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Cegos visionários e intelectuais cegos, de Lyslei Nascimento

por blogdobesnos, em 31.03.12

CEGOS VISIONÁRIOS E INTELECTUAIS CEGOS

 


Lyslei Nascimento


UFMG

 

 


A pressão social perdura, não obstante a invisibilidade do perigo hoje.

Ela impele as pessoas ao inenarrável que, em escala histórico-universal, culminou em Auschwitz. 

Theodor Adorno

 


Se o inimigo vencer, nem os mortos estarão em segurança.

Walter Benjamin

 

 


A cegueira, tanto em Jean-Paul Sartre (cego de um olho, e inteiramente cego no fim da vida) quanto em Jorge Luis Borges (cego como seu pai e avô) não os impediram de ter uma consciência universal e profunda do papel do intelectual na sociedade em que viviam. Muito além das posições políticas locais de Borges, que sempre foram objeto de críticas ferrenhas, o escritor argentino sempre resistiu ao uso político da literatura. No entanto, a delicada relação entre a literatura, a arte em geral, e a política pode ser observada, em vários de seus textos, como uma questão ética e imperativa.

 

Beatriz Sarlo destaca, em momentos variados da obra de Borges, como no célebre conto “A biblioteca de Babel” ou nos vários contos de A história universal da infâmia, por exemplo, uma resistência contra a ordem imposta e vigente de forma simbólica, visionária. O escritor, que sempre confessou sua aversão a uma literatura que fosse presa a pressões ideológicas, no prólogo de O informe de Brodie, pronuncia uma espécie de manifesto à liberdade:

 

Só quero esclarecer que não sou, nem jamais fui o que antes se chamava um fabulista ou um pregador de parábolas e atualmente um escritor comprometido. Não aspiro a ser Esopo. Meus contos, como os d´As Mil e Uma Noites, pretendem distrair ou comover e não persuadir. Este propósito não quer dizer que me encerre, segundo a imagem salomônica, numa torre de marfim. Minhas convicções políticas são demasiadamente conhecidas; filiei-me ao partido conservador – o que é uma forma de ceticismo – e ninguém me taxou de comunista, de nacionalista, de anti-semita, de partidário de Formiga Negra ou de Rosas. Acredito que com o passar do tempo mereceremos que não existam governos. Nunca dissimulei minhas opiniões, nem mesmo nos duros anos, mas não permiti que interferissem em minha obra literária, a não ser quando fui assaltado pela exaltação da Guerra dos Seis Dias.

 

A guerra a que Borges faz referência, nessa espécie de chave de leitura de sua obra, deu-se em junho de 1967. Nela pelejaram, num conflito armado, apoiados pelo Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Sudão, o Egito, a Jordânia e a Síria contra Israel. A Guerra dos Seis Dias foi deflagrada após uma série de ataques terroristas árabes contra Israel através das fronteiras com o Egito e a Jordânia, bem como o bombardeamento do norte da Galiléia pela artilharia síria. O Egito solicitou à ONU, numa estratégia militar astuciosa, que retirasse as tropas internacionais que guarneciam o Sinai. Esse pedido foi atendido. Imediatamente, deslocando-se para o Sinai, o exército egípcio estabeleceu aliança de guerra com a Síria e a Jordânia. As emissoras de rádio árabe transmitiam programas em hebraico para intimidar e anunciar à população israelense que seu fim estava próximo. Invocando o direito de autodefesa, Israel desencadeou um ataque contra o Egito e a Síria, conclamando a Jordânia a não intervir e, avançando pelo Sinai, venceu o exercito egípcio e expulsou as forças sírias do planalto de Golan. A Jordânia, então, entrou na guerra. Ao fim de seis dias de combates, a Judéia, a Samaria, Gaza, a península do Sinai e o planalto de Golan estavam sob o controle de Israel. A cidade de Jerusalém, que estivera dividida entre Israel e Jordânia desde 1949, foi reunificada sob a autoridade de Israel.

 

Nesse ano, Borges publica os poemas “A Israel” e “Israel”, realiza duas conferências: “O livro de Jó” e “Baruch Spinoza” e assina, juntamente com outros intelectuais, uma carta de apoio a Israel. Na ficção, a resistência política, que muito lhe foi cobrada, dá-se, sobretudo, em dois contos que tematizam o nazismo: “O milagre secreto”, publicado em Ficções, 1944, e “Deutches Requiem”, publicado em O Aleph, em 1949.

 

Em “O milagre secreto”, um escritor judeu em Praga, ao saber que será executado por fuzilamento pelos nazistas, pede a Deus que lhe conceda mais um ano de vida para concluir uma peça que estava a escrever. O título desse drama inconcluso é, como não poderia deixar de ser, “Os inimigos”. Sua história trata de disputas, poder e morte. Arma-se, na escritura, um espelhamento da rivalidade dos personagens através da referência a um matemático jogo de xadrez. Assim, o milagre secreto que se urde em segredo é o tempo da memória, não o da divindade. Entrelaçam-se, na trama de Borges, a temática de um escritor judeu condenado à morte pelos nazistas e fragmentos do Alcorão. Ambos, na narrativa, duplamente, sem se ofuscarem. Borges, assim, parece ter em vista a literatura como um tecido amplo, tão amplo que pode fazer convergir, sem conflito, sem superposição, as vozes que fora da ficção se elevam como inimigas. No discurso literário borgiano, a riqueza cultural, tanto judaica quando muçulmana, coopera para o enriquecimento do tecido literário. Dessa forma, no momento em que está para ser fuzilado, o escritor judeu, de pé contra a parede do quartel, espera o disparo do pelotão alemão que não vem. O sargento emite a ordem final. E, no entanto, o universo físico se detém. Todos ficam imóveis . Um ano solicitara o escritor a Deus para terminar seu trabalho; um ano, portanto, lhe foi outorgado.

 

O dramaturgo, enfim, minucioso, imóvel, secreto, urdiu no tempo seu alto labirinto invisível. Refez o terceiro ato duas vezes. Eliminou algum símbolo demasiado evidente: as repetidas badaladas, a música. Nenhuma circunstância o importunava. Omitiu, abreviou, amplificou; em certos casos, optou pela versão primitiva. [...] Pôs fim a seu drama: não lhe faltava já resolver senão um único epíteto. Encontrou-o; a gota de água resvalou em sua face. Iniciou um grito enlouquecido, moveu o rosto, o quádruplo disparo o derrubou.

 

Como uma espécie de narrativa especular, o conto “Deutsches Requiem”, reelabora o tema da morte, do duplo e da confrontação política a partir do ponto de vista inusitado de um torturador nazista. Contrapondo-se a voz do escritor judeu do conto anterior, a voz narrativa desse outro conto é a de um alemão nacional-socialista, que, na noite que precede a sua execução, rememora sua vida e sua luta pela construção do ‘Terceiro Reich’. Como responsável por um campo de concentração, coube-lhe a tortura e o testemunho do suicídio do poeta judeu David Jerusalem no campo de morte.

 

De acordo com o depoimento desse narrador, David Jerusalem era um escritor admirável pela sua capacidade de captar uma ordem múltipla e o infinito em cada individualidade, carregando sua escrita com a interessante metáfora dos “tigres transversais e silenciosos”.

 

Nos dois contos de Borges, uma trama se urde ironicamente, de forma sub-reptícia, como lhe é peculiar. A condição silente do judeu. Os dois personagens, tanto o dramaturgo quanto o poeta que se suicida para se ver livre da tortura, ilustram o estereótipo do judeu após Auschwitz, que deve ser silencioso e passivo, deixar-se torturar e exterminar sem direito a nenhum tipo de defesa.

 

Evidentemente, há uma crítica especializada em continuamente esmiuçar as palavras e as ações, ficcionais ou reais, de Borges. No ano em que se comemorava o centenário do seu nascimento, 1999, por exemplo, um sociólogo argentino reuniu, sob o título de Antiborges, uma série de textos contra o escritor. Essa antologia pretendia ser uma página discordante “da sufocante hagiografia” que estava sendo realizada em todo o mundo, para Borges. No entanto, esses escritos passam quase desapercebidos.

 

Juan Gelman, poeta argentino convidado a participar dessa antologia, é um dos críticos mais ferrenhos e mais lúcidos de Borges. Seu filho e a nora, grávida, foram seqüestrados e mortos pelo regime militar argentino, sua neta foi, depois do suplício da mãe, adotada por uma família uruguaia. Deve-se à campanha e à luta de Gelman para obter o direito de revelar à sua neta sua origem, a mudança das leis de adoção do Uruguai. A omissão de Borges, naquele momento, foi especialmente trágica para Gelman. No entanto, ao relatar uma entrevista que Borges concedera a uma conhecida jornalista, afirma:

 

É conhecida a desorientação e também o horror das opiniões políticas de Borges. Elogiou a Videla depois de um memorável almoço, deixou-se condecorar por Pinochet, opinou na Espanha pós-franquista que tudo era melhor com Franco, decidiu sugerir a Jimmy Carter um golpe de estado. Mas em 1981, em plena ditadura militar e antes da Guerra das Malvinas, assinou uma solicitação que as Mães da Praça de Maio fizeram publicar no jornal La Prensa em favor dos seus filhos desaparecidos. [...] no documentário mencionado declarou: “Por ser cego e não ler os jornais, eu era muito ignorante. Mas as pessoas vieram à minha casa (quando a ditadura ainda estava no poder) e me contaram histórias tristes sobre o desaparecimento de suas filhas, esposas, filhos, assim, agora que eu estou bem informado. Durante um tempo não soube de nada. As notícias não me chegavam, mas agora essas coisas não podem ser ignoradas. Sim, muita gente me acusou de não estar atualizado. Mas o que eu podia fazer? Vivo sozinho, conheço muita gente, não leio os jornais. Somente ouço o que meus amigos me dizem e eles pertencem a outra classe. Mas agora, é claro que sei tudo sobre essa miséria e todos esses crimes, um após o outro. É por isso que não falei antes. Ignorância, querida senhora, pura ignorância, como dizia o doutor Johnson. Agora creio que sei mais e me sinto triste, amando como eu amo ao meu país”, disse Borges, com tristeza na voz e um arremedo de sorriso.

 

Borges, nessa entrevista, ao reavaliar suas posições equivocadas, marcadas por uma ignorância que ele mesmo reconhece, pode ser contraposto ao posicionamento do escritor português, José Saramago, e o papel do intelectual frente aos acontecimentos políticos sobre os quais ele é chamado a opinar, ou sobre os quais opina mesmo sem ser chamado.

 

Saramago, que não é tecnicamente cego, apesar do uso das grossas lentes em seus óculos, valendo-se do conceito sartriano de “intelectual engajado”, após ganhar o discutível Prêmio Nobel de Literatura, esmera-se em publicar entrevistas e emitir opiniões sobre Israel e o conflito no Oriente Médio eivadas de judeofobia.

 

Sartre, diga-se, de passagem, em 1964 negou-se a receber o prêmio da academia sueca. Borges, sempre o desejou, porém nunca foi por ele contemplado, e o senhor Saramago, que efetivamente o ganhou, em que pese o caráter inexpressivo do prêmio, não o merecia.

 

A cegueira – metáfora recorrente na obra de Borges e do senhor Saramago – é uma perspectiva interessante no que se refere à condição do intelectual na contemporaneidade. Os artigos de Saramago, mais especificamente “Das pedras de Davi aos tanques de Golias”, publicado no jornal espanhol El País, foi reproduzido por dezenas de sites anti-semitas pela Internet. Além disso, o escritor português na televisão ou em fotografias publicadas em jornais do mundo todo, inclinado, quase grotescamente sobre uma folha amarrotada de papel, com as mãos estranhamente pensas sobre os olhos, reafirma o que disse durante uma viagem à Cisjordânia e à faixa de Gaza, comparando ao campo de extermínio nazista de Auschwitz as atitudes de Israel frente aos atos terroristas de certas correntes palestinas.

 

A exibição desse senhor contrasta com as imagens singulares de Borges, junto ao Muro das Lamentações em Jerusalém. Numa fotografia publicada pela revista Proa, Borges parece um homem pequeno e frágil diante daquela parede que testemunhou séculos de perseguição, expulsão e extermínio de judeus. Cego, o escritor tateia, como quem lê em braile, a parede do Templo. Noutras imagens memoráveis de Borges, ele lava as mãos no mar da Galiléia e se apóia em sua bengala, ouvindo atentamente os rumores do dia.

 

Comunista pós-utópico, Saramago se utiliza na crônica “Das pedras de Davi aos tanques de Golias”, de uma grosseira inversão da narrativa bíblica. No texto, em que afirma estar preocupado com um suposto rigor histórico, o escritor acusa cem gerações de “conformidade acrítica”. Ou seja, durante cem gerações, a narrativa bíblica foi interpretada erroneamente e, somente agora, o iluminado Saramago irá trazer a verdadeira luz à humanidade cega.

 

Convém acompanhar, primeiro, a narrativa bíblica. Segundo o primeiro livro do Profeta Samuel, Saul era quem reinava em Israel e Davi era um jovem pastor de ovelhas, filho de um dos seus súditos. Em certa ocasião, os filisteus reuniram suas tropas para a guerra contra Israel e concentraram-se em Judá. Saul e seus homens também se reuniram e acamparam no vale próximo, e se puseram em ordem de batalha. De um lado de uma montanha estavam os filisteus e do lado de outra montanha, Israel. O livro de Samuel afirma que havia um vale entre eles. Sai, então, das fileiras dos filisteus um grande guerreiro. O seu nome era Golias. A sua estatura era de seis côvados e um palmo . Sua cabeça era coberta por um capacete de bronze, vestia uma couraça de escamas, que pesava cerca de cinco mil siclos de bronze. Trazia as pernas protegidas por perneiras também de bronze, e um escudo entre os ombros. A haste da sua lança era de ferro e à sua frente marchava um escudeiro. Esse soldado excepcional estacou perante as linhas de Israel e o desafiou: “Escolhei entre vós um homem, e venha ele competir comigo. Se me dominar e me ferir seremos vossos escravos; se, porém, eu o vencer e ferir, vós sereis nossos escravos e nos servireis.” Quando Saul e todo o Israel ouviram estas palavras, encheram-se de medo e pavor.

