essa mesma: clã (ou guilda, como querem os fãs de Fairy Tail).

 

Fairy Tail é um anime, que é uma animação no estilo japonês, em estilo mangá.

 

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publicado às 04:12


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