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Venda e venda

por blogdobesnos, em 02.04.12

Venda x venda.  Venda. Vendável. Vendido. A venda venda os olhos e vendados, não raro, vamos à venda. Somos mercadorias, e Bauman está correto em Vida para Consumo (ed. Zahar, 2008). Nos tornamos mercadoria, de certo modo, por osmose, porque não resistimos aos apelos midiáticos que tentam conformar a nossa identidade, o nosso lugar dentro do contexto social. Sofremos a influência dos amigos, dos parentes, do meio em que circulamos. Talvez por isso não seja, no mundo do consumo, tão necessário pensar, tão cabível expormos nossos rostos a nós mesmos. Basta seguir o fluxo do consumo, aquele que (novamente Bauman) não tem fim. Leciono matemática: de certo modo o consumo lembra o universo dos números inteiros: ilimitados, decrescendo até o infinito, crescendo até o infinito, passando pelo ponto de harmonia, de equilíbrio, o ponto zero. 

Na lógica da sociedade do consumo, o negativo corresponde àqueles que sofrem diuturnamente as marcas da exclusão. Os que não tem cartão de crédito nem cheque, os exilados do mundo produtivo, os que não tem acesso. Já os que tem, precisam estar prontos para mostrar, demonstrar inequivocamente o seu comportamento de mercadoria, mercantilista, objetivando o acolhimento pelos seus pares ou uma proposta mais vantajosa do mundo produtivo.  Não há associatividade sem o compartilhamento não apenas de conveniências mas, igualmente, de uniformes simbólicos. Os que integram o banquete do consumo devem suportar uma (re)construção de imagem, porque são a tanto exigidos. A instância fashioned não mais é uma opção, mas uma estrada a ser seguida, mesmo que você saiba conscientemente até onde possa chegar. Existe limite para você, mas não para a estrada. Frase de Bauman: na sociedade do consumo, a solidariedade é a primeira vítima. Enquanto isso, ficamos aqui e ali, vagando, sem que haja qualquer espaço público no qual a inesgotável capacidade de convencimento da publicidade não seja exercida. Contudo, além dos espaços públicos, os privados também sofrem o assédio da compra e venda, da mercancia.

 

Tudo democraticamente busca convencer para a compra: os portais da web, as emissoras de rádio e televisão, os produtos culturais (começando pelos patrocinadores, apoiadores, etc, mais o merchandising explícito), os políticos (promovendo sua auto-imagem e disseminando suas ideologias), os espaços públicos locados (cartazes, papelotes, outdoors). Não há um espaço sequer, um milímetro, um argumento que não tenha possibillidade de ser transformado em mercancia. Talvez por isso, mas sem dúvida não só por isso, o mundo do simbólico, da ética e dos valores também sofra a influência de tais fatores.  Bauman fotografa brilhantemente o estado de coisas atual.

 

Somos, no fundo, gadgets, vendendo nossas imagens para conseguirmos melhores empregos, bolsas de estudo, vantagens econômicas, persistirmos em nossas zonas de conforto, sermos reconhecidos, de preferência adorados, invejados, enfim, ascendermos à glória, à fama e ao poder. É a redenção de todos os seres humanos que trazem no consumo constante e impertinente o único consolo para suas vidas e para seus sonhos ambiciosos.

 

Àqueles degredados, aos que convivem nos anéis da degradação econômica, social e financeira, reservamos o lugar tão ameaçador de párias, de renegados, ou de potencialmente criminosos. Enquanto o círculo da miséria, do desemprego aumenta, continuamos registrando os fatos em nossos seminários, congressos, casas legislativas, escolas, ongs, e por aí vai. O mundo se esboroa, mas nos parece que isso só será real quando os alicerces das nossas casas forem atingidos. Então, se pudermos, iremos morar em outro lugar, além, adiante, alhures, acolá, mas aqui não permaneceremos.

 

Se, contudo, não pudermos, é bom que preparemos o repasto, porque a alcatéia que criamos deliberadamente virá, com força, morder nossas fatias de solidão.

 

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publicado às 23:56

Comunicação subliminar e o BBB

por blogdobesnos, em 02.04.12

COMUNICAÇÃO SUBLIMINAR DO REALITY SHOW: UM ENSAIO SOBRE O “BIG BROTHER BRASIL”

 


Efraim Queller de Souza1

Adriana Sartório Ricco2

 


Resumo

 

 

Esse artigo traz uma reflexão sobre as mensagens subliminares do conteúdo televisivo do reality show, com um foco especial no programa Big Brother Brasil. Tem como objetivo analisar as possíveis influências do programa na sociedade. Em sua metodologia, trata-se de um estudo de caráter exploratório, utilizando-se em seu delineamento fontes bibliográficas e documentais. O resultado é a constatação de que o programa em questão tem forte poder de influência e persuasão sobre o comportamento social.

 

Palavras-chave: Comunicação. Mensagem Subliminar. BBB. Reality Show.

 

 

1 INTRODUÇÃO

 

 

A mídia televisiva hoje está dominada pelos Reality Shows. Esta febre teve início nos Estados Unidos e se propagou pelo mundo, ganhando força quando a interatividade somou-se a tramas de vidas e casos reais, atraindo olhares curiosos e prendendo a atenção de bilhões de espectadores.

O Reality Show é um programa que diferencia-se dos demais pela inclusão do “real” na TV, onde se tem a impressão de que tudo é fictício e lúdico (com exceção dos informativos). Estes programas trazem como proposta uma realidade que se aplica a diversos segmentos, de acordo com o público ao qual são dirigidos, podendo ser classificados como disputas, desafios, confinamentos, quiz e outros.

 

No início de 2000, chega ao Brasil o “Big Brother Brasil”, programa no formato do Big Brother original, criado e patenteado pela Endemol (Holanda). No programa o cenário é uma casa onde são colocadas pessoas de diferentes perfis e desconhecidas do grande público em confinamento total, onde o desafio é permanecer até o final sem ser eliminado pelo público que decide quem sai e quem fica.

 

Atualmente o programa é recorde de audiência e destaque em outras mídias como jornais e revistas. Os desconhecidos que ali entram saem do anonimato e perdem sua privacidade em troca dos seus minutos, ou melhor, meses de fama. Esta popularidade causa fascínio no público, que passa a se espelhar nas atitudes e comportamento destas pessoas que estão em tão grande evidência. O programa passa assim, a exercer função propagadora de usos, costumes, comportamentos e muito mais.

 

Traremos aqui um levantamento de dados que tentam responder a seguinte indagação: Qual a influência do conteúdo subliminar do Reality show “Big Brother Brasil” na sociedade?

 

O objetivo deste artigo é trazer as causas e efeitos que um conteúdo mal disposto ou veiculado de forma incorreta pode acarretar na sociedade, visando o aprendizado de uma filtragem para melhor aproveitamento de qualquer programa de TV.

 

 

2 TV E MENSAGEM SUBLIMINAR

 

 

A televisão é, desde sua criação, considerada uma das maiores invenções da humanidade. A caixa mágica capaz de transmitir imagens e sons sempre despertou fascínio. Embora hoje contemos com tecnologia de ponta e tenhamos ao nosso dispor diversos meios de comunicação massiva, a televisão não deixou de ter seu papel fundamental na vida de homens, mulheres e crianças, nem com a praticidade e velocidade da internet.

 

Quando falamos em televisão, diversos podem ser os assuntos a se ligar com o termo. Quando se pergunta para as pessoas porque assistem à televisão ou por que vêem determinado programa, costumam dar respostas vagas, pouco precisas como: “porque gosto”, “porque me interessa”, “porque é divertido, “porque distrai”, “porque me acostumei”. Na verdade, a TV exerce sobre a sociedade um papel muito maior que estes acima citados, e o papel mais importante e ironicamente menos lembrado é o de socializador.

 

“A maior parte dos telespectadores não é consciente dos motivos pelos quais a televisão a atrai” (FERRÉS, 1998, p.91). O dia a dia das pessoas está tomado por informações e conteúdos televisivos e dificilmente uma pessoa que acompanha os acontecimentos do mundo por outros meios que não a TV, compartilha do mesmo ponto de vista da maioria. Mais que informar e entreter, a TV seduz e, ficção ou realidade, o que nela se passa é tido ludicamente como verdade dita ou imaginada.

 

Imperceptivelmente, tomamos atitudes baseadas no que vemos e vivemos, a TV nos traz influências diretas e indiretas de comportamento, opinião, valores, dentre muitos. As diretas são as tendências de moda, estilo de vida e comportamento que estão explicitas em conteúdos de programas, novelas, filmes, etc. Já as indiretas são aquelas que estão em segundo plano, feitas para não serem notadas, mas que ficam registradas no nosso inconsciente. Este tipo de mensagem recebe o nome de subliminar.

 

Segundo Flávio Calazans, autor do livro Propaganda subliminar multimídia (1992) e estudioso conceituado no assunto, o conceito de subliminar está definido como qualquer estímulo abaixo do limiar da consciência, estímulo que – não obstante – produz efeitos na atividade psíquica.

 

O termo subliminar tem sido muitas vezes utilizado de forma incorreta, com uma conotação de algo negativo (maligno) ocultado, quando na verdade, é todo estímulo não percebido, porém captado pelo cérebro e armazenado no campo do subconsciente latente. O conteúdo que sonhamos geralmente é proveniente deste subconsciente, prova de que não só o que focamos em primeiro plano é registrado por nós.

 

A técnica de inserção subliminar proposital teve início no cinema por volta de 1956, com a experiência Vicarysta de inserção de frames de 36/1 segundos de propaganda durante a exibição do filme. Na TV, podemos considerar que as inserções subliminares tiveram início com a introdução do merchandising. A técnica de merchandising não é considerada subliminar, porém é importante citá-la, pois a sua intenção é a de comunicar uma marca ou produto de forma a não se perceber a tentativa de persuasão.

 

A televisão subliminar é aquela que comunica invisivelmente, seduz despercebidamente, mesmo não sendo proposital. O subliminar pode estar contido tanto nas ações de uma personagem secundária e sem importância, como na atitude de um protagonista.

 

A maior parte dos espectadores não é consciente, enquanto assistem ao filme, do quando demonstram ser frágeis suas convicções quando são manipulados desde a emotividade. O triunfo na tentativa sedutora de uns personagens ou outros supõe o triunfo da ética que representam uns e outros. Ao acabar o filme, sem tê-lo advertido, o espectador foi emotiva e eticamente pego tanto pelo bem como pelo mal (FERRÉS, 1998, p.75).

O subliminar não pode assim, ser definido como bom ou ruim, bem ou mal. Joan Ferrés defende em seu livro Televisão subliminar – Socializando através de mídias despercebidas (1998), que se bem utilizada a mensagem subliminar pode servir para socialização do indivíduo que possui algum bloqueio ou resistência às regras do coletivo, tornando-se ferramenta imperceptível de convencimento.

 

 

3 O FENÔMENO DO REALITY SHOW “BIG BROTHER BRASIL”

 

 

Segundo Vanessa Curvelo em seu artigo Big Brother Brasil – realidades espetaculares (2002), estão enquadrados em um novo gênero televisivo definido como reality-show, os programas que envolvem veiculação de imagens de pessoas confinadas em uma casa, ou de uma disputa por “sobrevivência” em ambientes hostis, transmissão de competições por fama, promoção de um concurso onde casais têm sua fidelidade posta à prova por modelos contratados, e outras novas formas. Tendo esse tipo de programa televisivo chegado a vários países, gerando críticas acerca da privacidade ou de possíveis tendências voyeristas de telespectadores, como também a respeito de implicações pedagógicas, começa-se a discutir essa forma de produto televisivo e seu espaço na programação diária das emissoras de televisão.

 

No final da década de 90, o Brasil se viu invadido por esta tendência televisiva. O programa dominical “No limite”, exibido pela Rede Globo de comunicações foi um dos pioneiros, mas o gênero só teve destaque em 2000, com a chegada do Big Brother Brasil, programa no formato da produtora holandesa Endemol, que alcançou recordes de audiência e destaque na mídia.

 

A aceitação, por parte do participante, da apropriação, da livre edição e veiculação de qualquer imagem sua, a critério da emissora, é a condição para entrar no concurso e tentar obter um atraente prêmio em dinheiro instituído pela Rede Globo: um milhão de reais.

 

As imagens da convivência na casa montada pela emissora são editadas e veiculadas diariamente, com duração variada, indo de flashes de poucos minutos (ao vivo) até programas de mais de uma hora de duração com a interferência de apresentadores. Os participantes do Big Brother, durante o período de duração do programa, passam por testes (provas que a emissora sugere para a obtenção de alimentos extras e outras premiações) além de dificuldades derivadas da convivência e da impossibilidade de se comunicarem fora do círculo de pessoas participantes. São submetidos a diferentes situações e uma delas é o comportamento dos participantes diante de relacionamentos conflituosos.