 

Davi era filho de um homem já idoso de Belém de Judá, chamado Jessé, que tinha oito filhos. Três deles seguiram Saul para guerra. Davi, o mais moço, cuidava das ovelhas de seu pai. Jessé, um dia, pede a ele que leve comida aos irmãos no acampamento. Davi, então, ali, toma conhecimento do desafio de Golias e vai ter com o rei: “O teu servo irá lutar com esse filisteu”. Saul, no entanto, responde-lhe: “Tu não poderás ir, porque não passas de uma criança e ele é um guerreiro treinado desde a juventude”. Davi, todavia, convence a Saul: “Quando o teu servo apascentava as ovelhas de seu pai e aparecia um leão ou um urso que arrebatava uma ovelha do rebanho, eu o perseguia e o atacava e arrancava a ovelha de sua goela. O teu servo venceu o leão e o urso, e assim será com esse guerreiro filisteu”. Saul, resignado, vestiu Davi com a roupa real de combate, meteu-lhe na cabeça um capacete e ainda uma couraça, cingindo a Davi com a sua espada. Davi tentou andar e não conseguiu porque a roupa era muito pesada e ele não podia com ela. Então, desembaraçou-se de tudo aquilo e tomou na mão o seu cajado, escolheu no riacho cinco pedras bem lisas e as pôs no bornal de pastor. Depois, apanhou sua funda e foi ao encontro de Golias.

 

Golias se aproximava cada vez mais de Davi, precedido pelo seu escudeiro. Assim que notou Davi desprezou-o porque era jovem, ruivo e de boa aparência. Então, diz a Davi: “Sou por acaso um cão, para que venhas ter comigo com paus? Vem cá, e darei a tua carne às aves do céu e às alimárias do campo!” Davi, no entanto, retrucou: “Tu vens contra mim com espada, lança e escudo; eu, porém, venho a ti em nome do Deus dos Exércitos de Israel. Hoje mesmo o Senhor te entregará em minhas mãos, eu te ferirei e te deceparei a cabeça, e darei o teu cadáver e os cadáveres do exército filisteu às aves do céu e aos animais selvagens. Toda a terra saberá que há um Deus em Israel, e toda esta assembléia conhecerá que não é pela espada nem pela lança que o Senhor concede a vitória, porque o Senhor é o senhor da batalhe e ele vos entregará em nossas mãos.

 

Golias avançou e Davi pôs a mão no seu bornal, apanhou uma pedra que lançou com a funda. Atingiu o filisteu na fronte, a pedra se cravou na sua testa e ele cai com o rosto no chão. Desse modo, Davi vence o filisteu com a funda e a pedra. Não havia espada nas mãos de Davi. Ele correu, pôs o pé sobre Golias, apanhou-lhe a espada, tirou-a da bainha e a cravou no filisteu e, com ela, decepou-lhe a cabeça.

 

Este é o resumo do relato bíblico que foi grosseiramente parodiado por Saramago. Segundo uma estratégia retórica, ele começa o seu texto de forma irônica: “Afirmam algumas autoridades…” e “Outros estudiosos não menos competentes afirmam…”. Essa ironia, que dá o tom do texto, aponta para a tentativa do escritor de deslegitimar não só o discurso religioso, mas também as exegeses históricas e filosóficas da narrativa bíblica. Sendo assim, durante mais ou me nos três mil anos, todos estiveram enganados e ele, somente ele, descobriu a verdade. Qual seja: a narrativa bíblica – que ele conceituou como uma “famosa lenda que é contada de forma equivocada às crianças”, ou seja, segundo suas próprias palavras, uma “enganosa mistificação” – não pôde ser desmascarada até que ele, do alto de sua argúcia exegética e hermenêutica, pudesse fazê-lo.

 

Assim, achando-se deveras poderoso com sua pseudo-hermenêutica, o senhor Saramago, ateu confesso e freqüentador sob suspeita de textos considerados sagrados, afiança que a moral da história, enganosamente ensinada às crianças, ou seja, a máxima arquetípica e universal de que a astúcia vence a força, não passa de uma armadilha que há “25 ou 30 séculos” é espalhada como propaganda judaica! Tão astuto é o senhor Saramago que, ao manipular o relato, faz com que Davi enfrente Golias armado com uma pistola. Em sua crônica, Davi chega, literalmente, armado com uma pistola. Com essa grosseira ironia, atropelando todas as formas lógicas de se conceber a disputa entre Davi e Golias, ele falsamente se corrige: “É verdade, não parecia uma pistola, não tinha cano, não tinha culatra, não tinha gatilho, não tinha cartuchos…”. Desse modo, o cronista espera antecipar a identificação de Davi aos israelenses contemporâneos.

 

De acordo com o escritor, alguns “amantes das verdades místicas soberanas” protestarão que não era uma pistola, mas uma funda. Mas isso, para o escritor português, não faz diferença. Aliás, faz sim. Porque ao manipular o relato bíblico, que segundo ele só serve para ser um “fabricante de fantasias”, ao inverter e distorcer seus fundamentos, numa vergonhosa paródia, intenta converter Israel em um novo Golias, que dispara mísseis contra “inocentes desarmados”. Com essa deturpada conformação, ele pode afirmar: “Davi conseguiu matar o filisteu, não por ser mais astuto, mas simplesmente porque levava consigo uma arma de grande alcance, que sabia manejar”.

 

Segundo o tresloucado escritor, as pedras de Davi mudaram de mãos. Agora, seriam os inocentes terroristas palestinos que as jogam. De repente, a narrativa bíblica que era uma mentira judaica para enganar criancinhas incautas passa a ser exemplar para a defesa do que ele acredita ser um ponto de vista crítico. A seu critério, a narrativa fabular, antes denunciada como uma mentira, muda de registro para o tempo histórico, e passa a ser o pilar de uma nova argumentação. Diz ele: “Aquele ruivo Davi de antanho sobrevoa em helicóptero as terras palestinas ocupadas e dispara mísseis contra inocentes desarmados”. Assim ele prossegue, tentando construir uma imagem perversa de Davi, o israelense, que se converteu, para ele, num “novo Golias”.

 

E esse novo Golias, ajudado por seu amigo norte-americano, seguiria a devorar os inocentes. Além de um maniqueísmo simplório, que reduz o conflito palestino-israelense num jogo de paus e pedras, e do anti-americanismo que beira ao racismo, e da óbvia desconsideração do terrorismo como um dos mais terríveis inimigos do nosso século, o escritor afirma que Israel precisa “aprender uma lição”.

 

Os israelenses são vistos como um todo homogêneo, um bloco maciço de carne exaltada e perversa que marcha “intoxicada”, “contaminada” e “incurável” contra os inofensivos palestinos. Esse vocabulário, usado pelo escritor, absolutamente idêntico ao discurso nazista do judeu como doença e câncer da sociedade, traduz de forma inequívoca sua judeofobia. Segundo o escritor, os judeus são sádicos e masoquistas, eles “reavivam sem cessar sua própria ferida, para que não deixe de sangrar”. Ao mesmo tempo, os judeus, todos eles, são eternas e performáticas vítimas, para que “todos se sintam culpados, direta ou indiretamente, pelos horrores do holocausto”. Essa ambigüidade causa uma espécie de vertigem. São os judeus vítimas masoquistas ou poderosos guerreiros impiedosos e injustos? Por favor, decida-se!

 

Ao observar as imagens das pessoas nas, atualmente, sinistras ruas de Jerusalém – a cidade da Paz – a outrora atmosfera rica e multicultural da cidade torna-se nervosa e tensa, o preço que seus habitantes têm pagado por ali viver, sejam eles judeus, cristãos ou muçulmanos é muito alto. Seria mais fácil desistir. No entanto, os sobreviventes dos campos de concentração e extermínio europeus que a fundaram, buscando nela abrigo e liberdade, os sionistas militantes, as vertentes mais ortodoxas de todas as religiões, os rigorosos soldados, os doces músicos, os judeus brancos do norte, os judeus de todas as cores, africanos e árabes, homens de diferentes procedências, de culturas diversas, têm, em Jerusalém, a certeza de que poderão se reerguer das cinzas. Israel não é um todo homogêneo como quer o senhor Saramago. Sua capital exemplifica, de forma muito especial, essa condição. Jerusalém é, pois, metáfora da nação.

 

A tentativa de Saramago de deslegitimizar Israel passa pelo requinte de aproximar os terroristas palestinos daqueles que foram queimados, torturados e mortos em campos de extermínio, daqueles 6 milhões de civis que foram brutalmente assassinados nos campos nazistas pelo único motivo de serem judeus, às vítimas do Holocausto às quais Saramago chama, desrespeitosamente, de “imensa multidão de desgraçados”.

 

Tais posicionamentos provocaram alguns comentários discordantes por parte de outros escritores. Um deles, o também Nobel de Literatura de 2002, o húngaro Imre Kertész, avalia-as como um ato “não-consciente”, uma escandalosa comparação, um paralelismo irresponsável. Na atualidade, afirma Kertész, o conceito de holocausto migra, sem mais nem menos, de maneira populista e para fins igualmente populistas, para outros discursos, outros momentos trágicos da história contemporânea.

 

Contrariamente ao que pensa Kertész, ao se manifestar de forma clara e inequívoca comparando os judeus aos nazistas e Israel a Auschwitz, avalio que Saramago não comete um ato inconsciente e que muito menos deve ser categorizado como irresponsável. Classificar seus textos, entrevistas e opiniões como inconscientes retiram delas qualquer peso e outorgam ao seu discurso apenas um sintoma de decrepitude decorrente do envelhecimento precoce. Afirmar a irresponsabilidade de Saramago outorgaria a esse escritor, que se vale de seu status de escritor best-seller para emitir falsos juízos, a condição de inimputável, é eximi-lo da responsabilidade que lhe deve ser efetivamente conferida. Não há inocentes após Auschwitz.

 

Os posicionamentos que podem ser vistos na crônica “Das pedras de Davi aos tanques de Golias”, enquadram os saramagos na categoria das pessoas de “caráter manipulador”. O que, segundo Adorno, em seu tempo, destinava-se apenas aos monstros nazistas, e hoje, no entanto, pode ser observado em muitas pessoas, como delinqüentes juvenis, chefes de quadrilhas e similares . Essas pessoas – continua Adorno – têm a condição e a possibilidade de inverter drasticamente a realidade e, com o seu narcisismo e a sua vaidade, podem fomentar a mentira, promover um discurso que legitima o terror e que tem como premissa a anulação da autonomia, da reflexão e do não se deixar levar. Infelizmente, essa é uma tentação à qual muitos intelectuais não resistem.

 

Abusando da condição que lhe outorga uma mídia prêt-à-porter, os saramagos instigam o ódio e o racismo. O sentimento judeofóbico pessoal, hostil a Israel, transforma-se, de forma virulenta, em anti-semitismo. No Brasil – em cujo território diz-se que há uma invejável harmonia entre os imigrantes de todas as nacionalidades e respeito a todas as religiões – e na Argentina, cuja história de luta contra a ditadura e o não-direito, diz-se, são notáveis, houve manifestações organizadas contra Israel.

 

A hostilidade aos judeus, que dura 2.000 anos, parece ter se cristalizado de tal forma que é possível que ela tenha se convertido numa forma de conceber o mundo. O objeto desse ódio, no entanto, é um povo que de nenhum modo está disposto a desaparecer da face da terra. É contra esse direito que insurgem as palavras responsáveis e conscientes dos saramagos de todo o mundo.

 

Talvez, não seja possível, para o escritor português, uma crítica imparcial. A maioria dos intelectuais que julga o confronto entre palestinos e israelenses de forma unívoca, simplista e ignóbil, perde uma excelente oportunidade de promoverem a consciência bilateral dos direitos entre as partes através das artes. A literatura, a música, a poesia não possuem fronteiras, as frases ditadas pelo anti-semitismo ancestral sim.

 

Os saramagos, enfim, têm dirigido seu olhar cego para Israel. O frio juízo dos saramagos europeus alcança, infelizmente, eco também no Brasil e na Argentina – berço, no Novo Mundo, de tantos imigrantes, de tantos perseguidos. No Brasil, o apoio ao escritor português, no que se refere a esse tema, parece ser uma espécie de estrabismo que delega a ele o direito de falar pelos países de língua portuguesa. Afinal, a baixa auto-estima nacional emociona-se ao ter alguém, mesmo que com o acento da antiga metrópole, falando português e sendo ouvido pela mídia internacional. Esse nacionalismo ultrapassado e servil, reconhecendo nesse astuto senhor um beletrismo que não há, denuncia as forças colonizadoras do discurso fascista da língua, da nossa língua portuguesa, nos moldes que nos ensinava Barthes na sua célebre Aula.

 

A identificação com o discurso dos homens das letras, suas mal e parcamente concebidas metáforas, eivadas de técnicas de manipulação, encontram nos seus destinatários um destino frágil. Amos Oz, escritor israelense pacifista, francamente contrário à atual política israelense, ao rebater a infeliz comparação de Saramago, afirma que “aquele que falha ao distinguir entre diferentes níveis da maldade acaba agindo a serviço do mal”. Na visão de Oz, o autor do romance Ensaio sobre a cegueira mostrou padecer de uma “cegueira moral”, não porque emite sua opinião sobre um fato, mas porque, como intelectual, dito engajado, não poderia deixar de avaliar amplamente a situação. Ao contrário, Saramago reafirma: “o que disse, dito está. Se a palavra Auschwitz choca tanto, direi, então, crime contra a humanidade”. Isso disse ele, após os protestos gerados por suas declarações.

 

Essa re-afirmação demonstra sua visão vitimada por uma mídia unilateral e expressamente fomentada por uma propaganda anti-israelense, veiculada, principalmente pelos telejornais internacionais. Neles, imagens manipuladas e frases ditas fora do contexto são mentiras que parecem verdades, construídas de forma a se ter um parâmetro unilateral do conflito. Mirar o mundo do ponto de vista da cegueira não é, em absoluto, ser cego, mas deixar-se inundar por um discurso midiático, político e econômico pautado por racismo e preconceitos ancestrais.

 

A afirmação de Amoz Oz de que Saramago está acometido de uma terrível cegueira moral, aponta para uma outra questão importante: “quem não distingue entre os diversos graus do mal, se torna servidor do mal”. Segundo Oz, “a ocupação israelense pode ser injusta, mas compará-la com os crimes nazistas é como comparar Saramago com Stalin”. Dessa forma refere-se, pelo que se percebe, ao alardeado comunismo do escritor português – e à sua pequenez até mesmo na escala do Mal. No entanto, pela incapacidade de distinção entre os episódios da história judaica, Saramago torna-se porta-voz de um mal maior, absoluto e que transcende a mera opinião. Não há discurso irresponsável após Auschwitz.

 

Orlana Fallati, num memorável artigo publicado na revista italiana Panorama, clama sua vergonha pelo fato de que na Europa haja passeatas de indivíduos vestidos como homems-bomba suicidas vomitando palavras de ordem convocando ao assassínio de Israel . Em suas testas, como em seus sites da Internet, as suásticas instigam a populaça contra os judeus. Os membros dessa turba dariam qualquer coisa para verem os judeus de novo em campos de concentração e extermínio.

 

Segundo a escritora e jornalista italiana, é vergonhoso que a Igreja Católica permita a um bispo estar alojado no Vaticano, depois de ser pego, em seu luxuoso Mercedes, com um arsenal de armas e explosivos em Israel. Em seus discursos, esse mesmo bispo agradece em nome de Deus aos homens suicidas que massacram os judeus nas pizzarias e supermercados e os chama de mártires “que se dirigem para a morte como quem vai a uma festa”.

 

Para Fallaci, é vergonhoso que na França queimem sinagogas, aterrorizem judeus, profanem cemitérios. Eu, como acadêmica, também considero um escândalo e uma vergonha que a professora Mona Baker, egípcia radicada na Inglaterra, encabece uma lista para a não-contratação e a demissão de intelectuais israelenses das universidades. É vergonhoso que essa mesma professora tenha despedido dois tradutores, os únicos da Universidade de Manchester, na Inglaterra. E é vergonhoso que quando questionada, ela apenas afirme que os despediu não porque eram judeus, mas sim porque eram israelenses.

 

Penso que é vergonhoso também que, no Brasil, desde os anos 1980, o cidadão de origem alemã, radicado em Porto Alegre (Rio Grande do Sul), Siegfried Ellwanger Castan (conhecido pelo pseudônimo S. E. Castan), sócio-diretor da Editora Revisão, venha editando, vendendo e distribuindo em escala nacional e internacional livros anti-semitas, nazistas e negadores do Holocausto. E que, condenado por crime de racismo, esse indivíduo, que aguarda recurso no Superior Tribunal de Justiça, corra o risco de ser inocentado.

 

Finalmente, considero um escândalo e uma vergonha que um escritor, um intelectual com a fama e o alcance de Saramago, empunhe sua pena e levante sua voz para insuflar o ódio e não a tolerância. É vergonhoso que o seu discurso não tenha a sabedoria própria dos grandes homens das letras, mas a desavergonhada paródia dos filmes de farwest americano, ou seja, a que afirma que judeu bom é judeu morto. É vergonhoso e lamentável que o ponto de vista da cegueira seja expresso em um discurso judeofóbico em língua portuguesa.

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publicado às 21:01

Um mundo mobile

por blogdobesnos, em 31.03.12

MUNDO MOBILE

 

Interpretando realidades fluidas

 

Hilton Vanderlei Besnos

 

Porto Alegre, 26 de outubro de 2004.

 

 

 

 

 

Introdução

 

 

Estamos em uma sociedade informacional, na qual o processamento da informação é focalizado na melhoria da tecnologia do processamento da informação, o que traz o desenvolvimento de um novo paradigma. Se o industrialismo é voltado para o crescimento da economia, para a maximização da produção, o informacionalismo visa o desenvolvimento tecnológico, ou seja, a acumulação de conhecimentos e maiores níveis de complexidade do processamento da informação (CASTELLS, p. 35).

 

Vivemos em um mundo complexo que se interconecta com base em alta tecnologia e na qual essa integra as sociedades, mas o faz de forma desigual, porque os impactos sociais dependem das diversas configurações locais: cultura, modo e meios de produção, desenvolvimento industrial, poder político e as relações estatais estabelecidas.

 

As desigualdades sociais habitam em nichos regionais estatais e esses, por igual, cada vez mais se encontram ligados entre si através de uma política de homogeneização econômica capitaneada por transnacionais e pelos interesses de grupos de estados-nações que dominam a seara econômica e financeira, a exemplo dos países que compõe o G7 ou o Conselho de Segurança da ONU.

 

Por outro lado, as fontes de financiamento internacional dão-se através de instituições controladoras que impõe suas políticas próprias aos estados-nações (BIRD, BID, Banco Mundial, FMI, OIT, OMC, etc).

 

Dentro de tal cenário de limitação real dos poderes estatais em face da ingerência e do controle externo das políticas e das economias, como dar-se-ão as políticas sociais e, dentre elas, as educacionais?

 

 

As políticas sociais


O mundo vem assistindo desde 1950 o decréscimo do welfare state, ou seja, o estado vem deixando de cumprir suas políticas sociais. No Brasil, surgem óbices para a implementação de tais políticas, dentre as quais se inserem as educacionais.

 

O estado-nação brasileiro vem adotando um modelo de reorganização de inspiração neo-liberal e neo-conservadora, tendo esse processo e essa agenda política e econômica se implementado a partir do Governo Fernando Henrique Cardoso. Em razão de tal momento, o Brasil vem incentivando os processos de privatização, abrindo cada vez mais seus capitais, flexionando as relações de trabalho, promovendo ajustes fiscais para garantir superávit de sua produção objetivando pagar as dívidas internas e externa, assim como vem terceirizando os serviços públicos. Alivia-se no estado de despesas próprias ao setor público, como são os serviços básicos para a população(CIAVATTA, pag. 93).

 

Contudo, a sociedade civil reorganiza-se, em razão de sentir que as políticas sociais do governo estão atreladas a interesses que não os seus. Trata-se de uma democracia representativa, em que o formalismo das eleições periódicas e da existência dos partidos políticos não garantem em absoluto o privilégio das demandas das classes historicamente exploradas. O regime democrático representativo torna-se um simulacro útil às dominações oligárquicas que, na história constitucional de nossos povos, sempre foram tão excludentes quanto repressivas (op. Cit). (CIAVATTA, pag. 91).

 

Embora a história do Brasil tenha registrado justamente essa proteção às classes privilegiadas, atualmente os movimentos sociais organizados, especialmente ONGs e outros que possuem como característica ou a implantação de projetos de políticas sociais ou de proteção às mesmas, tem aumentado as possibilidades de participação popular em demandas que não são específicas das classes hegemônicas.

 

O país, contudo, tem dois nós górdios: um externo e outro interno. O externo é o mergulho do mundo nos processos de globalização e de mundialização,ou seja, na uniformização e na formatação econômica e cultural em atendimento a interesses internacionais, que ditam políticas econômicas e sociais aos países periféricos. O interno é a questão da distribuição de renda. A combinação de tais fatores traduz uma equação perversa sobre as políticas sociais, dentre as quais a educação.

 

 

As políticas educacionais.


Historicamente as políticas educacionais brasileiras privilegiaram as elites. Na medida em que o Estado abrigou em seu seio tais movimentos de sustentação de um poder paralelo econômico, pautou suas políticas educacionais por tais orientações.

 

Um exemplo claro disso está contido nos movimentos pedagógicos contidos em tais contingências. Quando, na década de 30, na ditadura Vargas a industrialização e o capitalismo expandiram-se no país, o “pai dos pobres” decidiu criar escolas agrárias e técnico-industriais. Já em 1940 há novas exigências quanto às formações profissionais exigidas pelo mercado, e lá está presente a promulgação de decretos-leis pelo Ministro Gustavo Capanema para criar reformas incentivando o ensino técnico.

 

O tecnicismo igualmente iria proliferar no Brasil na época da ditadura de 1964 a 1984, porque os interesses da elite militar e econômica do país buscavam um ensino acrítico. Conhecimentos como filosofia foram banidos e introduzidas disciplinas (aqui no sentido estrito e lato) como Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira. Era a época do Brasil Grande, depois do “Ame-o ou deixe-o”, et caterva. O regime de exceção para afastar a possibilidade de um regime de esquerda no país teve a duração de vinte anos.

 

Durante esses vinte anos houve o acordo MEC-USAID, com a interveniência vertical do governo americano sobre as instituições de ensino do país, especialmente as de nível superior; o estímulo a um ensino massificante, com uma rotação de alunos em turmas distintas, de modo a que os grupos não se tornassem efetivos e não se solidificassem lideranças. Cada vez mais o ensino passou à atividade privada, ou seja, o estado brasileiro passou ao empresariado responsabilidades que antes lhe cabiam.

 

Com o acordo MEC-USAID, procura-se reestruturar a universidade em função do técnico assalariado, semi-qualificado, requerido como mão-de-obra da grande corporação capitalista e diminuindo ao máximo os custos de sua formação. Impulsiona-se o desenvolvimento das escolas privadas (esta empresa capitalista da educação e seus mercadores de diplomas, ocupa hoje, 80% da rede escolar, ao passo que, em 1964, representava apenas 25%), ao mesmo tempo elimina toda uma parte das despesas orçamentárias do Estado criando uma espécie de novo imposto sobre a população (as anuidades pagas pelos alunos). (AJR)

 

Atualmente o governo brasileiro discute, para as universidades, sistemas de cotas para os cidadãos pertencentes às classes sociais desprivilegiadas. O ensino básico continua a produzir uma baixa qualificação de ensino e as políticas educacionais continuam engessadas a um modelo de desenvolvimento que retira-lhe recursos orçamentários para o pagamento de créditos devidos pelo país ao exterior.

 

 

Educação e trabalho


As políticas brasileiras de educação passaram-se a voltar para o trabalho, com a criação de programas específicos a partir da industrialização do país. Era necessária uma educação que preparasse mão-de-obra abundante e, maximamente, barata.

 

Os movimentos dos trabalhadores sempre estiveram à frente na luta pelos direitos sociais. O processo de globalização, contudo, ao reformatar as economias mundiais, criou condições para a desestabilização dos sindicatos graças a extrema mobilidade do capital internacional. Assim sendo, a era informacional que estamos vivendo permite a integração dos sistemas econômicos e confere às empresas transnacionais possibilidades enormes para o que BAUMAN (2000) denomina de “desterritorialização”, ou seja a intensa mobilidade do capital internacional finda por enfraquecer os sistemas sindicais.

Quando ANTUNES fale sobre estranhamento em relação ao trabalho está focalizando um prisma interessante no sentido de que o homem atual perdeu sua capacidade de influir sobre o produto que gera, pois tal geração está presa à empresas ou serviços. Citando Marx: “No estranhamento do objeto do trabalho só se resume o estranhamento, a alienação na atividade mesma do trabalho”. Em outras palavras, trabalho não voltado para a criatividade, mas à subsistência.

 

O caráter ontológico do trabalho fica ameaçado por este estranhamento, por essa distorção na qual o homem passa a ser apenas uma peça para produzir outras peças. Aumentam-se as possibilidades da exploração do trabalhador a partir da perda do fortalecimento sindical. Ainda no dizer de BAUMAN (2000) há uma fixidez do trabalhador, em contraponto à mobilidade do capital.

 

Gera-se uma situação na qual resulta um mascaramento da atividade do trabalhador, que se vê simbolicamente constrangido em razão de sua não ingerência dentro dos processos sociais produtivos. Sua auto-estima é afetada na medida em que vende sua única “mercadoria”, que é a própria força de trabalho a preços cada vez mais vis. Basta, aqui, citarmos o caso da invasão do capital internacional na Ásia, para termos uma idéia mais clara da sua força.

 

Outro aspecto importante a ser citado aqui é a questão dos modos pelo qual a indústria e os serviços vem alternando suas capacidades de influência, de modo a que o trabalhador se sinta mais compelido a flexibilização proposta pelo capitalismo. Diz-se flexibilização quando o trabalhador finda por exercer atividades para as quais não foi contratado, seja como meio de garantir seu emprego, seja como forma conscientemente adotada em razão dos “benefícios” auferidos pelo seu empregador. O pagamento, contudo, continua o mesmo.

 

As grandes corporações abandonaram o fordismo, adotando uma linha mais adequada as necessidades dos trabalhadores e às vontades dessas mesmas empresas. Abandonado o fordismo, adota-se o toyotismo, que é uma forma horizontal de relações de trabalho e, portanto, de produção social. Agregam-se vantagens aos trabalhadores, que adicionalmente tem um caráter que se configura na “lealdade” do trabalhador à empresa: planos de saúde, promoções estratégicas, convênios entre entidades educacionais e creches, atividades físicas e uma série de vantagens que tornam o trabalhador “leal” à empresa. Até o momento em que o trabalhador reivindique melhores condições de trabalho.