 

Cada participante deve aceitar as regras desse contrato: a permanência na casa sob as determinações da emissora de TV (o uso de aparelhos celulares, internet e o acesso a informações externas são proibidos), a apropriação, a divulgação e manipulação de todas as imagens gravadas no decorrer do Big Brother, além da adequação à possibilidade de exploração da imagem pela rede de televisão após o término do programa. Essa aceitação tem por objetivo final ganhar o prêmio máximo, além da possibilidade de reconhecimento público (“fama”), pela participação no programa, embora os participantes não sejam artistas ou pessoas com algum feito digno de reconhecimento público.

 

Por parte da emissora, por sua vez, há o comprometimento de pagar o prêmio em dinheiro. Sobre o espaço que o programa teve na mídia, Curvelo (2002, p.03) afirma que:

 

Por ter objetivos de ordem econômica, visto que se trata de uma empresa com fins lucrativos, e por sua gramática, que lhe dita formatos e gerencia suas formas, a emissora que exibe o Big Brother Brasil promove uma exploração do texto-programa sob diversas formas. Essa promoção do programa envolve diferentes espaços midiáticos pertencentes à Rede Globo, além daqueles dedicados ao programa na grade de programação, uma vez que há interferências em outros programas, na forma de matérias sobre o Big Brother Brasil promovidas por outros espaços na emissora: Vídeo show, Domingão do Faustão, Fantástico, bem como todas as ações possibilitadas pelo website da empresa emissora. Isso cria todo um universo simbólico em torno do programa que se configura como uma promoção do próprio produto televisivo.

 

Esta ação de propagação dos efeitos do programa teve efeito positivo para emissora e sua ação expandida até por outras emissoras, já que “Big Brother” era o assunto que o público queria saber. Temos assim uma exposição excessiva de um conteúdo que na verdade não acrescentava valor social algum, uma ferramenta de conscientização de massa que, inteligentemente criado, não tinha proveito algum psicológico ou cultural.

Ferrés e Calazans são unânimes em defender que desde a popularização da TV, a programação televisiva tem alto percentual de participação da socialização, e os efeitos são maximizados no público infanto-juvenil, que absorve e guarda com mais facilidade mídias áudio visuais.

 

 

4 A INFLUÊNCIA DOS REALITY SHOWS NA SOCIEDADE

 

 

Por ser um programa de grande audiência, o Big Brother Brasil possui alto poder de influência sobre a nação de telespectadores. O sucesso com o público é tão grande que o programa gera até mídia espontânea, ou seja, outros programas, inclusive de outras emissoras, divulgam e noticiam o que ocorre dentro da casa de confinamento.

 

Não mais anônimos, os integrantes do jogo se tornam celebridades igualadas a estrelas do espetáculo das artes cênicas ou da música. O interessante disto é que eles não fazem nada além de conviver com os demais. Só o fato de estar em evidência faz com que se tornem notícia e gera no público o interesse repentino na vida do participante.

 

Sobre o fascínio que as estrelas despertam no público, Ferres (1998, p.115) afirma que:

 

As estrelas são uma demonstração inequívoca do caráter metonímico da sedução. Desde o adormecimento da realidade mediante a fragmentação, o ocultamento das dimensões negativas e o ofuscamento que produzem as positivas. Desde o fascínio, mediante os processos de transferência a partir das dimensões positivas que foram isoladas o seduzido constrói uma nova realidade, uma realidade ideal que pouco tem que ver com a primeira.

 

Para o telespectador a imagem estereotipada de uma celebridade é transferida automaticamente para os participantes, que por sua vez, não vislumbram o poder persuasivo que tem, e agem esquecidos que além das grandes ações que realizam na casa, os pequenos detalhes cometidos também são captados. Desta forma o espectador pensa ignorar o negativo e filtrar apenas o positivo, o que é um grande equívoco.

 

Mas que comportamento nocivo um cidadão pode ter dentro de um programa como este? Na verdade o que trazemos para este artigo não é um alerta moral sobre o reality em questão, mas sim um levantamento de dados embasados em obras reconhecidas cientificamente que, comparados a realidade atual prova que o programa como qualquer outra mídia tem sim poder de persuasão, mas que diferente delas, apresenta conteúdos sem pré-filtragem do que é exibido. Este tipo de poder possibilita uma mudança no comportamento social e tal poder está entregue na mão de pessoas que, sem preparação ou indiferentes às conseqüências, agem com objetivos individuais, se mostrando fúteis e vazios.

 

O programa que já está em sua sétima edição, raramente exibe algo que colabore com a sociedade e ao contrário, tem reforçado a diferença entre as classes e o culto ao corpo, estereotipando e ditando padrões de beleza. Todo o conteúdo é passado de forma simples e natural, como se fizesse parte da vida de todo mundo. A falta de privacidade acaba trazendo à tela de uma família, conteúdos que tem apelo sexual ou conotação erótica. Problema nenhum teria isto se o programa tivesse como público principal apenas adultos, o que não acontece, pois o Big Brother também é assistido pelo público infanto-juvenil e até direcionado para ele.

 

Atualmente é comum casos de frustrações entre jovens de 13 a 20 anos que dominados por este tipo de conteúdo, se submetem a rituais patológicos como a bulimia nervosa. Na primeira edição do Big Brother a participante “Leka”, empresária e promotora de eventos, teve seu problema divulgado em rede nacional, porém nenhuma campanha contra bulimia ou doenças semelhantes foi levantada à época, nem pela emissora, nem por nenhum outro veículo de comunicação.

 

Muitos outros conteúdos já foram foco no programa como: racismo, sexo livre, bigamia, homossexualidade, etc. Todos estes tiveram seus efeitos minimizados quando deveriam ter sido maximizados e abertos a discussão e vice versa.

 

Além do conteúdo gerado pelas situações ocorridas na própria casa pelos participantes, quadros complementares de humor feitos em desenho satirizam e ampliam conflitos, manipulando a mente do telespectador a fazer um julgamento às vezes errado, de atitudes tomadas pelos participantes. Esta manipulação indireta e subjetiva é o que aqui consideramos subliminar, ou seja, uma mensagem que imperceptivelmente influencia e convence o seu receptor.

 

Segundo Calazans (1992) uma população exposta a subliminares, teleguiada, que se veste, comporta-se, consome produtos, serviços, crenças, religiões, ideologias e vota em eleições levada por sugestões externas, subliminares, não pode ser considerada autônoma.

Tal colocação pode parecer exagerada, mas os autores citados indicam o contrário. Sérias pesquisas de grande porte, patrocinadas por multinacionais com verbas absurdas e alta tecnologia empregada, também são um sinal da importância dada aos subliminares.

 

 

5 CONCLUSÃO

 

 

Este artigo trouxe à discussão a importância do conteúdo exibido na televisão, principalmente do conteúdo subliminar e de suas influências imperceptíveis. O programa Big Brother Brasil foi estudado devido a sua repercussão, já que é o programa de maior audiência no Brasil. Analisamos também a influência que as mensagens subliminares exibidas pelo programa têm sobre o contexto psíco-social, visando contribuir para um melhor aproveitamento desta ferramenta tão preciosa para a comunicação, a televisão.

 

O assunto está longe de ser esgotado, pois é carente de conhecimento e exige maior aprofundamento, reflexão e pesquisa. Portanto, tal discussão torna-se relevante especialmente para os profissionais da área de comunicação, já que são os principais responsáveis pelo que se vê, ouve e consecutivamente pelo que se pensa. Não quisemos aqui jamais censurar o direito da liberdade de expressão, mas sim provocar a reflexão sobre a responsabilidade de inibir ou manipular a opinião alheia de forma inconsciente, para que possamos ter na TV não apenas um veículo de diversão e entretecimento, mas também um veículo de formação e socialização.

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

CALAZANS, Flavio. Propaganda subliminar multimídia. 5.ed. São Paulo: Summus Editorial, 1992.

 

CURVELLO, Vanessa. Big Brother Brasil: Realidades espectacularizadas. Artigo Científico. Disponível em:http://www.bocc.ubi.pt/pag/curvello-vanessa-realidades-espetacularizadas.pdf. Acesso em 05 mai. 2007.

 

FERRÉS, Joan. Televisão subliminar: socializando através de comunicações despercebidas. Porto Alegre: Artmed, 1998.

 

1 Estudante de Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda da Faculdade Estácio de Sá de Vitória.

 

2 Mestranda em Educação, Administração e Comunicação pela Universidade de São Marcos e professora do Curso de Comunicação Social da Faculdade Estácio de Sá de Vitória.

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publicado às 23:45

Hai Kai

por blogdobesnos, em 02.04.12

Anteontem pela tarde, estava aguardando o ônibus R41, que me leva para a escola. Distraído, olhava os carros, as pessoas, deixava o pensamento vagar, errante. Tenho muitas vezes o raro privilégio de não pensar em nada, de simplesmente aproveitar os momentos, de relaxar mentalmente. Pois naquele momento estava assim: peixe abandonado na correnteza, barquinho de papel navegando…

 

De repente, percebo, bem na minha frente que duas adolescentes começam a conversar. São esbeltas, ambas, com uma elegância teen, sem exageros. Uma usava sandálias, outra uma camisa jogada sobre o corpo, e ambas eram japonesas; enquanto aguardavam o ônibus, eu me deliciava ouvindo a musicalidade das suas falas, que fluía estabelecendo pontes de encantamento. Elas, por sua vez, pareciam dizer, com suas presenças,  que eram, sem qualquer dúvida, filhas de uma cultura milenar misturada com as ocidentalidades que todos nós conhecemos.

 

Enquanto a brisa amainava um pouco o calor da tarde e o ônibus não vinha, fiquei ali encantado, observando-as como se estivesse em São Paulo, ou em Curitiba ou em Tóquio. Talvez, na passagem do tempo, Porto Alegre esteja realmente ficando uma cidade grande. A brisa aumentou quando eu entrei no coletivo, mas a suavidade eu a sentia vinda da conversa mansa indiscretamente ouvida. 

 

As referências ao Japão me põem em paz, me fazem sentir bem, como um cicio, como um sussurar onde descabe as estupidezas do dia-a-dia.

 

Mais tarde, ao lembrar das duas adolescentes, me senti, talvez, um hai-kai.

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publicado às 23:33

Es preciso

por blogdobesnos, em 02.04.12

O Brasil da elite foi cooptado historicamente pelos portugueses, após pelos franceses e, por último pelos norte-americanos. Dentro desse cenário, buscamos construir muito mais identidade com a Europa e com a América do Norte do que com os nossos vizinhos latino-americanos. Dentro de tal quadro, as classes economica e socialmente ascendentes buscaram sempre modelos que negassem ou minimizassem a origem “Casa Grande e Senzala” de Gilberto Freyre, embora ambas – casa grande e senzala – tivessem ajudado a moldar o inconciente coletivo de uma nação multi-tudo (multicultural, multisocietária, multi-étnica, multipartidária, multireligiosa). 

 

O que foi chamado de “geléia real” por Gilberto Gil continua sendo a grande diferença que nos torna mais tolerantes, mais criativos, mais adaptáveis que uma infinidade de povos.

 

Paralelamente, ao buscarmos modelos europeus e/ou anglosaxonicos, findamos por nos afastar de nossos vizinhos latino-americanos. Sabemos muito bem criar estereótipos acerca de nossos vizinhos de lengua hispânica, digamos assim. A consideração de que somos o único povo da América Latina a falar português, e não espanhol, é relevante. Afinal, somos mais de duzentos milhões que praticamos diuturnamente uma língua que não é a dos outros sítios do continente.

 

Isso explica esse afastamento cultural? Creio que sim e que não.  No entanto, seja qual for a discussão a respeito do assunto, nossas referências culturais são bem mais americanas e inglesas do que propriamente latinas, embora nosso comportamento esteja muito distante da Europa e dos Estados Unidos. Como padrão das classes dominantes e que possuem acesso aos meios culturais, econômicos e financeiros, preferimos inegavelmente o sorry, o enchantée, o ne me quitte pas, o envyroment e o profile ao gracias, mucho gusto, às ramblas; mais fácil encontrarmos moonlight serenade nas novelas do que algum tango ou bolero. São raríssimas as excessões, e a trilha sonora da novela A Preferida, da Rede Globo, foi uma delas.