 

A pretensão é que o trabalhador “vista a camisa” da empresa, que interiorize seu trabalho e especialmente sua empresa como algo que lhe é essencial, necessário. A partir daí não há sacrifícios por parte do mesmo, que passa a se sentir “integrante” real da empresa.

 

Em realidade, o toyotismo busca justamente, de modo artificial, que a sensação de estranhamento seja abandonada. É o contraponto ao que ANTUNES fala.

 

 

Conclusões.


O trabalho proposto é extenso em suas várias vertentes. Assim, procuramos captar o que entendemos que fosse essencial, não tendo dúvidas de que muito ainda resta a ser dito. Procuramos fazer um painel dos assuntos referenciados, mas temos plena consciência de que não abordamos todas as e visões possíveis.

 

Sem dúvida, aumentamos nossa capacidade de criticização em face dos temas propostos o que nos torna mais sensíveis a um processo de humanização que deve ser constante e que é indispensável ao educador: poder olhar os movimentos sociais e humanos dentro de uma ótica que coloque o homem como centro de sua cultura, de sua comunidade e de uma preocupação constante com o processo educativo. Se assim não for, não estaremos tratando da educação.

 

 

Bibliografia


ANTUNES, Ricardo. ADEUS AO TRABALHO? Trabalho e estranhamento. Cortez Editora, 4ª ed.

 

CIAVATTA, Maria. DEMOCRACIA E CONSTRUÇÃO DO PÚBLICO NO PENSAMENTO EDUCACIONAL BRASILEIRO. A Construção da democracia pós-ditadura militar. Ed. Vozes, RJ, Petrópolis, 2002.

 

CASTELLS, Manuel. A SOCIEDADE EM REDE. Vol. I. Ed. Paz e Terra S/ª SP, 2000.

 

BAUMAN, Zygmunt. GLOBALIZAÇÃO: AS CONSEQUENCIAS HUMANAS. Jorge Zahar Editores, SP, 2000.

 

ALIANÇA DA JUVENTUDE REVOLUCIONÁRIA. Jornal eletrônico ligado ao Partido da Classe Operária.

Disponível em: < http://www.pco.org.br/ajr/programaajr/17crise universidade.htm> Acesso em 25.out.2004.

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publicado às 20:25

Cidades, por Leonel Moura

por blogdobesnos, em 31.03.12

Cidades


Leonel Moura

 

 

A cidade é a referência maior da cultura humana. Se nos tempos antigos possibilitou a concentração de saberes, nomeadamente na biblioteca esse grande objecto urbano, ou o nascimento da democracia com a política a derivar directamente da polis, a partir dos séculos XIX e XX ela surge já como entidade destacada do resto, simultaneamente produtora e produção de um novo humanismo e centro de todas as expectativas sociais e culturais.

 

Esse resto, o campo, cuja última configuração política se reconhece no feudalismo, afirma-se gradualmente como território de reserva moral e reaccionária contra as cidades. Mesmo a ideia de revolta social, que reconhecemos ainda nas sucessivas rebeliões camponesas medievais, dá lugar à revolução urbana estabelecida ao longo dos séculos XVIII e XIX e de que a Comuna de Paris (1871) será o grande modelo insurreccional.

 

“A Comuna não teve chefes. E isto num período histórico em que a ideia de que era preciso tê-los dominava o movimento operário. Assim se explicam os seus fracassos e os seus sucessos paradoxais. Os responsáveis oficiais da Comuna são incompetentes (se tomarmos como referência o nível de Marx ou Lenine, e mesmo Blanqui). Mas ao invés os actos irresponsáveis desse momento são precisamente a reivindicar pelo movimento revolucionário do nosso tempo” (Internationale Situationniste).

 

A insurreição é um conceito baseado na auto-organização de um conjunto de indivíduos autónomos, agindo sobre um ambiente estimulado. Só a cidade configura esse ambiente estimulado.

 

A própria figura do revolucionário, vestido para a urbe e acompanhado obrigatoriamente de livros e jornais, esses grandes produtos citadinos, define um protagonista singular dedicado inteiramente à stigmergia. O revolucionário, seja ele, social, cultural ou científico, deposita a sua rebeldia, as feromonas, na cidade, único lugar onde existe suficiente gente disponível para o jogo da imitação e da mudança. “O movimento e o barulho das ruas, as montras das lojas, a agitação frenética e impulsiva das existências, criam um efeito magnetizador. Ora, a vida urbana, não é a vida social concentrada e levada ao extremo?” (Gabriel Tarde, 1890)

 

De todas as definições possíveis de cidade, e são muitas, a mais simples, maior concentração e quantidade de pessoas, é também a que melhor descreve a condição mínima para que o novo se possa produzir. Sem essa condição, a evolução não é possível. As revoluções camponesas, a russa e a chinesa, fracassam por falta de massa crítica urbana. As vanguardas saem completamente derrotadas do embate com o conservadorismo aldeão. Maiakovsky, Malevitch e o construtivismo russo, não podem ser compreendidos por um poder soviético pretensamente revolucionário, mas de facto, economicamente rural, socialmente patriarcal e culturalmente burguês.

 

Frantz Fanon, o impulsionador da luta anticolonial e um dos poucos pensadores modernos a desenvolver uma teoria da violência na sua vontade de desencadear a guerra contra o colonialismo, esbarra com a condição dos colonizados que Sartre tão bem caracteriza ao dizer que “a Terra conta neste momento com dois biliões de habitantes. Quinhentos milhões de homens e bilião e meio de indígenas” (Sartre, 1961).

 

Sem cidades, sem uma cultura urbana, Fanon imagina que a violência, por si só, é capaz de “desintoxicar” as massas aldeãs do terceiro mundo, libertando-as “do complexo de inferioridade, das suas atitudes contemplativas ou desesperadas”. “A violência como prática é totalizante, nacional” e por isso conduz à “liquidação do regionalismo e tribalismo” (Fanon, 1961). A instauração de regimes ditatoriais, fantoches e tribalistas, logo após as guerras de libertação a que por morte precoce não pode assistir, demonstra que não é assim. A violência primitiva arrasta consigo o próprio primitivismo. Só a cultura urbana é capaz de gerar uma violência crítica capaz de fazer frente à violência sistémica do capitalismo.

 

A partir da década de 60, Henri Lefebvre e os situacionistas mostram que a cidade não é só uma máquina infernal da reprodução capitalista, mas também o lugar da vida quotidiana e que, portanto, o conflito é inevitável. Em Maio de 68 a tese é comprovada. Mas após estes eventos, por acção combinada da política conservadora, das polícias e dos urbanistas, a cidade desaparece do centro do debate crítico. Durante duas décadas ela torna-se um problema exclusivo do planeamento e das políticas municipais. Com um resultado à vista. Desaparecimento do espaço público através de uma privatização extensiva; uniformização das centralidades que agora só têm a valência comercial; degradação dos serviços públicos, em particular os de transporte; aumento da miséria e da exclusão.

 

Também a criminalidade cresceu entretanto bastante. Ainda que se deva distinguir dois tipos. A dos pobres, espontânea e irrisória, brutalmente reprimida pelas polícias e pelo sistema judicial. A económica, organizada e com elevadíssimos rendimentos, com ramificações por vezes muito profundas na administração pública e no mundo empresarial, e por isso totalmente impune.

 

Assim, aquilo que conhecíamos como cidade, grande concentração de pessoas e sinergias, foi desaparecendo ao mesmo tempo que vastas áreas circundantes cresceram desmesuradamente acumulando gente, miséria e conflitualidade. A mesma pressão económica/capitalista que ontem obrigou as populações a tornarem-se urbanas, expulsa-as agora das cidades radiosas para os subúrbios decadentes. Os velhos modelos definidores dos espaços, as velhas separações entre cidade e campo, centro e periferia, perderam qualquer eficácia para a análise das realidades. Até porque mais coisas foram acontecendo, três delas com grande impacto sobre a vida urbana. A agricultura transformou-se numa indústria, a economia e a informação tornaram-se globais e surgiram, um pouco por todo o planeta, as mega-urbes.

 

A distinção entre cidade e campo não tinha só a ver com uma separação entre espaço edificado, espaço cultivado e espaço natural, sendo que à cidade correspondia o primeiro, à agricultura o segundo e à chamada natureza selvagem o último. O campo era definido como uma actividade humana ancestral, constituindo o chamado mundo rural ou cultura rural por oposto à cultura urbana, mais actualizada e dinâmica.

 

A transformação da agricultura numa indústria representou uma nova forma de ocupação do espaço, com crescente automação, mas acima de tudo, alterou radicalmente a condição sociológica dos camponeses. Aquele homem rude, iletrado, imerso nas rotinas da terra, tem vindo a ser substituído pelo engenheiro e pelo economista, ao serviço de grandes empresas. E se alguns resistem, a vasta maioria desloca-se para o inferno suburbano. Em 1999 só 22% da população sul-americana vive fora dos centros urbanos, na Europa Ocidental esse número é de 18%. A China que mantém ainda valores de cerca de 70%, segundo dados de 1996, deverá reduzir essa proporção para metade em 2020. O mesmo acontecendo na Índia que deslocará 250 milhões de pessoas do campo para as cidades nos próximos 20 anos. Facto marcante pelo peso destes dois países na população global.

 

Uma tal concentração não significa contudo uma revalorização do urbano, essencialmente criativo e inovador, mas antes uma espécie de ruralização e precarização das vidas amontoadas nos cada vez mais extensos e impressionantes subúrbios.

 

Contrariando também o mito techno-optimista da pretensa aldeia global, já que aldeia faz supor uma coesão, comunitária, que de todo não existe, a introdução das novas tecnologias não operou nenhuma modificação significativa ao nível dos comportamentos culturais e sociais. Sendo certo que hoje circula uma enorme quantidade de informação, na verdade, todas estas mensagens dizem praticamente uma mesma e única coisa. Reforço das hierarquias, normalização das condutas, trivialização dos saberes.

 

A sociedade da informação, as comunicações via satélite e a Internet, criaram um mapa (dinâmico) por cima da geografia política convencional, mas não foram, até ao momento, capazes de dar lugar a uma nova sociabilidade. Nem sequer tiveram qualquer efeito sobre a configuração territorial. O muito citado trabalho online, feito a partir de uma casa que tanto pode estar na Avenue Foch em Paris, como num lugarejo nas encostas do Himalaia, não deu origem a nenhuma redistribuição mais equilibrada da população. Ao invés, assistimos a um novo tipo de convergência para as urbes empresarial/tecnológicas, de que Silicon Valley se mantém como o mais conhecido modelo.

 

As mega-urbes levantam todo um novo tipo de questões. A própria designação é controversa, já que numa lógica aritmética não podemos só falar de mega-cidades, classificação corrente para urbes com mais de dez milhões de habitantes, mas de grandes e mega-metrópoles. A divisão territorial administrativa da cidade deixou de fazer sentido. Não só o local e o global estão interligados, como não é possível pensar o local, sem pensar também nos fluxos e nas interacções de toda a espécie. No curto espaço de uma década, o próprio enunciado foi crescendo, mudando exponencialmente de escala. Das cidades começou a falar-se de grande cidade, depois, áreas metropolitanas, a que se sucedeu as mega-cidades, e hoje, as mega-metrópoles. Na zona sul da China, que engloba, entre outras, as cidades de Zhuhai, Guangzhou e Hong Kong vivem mais de 50 milhões de pessoas.

 

A vastidão de tais amontoados populacionais desfaz qualquer noção de cidade como unicidade.

 

Há por fim que repensar o espaço natural. Se a cidade não existe e o campo é agora um parque industrial, o que aconteceu à natureza?

 

Nos chamados parques naturais e zonas protegidas, os animais ditos selvagens são perseguidos, através do GPS, por investigadores que lhes colocaram previamente coleiras e outros dispositivos emissores de ondas. De dia, à noite, a caçar ou em acto reprodutivo estes verdadeiros cyborgs não têm descanso. A cultura humana, sempre perversa, diz que pretende protegê-los. De quem? Do homem? Existe algum ponto da terra que não tenha já sido palmilhado, cartografado, manipulado, invadido ou investido? Existe algum ser vivo que não se encontre registado, catalogado, domesticado, maltratado? Se existir, equipas de jovens cientistas e bandos de caçadores furtivos andam à procura deles e não tardarão a encontrá-los.

 

O planeta é agora uma única e vasta urbe. Nuns locais concentram-se muitos humanos e edificações, noutros indústrias de toda a espécie e noutros ainda parques temáticos de tipo ecológico. A urbanização é global. O que explica a crescente necessidade de dar nome, de produzir significados, tarefa a que a arquitectura, mais do que qualquer outra forma de expressão cultural, tem procurado dar resposta. Como afirma Manuel Castells “a produção de significado nestas constelações urbanas sem nome relaciona-se com a emergência de uma nova monumentalidade e novas formas de centralidade simbólica capazes de identificar os lugares” (Castells, 2002). As urbes descomunais, de tal forma territorialmente extensas que inviabilizam qualquer percepção global, criam elevadíssimos picos de feromona simbólica para se tornarem visíveis. Atraindo assim tentaculares trilhos humanos na sua direcção e portanto crescendo ainda mais. O mundo pode assim ser visto como um campo de picos de feromona.

 

Modelo que explica ainda um outro efeito determinante. Quem se encontra no alto de um pico vê à sua volta uma paisagem acidentada e diversificada. Mas aqueles que estão em baixo, nos vales fundos ou nas planícies estéreis, não têm qualquer ponto de referência, não lhes chega o mais leve odor civilizacional. Vegetam no mais profundo abandono e miséria.

 

 

Texto retirado do livro Formigas, Vagabundos e Anarquia (Lisboa, AAAL, 2003)

03-06-2003

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publicado às 20:20

O corpo mergulha

por blogdobesnos, em 31.03.12

Magister.  Magistério.  Cathedra.  Cátedra.  Council.  Conselho.  Aconselhamento.  Aconselhar. Dizer. Ele disse que. He said that she’s sick. Doente. Ela está doente. From what? Do que? Da melancolia, do não-sentido, do não configurar-se, do esquecimento, da memória. Ela esqueceu do que não poderia, do que não queria. Ficara ali, olhando o relógio. O tempo transitava. Dizia, a cada momento, ele mesmo, o autofágico, de sua morte, de seu desaparecimento. A angústia do tempo trazia sombras. Cinzas. Recordações do que procurou entender, mas não conseguiu. O entendimento, o conhecer se transforma assim em fragmentos, em fímbrias não tocáveis; ninguém o condena nem coordena, apenas roga-se-lhe que se entregue de modo fugidio, se requer um mínimo de atenção. Ele, o conhecimento sorri, anjo desnudo a deixá-la assim, morna, com um quê de desapontamento, uma inquietude típica de quem não aprendeu, não apreendeu, de quem implora, de quem se submete. Ele sorri.  Os anjos sorriem. The shadow of your smile. Clowns.

 

Magister. O anjo circunda a sala, observa, flui sobre si próprio. Cabeças brancas e negras, jovens, menos jovens se inclinam sobre as classes, tentam decifrar, reter, entender o que ali se põe como um oráculo. Esmiuçar, buscar a alternativa, enquanto o anjo brinca com o tempo. Ali, naquela clausura apertada, entre estreitas paredes, na sala de aula prisão, ela aguarda, entre um catre desconfortável e uma mesa de amianto. O tempo flui, o anjo percebe o instante em que ela decide uma definição e em que, por conta própria resolve navegar, enfrentar o desconhecido, aprumar a mudez do corpo e a convicção da alma. Ela decide aprender, por si, o que dela outros supunham ser seu sacrifício.

 

O corpo, a altiva fronte quer agora arriscar-se, infletir sobre si mesma, pensar o simples, o complexo, o parvo, o irredutivel. Tudo de uma vez, mas com calma. Diriam os tolos que ela queer simplesmente aprender, saber; os mais sábios, contudo, se comprazem em admitir que ela meramente cansou da sua mesmice, da sua falta de opções. Não suportou mais ser da canga, objeto. Livrar-se de suas miçangas, máscaras, apoios, conselhos, livrar-se das amarras. Desnudar-se e estando nua, experenciar uma pele nova. Descascar-se a si mesma para recriar-se apenas com o que de melhor possa ter, possa expor. Obliterar-se da pele obscena da escravidão que se vive de modo tão natural e tão intensa que a achamos vívida como uma única opção, um único destino. Ali, naquela sala-presídio, ela quer reconhecer a si mesma como capaz de meergulhar, de afastar de si a letargia, a preguiça, a modorra, a desconfiança que, durante tanto tempo a tornouo refím dos outros, da vida, das circunstâncias, das conveniências, do que se esperava que ela dissesse, fizesse, comentasse e do seu comportamento tão claramente narcisista.

 

Sabe ainda que seus movimentos serão lentos, que os músculos das pernas, que os tendões talvez não sejam tão rápidos nem tão fortes quanto gostaria, para iniciar a jornada e que seu arco de respiração a reterá mais do que gostaria, pelo menos no início da aventura. Reflete, desconsolada e medrosa, que deverá ainda presenciar sua vontade se partir inúmeras vezes e desconsolar-se mais tantas, até que possa renascer em si mesma como feniz, ave milagrosa das migrações da alma. Deseja, quer, contudo, arriscar-se, enfrentar obstáculos e derrubá-los, um a um, contorná-los se preciso for, mas, ao fim e ao cabo, ser outra sendo ela própria.  Defesa contra os véus da ignorância e de suas malhas tão convenientes quanto insalubres. Curriculum. Arco de uma corrida, passos incertos, mas ainda passos, cada vez mais fortes. Músculos e nervos em conteúdo de busca fremente. Infla seus pulmões, curva-se como uma flecha a ser disparada. O olho esquerdo e o olho direito querem agora um ponto de equilíbrio, um caminho entre o desejo e sua satisfação.

 

O anjo, um pouco ali, um pouco adiante revoluciona e torna sobre si mesmo. Há em tudo uma suave simetria, uma suave nesga de luz deixada pelo tempo. O anjo, por ser anjo, e por ser educado, compreende que não há educação sem que haja, em cada um, o espírito do artífice, a cumplicidade da artesania. Cunhar a si mesmo, refazer-se como uma borboleta, antes casulo, como uma águia, antes tão-só ave, como um dia, que já fora o véu da noite e como noite, que já fora a poesia da indústria. O ciclo do aprender exige cautela, perícia, perseverança, amorosidade. O anjo, educado e educador, promessa e avis-rara já se foi. As primeiras luzes se acendem. Noites, primícias, estações de vento. Algo para lembrar, cheiros e decisões tomadas em meio à incerteza.

 

O mundo, talvez daqui a pouco, talvez antes, inflete sobre si mesmo ou ainda no universo. Universo. Universitas. Prime. Magister. Cathedra. Cognitio. Cognição. Há em tudo sombras difusas, há expectativas, anjos que conhecem brincando de rodas. O corpo se arqueia e finalmente mergulha.

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publicado às 19:56

Domenico di Masi Educar para a vida

por blogdobesnos, em 31.03.12

Em vez de educar para o trabalho, educar para a vida


O sociólogo italiano Domenico Di Masi enfatiza que uma escola feliz deve preparar os jovens também para o tempo livre


Domenico Di Masi diz que o trabalho do professor já é um prazer por si mesmo.

 

Fonte: http://www.folhadirigida.com.br/professor/Cad08/EntDomenicodeMasi.html

 

 

 

O professor italiano, sociólogo do trabalho e escritor Domenico Di Masi tem dito em suas palestras pelo mundo afora que a escola prepara as pessoas para serem tristes. É, sem dúvida, uma fala audaciosa que tem mexido com os cânones do magistério. Como os professores podem se sentir realizados com seu trabalho, formando pessoas para a tristeza? Como fazer do exercício do magistério uma atividade de e para o prazer? São algumas das perguntas formuladas por Folha Dirigida ao autor de “O ócio criativo” e “Sociedade sem trabalho”, entre outros livros que pregam a importância da preguiça e o dever do ócio a milhares de leitores espalhados pelo mundo.

 

Nesta entrevista, a única em que aborda exclusivamente o trabalho do magistério, ele diz que o trabalho do professor é “o mais lindo” e privilegiado que existe, por se tratar de uma atividade de estímulo à convivência criativa. Entre os conteúdos fundamentais para um bom trabalho, Domenico aponta a vocação estética e ética, sem as quais o professor não poderá desempenhar bem o seu trabalho. Em relação a salário, na contramão da maioria que amarga as dificuldades impostas pela baixa remuneração, ele diz que não é essencial à qualidade do serviço:

 

— É importante para dar uma certa tranqüilidade, mas não é fundamental — afirma.

 

Mas quando o assunto é pesquisa, o trovador da preguiça torna-se um radical e diz que ela é “a vida do professor”. Para ele, não é possível uma faculdade de Pedagogia abrir mão do ensino sistemático da Metodologia da Pesquisa e da Filosofia do Conhecimento. Veja a entrevista:

 

Folha Dirigida — Como o professor pode transformar seu trabalho numa atividade de prazer e confundi-lo com o lazer?


Domenico Di Masi — O trabalho do professor já é um grande prazer, porque consiste na troca de idéias com os jovens. Cada ano o professor ganha um ano a mais, e os estudantes têm sempre 20 anos. E isso é uma jóia extraordinária que o professor tem a sua disposição. A atividade do professor trata-se de um trabalho intelectual com jovens, e a programação é completamente autônoma, independente. Isso não pode, de maneira alguma, ser uma dor, um sacrifício. O trabalho do professor já é um prazer por si mesmo. É o trabalho mais lindo que existe. O ensino é a prática mais bela.

 

Folha Dirigida — As pedagogias estão estruturadas de forma a tornar possível este prazer na atividade do magistério?


Domenico — Claro! O meu trabalho, por exemplo, é estruturado com lições e aulas para todos, mas os trabalhos são para pequenos grupos e estimulam muito o uso da internet. Tenho um sítio na internet onde todo jovem pode conversar entre si e também falar comigo, conversar com os próprios pais, discutir com outros professores, discutir sobre os problemas da universidade, e também sobre cinema e televisão.

 

Folha Dirigida — O senhor tem dito em suas palestras que a escola é um lugar triste e que prepara para a tristeza. Por quê?


Domenico — Tudo na escola é triste porque prepara o jovens sobretudo para o trabalho. Veja bem, para um jovem de 20 anos a vida é feita muito mais de tempo livre do que de trabalho. O trabalho é um sétimo da vida. Então a escola não deve preparar para um sétimo da vida, mas deve preparar para toda a vida. Tem que preparar para o tempo livre: como escolher um filme, como escolher um livro, como tirar férias, como fazer amor, como viver e como ser cidadão. Se a escola parar de educar só para o trabalho e educar para a vida, automaticamente se tornará uma escola feliz.

 

Folha Dirigida — O que diferencia o trabalho do professor das demais atividades?


Domenico — O que há de específico no trabalho do professor é que seu compromisso é estudar, aprender, ensinar e viver.

 

Folha Dirigida — Quais instrumentos são imprescindíveis, para que o professor desenvolva seu trabalho com qualidade?


Domenico — Sobretudo a cultura, mas também a vocação ao aprendizado, o amor pela vida, o amor pelo estudante.

 

Folha Dirigida — O salário é fundamental para exercer o magistério com qualidade?


Domenico — Não, não é fundamental. É importante para dar uma certa tranqüilidade, mas não é este o problema. A qualidade do ensino consiste no fato de que o professor tenha realmente a vocação para ensinar. O ensino não pode ser uma coisa secundária na vida, tem que ser toda a vida de um professor.

 

Folha Dirigida — Quais as relações do prazer com a competência profissional?


Domenico — A competência te dá segurança e a segurança é um prazer, é uma das formas de prazer. Por isso é importante desenvolver a competência. Mas, infelizmente, hoje a competência não é adquirida por todos. Mas ela pode ser continuamente reciclada.

 

Folha Dirigida — Diferentemente dos países europeus, no Brasil os professores de educação infantil têm os salários mais baixos e na hierarquia do magistério, são em todos os níveis os que gozam de menor prestígio. O que acha desse desnível no magistério brasileiro?


Domenico — Quase sempre na sociedade capitalista os trabalhos mais complicados, mais difíceis e mais perigosos são os mais desvalorizados. O mesmo acontece na escola. É muito mais difícil ensinar para as crianças pequenas do que ensinar ao estudantes universitários, então os professores da educação infantil deveriam ser melhor remunerados. É tudo ao contrário, é o paradoxo da sociedade capitalista.

 

Folha Dirigida — A pesquisa é, de fato, fundamental no exercício do magistério?


Domenico — A pesquisa é a vida do professor. Naturalmente, se é fundamental na vida do professor, é preciso que ele aprenda, de fato, a metodologia da pesquisa, a ética da pesquisa durante os seus estudos universitários. Não pode existir uma faculdade de Pedagogia sem essa epistemologia, sem a metologia da pesquisa e a filosofia do conhecimento.

 

Folha Dirigida — No Brasil, os trabalhadores de educação têm se organizado em sindicatos únicos. Como avalia essa tendência?


Domenico — Poderia ser até uma maneira de os professores serem mais solidários com os outros grupos sociais. Mas é ambivalente, porque pode ser também uma forma de tirar a identidade do professor.

 

Folha Dirigida — Os bens culturais são mais necessários ao professor do que aos integrantes das demais categorias profissionais?


Domenico — Sim, é óbvio, porque o professor tem que se aprimorar continuamente, atualizar-se sempre. Não pode ensinar se antes não aprendeu. A atualização, os livros, os filmes, o teatro, a música são fundamentais, tanto como para um escultor é fundamental o mármore.

 

Folha Dirigida — O que é essencial para um bom desempenho como professor?


Domenico — O professor tem que aprender sobretudo como se aprende. É muito importante que o professor tenha uma forte vocação estética e ética.

 

Folha Dirigida — Como vê o crescimento da oferta de cursos não presenciais?


Domenico — Eu acredito que precise de uma forte integração e uma parte da formação tem que ser feita presencialmente. Mas tudo isso está em fase de experimentação. A internet ainda é uma coisa nova. Mas eu estou muito satisfeito com a possibilidade de integração entre internet e escola.

 

Folha Dirigida — Considera a prova fundamental para medir o conhecimento?


Domenico — Não é o mais fundamental, mas é uma das coisas fundamentais. O que é absolutamente fundamental é a pedagogia. Se ensina-se bem, é claro que o exame é importante, porque estimula o jovem a ter prazos. Mas não é o essencial. Pode até não fazer a prova, mas não se pode minimizar a pedagogia. O problema da escola elementar brasileira não é não ter a prova, mas é que não tem qualidade. Sem qualidade, o resultado é sempre o mesmo. O importante é que a escola seja boa, de qualidade. Hoje a escola privada no Brasil é bem feita, mas a escola pública não. A escola particular é bem feita não proque existe provas, mas porque tem uma boa pedagogia.

 

Folha Dirigida — O que se pode esperar de um país com elevado número de analfabetos?


Domenico — O não desenvolvimento. Nenhum país pode se desenvolver com o analfabetismo. Aliás, hoje nem basta saber ler e escrever. Precisa saber o Inglês e também a internet.

 

Folha Dirigida — Como avalia a grande concorrência pelo vestibular existente no Brasil?


Domenico — Ganham sempre os ricos, porque vêm das melhores escolas. É uma aberração e sei que aqui no Brasil existe isso. As escolas elementares, são melhores as privadas, as universidades, são melhores as públicas. Mas visto que o custo do ensino na escola privada é muito alto, no final o acesso às pública é só para os ricos.