 

Pois bem, seguindo essas mesmas referências, produções artísticas e culturais latinas poucas vezes obtém o espaço merecido nas nossas encantadoras e mercantilizadas midias. Deste ponto de vista, porque conhecer Fito Paez, se Beyoncée vende bem mais, porque escutar  La Negra quando um rap rastaquera qualquer produzido e enlatado em USA é bem mais rentável do ponto de vista da domesticação das mentes. Claro, se Fito Paez ou se Bajofondo tivessem pedigrée americana ou inglesa, sem dúvida já teríamos tido mega-eventos (com a indefectível presença de Ivete Sangalo) televisionados para todo o país pela Rede Globo, óbvio.

 

Se Ricardo Darín fosse americano, ele não seria a surpresa na qual se constitui sendo protagonista de Segredo dos Seus Olhos, produção argentina. Muitos mais já o conheceriam através do Filho da Noiva, de Kamchatka ou do Clube da Lua. No caso, já teria sido entrevistado pelo Programa do Jô, feito uma pontinha na novela das oito e mesmo teria conversado com a Marília Gabriela, no GNT. Exagero, without doubt no.

O Segredo dos seus olhos segue uma tradição de vários filmes latino-americanos que abordam temas por vezes bastante complicados com uma sensibilidade ímpar.

 

Os roteiros não deliram, não existe grandes produções, menos ainda efeitos especiais espetaculares e espetaculosos. Não somente a Argentina tem grandes atores. Histórias que poderiam ocorrer conosco e que, por isso mesmo, nos colocam frente a frente às nossas instabilidades, comédias e dramas são a grande receita da cultura cinematográfica latina. Que não se busquem super-heróis, grandes armadilhas e efeitos grandiloquentes, menos ainda justiceiros; mesmo o sexo é contido, não facilmente comercializável. É preciso abandonar essa posição antilatina, essa comiseração na qual nos afundamos. Es necesario que las peliculas de latinoamerica sean miradas con ojos de verdad, de encantamento.

Ganharíamos todos.

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publicado às 23:31

Jeferson, empatia, gentileza e outras observações

por blogdobesnos, em 02.04.12

Hoje, meio dia, me encontrava dentro de um centro de condutores de veículos (cvc) próximo onde moro, para marcar um novo exame para habilitar minha carteira de motorista. Estava um pouco preocupado com o horário, pois tenho de estar na escola as 13h30min, mas ainda não tinha almoçado. Entro no cvc e tem uma pessoa na minha frente sendo atendida e outra aguardando atendimento. 

 

Fiz uma ou duas perguntas para me certificar de que deveria aguardar ali e sentei-me, pensando se teria tempo para almoçar e estar na escola no horário certo.  Professor quando se atrasa não é exatamente igual a outro profissional quando se atrasa, porque há uma turma inteira esperando para ser atendida ou, muitas vezes, rezando para não ser atendida. De qualquer modo, quando nos atrasamos, pelo menos vinte ou trinta pessoas ficam marcando de cima. Como não queria isso, fiquei preocupado. Estou ali, quieto, quando quem estava sendo atendido levanta e sai.

 

“Só falta uma pessoa”, me veio o pensamento, mas foi aí que o jovem que me antecederia disse: “Senhor, por favor, pode passar na minha frente”.  Eu quase não acreditei, mas foi o que aconteceu. Depois, em meio ao atendimento, que foi realmente rápido, perguntei o nome dele: Jeferson (não sei se com um f ou dois, e menos ainda seu sobrenome, mas isso não importa aqui). Agradeci e disse que este tipo de atenção era algo raro. Mais: disse que ía escrever sobre o fato no meu blog. Dei-lhe o endereço.

 

Graças à gentileza, pude almoçar e pegar o ônibus, chegando na escola na hora certa. Mas isso só ocorreu porque, de repente, um desconhecido total, chamado Jeferson, teve a sensibilidade suficiente para entender a minha pressa, mesmo sem ter falado com ele, e ter permitido que eu passasse à sua frente. Duas palavras: gentileza e empatia. Gentileza como qualidade de espírito, empatia como a capacidade de se colocar no lugar do outro. Cada vez isso se torna menos comum.

 

Pego ônibus para ir para a escola. Observo: cada vez as pessoas conversam menos, embora adorem atender ao celular e falar bem alto, se possível tratando de suas questões pessoais; cada vez menos as mulheres, mesmo grávidas, e as crianças ou os idosos tem qualquer preferência para viajarem sentados. O mundo do individualismo narcisístico pode ser observado em várias situações do dia-a-dia.  Por isso, o comportamento do Jeferson foi surpreendente. Talvez porque tenha se revestido de gentileza, que é simplesmente uma atenção desinteressada que se faz a um terceiro.

 

Normalmente tudo hoje em dia é objeto de compra e venda, de modo que a cada pequena gentileza temos de retribuir com algo, num toma-lá-dá-cá que rege as nossas vidas, e que torna o desinteresse algo anacrônico. Mas, sem dúvida, prefiro bem mais os comportamentos, no caso, anacrônicos, demodês.

 

Hoje nos surpreendemos com as atitudes que deveriam ser as mais comezinhas, porque estamos mergulhados em uma sociedade de consumo e de consumidores, no qual o padrão capitalista rege tudo. Sempre queremos algo em troca, seja do ponto de vista econômico, social ou afetivo. Perdemos em sociabilidade, em educação, em convívio mas, em compensação, ganhamos muito em nossas solidões tristes e comovidas.

Obrigado, Jeferson, pela sua gentileza e empatia. De verdade.

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publicado às 23:29

And the Oscar goes to

por blogdobesnos, em 02.04.12

Avatar, de James Cameron, não ganhou o Oscar de melhor filme. A megaprodução não abocanhou o prêmio mais cobiçado da noite do Teatro Kodak, que ficou com Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow, produção modesta para os padrões americanos.

 

Há aqui, alguns fatos a ser mencionados: Bigelow é ex-mulher de Cameron, foi a primeira a receber um Oscar como melhor diretora e justo na madrugada que o mundo comemorava o Dia Internacional da Mulher. Muito significativo. Mais: Guerra ao Terror não conseguiu financiamento nos Estados Unidos, talvez por ser uma crítica à violência da guerra do Tio Sam contra o Iraque. No bargain no money. O dinheiro veio da França.

 

Avatar ganhou os prêmios de melhor fotografia, melhor direção de arte e melhor efeito visual.  Up ficou com duas estatuetas: melhor filme de animação e melhor trilha sonora. Nada mais ajustado do que a parceria Disney Pixar. O Segredo dos seus olhos, produção argentina dirigida por Juan Jose Campanella ficou como melhor filme estrangeiro. Não assisti ainda, mas muitos, inclusive meu querido amigo Hamilton disseram que la pelicula es imperdible.

 

E assim ficou o Oscar. Minha maior satisfação? Ver que a Argentina já ganhou sua segunda estatueta, uma com História Oficial em 1985 e agora, com O segredo dos seus olhos, em 2010. O país já teve seis indicações ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

 

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publicado às 23:28

Elogio da linearidade

por blogdobesnos, em 02.04.12

O texto abaixo foi enviado por Gabriel Besnos, e achei muito relevante. A autoria do mesmo é de Marcelo Trasel.

 


Elogio da linearidade

 


Marcelo Trasel – www.trasel.com.br

 

 

A Zero Hora publicou há algumas semanas matéria especial sobre os desafios colocados pelos jovens de hoje para as escolas. Sem grandes novidades: pedagogos reconhecem a defasagem entre o modelo de educação atual e as habilidades desenvolvidas pelas crianças através do uso de computadores, telefones móveis, jogos eletrônicos e outros elementos da cibercultura. Dizem que é preciso mudar a forma de ensinar e um entrevistado, Paulo Al-Assal, vem com aquela arenga de sempre sobre a escola matar a criatividade e tudo o mais.

 

Os problemas todos são pendurados na conta dos educadores, considerados anacrônicos, mas a meu ver a questão é um pouco mais complexa. Em primeiro lugar, é preciso admitir que, de fato, muitos professores desconhecem as ferramentas de comunicação e entretenimento digitais e passam longe das redes sociais. Em geral esse professor passa a ser desvalorizado, considerado um dinossauro.

 

Cabe perguntar-se, no entanto: realmente queremos um sistema educacional reconstruído com base na personalidade da nova geração?

A meu ver, a resposta é que devemos fazer adequações no sistema educacional, mas não reinventá-lo completamente. Isso porque o formato de aula do século XIX desenvolve uma habilidade importante e não-inata nos seres humanos: a linearidade. Como diz o pesquisador André Lemos, ser hipertextual é a configuração padrão do ser humano, a linearidade é que exige treino.

 

E treino duro. Deixada à própria sorte, nossa mente passa de imediato a realizar livre-associações. Os alunos atuais não se dispersam porque a Internet os acostumou a começar uma busca procurando por dados sobre a extensão do Rio Amazonas e terminar tendo frio na espinha ao ler notícias sobre pessoas atacadas pelo candiru. Eles se dispersam porque nossa mente é dispersiva e a Internet é uma reprodução técnica desse caráter hipertextual do pensamento.

 

Um livro didático oferece poucas chances de dispersão, pois, em geral, é organizado em uma sequência lógica da menor para a maior concentração de conhecimento. As boas e velhas enciclopédias impressas já ofereciam risco mais alto de dispersão, pois ao lado do verbete sobre o Rio Amazonas podiam aparecer ilustrações de guerreiras sensuais montadas a cavalo, ou uma remissão a Manaus, ao Ciclo da Borracha e daí para Deus sabe onde. Ainda assim, a necessidade de folhear ou buscar outro volume na estante dava ao estudante tempo para se dar conta da dispersão e retornar ao trabalho. Na Web, basta um clique e imediatamente se está em uma nova página, com novos links e novos caminhos abertos.

 

É como o fluxo do pensamento. A mente à solta deriva para todo lado. Saímos correndo atrás da primeira linha raciocínio que aparece, assim como os cachorros correm latindo atrás dos carros passando na rua.

 

Diversas culturas criaram tecnologias cognitivas para evitar essa dispersão ao longo da história. No Oriente, surgiu a meditação, cujo principal objetivo é justo ensinar a mente a ficar quieta em seu lugar enquanto os carros passam. No Mediterrâneo, surgiu a retórica, com suas técnicas para organizar o discurso de forma linear. Na Europa, o códex deu uma base material à linearidade do pensamento, com a colocação organizada das idéias página após página numerada.

 

O homem se esforça há milênios para tentar ser linear. A linearidade só perdeu prestígio no século XX, sob ataque das artes e da teoria literária. No momento em que os seres humanos, através da indústria cultural, sobretudo da televisão, passaram a ter contato diário com diferentes culturas — por mais enquadrado numa determinada visão de mundo que fosse esse contato –, perceberam estar sob o domínio um discurso monolítico, de um imaginário do progresso, e sentiram-se prisioneiros. Veio o Maio de 1968, veio a contracultura americana, veio o punk e diversos outros movimentos de libertação dos discursos. Veio o Pós-modernismo e o elogio da hipertextualidade, da polissemia. Esquecemos o valor da linearidade.

 

O mundo ficou muito melhor com o fim da repressão dos discursos totalitários, não se pode negar. Há muito mais liberdade hoje do que há um século. Mas convém não jogar o bebê fora com a água do banho. É bom abraçar os avanços proporcionados pelo reconhecimento do caráter hipertextual da mente, mas sem deixar de lado os benefícios da linearidade.

 

Infelizmente, não há outro espaço social para desenvolver a linearidade que não seja a escola. Portanto, a escola sempre foi e sempre será castradora. Os alunos não têm culpa de se sentirem desconfortáveis com a linearidade das aulas. É mesmo uma violência obrigar-se a focar a atenção por horas a fio todos os dias — e, antes de ser adulto, é difícil enxergar o valor de sacrificar-se em nome de um objetivo. Foucault dizia, não à toa, que a educação é “deixar-se foder pelo social” — o que não significa uma recomendação para deixar a escola por parte do filósofo francês, mas apenas uma provocação para incentivar os espíritos a buscarem autonomia. Os adultos, porém, não têm desculpa, exceto a imaturidade, para não ver os benefícios proporcionados pela escola.

 

Imaturidade é a chave aqui. A mente imatura detesta a linearidade. É a mente combatida, até certo ponto, pela meditação, e, às últimas consequências, pela filosofia. Pode ser difícil reconhecer o valor do treinamento na linearidade quando passamos a atuar no mundo adulto, mas ele é essencial para a maior parte das situações profissionais. O problema das técnicas cognitivas é que os novos comportamentos se tornam anteriores às ações e, assim, passamos a confundir os padrões de pensamento com nosso próprio eu. Ou seja, quem passou pela escola acredita que sempre foi linear, porque se vê capaz de focalizar a atenção numa tarefa com grande competência. Pelo retrovisor, a escola parece ensinar apenas aquilo que já sabíamos o tempo inteiro.

 

Nossa cultura vem se tornando cada vez mais imatura. A juventude domina o imaginário social. A medicina luta contra o envelhecimento. A moda faz os adultos parecerem adolescentes. A falta de compromisso é sinônimo de liberdade. Infelizmente, os aspectos mais negativos da juventude parecem ser os mais valorizados. Em vez da abertura da mente de principiante de que falava Shunryu Suzuki e da seriedade ao brincar de que falava Nietzsche, temos o narcisismo típico da infância. Narcisismo que leva a considerar o individual sempre superior ao social. Neste caso, leva à conclusão de que a escola precisa se adaptar aos estudantes, não os estudantes à escola.

 

A escola tem de mudar suas práticas — em alguns casos, mudar muito — sem abandonar, no entanto, os princípios fundamentais. É saudável que os alunos possam questionar os professores e que estes não se vejam mais como detentores únicos do conhecimento; é saudável que os professores deixem de ser figuras de autoridade para se tornar facilitadores do processo de aprendizagem; é saudável adotar as ferramentas oferecidas pelas tecnologias de computação e informação na sala de aula. Mas também é saudável manter ao menos um reduto da tradição ocidental de raciocínio linear, que bem ou mal nos trouxe até um momento histórico no qual as condições de vida são suficientes para passarmos a questionar a própria idéia de progresso histórico.

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publicado às 23:25

Não somos elefantes

por blogdobesnos, em 02.04.12

O elefante afastou-se da manada. Sabia que havia chegado o momento de morrer. Os elefantes reservam-se o direito de morrerem em paz. Nós, humanos, não podemos tanto. Nossa morte normalmente é documentada, de uma ou outra forma. Temos certidões de óbito. Alguém atesta que morremos, em primeiro lugar o médico, em segundo o Poder Público. Quando morremos geramos certidões, herdeiros, trabalho para advogados, para a Justiça, para cartórios, para prestadores de serviços, enfim, há muita gente que lucra com a nossa morte.

 

Em compensação, podemos, pelo menos teoricamente, determinar se queremos virar literalmente pó, ou se queremos ser enterrados em uma parede ou no solo. Digo teoricamente, porque nossas formações religiosas impõem regras. A não ser que sejamos indigentes, miseráveis e ninguém reclame nosso corpo. Temos então a probabilidade de que, post mortem, sirvamos para que jovens estudantes estudem nossas omoplatas, nossas costelas, talvez nossos músculos. Ou eles ou algum perito judicial.

 

Assim, como vemos, não só as possibilidades são muitas após a morte, do ponto de vista material, como igualmente são muitas do ponto de vista transcendental. Para uns, acabado o corpo, acabou tudo. Para outros, dependendo do que fizermos, vamos para o limbo, para o inferno ou para o céu. Para alguns, reencarnaremos até aprendermos o que, nessa vida, ignoramos. Ainda há aqueles que crêem na vida eterna, em um Poder Maior que nos perdoará e orientará quando, enfim, nossos pulmões e nosso cérebro simplesmente nos abandonarem.

 

Vamos deixar por aqui muito, muito mesmo, talvez bem mais do que possamos supor.

 

Um dia, vão rezar por nós, e talvez até estejam certos em fazer isso, embora uma parte da humanidade vá classificar tais atos de rememoração como vazios, sem sentido, submissos, vãos. Não importa. Afinal, feliz ou infelizmente, não somos elefantes.

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publicado às 23:13

Dany-Robert Dufour O homem neoliberal: da redução das cabeças à mudança dos corpos

por blogdobesnos, em 02.04.12

MD, abril 2005

 

 

CULTURA

O homem neoliberal: da redução das cabeças à mudança dos corpos

 

Dany-Robert Dufour

 

 

 


A suspensão atual das proibições esconde um verdadeiro projeto pós-nazista sustentado pelo capitalismo.

Ao mesmo tempo em que quebra as regulamentações simbólicas, possibilita que a técnica avance sozinha até quebrar a humanidade.

Dany-Robert Dufour

 

 

 

Em L’art de réduire les têtes1, eu havia tentado evidenciar a profunda reconfiguração das mentes realizada pelo mercado. A demonstração era relativamente simples: o mercado recusa qualquer consideração (moral, tradicional, transcendente, transcendental, cultural, ambiental…) que possa impedir a livre circulação da mercadoria no mundo. É por isso que o novo capitalismo tenta desmantelar qualquer valor simbólico unicamente em benefício do valor monetário neutro da mercadoria. Dado que não há mais nada senão um conjunto de produtos que são trocados por seu estrito valor comercial, os homens devem livrar-se de todas as sobrecargas culturais e simbólicas que, até há pouco tempo, garantiam suas trocas.

 

Tem-se um bom exemplo dessa dessimbolização produzida pela expansão do reino da mercadoria quando se examina o papel-moeda emitido em euro. Observa-se que estas notas perderam as efígies das grandes figuras da cultura que, de Pasteur a Pascal e de Descartes a Delacroix, indexavam, ainda ontem, as trocas monetárias sobre os valores culturais patrimoniais dos Estados-nação.

Hoje, não há nada impresso nos euros além de pontes e portas ou janelas, exaltando uma fluidez desculturada. Pede-se aos homens que se curvem ao jogo da circulação infinita da mercadoria. Pode-se dizer, portanto, que a lei do mercado é destruir todas as formas de lei que representem uma pressão sobre a mercadoria.

 

Ao abolir qualquer valor comum, o mercado está em via de fabricar um outro “homem novo”, privado de sua faculdade de julgar (sem outro princípio que o do lucro máximo), levado a usufruir sem desejar (a única salvação possível encontra-se na mercadoria), formado em todas as flutuações identitárias (não há mais sujeito; existem apenas subjetivações temporárias, precárias) e aberto a quaisquer conexões comerciais. Estamos, aqui, diante de um aspecto muito particular da desregulamentação neoliberal que, infelizmente, ainda não é bem compreendida, mas que já produz efeitos consideráveis em todos os domínios, particularmente sobre o psiquismo humano. Um certo número de psiquiatras e de psicanalistas está fazendo o inventário dos novos sintomas decorrentes desta desregulamentação, como a depressão, as diversas dependências, as perturbações narcisistas, a extensão da perversão etc.

 

 

Desregulamentação simbólica

 


Esta desregulamentação de tipo novo provoca grandes confusões nos debates atuais. Ela é acompanhada de um cheiro libertário, baseado na proclamação da autonomia de cada um e numa extensão da tolerância em todos os campos sociais (dentre os quais o dos costumes), que tende a fazer acreditar que estamos em vias de viver um intenso período de libertação. Dado que o antigo patriarcado opressivo está em desvantagem, acredita-se que uma revolução sem precedentes estaria a caminho… esquecendo-se de que foi o próprio capitalismo que comandou esta “revolução” visando a facilitar a penetração da mercadoria nos domínios onde ela ainda não reinava – o dos costumes e o da cultura.

 

Karl Marx não se enganava quanto a essa face “revolucionária” do capitalismo: “A burguesia”, escrevia ele, “não pode existir sem provocar, constantemente, grandes mudanças nos instrumentos de produção, portanto nas relações de produção e, portanto, no conjunto das condições sociais. De modo contrário, a primeira condição de existência de todas as classes industriais anteriores era manter inalterado o antigo modo de produção. O que distingue a época burguesa de todas as precedentes é a incessante introdução de mudanças na produção, a desestabilização contínua de todas as instituições sociais, em resumo, a permanência da instabilidade e do movimento.

 

Todas as relações sociais enferrujadas, com seu cortejo de idéias e de opiniões admitidas e veneradas, dissolvem-se; as que as substituem envelhecem antes mesmo de se esclerosarem. Tudo o que era sólido, bem definido, se desmancha no ar, tudo o que era sagrado se encontra profanado e, afinal, os homens são forçados a considerar com um olhar desiludido o lugar que ocupam na vida e suas relações recíprocas2.” Esta capacidade de transformar as relações sociais atingiu o ponto máximo através desse novo estado do capitalismo que é chamado às vezes, e om razão, de “anarco-capitalismo”.

 

Essa transformação funcionou tão bem que houve quem tentasse reter apenas o lado “libertário”, “jovem” e “conectado” da nova forma, empolgando-se, sem grandes dificuldades, com a revolução dos costumes que ela introduzia. A confusão é tal que quem não faz outra coisa senão seguir essa desregulamentação cultural e simbólica acredita-se muitíssimo revolucionário – penso na parte da esquerda conectada que se entusiasma com todas as “causas tendência”. Ora, é exatamente o que quer dizer o anarco-capitalismo que gosta, se não da “revolução”, pelo menos de todas as formas de desregulamentação culturais e simbólicas. Todos os spots publicitários mostram isto.

 

 

Perigos potenciais

 


Parece que as populações pressentem os consideráveis perigos potenciais que a civilização corre diante de tal desregulamentação simbólica. Mas o Mercado pode recuperar tudo em seu proveito: muitos grupos já estão agindo, vangloriando-se e vendendo morais de péssima qualidade. Ora, seria um erro crucial deixar o debate sobre os valores para os conservadores, sejam eles antigos ou “neo”. De fato, se se abandonar esse terreno, ele será, como nos Estados Unidos, ocupado por George W. Bush, pelos tele-evangelistas e seus supostos puritanos, ou, como na Europa, pelos populismos fascistizantes.

 

Portanto, é urgente construir uma nova reflexão sobre os valores, sobre o sentido da vida em sociedade e sobre o bem comum destinado às populações confusamente alarmadas pelos estragos morais devidos à extensão infinita do reino da mercadoria. É claro que, se esse terreno não for cercado, essas populações serão tentadas a pender para o lado dos que o ocupam de forma tão barulhenta quanto indevida.

Entretanto, restringir o debate a esses aspectos culturais seria cometer um grande engano. Porque parece que essa reconfiguração das mentes não é senão a primeira fase de um mecanismo mais amplo. Para dizê-lo em poucas palavras, a “redução de cabeças” e a dessimbolização são apenas o prelúdio de uma outra redefinição em profundidade do homem, a qual, então, atingiria não só sua mente, mas também seu corpo.

 

 

Momento decisivo

 


Essa dessimbolização do mundo ocorre num momento decisivo da aventura humana: é a primeira vez na história do ser vivo que uma criatura chega a ler a escrita da qual ela é a expressão. Com tal seqüência, tornou-se possível um acontecimento incrível: o instante em que a criatura vai poder voltar à criação para se refazer. O instante em que a criatura vai interferir em sua criação e pôr-se como seu próprio criador. Chega, pois, o momento inconcebível em que uma espécie vai poder intervir em seu próprio devir substituindo as leis naturais da evolução.

Tudo acontece como se a recomendação humanista lançada no Renascimento por um de seus grandes pensadores, Pic de la Mirandole, tivesse sido ouvida além de todos os limites.

 

Pic queria introduzir, de encontro às antigas formas de dominação absoluta pelo divino, um pouco de livre arbítrio humano. Deste modo, convocava o homem a “esculpir sua própria estátua3 ”. O apelo foi ouvido por toda a filosofia posterior, pois esta pode ser considerada como um desenvolvimento muito longo do tema do livre arbítrio humano, da construção do cogito cartesiano ao tema da morte de Deus em Nietzsche, passando pelo ideal crítico do Iluminismo.

 

Ora, o homem atual está em via de ultrapassar esse ideal dado que, se estiver efetivamente em via de “esculpir sua própria estátua”, esta bem poderia ser uma estátua viva, chamada a substituir a do próprio homem. Observemos, de passagem, que isso não seria nada menos que o fim da filosofia, que seria abrangida numa tal intenção de redefinição das bases materiais da humanidade.

 

Sua realização suporia, de fato, a transformação irremediável de um empreendimento, incessantemente relançado desde a Antiguidade, de reforma do espírito (pela ascese, pela busca da autonomia, pela refundação do entendimento) num objetivo puramente tecnicista de modificação do corpo. Mas de que serviria ganhar um corpo novo se isto significasse perder o espírito?

 

 

Fukuyama e a “pós-humanidade”

 


É mais importante ainda colocar a questão à medida que existe um programa difuso de fabricação de uma “pós-humanidade”. Tal programa é dissimulado, quase não se lhe dá publicidade. Não se deve assustar os homens; principalmente, eles não podem compreender que os fazem trabalhar na abolição da humanidade – isto é, em seu próprio desaparecimento.

 

O mundo do ser vivo foi de tal forma cercado pelo capitalismo, a fim de nele desenvolver novos espaços para a mercadoria, que algumas de suas conseqüências possíveis sobre a própria humanidade acabaram atravessando o muro do silêncio. É assim que Francis Fukuyama – o arauto do neoliberalismo, que havia proclamado, depois da queda do muro de Berlin, o início do “fim da história” com o advento generalizado das democracias neoliberais – teve que se retrair e admitir que o triunfo do mercado não era o último episódio da história humana. Um outro se seguiria: a transformação biológica da humanidade4 . Mas este abrir de olhos não lhe foi senão a oportunidade de cair num novo erro de avaliação.