 

Folha Dirigida — É essencial que o ensino seja público e gratuito?


Domenico — O ensino é como o ar, é como a água, é como o sol, não se pode subordinar à riqueza. Tem que ser subordinado à capacidade do jovem. A escola tem que ser pública, gratuita e exigente.

 

Folha Dirigida — O senhor costuma dizer que a escola deve educar para o ócio. Por quê?


Domenico — A escola deve educar um sétimo para o trabalho e seis sétimos para o ócio, em função do ócio, porque o ócio é os seis sétimos da vida, é a essência da vida. Atualmente a escola ensina só a trabalhar, como se trabalha, e ninguém nos ensina o tempo livre. O tempo livre que poderia ser o tempo do gozo, da jóia, da criatividade, vira o momento da violência, do tédio, da droga.

 

Folha Dirigida — A sociedade industrial sobrevive ao ócio?


Domenico — Não, é o ócio que sobrevive à sociedade industrial.

 

 

 

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publicado às 17:52

Szygmunt Bauman

por blogdobesnos, em 31.03.12

A sociedade líquida


Zygmunt Bauman defende a literatura como forma de comprensão da condição humana e ataca os “muros da academia” e a alienação dos intelectuais

Matt Dunham – 22.mai.2003/Reuters – Folha de São Paulo, domingo, 19 de outubro de 2003

 

Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke, especial para a Folha

 

Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke é professora aposentada da USP e pesquisadora associada do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Cambridge (Reino Unido). É autora de “As Muitas Faces da História” . (edUnesp).


Um renomado periódico espanhol referiu-se recentemente a Zygmunt Bauman (1927) como um dos poucos sociólogos contemporâneos “nos quais ainda se encontram idéias”. Opinião semelhante é frequentemente exposta por críticos de várias partes do mundo quando refletem sobre o pensamento desse intelectual polonês radicado na Inglaterra desde 1971 e empenhado, há meio século, em “traduzir o mundo em textos”, como diz um deles. Indiferente às fronteiras disciplinares, Bauman é um dos líderes da chamada “sociologia humanística”.

 

De um lado, não se encontram em suas obras abstrações ou análises e levantamentos estatísticos, e, de outro, são ali aproveitadas quaisquer idéias e abordagens que possam ajudá-lo na tarefa de compreender a complexidade e diversidade da vida humana. Essa é uma das razões pelas quais Bauman tem muito a dizer para uma gama de leitores muito maior do que normalmente se espera de um trabalho de sociologia mais convencional, o que condiz com suas próprias ambições de atingir um público composto de pessoas comuns “se esforçando por ser humanas” num mundo mais e mais desumano. Como ele gosta de insistir, seu objetivo é mostrar a seus leitores que o mundo pode ser diferente e melhor do que é.

 

Autor prolífico e de renome internacional, pode-se dizer que sua fama e prolixidade aumentaram significativamente após sua aposentadoria, em 1990: 16 de seus 25 livros foram publicados após essa data e cinco obras dedicadas ao estudo de seu pensamento foram escritas nos últimos anos. Descrito certa vez como “profeta da pós-modernidade” (com o que não concorda), por suas reflexões sobre as condições do mundo da “modernidade líquida”, os temas abordados por Bauman tendem a ser amplos, variados e especialmente focalizados na vida cotidiana dos homens e mulheres comuns. Holocausto, globalização, sociedade de consumo, amor, comunidade, individualidade são algumas das questões de que trata, sempre salientando a dimensão ética e humanitária que deve nortear tudo o que diz respeito à condição humana. Preocupado com a sina dos oprimidos, Bauman é uma das vozes a permanentemente questionar a ação dos governos neoliberais que dão amplo apoio às forças do mercado ao mesmo tempo em que abdicam da responsabilidade de promover a justiça social.

 

Nascido na Posnânia em 1925, Bauman escapou dos horrores do Holocausto que aguardavam os judeus poloneses na Segunda Guerra, ao fugir com sua família para a Rússia em 1939. De lá voltou após a guerra, quando se filiou ao Partido Comunista, estudou na Universidade de Varsóvia e conheceu Janina, com quem está casado há 55 anos e com quem teve três filhas: Anna (matemática), Lydia (pintora) e Irena (arquiteta).

 

Confiantes e animados pelo sonho de criar uma sociedade mais justa e igualitária, Zygmunt e Janina ali estiveram a construir suas carreiras (ele como professor da Universidade de Varsóvia e, ela, como editora de enredos cinematográficos) e criar sua família, até que uma nova onda de anti-semitismo e repressão esmagou os seus sonhos e os forçou ao exílio. Após três anos em Israel, o convite a Bauman para ser chefe do departamento de sociologia da Universidade de Leeds os trouxe à Inglaterra, onde permanecem até hoje.

 

Bauman recebeu o Mais! em Leeds, na confortável casa onde mora desde que ali chegou, há mais de 30 anos. “Naquela época achei a cidade horrível, imunda”, me disse Janina, comentando a mudança que ocorreu nos últimos tempos e que transformou Leeds, de um sujo centro industrial, em uma cidade bonita, verdejante e cheia de vida.

 

O senhor já foi descrito como um “profeta da pós-modernidade” e os termos “pós-moderno” e “pós-modernidade” aparecem em títulos de quatro de seus livros. Estaria sugerindo que ocorreu uma mudança cultural e social significativa na última geração suficientemente grande para que falemos de um novo período da história?


Uma das razões pelas quais passei a falar em “modernidade líquida” em vez de “pós-modernidade” (meus trabalhos mais recentes evitam esse termo) é que fiquei cansado de tentar esclarecer uma confusão semântica que não distingue sociologia pós-moderna de sociologia da pós-modernidade, entre “pós-modernismo” e “pós-modernidade”. No meu vocabulário, “pós-modernidade” significa uma sociedade (ou, se se prefere, um tipo de condição humana), enquanto que “pós-modernismo” se refere a uma visão de mundo que pode surgir, mas não necessariamente, da condição pós-moderna.

 

Procurei sempre enfatizar que, do mesmo modo que ser um ornitólogo não significa ser um pássaro, ser um sociólogo da pós-modernidade não significa ser um pós-modernista, o que definitivamente não sou. Ser um pós-modernista significa ter uma ideologia, uma percepção do mundo, uma determinada hierarquia de valores que, entre outras coisas, descarta a idéia de um tipo de regulamentação normativa da comunidade humana e assume que todos os tipos de vida humana se equivalem, que todas as sociedades são igualmente boas ou más; enfim, uma ideologia que se recusa a fazer julgamentos e a debater seriamente questões relativas a modos de vida viciosos e virtuosos, pois, no limite, acredita que não há nada a ser debatido. Isso é pós-modernismo.

 

Mas sempre estive interessado na sociologia da pós-modernidade, meu tema tem sempre sido compreender esse tipo curioso e em muitos sentidos misterioso de sociedade que vem surgindo ao nosso redor; e a vejo como uma condição que ainda se mantém eminentemente moderna nas suas ambições e no seu “modus operandi” (ou seja, no seu esforço de modernização compulsiva, obsessiva), mas que se acha desprovida das antigas ilusões de que o fim da jornada estava logo adiante.

 

É nesse sentido que pós-modernidade é, para mim, modernidade sem ilusões. Diferentemente da sociedade moderna anterior, a que eu chamo de modernidade sólida, que também estava sempre a desmontar a realidade herdada, a de agora não o faz com uma perspectiva de longa duração, com a intenção de torná-la melhor e novamente sólida. Tudo está agora sempre a ser permanentemente desmontado, mas sem perspectiva de nenhuma permanência.

 

O indivíduo precisa dos outros como do ar que respira, mas, ao mesmo tempo, tem medo de desenvolver relacionamentos mais profundos, que o imobilizem num mundo em permanente movimento.

 

Tudo é temporário. É por isso que sugeri a metáfora da “liquidez” para caracterizar o estado da sociedade moderna, que, como os líquidos, se caracteriza por uma incapacidade de manter a forma. Nossas instituições, quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades “auto-evidentes”. É verdade que a vida moderna foi desde o início “desenraizadora” e “derretia os sólidos e profanava os sagrados”, como os jovens Marx e Engels notaram. Mas, enquanto no passado isso se fazia para ser novamente “reenraizado”, agora as coisas todas -empregos, relacionamentos, know-hows etc.- tendem a permanecer em fluxo, voláteis, desreguladas, flexíveis.

 

Como um exemplo dessa perspectiva, li, num dia desses, que um famoso arquiteto de Los Angeles estava se propondo a construir casas que permanecessem lindas “para sempre”. Ao ser questionado sobre o que queria dizer com isso, ele teria respondido: até daqui a 20 anos! Isso é hoje “para sempre”, grande duração. O que me interessa é, portanto, tentar compreender quais as consequências dessa situação para a lógica do indivíduo, para seu cotidiano. Virtualmente todos os aspectos da vida humana são afetados quando se vive a cada momento sem que a perspectiva de longo prazo tenha mais sentido.

 

Jean-Paul Sartre aconselhou seus discípulos em todo o mundo a terem um projeto de vida, a decidir o que queriam ser e, a partir daí, implementar esse programa consistentemente, passo a passo, hora a hora. Ora, ter uma identidade fixa, como Sartre aconselhava, é hoje, nesse mundo fluido, uma decisão de certo modo suicida. Se se pensa, por exemplo, nos dados levantado por Richard Sennett [sociólogo] -o tempo médio de emprego no vale do Silício [localizado na Califórnia, EUA, concentra um grande número de empresas de tecnologia e internet], por exemplo, é de oito meses-, quem pode pensar num projeto de vida nessas circunstâncias?

 

Na época da modernidade sólida, quem entrasse como aprendiz nas fábricas da Renault ou Ford iria com toda probabilidade ter ali um longa carreira e se aposentar após 40 ou 45 anos. Hoje em dia, quem trabalha para Bill Gates por um salário talvez cem vezes maior não tem idéia do que poderá lhe acontecer dali a meio ano! E isso faz uma diferença incrível em todos os aspectos da vida humana.

 

Em “Liquid Love” [Amor Líquido], eu exploro o impacto dessa situação nas relações humanas, quando o indivíduo se vê diante de um dilema terrível: de um lado, ele precisa dos outros como do ar que respira, mas, ao mesmo tempo, ele tem medo de desenvolver relacionamentos mais profundos, que o imobilizem num mundo em permanente movimento.

 

O sr. poderia discutir os riscos da pós-modernidade?


Uma das características do que eu chamo de “modernidade sólida” é a de que as maiores ameaças para a existência humana eram muito mais óbvias. Os perigos eram reais, palpáveis e não havia muito mistério sobre o que fazer para neutralizá-los ou, ao menos, aliviá-los. Era, por exemplo, óbvio que alimento -e só alimento- era o remédio para a fome. Os riscos de hoje são de outra ordem, não se podendo sentir ou tocar em muitos deles, apesar de estarmos todos expostos, em algum grau, a suas consequências.

 

Não podemos, por exemplo, cheirar, ouvir, ver ou tocar as condições climáticas que gradativamente, mas sem trégua, estão se deteriorando. O mesmo acontece com os níveis de radiação e poluição, a diminuição das matérias-primas e fontes de energia não-renováveis e os processos de globalização sem controle político ou ético que solapam as bases de nossa existência e sobrecarregam a vida dos indivíduos com um grau de incerteza e ansiedade sem precedentes. É nesse ponto que a sociologia tem um papel importante a desempenhar.

 

Diferentemente dos perigos antigos, os riscos que envolvem a condição humana no mundo das dependências globais podem não só deixar de ser notados, mas também minimizados, mesmo quando notados. Do mesmo modo, as ações necessárias para exterminar ou limitar os riscos podem ser desviadas das verdadeiras fontes do perigo e canalizadas para alvos errados. Quando a complexidade da situação é descartada, fica fácil apontar para aquilo que está mais à mão como sendo causa das incertezas e ansiedades modernas.

 

Veja, por exemplo, o caso das manifestações contra imigrantes que ocorrem pela Europa. Vistos como “o inimigo” próximo, eles são apontados como os culpados pelas frustrações da sociedade, como aqueles que põem obstáculo aos projetos de vida dos demais cidadãos. A noção de “solicitante de asilo” adquire, nesse quadro, uma conotação negativa, ao mesmo tempo em que as leis que regem a imigração e naturalização se tornam mais restritivas, e a promessa de construção de “centros de detenção” para estrangeiros confere vantagens eleitorais a plataformas políticas.

 

Para confrontar sua condição existencial e enfrentar seus desafios, a humanidade precisa se colocar acima dos dados da experiência a que tem acesso enquanto indivíduos. Ou seja, a percepção individual, para ser ampliada, necessita da assistência de intérpretes munidos com dados não amplamente disponíveis à experiência individual. E a sociologia, enquanto parte integrante desse processo interpretativo -um processo em andamento e permanentemente inconclusivo-, constitui um empenho constante para ampliar os horizontes cognitivos dos indivíduos e uma voz potencialmente poderosa nesse diálogo sem fim com a condição humana.

 

Em muitas partes de sua obra o senhor soa nostálgico, às vezes até mesmo do que chama de “modernidade sólida”, quando a humanidade aparentemente era menos ansiosa e tinha uma vida mais estável e segura.Concorda com essa interpretação?


Eu não diria isso. Não acredito que haja um progresso linear no que diz respeito à felicidade humana. Podemos dizer que, como um pêndulo, nos movemos de tempos mais felizes para tempos menos felizes e de menos felizes para mais felizes. Hoje temos medo e somos infelizes do mesmo modo como também tínhamos medo e éramos infelizes há cem anos, mas por razões diferentes. A modernidade sólida tinha um aspecto medonho: o espectro das botas dos soldados esmagando as faces humanas. Virtualmente todo mundo, quer na esquerda ou na direita, assumia que a democracia, quando existia, era para hoje ou amanhã, mas que uma ditadura estava sempre à vista; no limite, o totalitarismo poderia sempre chegar e sacrificar a liberdade em nome da segurança e da estabilidade.