 

Francis Fukuyama quer acreditar que o neoliberalismo poderá preservar-nos dessa engrenagem fatal… quando é ele que nos leva diretamente a ela! Para ele, na verdade, a democracia de mercado seria um estado perfeito se não estivesse ameaçado pelo desenvolvimento de algumas técnicas: “Uma técnica suficientemente poderosa para remodelar o que somos pode bem ter conseqüências potencialmente ruins para a democracia liberal5 .”

 

Evidentemente, é necessário convir quanto a isto: se não há mais homens, a democracia corre o risco de se esvaziar. Para evitar semelhante perigo, bastaria, segundo Fukuyama, que “os países regulassem politicamente o desenvolvimento e a utilização da técnica”. Piedosa intenção que não come pão e que lhe permite manter-se em silêncio a respeito do essencial: é o mercado que mantém o desenvolvimento infindável das tecno-ciências, as quais, não reguladas, conduzem diretamente para uma saída fora da humanidade.

 

 

Da pós modernidade à pós história

 


Este elo, no entanto, é claro: dado que o mercado implica o fim de qualquer forma de inibição simbólica (isto é, o fim da referência a qualquer valor transcendental ou moral em proveito unicamente do valor comercial), nada, caso se permaneça nesta lógica, poderá impedir que o homem se liberte de qualquer idéia que pretenda mantê-lo em seu lugar e que saia de sua condição ancestral tão logo tenha os meios para tal. Portanto, não é a ciência sozinha, como se diz com freqüência, e sim a ciência mais o efeito deletério do mercado sobre os valores transcendentais que estariam em condições de permitir a realização desse programa.

 

É preciso, pois, se colocar a questão: existirá, em nossas democracias pós-modernas onde se pode dizer tudo, uma instância política para decidir se nós queremos ou não essa mutação? Nada é menos certo.

 

Ora, a ausência desse lugar tem um peso importante. Vê-se onde o programa de fabricação de uma pós-humanidade poderia levar: diretamente à entrada numa era de produção de indivíduos ditos superiores tendo escapado à geração. E indivíduos inferiores para as tarefas subalternas. A existência, banalizada, de organismos geneticamente modificados deveria pôr a pulga atrás da orelha: poder-se-ia, a curto prazo, empreender fabricar, por clonagem e modificação genética, novas variantes humanas. É até verossímil que experimentações estejam em curso ou possam não demorar a estar.

 

Quando esse dia chegar, teremos passado da pós-modernidade, período perturbado pelo desmoronamento dos ídolos, à pós-história. Se ninguém pode prever o que será isto, pode-se, entretanto, dizer o que não será mais. Porque significa o desenlace de cinco grandes topoï da humanidade: o fim da humanidade comum, o fim da fatalidade costumeira da morte, o fim da individualização, o fim do ordenamento (problemático) entre os sexos e a desorganização da sucessão de gerações.

 

 

Perigo para o animal inacabado

 


O perigo que ameaça a espécie humana não é só o perigo eugênico. O que está em perigo, a curto prazo, é também e simplesmente a conservação e a perpetuação da própria espécie. Esta conservação não procede de si mesma; ela passa por um contexto simbólico e cultural. Isto se explica pelo fato, reconhecido por uma parte da pesquisa paleoantropológica, de que o homem é concebível como um ser de nascimento prematuro, incapaz de atingir seu desenvolvimento germinal completo e, entretanto, capaz de se reproduzir e de transmitir suas características de juvenilidade, normalmente transitórias entre os outros animais.

 

Fala-se a esse respeito da neotenia do homem6 . Ela implica que este animal, não acabado, diferentemente dos outros animais, deve acabar-se em outro lugar que não na primeira natureza, isto é, numa segunda natureza, geralmente chamada cultura.

 

Encontram-se muitas coisas nessa segunda natureza: deuses, relatos, gramáticas referindo-se a qualquer objeto do mundo (as estrelas, os seixos, os micróbios, a música, a narrativa, o cálculo, a subjetividade, a sociabilidade…), uma intensa atividade protética (todos os objetos que permitem a esse animal não acabado habitar o mundo), leis, princípios, valores… Ora, se esse quadro for deteriorado, se as leis e os princípios que o regem se tornarem fluidos, pode-se esperar não só efeitos individuais e sociais deletérios, mas também ameaças sobre a espécie, pois nada mais será suficientemente legítimo para se opor a manipulações visando a transformá-la assim que possível.

 

 

A domesticação do Ser

 


Algumas vozes já se fazem ouvir na intelligentsia para acolher a suposta boa nova e próxima mutação do homem. De modo muito especial, o filósofo alemão Peter Sloterdijk, que já se tornara famoso por haver feito no final de 1999, no além-Reno, uma conferência intitulada Règles pour le parc humain [Regras para o parque humano] 7 , por ocasião de um seminário dedicado a Heidegger. Esta conferência suscitou uma grande controvérsia, particularmente com Jürgen Habermas. Os propósitos desse “nietzschiano de esquerda” parecem muito significativos do modo como a desregulamentação simbólica atual pode confundir as mentes.

 

Numa outra conferência realizada no Centro Georges Pompidou, em março de 20008 , Sloterdijk retomou uma tese de Heidegger, mas para invertê-la. Não se tratava mais de dizer que a técnica era “esquecimento do Ser”, mas de proclamar que ela contribui para a “domesticação do Ser”, sendo esse o atributo maior do homem neotênico, levado a se produzir a si mesmo. Como se a técnica fosse a única conquista do homem neotênico e o contexto simbólico que faz prescrições e proibições nunca tivesse existido!

 

Com tais premissas, todas as conseqüências possíveis da técnica são justificadas antecipadamente. Por outro lado, a deliberação moral é tão pouco levada em consideração que, nesse discurso “desinibido”, só a técnica é que pode determinar uma ética – não uma ética qualquer, mas, sim, uma “ética do homem maior” e, enquanto tal, aberta às “automanipulações biotecnológicas”.

 

 

A substituição do “homem primeiro”

 


Nesse discurso, a ética consiste, pois, em afastar qualquer forma de exame moral. É assim que o homem, puxado para fora de si mesmo pelo Ser, estaria encarregado de mudar sua condição biológica para se abrir à multiplicidade biológica9 . O homem, nascido insuficiente e sendo produto da técnica, não teria outra coisa a fazer senão levar a técnica a suas últimas conseqüências. Deste modo, o velho homem deveria ser rebatizado de “homem primeiro” – em que se pode ouvir um claro eufemismo de “primitivo” (como em “museu das Artes Primeiras”) –, porque este homem já é somente um primitivo diante dos homens superiores que devem vir.

 

Não se devia provocar a alucinação da volta do Ser na sinistra farsa histórica do nazismo – não havia ali senão um lamentável equívoco de meu caro mestre, parece dizer Sloterdijk. Não, é hoje que se dá o verdadeiro êxtase: o homem superior, o verdadeiro, chega e seus aduladores já o louvam e funcionam como polícia para lhe abrir caminho.

 

Ora, esse caminho está cheio de “homens primeiros” – eis o problema. Para nosso profeta, o velho homem primitivo é manhoso, é constitutivamente surdo – e eu cito – com “generoso potencial” de transformação “polivalente”. Pior ainda, por seu “antigo egoísmo”, ele só prestaria para “exercer o poder sobre as matérias-primas” para “delas dispor” a fim de livrá-las das mudanças prometidas – onde se compreende que tais “matérias-primas” poderiam até ser o próprio corpo humano.

 

Evidentemente, esse velho homem não seria senão “o homem do ressentimento”, prestes a fazer “reuniões” para arregimentar “populações desinformadas” e levá-las a “falsos debates sobre ameaças não compreendidas, sob a autoridade severa de editorialistas lascivos”… Abaixo, pois, os velhos “humanólatras” que pretendem, movidos por “uma histeria antitecnológica”, opor-se ao salto para o qual o Ser nos chama porque, é evidente, não há “nada de perverso” em querer “se transformar através da autotécnica”…

 

 

Projeto pós-nazista

 


Esses propósitos de Sloterdijk – por seu próprio exagero – são muito úteis:  permitem compreender que a atual desinibição simbólica não é somente uma questão de libertação dos costumes e de saída mais ou menos dolorosa do patriarcado. De fato, a suspensão atual das proibições revela que perdura um verdadeiro projeto pós-nazista de sacrifício do humano.

 

Ele é sustentado pelo anarco-capitalismo que, ao mesmo tempo em que quebra todas as regulamentações simbólicas, possibilita que a técnica avance sozinha até quebrar a humanidade.

 

“O discurso capitalista”, já dizia o doutor Lacan, “é algo de loucamente astucioso [...], funciona perfeitamente, não pode funcionar melhor. Mas justamente funciona depressa demais, se consome. Consome-se tão bem que se esgota10 .” Em suma, o verdadeiro problema do capitalismo é que ele funciona bem demais. Tão bem que um dia acabaria consumindo tudo: os recursos, a natureza, tudo – até e inclusive os indivíduos que o servem. Na lógica capitalista, esclarecia Lacan, “o antigo escravo foi substituído” por homens reduzidos à condição de “produtos”: “produtos [...] consumíveis tanto quanto os outros11 .”

 

Esta observação permite compreender que é exatamente nesse sentido muito ameaçador que devem ser entendidas as expressões levianamente eufóricas que se encontram em toda a literatura neoliberal: “o material humano”, o “capital humano”, a gestão esclarecida dos “recursos humanos” e a “boa governança ligada ao desenvolvimento humano”.

 

O anarco-capitalismo acreditou na idéia de que o dar-se leis é cruel e só confina a uma espécie de masoquismo insuportável. E remete cinicamente os que teriam necessidade de um suplemento de alma ao puritanismo obscurantista. É preciso, portanto, lembrar que os filósofos do Iluminismo, como Jean-Jacques Rousseau e Emmanuel Kant, diziam que a liberdade consiste apenas em obedecer às leis que o homem se deu. De fato, temos necessidade de verdadeiras leis jurídicas e morais – e não desses sucedâneos moralizantes – para, enfim, fazer justiça, para salvaguardar o mundo antes que seja tarde demais, para preservar a espécie humana ameaçada por uma lógica cega.

 

Ora, estamos em via de ab-rogar todas as leis – exceto as do mais forte – e, se continuarmos nessa funesta direção, entraremos numa crueldade bem mais intensa que a de ter que se submeter a leis. Entraremos numa crueldade desconhecida que consiste em querer modificar esse corpo humano velho de 100 mil anos. Para, a partir dele, tentar improvisar outros.

 

 

(Trad: Iraci D. Poleti)

 

 

1 – Ver, de Dany-Robert Dufour, L’art de réduire les têtes ? sur la nouvelle servitude de l’homme libéré à l’ère du capitalisme total, Denoël, Paris, 2003.

2 – Karl Marx, Manifeste communiste, trad. Lafargue, Ed. sociales, Paris, 1976, p. 35

 

3 – Pic de la Mirandole [1463-94], Discours sur la dignité de l’homme, citado por Jean Carpentier, Histoire de l’Europe, Points, Seuil, Paris, 1990, p 224-225

 

4 – Em “La fin de l’Histoire dix ans après”, Fukuyama repete seu credo: “A democracia liberal e a economia de mercado são as únicas possibilidades viáveis

 

para nossas sociedades modernas”. Mas ele reconhece uma insuficiência quanto à sua concepção do fim da história: “A História não pode se acabar enquanto as ciências da natureza não chegarem a seu termo. E estamos à véspera de novas descobertas científicas que, por sua própria essência, suprimirão a humanidade enquanto tal.”. Le Monde, 17 de junho de 1999.

 

5 – Cf. Francis Fukuyama, La Fin de l’homme: Les Conséquences de la révolution biotechnique, La Table Ronde, Paris, 2002.

 

6 – Ver os trabalhos do grande antropólogo norte-americano Stephen Jay Gould: Darwin et les grandes énigmes de la vie, [1977], Pygmalion, Paris, 1979, e Le pouce du Panda [1980], Grasset, Paris, 1982.

 

7 – Ver, de Peter Sloterdijk, Règles pour le parc humain, Mille et une nuits, Paris, 2000.

 

8 – Conferência retomada numa coletânea intitulada La Domestication de l’Etre, Mille et une nuits, Paris, 2000. Todas as citações que seguem foram extraídas desta obra.