 

De outro lado, como Sennett mostrou, a antiga condição de emprego poderia destruir a criatividade humana, as habilidades humanas, mas construía a vida humana, que podia ser planejada. Tanto os trabalhadores como os donos de fábrica sabiam muito bem que eles iriam se encontrar novamente amanhã, depois de amanhã, no ano seguinte, pois os dois lados dependiam um do outro.

 

Bem, nada disso existe hoje. Dificilmente um outro tipo de stalinismo voltará, e o pesadelo de hoje não é mais a bota dos soldados esmagando as faces humanas.Temos outros pesadelos. O chão onde piso pode, de repente, se abrir como num terremoto, sem que haja nada no que me segurar. A maioria das pessoas não pode planejar seu futuro por muito tempo adiante. Os acadêmicos são ainda umas das poucas pessoas que têm essa possibilidade. Na maioria dos empregos podemos ser demitidos sem uma palavra de alerta.

 

Você chama isso de nostalgia? Não sei…

 

A questão é que, como já disse antes, aproximando-me dos meus 80 anos, não mais acredito que possa existir algo como uma sociedade perfeita. A vida é como um lençol muito curto: quando se cobre o nariz, os pés ficam frios, e, quando se cobrem os pés, o nariz fica gelado. Mas insisto em que a sociedade que obsessivamente se vê como não sendo suficientemente boa é a única definição que posso dar de uma boa sociedade.

 

Quando e como o senhor abandonou o marxismo? Considera-se ainda um socialista?


Nunca abandonei Marx, apesar de minha intoxicação pelo “marxismo realmente existente” ter sido, felizmente, breve; de fato, terminou bem cedo, no momento em que o vi como era: um imenso obstáculo para a recepção e manutenção da mensagem ética de Marx -de que a qualidade de uma sociedade deve ser testada pelo critério da justiça e “fair play” que regulamenta a coletividade humana.

 

Eu espero ter o direito de dizer que nunca abandonei essa crença. O mesmo se aplica ao meu socialismo, que, em meu entender, se resume à convicção de que, assim como o poder de carga de uma ponte se mede não pela força média de todos os pilares, mas pela força de seu pilar mais fraco, a qualidade de uma sociedade também não se mede pelo PIB (Produto Interno Bruto), pela renda média de sua população, mas pela qualidade de vida de seus membros mais fracos.

 

O socialismo para mim não é o nome de um tipo particular de sociedade. É, sim, exatamente como o postulado de Marx de justiça social, uma dor aguda e constante de consciência que nos impulsiona a corrigir ou remover variedades sucessivas de injustiça. Não acredito mais na possibilidade (e até no desejo) de uma “sociedade perfeita”, mas acredito numa “boa sociedade”, definida como a sociedade que se recrimina sem cessar por não ser suficientemente boa e não estar fazendo o suficiente para se tornar melhor…

 

Quando se acompanha sua carreira, o sr. parece um filósofo que, devido às condições da Polônia do pós-guerra, foi temporariamente desviado de sua vocação, voltando-se para a sociologia. Concorda com essa descrição?

 

Essa seria uma reconstrução justa do que realmente aconteceu e de como eu encarava a situação, mas com uma ressalva. Eu não era um filósofo profissional antes de ter me desviado para a sociologia, como você sugere; nem desejava me tornar um.

 

Antes de me juntar ao Exército polonês e voltar para meu país natal por essa via, eu fiz dois anos de curso universitário de física por correspondência (na Rússia, os estrangeiros não tinham permissão de viver em cidades grandes, onde havia universidades). Lembro-me de, como tantos adolescentes, me sentir um tanto apavorado e esmagado pelos mistérios e enigmas do universo e de desejar ardentemente dedicar minha vida a desvendar esses mistérios e a solucionar esses enigmas. Meus estudos foram, entretanto, interrompidos pelo apelo das armas quando eu tinha 18 anos, para jamais serem retomados.

 

Deixando o Exército em 1945, eu me vi novamente numa Polônia arruinada pela ocupação nazista, que se somava a um anterior legado de miséria, de desemprego em massa, de conflitos étnicos e religiosos aparentemente insolúveis e de exploração de classe brutal. Os desafios que meu país confrontava eram, pois, muito maiores do que os do resto da Europa, pois, além de reconstruir fábricas e casas destruídas, semear campos abandonados e colocar a economia de pé novamente, a Polônia exigia uma batalha exaustiva contra uma pobreza sedimentada e contra profundas divisões de classe; a abertura das oportunidades educativas também era tarefa urgente, já que até então estas haviam estado fechadas à grande maioria da nação.

 

Como muitos sociólogos americanos e alguns europeus se queixam, os estudos sociais acadêmicos perderam qualquer ligação com o agenda pública; as classes educadas não estão mais interessadas na tarefa de ilustração do povo. Eu imagino que a crença de que a sociologia poderia melhorar a vida humana ao reformar o meio social no qual esta se conduzia era parte integral do “projeto de modernidade”. Eu até mesmo diria que o projeto consistia exatamente nisso. Assim, as pessoas que estavam seriamente empenhadas em levar a sociedade a desenvolver condições mais desejáveis a fim de ser “moderna” -ou seja, mais humana e melhor estruturada para promover a felicidade e dignidade humanas- não titubeavam um instante sobre que tipo de conhecimento deveria ser mais urgentemente adquirido, dominado e colocado em prática.

 

Certamente teria que ser a “ciência da sociedade”, a sociologia, a disciplina que surgira para servir ao “projeto de modernidade”. Tal convicção sobre a missão da sociologia e tal fé em seu poder de realizar sua missão deve, sem dúvida, intrigar um leitor contemporâneo, mas somente porque vivemos hoje numa era diferente, quando o mantra do dia não é mais “salvação pela sociedade”; infelizmente o que se ouve agora, como homílias insistentes, é que devemos buscar soluções individuais para problemas produzidos socialmente e sofridos coletivamente.

 

Como foi a experiência de viver no que o senhor descreveu como a “idade áurea”, quando as “universidades polonesas tiraram o máximo de vantagem da liberdade ganha nas batalhas do “outubro polonês” [relativa abertura do regime comunista, ocorrida em 1956]“?


Foi algo fascinante, diferente de qualquer outra universidade que conheci; diferente, diria, de qualquer vida universitária existente. Há situações de liberdade acadêmica praticamente sem limites, quando todos os tipos de “Weltanchauungen” [visões de mundo], estratégias de pesquisa, hierarquias de relevância e prioridades, estilos de se contar histórias se encontram, conversam e argumentam.

 

E há também situações em que os sociólogos se movem pelo sentido de urgência, e não somente pela necessidade de completar dissertações a tempo e assegurar uma próxima promoção; urgência de dar sua própria contribuição para a batalha por uma sociedade melhor, mais hospitaleira aos seres humanos e à sua humanidade. E também por uma vocação, uma missão de só se dedicar a isso. O que foi peculiar na situação pós-outubro polonês foi que as duas situações emergiram ao mesmo tempo e continuaram durante algum tempo a coincidir e a se fertilizar reciprocamente.

 

Esse tipo de combinação entre sentimento de liberdade e de propósito é uma felicidade de que a maioria dos acadêmicos contemporâneos infelizmente carece, quer eles tenham ou não consciência do que estão perdendo. Na maioria dos lugares do mundo a liberdade de expressão acadêmica é completa ou quase completa, somente limitada pelos regulamentos e regras (muitas vezes penosas e até ridículas) da carreira e de outras invenções da burocracia universitária; mas, fora isso, as escolhas são deixadas inteiramente livres para cada um.

 

Há, no entanto, muito pouco sentido de propósito e particularmente pouco sentido da relevância de seu próprio trabalho para o mundo fora dos muros da academia, como se todos compartilhassem da sina da filosofia lamentada por Wittgenstein, de “deixar o mundo como é”. Como muitos sociólogos americanos e também alguns europeus se queixam, os estudos sociais acadêmicos perderam qualquer ligação com a agenda pública. Parece haver poucos, se é que há algum freguês para os modelos de “boa sociedade”, que costumava ser a preocupação central e o forte da sociologia com inclinações humanísticas.

 

As classes educadas não estão mais interessadas na tarefa de ilustração e de elevação espiritual do povo. Os intelectuais pararam, em grande parte, de se definir pela responsabilidade que têm para com “o povo”, a nação e a humanidade.

 

O sr. se referiu aos “muros da academia” como um obstáculo para o pensamento livre. Há alguma esperança para as universidades?


O que quer que as universidades façam, elas não conseguirão jamais pôr um fim à curiosidade humana, que talvez tenha que sair da academia para se satisfazer. Se se pensar nas limitações que a organização universitária hoje impõe ao desenvolvimento do pensamento livre, basta olhar para o que acontece com a filosofia e a sociologia tal como são praticadas nos departamentos universitários e em outros “locais de autoridade”, ou seja, os lugares em que afirmações reconhecidas como pertencentes a uma dada disciplina podem ser feitas e de onde elas devem ser expressas para serem reconhecidas como tais. Nesse quadro, pois, a filosofia e a sociologia se ligam a interesses intelectuais, estilos de pensamento e modos de argumentação bastante diferentes.

 

Cada uma dessas duas disciplinas acadêmicas se pretende de posse de grupos distintos de “dados primários” e os processa, interpreta, verifica e refuta de maneiras diferentes. Dominar o cânon, tanto da sociologia quanto da filosofia, e adquirir credenciais oficialmente reconhecidas e confirmadas em cada uma delas toma todo o tempo dos estudantes universitários, e competência em uma dessas disciplinas acadêmicas é raramente exigida para se adquirir o grau na outra.

 

Posso entender a preocupação dos sociólogos acadêmicos com a circunscrição, as barreiras e a defesa de suas possessões contra os competidores que lutam pela obtenção do dinheiro das fundações e do governo; mas o que não podemos esquecer é que essa preocupação se origina na realidade da vida acadêmica, e não na lógica da experiência humana que a sociologia é chamada a servir.

 

Quão difícil foi para o senhor se ajustar à cultura da Grã-Bretanha, para onde veio com mais de 40 anos?


Ajustamento nunca ocupou um lugar prioritário no meu programa de vida. Nesse campo não fui além do básico, isto é, além de aprender o idioma local e me fazer compreensível, evitando os mais crassos “faux pas”. Tal como me recordo, ao chegar à Grã-Bretanha não estava particularmente preocupado em esconder, sufocar ou erradicar minha idiossincrasia, em abandonar o que no meu modo de agir e pensar poderia parecer estranho aos nativos.

 

Tornar-me como os outros e me dissolver no plano de fundo não me parecia tarefa nem possível nem especialmente atraente e nunca foi minha intenção.

Como eu via na época, o desafio estava em outro lugar: como revelar para os meus colegas e alunos britânicos o sentido das minhas diferenças e talvez induzi-los a achar algum interesse e uso no que era inicialmente alheio a eles.

 

“Ajustamento” sugere uma via de mão única. Ao contrário, eu pensava em termos de troca igualitária: o único meio de retribuir a hospitalidade dos meus anfitriões britânicos era oferecer a eles algo que não tinham ainda e não poderiam adquirir a não ser num encontro face a face com um pensamento e modo de agir alternativos; algo novo e diferente, que pudesse, eventualmente, enriquecê-los do mesmo modo que eu tenho me enriquecido com o meu encontro com o cotidiano britânico. Eu, na verdade, desejava ser aceito, mas aceito precisamente pelo que eu era, por minha dessemelhança.

 

Minha sorte foi que, com essa atitude, eu aterrissei e me estabeleci na Grã-Bretanha. Posso pensar em muitos países em que viver com tal atitude teria sido muito mais difícil e social e espiritualmente custoso. Se alguém deve ser um exilado ou estrangeiro, a Grã-Bretanha é o lugar certo para estar. Pode-se aí esperar boa vontade, tolerância e bastante hospitalidade, com a condição de não querer fingir que é inglês…..

 

Em sua obra o senhor se refere frequentemente a romances. O que acha que a literatura pode ensinar sobre a sociedade e sobre a condição humana? Mais especificamente, o senhor confessa ser Borges uma de suas grandes fontes inspiradoras. Poderia nos explicar no que um escritor que parece não tratar especificamente de questões sociais lhe é importante?


Devo começar lembrando que meus professores na Polônia nunca se preocuparam com as diferenças entre “filosofia social” e “sociologia propriamente dita”; mas, acima de tudo, eles consideravam os romancistas e poetas como seus camaradas de armas, e não como competidores e, muito menos, como antagonistas. Eu aprendi a considerar a sociologia como uma daquelas numerosas narrativas, de muitos estilos e gêneros, que recontam, após terem primeiramente processado e reinterpretado, a experiência humana de estar no mundo. A tarefa conjunta de tais narrativas era oferecer um insight mais profundo no modo como essa experiência foi construída e pensada e, desse modo, ajudar os seres humanos na sua luta pelo controle de seus destinos individuais e coletivos. Nessa tarefa, a narrativa sociológica não era “por direito” superior a outras narrativas, pois tinha que demonstrar e provar seu valor e utilidade pela qualidade de seu produto.

 

Eu, por exemplo, me lembro de ganhar de Tolstói, Balzac, Dickens, Dostoiévski, Kafka ou Thomas Morus muito mais insights sobre a substância das experiências humanas do que de centenas de relatórios de pesquisa sociológica. Acima de tudo aprendi a não perguntar de onde uma determinada idéia vem, mas somente como ela ajuda a iluminar as respostas humanas à sua condição, assunto tanto da sociologia quanto das “belle lettres”.