 

9 – De fato, essa diversificação já está em curso: o semanário norte-americano Science, de 27 de julho de 2001, relatava que uma equipe norte-americana conseguiu implantar células-ovo cerebrais humanas no interior de cérebros de fetos de macaco Macaca radiata por volta da décima segunda semana de gestação, tal implantação podendo levar à criação de macacos cujos cérebros teriam sido, deste modo, mecanicamente “humanizados”.

 

10 – Jacques Lacan, “Conférence à l’université de Milan”, 12 de maio de 1972, texto inédito.

 

11 – Jacques Lacan, L’Envers de la Psychanalyse, Seuil, Paris, 1991, sessão de 17 de dezembro de 1969, p. 35.

 

 PUBLICADO EM LE MONDE DIPLOMATIQUE, abril 2005

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publicado às 19:33

Dany-Robert Dufour - A arte de reduzir as mentes

por blogdobesnos, em 02.04.12

LMD, outubro 2003

 

 

CULTURA

 

 

A arte de reduzir as mentes

 

 

Dany-Robert Dufour

 


A força da ideologia neoliberal decorre do fato de não começar visando ao homem.

Ela cria um novo estatuto do objeto, definido como simples mercadoria,

esperando que os homens se transformem ao se adaptarem à mercadoria, apregoada como a única coisa real


Dany-Robert Dufour

 

 


O capitalismo, que produz e devora muito, é “antropofágico”: também “come” o homem. Mas o que consome exatamente? Os corpos? Estes são usados há muito tempo e a antiga noção de “corpos produtivos” é uma prova disso1. A grande novidade é hoje a redução das mentes. Como se o pleno desenvolvimento da razão instrumental (a técnica), inerente ao capitalismo, resultasse num déficit da razão pura (a faculdade de julgar a priori o que é verdadeiro ou falso, e até o que é o bem ou o mal). É precisamente este traço que me parece caracterizar como propriedade específica a virada chamada de “pós-moderno”: o momento em que o capitalismo, depois de ter subjugado tudo, dedicou-se à “redução das cabeças”.(…) A hipótese é, em suma, simples mas radical: nós assistimos, no presente, à destruição do duplo sujeito que teve origem na modernidade, o sujeito crítico (kantiano) e o sujeito neurótico (freudiano) – a que se deve acrescentar o sujeito marxiano – e vemos instalar-se um novo sujeito, um sujeito “pós-moderno”, a ser definido.

 

O processo de quebra simultânea do sujeito moderno e de fabricação provável de um novo sujeito é extremamente rápido. O sujeito crítico kantiano, que surgiu perto dos anos 1800, e o sujeito neurótico de Freud, nascido próximo dos anos 1900 – os quais, por sua idade respeitável, pareciam afastados de qualquer execução sumária – estão em vias de desaparecer diante de nós com uma rapidez espantosa. Esses sujeitos filosóficos eram pensados como protegidos das vicissitudes da história, bem instalados em uma posição transcendental e constituindo incansáveis sujeitos de referência para pensar nosso ser-no-mundo e, na verdade, muitos pensadores continuam espontaneamente a refletir com essas formas, como se fossem eternas.

 

Ora, esses sujeitos perdem, pouco a pouco, sua evidência. A potência da forma filosófica que os constituía parece evaporar-se na história. Tornam-se fluidos. É difícil acreditar que formas tão analisadas, tão elaboradas, tão experimentadas possam desaparecer em tão pouco tempo. Entretanto, nunca se deveria esquecer que civilizações milenares podem se extinguir em alguns lustros.

 

Para se ater a acontecimentos recentes, é necessário lembrar que se viram tribos indígenas da floresta amazônica, que tinham atravessado os séculos e os mbientes mais hostis protegidos por práticas simbólicas solidamente arraigadas, perecerem em algumas semanas, incapazes de resistir aos choques violentos de uma outra forma de troca – a troca comercial2.

 

 

A des-simbolização do mundo

 


Essa morte programada do sujeito da modernidade não me parece estranha à mutação que se observa, há uns bons vinte anos, no capitalismo. O neoliberalismo – para chamar esse novo estado do capitalismo por seu nome - atualmente está ocupado em desfazer todas as formas de trocas que prevaleciam, substituindo-as por um referencial que avalize o absoluto ou metassocial das trocas. Para ser rápido e ir ao ponto e no essencial, poderia-se dizer que seria necessário o ouro como referência para garantir as trocas monetárias, assim como seria necessária uma garantia simbólica (a Razão, porexemplo) para permitir os discursos filosóficos.

 

Ora, deixa-se, a partir de agora, de se referir a qualquer valor transcendental para se dedicar às trocas. As trocas não valem mais enquanto garantidas por uma potência superior (de ordem transcendental ou moral), mas, sim, pelo que colocam diretamente em relação enquanto mercadorias. Em uma palavra, a troca comercial, hoje, des-simboliza o mundo. (…)

 

Toda figura transcendente que venha a fundar o valor será, a partir de agora, recusada; só existem mercadorias que são trocadas por seu estrito valor de mercado. Hoje, pede-se aos homens que se livrem de todas as sobrecargas simbólicas que garantiam suas trocas. O valor simbólico é assim desmantelado em proveito do simples e neutro valor monetário da mercadoria, de modo que nenhuma outra coisa, nenhuma consideração (moral, tradicional, transcendente, transcendental…), possa constituir um obstáculo à sua livre circulação.

 

Disso resulta uma des-simbolização do mundo. Os homens não devem mais se conciliar com os valores simbólicos transcendentes, eles devem, simplesmente, se submeter ao jogo da circulação infinita e ampliada da mercadoria.

 

Se o que afirma Marcel Gauchet for verdadeiro – “a esfera de aplicação do modelo [de mercado] está destinada a se estender muito além do domínio da troca comercial3” -, então haverá um preço a pagar por essa extensão: a alteração da função simbólica.(…).

 

 

Adaptando o indivíduo à mercadoria

 


Essa mudança radical no jogo das trocas leva a uma verdadeira mutação antropológica. A partir do momento em que qualquer garantia simbólica das trocas entre os homens é liquidada, é a própria condição humana que muda. Nosso ser-no-mundo não pode mais ser o mesmo a partir do momento em que o que se empenha de uma vida humana deixa de depender da busca da conciliação com esses valores simbólicos transcendentais desempenhando o papel de fiadores, mas fica vinculado à capacidade de se adaptar aos fluxos sempre instáveis da circulação da mercadoria. Em uma palavra, não é mais o mesmo sujeito que se exige aqui e ali.

 

Começamos, dessa forma, a descobrir que o neoliberalismo – como todas as ideologias anteriores que irromperam ao longo do século XX (o comunismo, o nazismo…) – não quer outra coisa senão a fabricação de um homem novo. Mas a grande força dessa nova ideologia em relação às anteriores decorre do fato de não ter começado visando ao homem diretamente, por meio de programas de reeducação e de coerção. Ela se contentou com introduzir um novo estatuto do objeto, definido como simples mercadoria, esperando que o resto viesse na seqüência: que os homens se transformassem no momento de sua adaptação à mercadoria, promovida desde então como a única coisa real4.

 

O novo adestramento do indivíduo efetua-se, pois, em nome de um “real” que é melhor acatar com resignação do que se opor: ele deve parecer sempre agradável, querido, desejado como se se tratasse de entertainments (televisão, publicidade…). Ainda não se analisou bem a incrível violência que se dissimula atrás dessas novas fachadas soft.(…)

 

 

O sujeito “esquizóide” da pós-modernidade

 


Deve-se notar que, em “fábrica de um novo sujeito”, entendo “sujeito” no sentido filosófico do termo: não falo do indivíduo no sentido sociológico, empírico ou mundano do termo, falo da forma sujeito ideal em via de se construir. Primeiramente, faço referência à forma sujeito que se construiu por volta dos anos 1800 com o aparecimento do sujeito crítico kantiano. O empirismo de Hume e seu ceticismo contra a racionalidade da metafísica clássica abalaram Kant, como se sabe, a tal ponto, que este bruscamente “despertou de (seu famoso) sono dogmático” e se viu forçado a refundar uma nova metafísica, crítica, definida nos limites da simples razão, livre do dogmatismo da transcendência e, entretanto, nada cedendo ao ceticismo empirista.

 

Assim nascia a filosofia kantiana: baseada nos progressos da física desde Galileu e Newton, ela se constituiu sobre uma síntese magistral da experiência e do entendimento. A virada kantiana terá sido necessária para estabelecer que o pensamento necessitava tanto da intuição quanto do conceito. Na realidade, para Kant, a intuição sem conceito é cega, mas o conceito sem intuição é vazio.

 

(…)

 

O que ainda poderá valer esse sujeito crítico a partir do momento em que se trata apenas de vender e de comprar mercadoria? Para Kant, nem tudo é vendável: “Tudo tem um preço, ou uma dignidade. Pode-se substituir o que tem um preço por seu equivalente; em contrapartida, o que não tem preço, portanto não tem equivalente, é o que possui uma dignidade5”. Isto pode ser dito de modo mais claro: a dignidade não pode ser substituída, “não tem preço” e “não tem equivalente”, refere-se apenas à autonomia da vontade e se opõe a tudo o que tem um preço. É por isso que o sujeito crítico não convém à troca comercial, e é exatamente o contrário que se exige na venda, no marketing e na promoção (deliberadamente mentirosa) da mercadoria. (…)

 

Portanto, nesses tempos neoliberais, o sujeito kantiano vai mal. Mas isto não é tudo, o outro sujeito da modernidade, o sujeito freudiano, não está em melhor situação. A neurose, com suas fixações compulsivas e suas tendências à repetição, não é a melhor garantia para a flexibilidade necessária às múltiplas conexões nos fluxos comerciais. A figura do esquizofrênico atualizada por Deleuze na década de 1970, com as polaridades múltiplas e invertíveis de suas máquinas que manifestam desejo, é, sob esse aspecto, muito mais competitiva6.

 

(…) Tudo acontece hoje como se o novo capitalismo tivesse entendido a lição deleuziana. De fato, é necessário que os fluxos circulem, e circularão ainda melhor se o velho sujeito freudiano, com suas neuroses e suas frustrações nas identificações que não param de se cristalizar em formas rígidas antiprodutivas, for substituído por um ser aberto a todas as conexões. Em suma, levanto a hipótese de que esse novo estado do capitalismo é o melhor produtor do sujeito “esquizóide”, o da pós-modernidade.

 

 

Uma aventura rumo à loucura

 


Na des-simbolização que vivemos atualmente, o que convém não é mais o sujeito crítico antecipando uma deliberação conduzida em nome do imperativo moral da liberdade, nem tampouco o sujeito neurótico tomado de uma culpabilidade compulsiva; o que se exige agora é um sujeito precário, acrítico e psicotizante, um sujeito aberto a todas as conexões comerciais e a todas as flutuações identitárias.

 

É evidente que, apesar disso, os indivíduos não se tornaram todos psicóticos.

 

(…) De modo geral, por toda parte onde há instituições ainda vivas, isto é, onde nem tudo esteja ainda completamente desregulamentado, ou seja, esvaziado de toda substância, existe resistência a essa forma dominante. Afirmar que uma nova forma sujeito está em vias de se impor na aventura humana não significa, pois, dizer que todos os indivíduos irão sucumbir facilmente a ela. Não digo, portanto, que todos os indivíduos irão enlouquecer, digo simplesmente que, afirmando essa forma sujeito ideal, fazem-se grandes esforços para que eles se tornem loucos. Em especial mergulhando-os num “mundo sem limite7” que incentive a multiplicação de passagens à ação psicotizantes e sua instalação num estado borderline.

 

Como Foucault profetizara há vinte anos, o mundo tornou-se, pois, deleuziano. (…) Deleuze queria simplesmente ultrapassar o capitalismo desterritorializando mais depressa que este, mas tudo indica, hoje, que ele subestimou a fabulosa velocidade de absorção do capitalismo e sua fantástica capacidade de recuperação da crítica mais radical8.

 

O que coloca mais uma vez na ordem do dia o ditado segundo o qual os sonhos políticos do filósofo freqüentemente se realizam como pesadelos.

 

 

Construindo impérios de papel

 


A essa morte programada do sujeito crítico kantiano e do sujeito neurótico freudiano, convém acrescentar um terceiro atestado de óbito, o do sujeito marxiano. Realmente, na economia neoliberal, o trabalho não é mais a base da produção do valor. O capital não é mais essencialmente constituído pela mais-valia (Mehrwert, em Marx) originada da superprodução apropriada no processo de exploração do proletário. O capital aposta cada vez mais nas atividades de alto valor agregado (pesquisa, engenharia genética, Internet, informação, mídia…), em que a parte do trabalho assalariado pouco ou medianamente qualificado é, às vezes, extremamente pequena.

 

Mas, principalmente, o capital agora faz intervir fundo a gestão das finanças em movimentos especulativos de grande amplitude. A parte da economia “real”, por exemplo, diminui proporcionalmente à financeirização da economia que se desenvolveu de maneira considerável nos últimos 25 anos, a partir do desenvolvimento dos novos mecanismos financeiros e instrumentos de gestão do capitalismo (…).

 

Aparece, desta maneira, como um epifenômeno conquistador vindo se enxertar sobre a economia real, uma economia virtual que consiste, essencialmente, em criar muito dinheiro com quase nada, vendendo muito caro o que ainda não existe, o que já não existe ou o que pura e simplesmente não existe, correndo o risco de criar impérios de papel prontos a desabar de modo brutal (cf. os escândalos Enron, WorldCom, Tyco…).

 

(…)

 

 

A reestruturação das mentes

 


Sob uma aparência bonachona e democrática, uma nova ideologia, provavelmente tão virulenta quanto as terríveis ideologias que surgiram no Ocidente no século XX, está se instalando. Na verdade, não é impossível que, após o inferno do nazismo e o terror do comunismo, uma nova catástrofe histórica se manifeste. É o caso de perguntar se não se saiu de umas para cair mais facilmente em outra. Porque o ultraliberalismo, como as duas ideologias acima citadas, quer igualmente fabricar um homem novo.

(…)

Entramos, pois, em um tempo novo: o do capitalismo total que não se interessa mais só pelos bens e por sua capitalização, que não se contenta mais com um controle social dos corpos, mas visa também, sob a aparência de liberdade, a uma profunda reestruturação das mentes. Tudo, de fato, deve agora entrar no mundo da mercadoria, todas as regiões e todas as atividades do mundo, inclusive os mecanismos de subjetivação. É por isso que, diante desse perigo absoluto, a hora é de resistência, de todas as formas de resistência que defendem a cultura – em sua diversidade – e a civilização – em suas conquistas.

 

 

(Trad.: Iraci D. Poleti)

 


1 – A noção de “corpo produtivo”, enquanto corpo biológico integrado no processo de produção, já está presente em Marx, em Le Capital in OEuvres complètes, ed. Gallimard, Paris, 1965: cf. Livre premier, Le développement de la production capitaliste, IVe section: la production de la plus-value relative, XIII: Coopération.

 

2 – Ver, por exemplo, La guerre de pacification en Amazonie, 90’, documentário de Yves Billon, Les Films du village, 1973.

 

3 – Ler, de Marcel Gauchet, La démocratie contre elle-même, ed. Gallimard, Paris, 2002.

 

4 – Ler, de Charles Melman e Jean-Pierre Lebrun, L’homme sans gravité, Jouir à tout prix, ed. Denöel, Paris, 2002.

 

5 – Ler, de Emmanuel Kant, Fondements de la métaphysique des moeurs [1785], ed. Garnier-Flammarion, Paris, p.116.

 

6 – Ler, de Gilles Deleuze e Félix Guattari, L’anti-OEdipe, capitalisme et schizophrénie, ed. Minuit, Paris, 1972.

 

7 – Ler, de Jean-Pierre Lebrun, Un monde sans limite, ed. Erès, Ramonville, 1997.

 

8 – Cf., de Luc Boltanski e Ève Chiapello, Le Nouvel esprit du capitalisme, ed. Gallimard, Paris, 1999.

 

* Este texto é um trecho do livro L’art de réduire les têtes, a ser publicado no início de outubro pela editora Denoël, Paris.

 

 

 PUBLICADO NO LE MONDE DIPLOMATIQUE, outubro 2003

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publicado às 19:21

Pierre Levy: Internet e desenvolvimento humano

por blogdobesnos, em 02.04.12

Internet e Desenvolvimento Humano


 

Pierre Levy

 


 

Palestra em evento promovido pelo SESC-SP, na unidade Vila Mariana, em agosto de 2009

 

 

 

Bloco 1 – A inteligência coletiva nova fonte de potência

 

 

 

 Boa noite. Estou muito feliz de estar com vocês esta noite e gostaria de dizer que eu sempre tive uma relação muito especial com o Brasil e com os brasileiros. Muitas vezes aproveitei minhas passagens pelo Brasil para lançar temas e começar a discutir idéias que nunca havia discutido em outro lugar. É o que ocorre hoje.

 

Há muito tempo reflito sobre inteligência coletiva e não sou o único a fazê-lo. Isso é tema de inúmeras pesquisas em muitos países do mundo, pesquisas particularmente relacionadas com a utilização da Internet, de novas tecnologias, de fóruns de discussão virtual etc. Eu diria que não apenas o número de pessoas interessadas no assunto cresce, mas também o objeto de reflexão, que há mais ou menos dez anos vem tendo um crescimento extraordinário, pois há cada vez mais pessoas que se organizam por intermédio da Internet visando à cooperação intelectual. Esse é um movimento que se iniciou no domínio científico, pois foi a comunidade científica que inventou a Internet e que se serviu primeiro dela para trocas de idéias, cooperações etc.

 

Podemos dizer que ela  é uma das mais antigas praticantes da inteligência coletiva com suas jornadas científicas, seminários, colóquios onde cada um comenta o que faz e tentam construir juntos um saber comum, ao mesmo tempo que têm liberdade de propor teorias diferentes. Não é, pois, de se espantar que ela tenha inventado a Internet, o correio eletrônico, os fóruns de discussão e esse imenso hipertexto da web que, no fundo, reproduz a prática muito antiga da citação, da nota de rodapé, da bibliografia etc. 

 

Não é só na comunidade científica que se pratica a inteligência coletiva, mas também – e cada vez mais – no mundo dos negócios, porque existe a necessidade de empregar pessoas capazes de tomar iniciativas, de coordenar, de inventar novas soluções, de resolver problemas e de fazer tudo isso coletivamente, de forma organizada. Evidentemente, essas novas  ferramentas de comunicação são as mais adequadas para isso e há todo um movimento no “management” contemporâneo que visa a desenvolver práticas de inteligência coletiva. 

 

Há, também, outros campos, por exemplo, o da política ou, para falar de uma maneira mais ampla, o da cidadania. Hoje, muitas comunidades locais, muitos governos de vários países estão tentando aprofundar os processos de consulta da população, os processos de democracia deliberativa através de fóruns de discussão sobre questões de política local, permitindo à população deliberar sobre assuntos que lhe concernem diretamente. Há, portanto, um campo geral da ciberdemocracia. Acabo de publicar um livro sobre o tema, onde faço muitas referências a “sites” que tratam do assunto. 

 

Há mais de dez anos pesquisadores em ciências sociais vêm refletindo sobre o vínculo social, o capital social e percebemos que uma das condições mais importantes para o desenvolvimento humano são as relações, os vínculos de trocas, de serviços, de conhecimento, de sociabilidade. Isso pode ocorrer na economia, no lazer, no jogo, em trinta e cinco mil coisas diferentes. Sempre se soube disso, mas estamos percebendo hoje a importância da relação social organizada, inventiva e viva. Quando eu digo organizada não quero dizer por um centro, uma instância superior, mas auto-organizada, espontânea, de alguma forma.

 

Eu poderia, assim, listar os campos onde se descobre que a cooperação e, mais particularmente, a troca de idéias, a cooperação intelectual é algo importante para o desenvolvimento cultural e social. A Internet é uma das ferramentas para esse desenvolvimento e é por isso que ela tem, em todo o mundo, um tal sucesso. Vocês poderão argumentar que apenas 7% dos brasileiros estão conectados à Internet. Evidentemente, temos consciência disso. No entanto, é preciso lembrar que isso é um processo histórico, uma tendência que deve ser avaliada em sua dimensão correta. Muitas séculos se passaram desde a invenção do alfabeto até a construção de uma civilização da escrita.

 

Quando se inventou o alfabeto, por volta do ano 1.000 a.C., não foi imediatamente que as pessoas aprenderam a ler e escrever. Há dez anos mais ou menos que a maioria da população mundial – eu digo a maioria e não a totalidade – sabe ler e escrever. Foram necessários, portanto, três mil anos para se chegar a essa situação. A web existe há menos de dez anos, portanto não podemos ser impacientes e nos escandalizarmos com o fato de que a maioria da população não está conectada. O que é preciso observar é a velocidade com que a curva de conexões aumenta, e isso já é notável. 

 

Nós devemos, cada um a nosso modo, fazer com que o maior número de pessoas possível possam ter acesso a esse novo recurso fundamental da cultura que é a comunicação mundial interativa. Aqueles que podem ter acesso sabem até que ponto isso é um recurso para o desenvolvimento pessoal, para estreitar laços sociais, para aprender coisas, para aumentar seu grau de liberdade, pois temos muito mais liberdade de expressão do que podíamos ter na época em que havia somente os jornais, o rádio, a televisão etc. 

 

Passando, então, à nossa apresentação, podemos ver na tela um certo número de idéias que ilustram essa noção de inteligência coletiva. 

 

Inicialmente, podemos tomá-la no sentido simples de partilha das funções cognitivas, pois: o que é inteligência, finalmente? É a memória, o aprendizado, a percepção, as funções cognitivas. A partir do momento em que essas funções são aumentadas e transformadas por sistemas técnicos – algo de objetivo, externo ao organismo humano – elas poderão ser mais facilmente partilhadas. Melhor dizendo, se alguma coisa é escrita, ela já não faz parte da minha memória pessoal, mas faz parte da memória da comunidade à qual pertenço, e que mantém seus escritos. Hoje a escrita é alguma coisa que não está mais só no suporte papel, mas que está no suporte eletrônico e que, por isso, se torna mais acessível, flexível e, sobretudo, mais compartilhável. Estou falando da memória, mas eu poderia falar da percepção.

 

Com a televisão eu posso ver à distância; com o telefone eu posso escutar à distância. Com a Internet não apenas essas coisas são possíveis, mas a um nível de precisão muito maior. Por exemplo, com as “webcam” eu posso ver exatamente onde eu quero ver. Com os novos sistemas de informática de imagem digitalizada, que permitem transformar dados complexos em representações visuais facilmente compreensíveis, há uma nova abertura no campo da percepção que, na verdade, é a percepção de fenômenos complexos, que é tão cara a Edgar Morin. 

 

Podemos, talvez, comparar a nossa época ao século XVII, época em que se inventou o microscópio e o telescópio, onde se descobriu todo um universo do “infinitamente pequeno” e todo um universo do “infinitamente grande”. Hoje estamos descobrindo o universo do “infinitamente complexo” porque temos um meio de representá-lo, de interagir com esse universo justamente por causa da tecnologia intelectual que é a informática. É preciso ver, portanto, que se trata de uma abertura do campo do conhecimento possível porque há também uma abertura do campo de percepção, do campo do raciocínio possível. 

 

Entretanto, a inteligência coletiva não é um tema puramente cognitivo. Só pode existir desenvolvimento da inteligência coletiva se houver o que eu chamo de cooperação competitiva ou competição cooperativa. Retomando o exemplo da comunidade científica, podemos dizer que trata-se de um jogo cooperativo, já que acumula-se conhecimentos, há um progresso do saber etc

 

Mas isso só é um processo cooperativo e plenamente cooperativo porque também é um processo competitivo. Se não houvesse a liberdade de propor teorias opostas àquelas que são admitidas, evidentemente o progresso nos conhecimentos seria muito menor. Portanto, é porque existe essa possibilidade de competição que existe a cooperação. Há, pois, dois aspectos: o aspecto da liberdade – que é o aspecto competição – e o aspecto do vínculo social, da amizade – que é o aspecto cooperação.

 

É preciso acostumar-se a pensar nos dois ao mesmo tempo. É a partir do equilíbrio entre competição e cooperação que nasce a inteligência coletiva. Evidentemente não é a guerra de todos contra todos, nem tampouco uma cooperação obrigatória, regulada, que proibiria as diferenças de idéias, as lutas, os conflitos que são naturais e que, sobretudo, permitem ao novo se expressar. 

 

Observemos o comportamento de uma multidão. Uma multidão é menos inteligente do que um indivíduo dessa multidão. O fato de diversos indivíduos estarem reunidos não ajuda muito. Se observarmos uma administração muito burocrática, centralizadora, com uma hierarquia rígida, vamos dizer que essa administração é provavelmente mais inteligente do que uma multidão porque ela pode fazer muitas operações e chegar a um certo resultado, mas ela não equivale à multiplicação de todas as inteligências das pessoas que participam dessa hierarquia burocrática. Provavelmente essa hierarquia burocrática é menos inteligente do que o grupo de dirigentes.

 

O grupo de dirigentes toma decisões e as decisões são aplicadas de forma cada vez pior à medida em que se desce na hierarquia. Não se permite, obviamente, que a base tome decisões.