 

O que aprendi com Borges? Acima de tudo, aprendi sobre os limites de certas ilusões humanas: sobre a futilidade de sonhos de precisão total, de exatidão absoluta, de conhecimento completo, de informação exaustiva sobre tudo; sobre as ambições humanas que, no final, se revelam ilusórias e nos mostram impotentes. Lembremos, por exemplo, do conto de Borges que fala sobre o mapa: o sonho do mapa exato que acaba ficando do mesmo tamanho da própria coisa mapeada e, portanto, sem nenhuma utilidade. Não me ocorre nenhum filósofo ou sociólogo que pôde tratar de tais questões tão persuasivamente, tão convincentemente, tão espetacularmente. Em parte isso se deve à posição muito luxuosa e mesmo invejável de nunca ter sido um acadêmico e de nunca ter estado submetido a uma disciplina. Fora dos muros da academia os romancistas desfrutam da liberdade que é negada, por exemplo, aos sociólogos profissionais, que têm seus trabalhos avaliados pela conformidade destes com os procedimentos que definem e distinguem a profissão, e não por sua relevância humana. Quando se envia um artigo a uma revista científica para ser avaliado por um “par”, isso só tem um impacto: reduzir a originalidade ao denominador comum!

 

Borges nunca teve que se submeter a esse tipo de coisa. Note que os dois cientistas sociais da modernidade realmente interessantes e ainda hoje extremamente tópicos foram Karl Marx [1818-1883] e George Simmel [1858-1918], e eles têm também essa característica comum: ambos eram free-lancers e nenhum deles ensinou nas universidades!

 

Mas, acima de tudo, a maior vantagem da narrativa dos romancistas é que ela se aproxima da experiência humana do que a maioria dos trabalhos das ciências sociais. Elas são capazes de reproduzir a não-determinação, a não-finalidade, a ambivalência obstinada e insidiosa da experiência humana e a ambiguidade de seu significado.

 

O senhor tem sempre enfatizado a necessidade de todos nós “questionarmos ostensivamente as premissas de nosso modo de vida”. Teria alguma sugestão a nos dar sobre as respostas a esses questionamentos?


Maurice Blanchot [escritor e crítico francês, 1907-2003] disse certa vez, em palavras que ficaram famosas, que as respostas são a má sorte das perguntas. De fato, cada resposta implica fechamento, fim da estrada, fim da conversa. Também sugere nitidez, harmonia, elegância; enfim, qualidades que o mundo narrado não possui. Tenta forçar o mundo numa camisa-de-força na qual ele definitivamente não cabe.

 

Corta as opções, a multidão de sentidos e possibilidades que toda condição humana implica a cada momento. Promete falsamente uma solução simples para um busca provocada e impelida pela complexidade. Também mente, pois declara que as contradições e incompatibilidades que provocam as questões são fantasmas -efeitos de erros linguísticos ou lógicos, em vez de qualidades endêmicas e irremovíveis da condição humana.

 

Creio que a experiência humana é mais rica do que qualquer de suas interpretações, pois nenhuma delas, por mais genial e “compreensiva” que seja, pode exauri-la. Aqueles que embarcam numa vida de conversação com a experiência humana deveriam abandonar todos os sonhos de um fim tranquilo de viagem. Essa viagem não tem um final feliz -toda sua felicidade se encontra na própria jornada.

 

O senhor descreveu modestamente um de seus livros mais recentes como um “discussion paper”. Diria que é por acaso ou propositadamente que tem se dedicado a escrever ensaios?

 

No curso de meio século de estudos e de escrita nunca consegui adquirir a habilidade de terminar um livro…

 

Com o passar do tempo, eu reconheço que todos os meus livros foram entregues ao editor inacabados. Em regra, antes mesmo que o manuscrito seja impresso, fica claro para mim que o que me parecia havia pouco como “o fim” era, de fato, um começo com uma sequência desconhecida, mas tremendamente necessária. Por trás de cada resposta percebo que novas questões estão piscando; que mais, muito mais, restou a ser explorado e compreendido e quão pouco, de fato, foi revelado pelo “acabamento bem-sucedido” das explorações passadas. As perguntas mais intrigantes e provocantes emergem, via de regra, após as respostas.

 

No decurso dos anos aprendi a apreciar a queixa de Adorno [filósofo alemão, 1903-69] sobre a convenção linear da nossa escrita: por causa dessa convenção nós não conseguimos transmitir a lógica do pensamento que, diferentemente da escrita, se move em círculos e está invariavelmente forçada, pelo seu próprio progresso, a fazer perpétuos retornos.

 

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publicado às 17:37

Amor

por blogdobesnos, em 31.03.12

Sapere Aude, 16 de  outubro de 2009.

 

O amor  não requer horários, compromissos, agendamentos; nem sequer sacrifícios ele requer; estar amando não é estar a mando de, por qualquer motivo que se imagine. O amor não é posse, embora possuamos e sejamos possuídos no amor, nem tampouco domínio, embora nos ponhamos tão dominados; é plena liberdade. Não amamos se não nos sentimos livres, em paz. Não se define, não se troca, não se barganha, não se mercancia com o amor. Talvez o mais sublime do amor seja conviver com tudo isso e continuar com o seu encanto, e nos aquecer tanto a alma e os sentidos. É, talvez o o amor seja isso, um misto de nossos desejos e de nossos desvarios.

 

Amar para o futuro é quase-amar, para o passado é lembrança. O amor é agora, ele simplesmente é. Sendo tudo, não se reduzindo a nada, é uma fímbria, uma tessitura, um horizonte que nos torna mais humanos, mais próximos, mais amigáveis, enfim mais amoráveis. O amor é mesmo a saudade dos momentos de paixão que poderíamos ter tido, mas não tivemos. De todo, renunciarmos ao amor é esquecermos não apenas o mundo, mas, especialmente, de nós mesmos. Amor é poesia, é música, é dizer, é muito mais do que confusamente poderíamos tentar explicar.

 

Exercitemos pois o amor; as luzes e o calor nos aquecerão. Não percamos nossos tempos; o amor, esse moleque, nos espera inesperadamente no brilho do olhar que, até então era somente um olhar.

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publicado às 15:50

Lembrar o amanhã

por blogdobesnos, em 31.03.12

Lembrar o amanhã é saber que hoje (já) é a consequencia de ontem e que os amanhãs somente serão realmente novos dias na medida em que não nos permitirmos afundar nos compromissos, horários certos e outras obrigações, além dos processos produtivos, pelo menos não o nosso espírito.

É buscarmos, de um modo ou de outro, mais satisfações e menos estresses. Lembrar o amanhã é saber que hoje, daqui a pouco será o passado e que o momento em que digito esse texto já se diluiu entre os móveis, as paredes, as ruas e as ventanias.

 

Recordações de hoje e projetos nos levarão até amanhã; somos inexoráveis conosco mesmos. Cada um de nós tem a sua própria noção do de um tempo-dimensão, que é o da nossa estrutura biológica, e, assim como cada um de nós vê algo de modo distinto da forma como outro o vê, ocorre tanto assim com os nossos espaços, com os nossos sentimentos. Nossos sentidos igualmente determinam o que observamos, pois observar não implica necessariamente em passividade, como os físicos quanticos já nos informaram, mas sim em possibilidades. Na medida em que interferimos sobre o que vemos e o que vemos interfere sobre nós, não somos nem deuses nem instrumentos, mas máquinas desejantes, conforme Deleuze. Frustrações incorporadas, seres neuróticos em busca de novos referentes que sejam plenos de culpas e de redundãncias. Somos o que nos construímos, dentro das opções possíveis, mas, mesmo sem elas, continuamos a nos construir.

 

Somos seres que aprendem, porque os seres vivos aprendem, não poderia ser diferente. Lembrar as frustrações é prorrogarmos seus efeitos, para que possamos criar uma nova consciência comportamental, a partir do que já conhecemos, ou restarmos em nossas zonas de conforto. Nos construindo no cotidiano, o tempo cronológico se esvai mas isso, de certo modo, não importa. Talvez seja mais significativo o cultivo da vaidade, estar up to date quando necessário. De qualquer modo, talvez seja interessante lembrar o amanhã, no mínimo para não esquecermos de nós mesmos e de que, queiramos ou não, não somos meramente as lajes de um calçadão. 

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publicado às 15:23

Morte no engarrafamento

por blogdobesnos, em 31.03.12

Junho de 2009.

 

 

Ontem à noite, retornando da escola, por volta das 22h40, eu de carona, notamos um engarrafamento que normalmente àquela hora não acontece. Noite fria, meio de semana, retornando do trabalho com cansaço acumulado e, sem mais nem menos, tudo parado, o trânsito sem fluxo. “Só pode ser a BM fazendo blitz” - comentamos. Mais comentários casuais. BM é a sigla da Brigada Militar e em uma blitz param-se veículos, para verificar documentos, pessoas ou ambos. Erramos. Adiante, uma mulher já madura jazia morta, no lado oposto da via. Vestia um blusão pesado e uma calça comprida, cor escura. Há duas semanas um jovem igualmente morto, vitimado em mais um dos infindáveis acidentes envolvendo motos, também se encontrava jogado na pista, desta vez no início da noite, por volta das 18h15, no momento em que eu me dirigia à escola.

 

Nos dois casos os cadáveres estavam sós, ninguém os pranteava e, muito provável, até pouco tempo eram pessoas dotadas de capacidades, de sonhos, de famílias e dos inevitáveis compromissos do dia-a-dia. Talvez tivessem filhos, talvez não, mas agora estavam ali, no meio da via pública, como se fossem res – coisas abandonadas o que, naquelas circunstâncias, de certo modo, eram. Passamos pela mulher, pelo corpo da mulher da qual não sabíamos o nome e absolutamente nada. O automóvel voltou a deslizar pela avenida. A curiosidade se esgota rápido, flui como água e parece que todos nos habituamos, desde muito com a banalização da morte, com a rotina onde sequer esse evento necessita de uma justificativa, a não de algo como um comentário breve, um muxoxo, um piscar de olhos, um menear de cabeça e só.

 

Vivemos em um tempo em que poucas coisas são capazes de nos mobilizar, de nos fazer sair da apatia e da indiferença, ressaltada alguma injustiça sofrida ou a catalizadora indignação. Corpos mortos em acidentes não mais nos comovem, e não paramos um segundo para refletir sobre o fato. A morte é não muito mais do que um mero dado estatístico, pouco importando se ela se deu graças a uma doença, a um assassinato, a um suicídio. Olhamos corpos reais com a mesma naturalidade e indiferença que observamos corpos virtuais na web, na televisão, nos jornais ou em qualquer outra mídia. É muito mais provável que lamentemos sincera e profundamente a morte de um cão ou de um gato do que a morte de uma ou mais pessoas, simplesmente porque criamos laços afetivos com os animais, mas somos individualistas a ponto de não nos importarmos – e especialmente de não nos vermos refletidos e em interação com o outro.

 

Nos sentimos e agimos como peças de engrenagens, a tal ponto que não temos e não nos concedemos tempo para pensarmos no  que realmente importa, a não ser em nós mesmos, em nossa produtividade, em nossos desejos materiais, em nossas solidões, em procurarmos saber se temos ou não dinheiro para pagar o aluguel ou o financiamento, a troca de carro, o cartão de crédito, além de, claro, nos envolvermos no acúmulo precário de bens que, por sua vez são ainda mais inflados de uma futura e previsível obsolescência. Na condição de peças, de coisas massificadas, o uommo machina assim vê o outro, especialmente quem não conhece, pelo que naturaliza-se a indiferença na mesma proporção em que esquece-se a solidariedade.

 

Das lições, nada aprendemos. Parecemos necessitar de uma catarse coletiva, de um crime bárbaro e do incentivo midiático para promovermos nossos sentidos e sentimentos. Somos edulcorados, acríticos e, especialmente, egoístas em relação aos outros. A continuar assim nos transformaremos, da forma mais rápida possível em seres kafkanianos, insetos sociais dentro de comunidades de interesses mercantis onde, ao invés de feronômio, andaremos tontos, iluminados da clara cegueira de que nos noticia Saramago, tateando em busca – talvez – de nossas combalidas humanidades e de alguns valores fundamentais que devemos ter jogado em alguma gaveta ao longo das nossas histórias.

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publicado às 15:16

Declaração tardia

por blogdobesnos, em 31.03.12
Não sou um homem bonito, desses que atraem os olhares femininos de modo quase que automático. Em suma, a minha aparência não me torna um objeto de desejo momentâneo. Se já maduro sou assim, quando adolescente também era. Portanto, não tive relações amorosas com mulheres lindíssimas. As pré-modelos passaram longe de mim, deixando-me, às vezes angustiado, especialmente em uma fase de vida na qual muito se diz e pouco se faz. Pois justo por me relacionar não com a beleza em si, mas com o melhor das pessoas é que fui desenvolvendo, aos poucos, o sentido de que, em verdade, eu namorava sim mulheres fortes, mulheres com inteligência, criativas e amorosas. A amorosidade sempre preside relações nas quais o efêmero não é posto como valor absoluto.

Isso fez com que eu ficasse cada vez mais seletivo, que cada vez ficasse mais bem humorado e tivesse, através do contato com o mundo feminino, uma visão diferenciada – ou pelo menos mais balanceada - da vida, embora, evidentemente, me tornasse menos flexível às bobagens que escuto e às conversas fúteis com as quais sou obrigado a conviver. Qualificar uma visão melhor de mundo, misturando o feminino ao masculino, a curva à reta, a sensibiidade à razão, talvez essa tenha sido a melhor herança que me deixaram as mulheres com as quais mantive amizade, aquelas que amei e, mesmo, àquelas que me relegaram ao sempre possível nicho do esquecimento.

Beijo grande. Amo vocês.

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publicado às 15:12

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