 

Há muitas formas de organização e o desafio é inventarmos todos juntos formas de organização que não sejam nem anárquicas – onde não haveria nenhuma forma de cooperação – nem demasiadamente rígidas, mas sim as que permitam otimizar a capacidade de invenção das pessoas, suas competências, suas experiências, suas memórias. 

 

Se eu defendo o desenvolvimento de uma ciência da inteligência coletiva é porque estou certo que este é o melhor caminho para se chegar a uma cultura da inteligência coletiva, ou seja, com a constituição de uma vasta rede de pesquisas a perspectiva é avançar em direção a uma transformação cultural que caminhe nesse sentido. Uma transformação e não uma revolução, que deve ser feita tranquilamente, sem forçar nada, a partir da conscientização de cada um. Porque uma cultura não é definida por um pequeno grupo de dirigentes ou de pensadores, é algo que é partilhado pelo conjunto de uma população. Ela é produzida de forma espontânea por todas as pessoas que participam dessa cultura. É algo que vai levar tempo, necessariamente, mas que depende de cada um de nós. Não devemos nos aborrecer pelo fato de ainda não estarmos em uma situação perfeita de inteligência coletiva.

 

Cada um deve se perguntar o que pode fazer para propagar novas formas de fazer. E a resposta é: dar o exemplo.

 

Gostaria, então, de esboçar uma perspectiva um pouco mais ampla, mais extensa, que é aquela do ecossistema de todos os conhecimentos, de todas as idéias, de todas as práticas humanas. Há séculos que se fala da humanidade em geral, mas falava-se de uma humanidade abstrata, concebida na sua universalidade. Hoje, no entanto, desde o desenvolvimento do ciberespaço, podemos observar ou mergulhar na inteligência coletiva da humanidade quando navegamos na web, quando participamos de um fórum de discussão em uma língua e depois de outro em outra língua etc. De repente, esse ecossistema das idéias humanas torna-se palpável e percebemos que participamos dele, que nós é que o tornamos vivo.

 

Esse ecossistema emerge da atividade, do pensamento, da comunicação, da ação dos seres humanos e creio que não seria mal, de vez em quando, elevarmo-nos a esse nível de generalidade e considerarmos que todos nós fazemos viver o mundo das idéias, que ele não existiria sem nós. Não seríamos humanos vivendo em uma cultura se essas idéias científicas, religiosas, políticas, artísticas não existissem. 

 

 

Bloco 2 – As três etapas da evolução 

 

 

Eu gostaria de situar um pouco esse mundo das idéias na história da evolução. Podemos dizer que há um primeiro nível do “vivo” que é a vida orgânica, a vida dos corpos, dos micróbios, das plantas e esse primeiro nível da evolução da vida está baseado em um código digital, o primeiro código digital, que é o DNA. Há, portanto uma dialética entre as mutações que ocorrem no código digital, ou seja, nos genes e sua repercussão sobre os fenotipos, ou seja, sobre os corpos das plantas, dos micróbios etc. E há uma seleção natural não só dos corpos, mas dos genes que são responsáveis por esses corpos e assim por diante. E é assim que podemos explicar, grosseiramente, o ciclo da evolução. 

 

Existe um segundo estágio da evolução do mundo vivo que está relacionado ao surgimento, no decorrer da evolução do estágio precedente, dos sistemas nervosos, ou seja, dos animais. Nos animais há uma interação entre as percepções e as ações e essa interação passa pelo sistema nervoso. É graças a ele que o mundo sensível aparece. Se não houvesse sistema nervoso não haveria som, não haveria imagem, formas, cor, não haveria cheiro nem sabor. O mundo sensível existe porque o sistema nervoso existe. Temos aqui, pois, o aparecimento de um código digital, que é o código de comunicação entre os neurônios: a corrente passa ou a corrente não passa.

 

E é verdadeiramente um código digital porque ele é o mesmo, quer se trate de codificar emoções, imagens, sons etc. São sempre impulsos elétricos entre neurônios. 

 

A um segundo universo de formas, não somente orgânicas, mas sensíveis, com animalidade e humanidade temos um terceiro universo de forma que, naturalmente, repousa sobre os dois precedentes, mas são formas que não existiam no mundo animal. Por exemplo, números, deuses, constituições políticas, peças de teatro. E tudo isso só se tornou possível porque um terceiro código apareceu, que é o da linguagem. Por que a linguagem tornou possível o mundo das idéias? Provavelmente porque, com uma grande simplicidade fonética (há trinta fonemas na maioria das línguas) podemos produzir sequências diferentes, uma infinidade de sequências que possuem uma capacidade de engendrar uma infinidade de significados diferentes. 

 

E nós, como espécie humana, inventamos uma forma de inteligência coletiva que não existia nos animais. Porque evidentemente a inteligência coletiva não começa com a espécie humana. Todo mundo sabe que o formigueiro é mais inteligente que a formiga e que a colmeia é mais inteligente do que a abelha; até um grupo de zebras é mais inteligente do que a própria zebra. Por isso elas vivem em grupo. Mas nós, pela linguagem, abrimos um universo de comunicação completamente diferente. Uma das melhores ilustrações dessas diferenças é que com a humanidade começa um tipo de evolução que não existia antes, que é a evolução cultural. Os leões se comportam da mesma maneira desde que existem leões, enquanto que os seres humanos modificam seu comportamento. Houve uma evolução técnica, religiosa, moral e política. Há uma evolução dos conhecimentos, uma evolução científica etc.

 

Portanto, é porque vivemos no universo da linguagem, que conseguimos formar uma inteligência coletiva de um tipo mais poderoso do que aquela das espécies animais, que somos o que somos. 

 

Eu gostaria de tentar relacionar o que estou dizendo com as experiências fundamentais que todos nós temos. É porque falamos que todos nós praticamos uma forma de inteligência coletiva que é capaz de aperfeiçoamento constante. E o que quer dizer falar? Sabemos que os animais se comunicam entre si. A diferença é que a linguagem nos permite fazer três coisas que os animais não podem fazer: primeiro, fazer perguntas. Os animais não fazem perguntas. Isso quer dizer que há alguma coisa que não sabemos. Nós encontramos nossa própria ignorância, um vazio no espírito, uma carência, um branco.

 

E nesse momento nós fazemos perguntas. Não estou falando de perguntas retóricas, falo de verdadeiras perguntas. Fazemos uma pergunta e se não temos a resposta somos obrigados a buscá-la no ambiente ou buscá-la com outra pessoa. Essa é uma abertura fantástica: o fato de percebermos nosso próprio limite. O animal não sabe que é limitado, nós sabemos. É justamente porque sabemos que somos limitados que somos ilimitados. 

 

A segunda particularidade da linguagem humana é o fato de contarmos histórias. Os animais não contam histórias e é porque contamos histórias que temos uma concepção do tempo. Organizamos nosso pensamento em antes, depois, antes, depois, antes, depois, causa, efeito, causa etc, atores que interagem entre si e que, ao fazerem isso, transformam uma situação. E nesse momento podemos inventar uma medida de tempo, podemos aprofundar a noção de causalidade e, sobretudo, vivemos na significação, porque, para nós, que as coisas tenham sentido equivale a contar uma história, fazer um relato.

 

No início, os relatos mais importantes da humanidade eram as lendas, as fábulas. Hoje, continuamos a contar histórias. Dizemos que não são lendas; não importa. Não somos capazes de viver se não damos sentido àquilo que vivemos, ou seja, ser não contamos história. Evidentemente, não contamos sempre a mesma história, mas produzimos sentido a partir disso. E por que a inteligência coletiva? Porque as histórias são transmitidas. Contamos uma história a alguém e essa pessoa guarda o que lhe foi contado.  Quando nos explicamos aos outros estamos contando a nossa história, a história das coisas que nos interessam. É uma forma de vínculo entre nós, extremamente importante. E, finalmente, já que eu falo de laços entre nós, temos o diálogo.

 

Como eu dizia, os animais emitem sinais entre si. Quando a zebra vê, pelo canto do olho, o leão aproximar-se na savana, ela começa a tremer e foge, imediatamente. As outras zebras entendem e começam a fugir também. O sinal foi transmitido, mas isso é um diálogo? Não. No diálogo nós participamos da interioridade do outro. Nós nos apercebemos que existe um outro que não somos nós. E, evidentemente, isso cria um vínculo entre nós que é muito mais profundo que aquele que existe nos animais. 

 

Quando fazemos perguntas uns aos outros inicia-se um diálogo e, freqüentemente, respondemos às perguntas com histórias. Isso é o motor da produção do universo da significação, que é a cultura. E é algo muito dinâmico, que nasce com as perguntas, com os diálogos, com as histórias que contamos etc. Fazendo tudo isso nós fabricamos ferramentas, inventamos instituições sociais e políticas, começamos a fazer música e a dançar, e todo o universo começa a se desenvolver. 

 

 

Bloco 3 – O triângulo da significação 

 

 

O mundo da significação, no qual se desenvolve a inteligência coletiva, é organizado em torno de três pólos, sem os quais não haveria significação. O que eu vou dizer aqui não fui eu que inventei. É algo que foi dito há muito tempo, por Aristóteles, por exemplo, e que foi repetido por todos os filósofos medievais, redito pelos linguistas e semiólogos contemporâneos.

 

Não é uma teoria de Pierre Levy, é algo já muito conhecido, mas sobre o qual não se reflete suficientemente. Onde nós, seres humanos, vivemos? Evidentemente, vivemos no mundo físico, mas as pedras também vivem nele. O que existe de original no nosso modo de existir é que vivemos na significação e as pedras não. E como se organiza essa significação? É uma tensão viva entre três pólos.  

 

Em primeiro lugar, o pólo do signo. Se eu digo “computador”, é o som “computador” que é o signo. Há o referente, aquilo do qual estou falando, a “coisa”. E depois há o espírito, para quem o “computador” significa a “coisa”. Há, portanto, um espírito para colocar um signo em relação com aquilo que esse signo representa, porque se não houvesse espírito não haveria nem mesmo a noção de representação. Portanto, esse universo da significação é forçosamente organizado nesse triângulo.

 

Uma idéia é um conjunto de signos que estão em relação uns com os outros. Uma idéia é como um ser vivo que é capaz de se reproduzir, passando de um espírito para outro. Cada vez que uma idéia é concebida, é pensada por um espírito, é como se a idéia se reproduzisse, de certa forma. Quando ela está escrita em algum lugar, ou quando ela está encarnada em uma estrutura material qualquer, podemos dizer que ela é virtual. A partir do momento em que ela na experiência de alguém ela é atualizada e é como se houvesse uma reprodução. Há idéias que se reproduzem bem, outras não tanto, e há espécies de idéias que morrem, simplesmente.

 

De um modo geral, toda evolução cultural é a história da evolução das idéias e de sua relação com as populações humanas, que as nutrem. O ambiente no qual a idéia vive é triplo, o que corresponde aos três pólos do significado. A idéia tem relação com o ecossistema dos signos que, hoje, podemos talvez representar pela web, ou seja, pela Internet. A idéia é também uma ação sobre a natureza, sobre a realidade física ou biológica. Por exemplo, se eu digo alguma coisa que faz vocês rirem ou chorarem, algo está se transformando na matéria porque vocês receberam a idéia. Se eu tiver uma idéia científica ou técnica, ela pode ter consequências práticas físicas, naturais. 

 

A espécie humana é aquela que mais transformou o ambiente real em comparação com as outras espécies de mamíferos que conhecemos. Possuímos tal poder de transformação porque temos idéias.

 

Finalmente, há uma outra parte do ambiente onde a idéia intervém, que é a relação entre nós e a sociedade. Cada idéia é um movimento no jogo das relações políticas, afetivas, éticas, jurídicas, econômicas etc. Todas essas idéias vivem em sociedade. De uma certa maneira a inteligência coletiva é um ecossistema de todas essas idéias que nós fazemos viver, porque nós as nutrimos e as reproduzimos. Isso não quer dizer que não haja uma noção de responsabilidade. A responsabilidade existe; somos livres para reproduzir ou não uma idéia que circula em nosso ambiente.

 

 

Bloco 4 – Ecologia de idéias 

 

 

Uma população humana vive em simbiose com um ecossistema de idéias. Se esse ecossistema é favorável à população que o abriga e nutre, essa população vai viver melhor do que aquelas que mantêm idéias desfavoráveis a ela. Se certas populações não ajudam as idéias a se reproduzirem, então essas idéias não serão favoráveis àquelas populações. Há, portanto, uma relação bidirecional, na qual não há nenhum elemento fundador ou fundamental. É um sistema de auto-referência, de auto-organização. O leme da evolução não está nas mãos das idéias nem tampouco nas mãos da população, mas, sim, na relação entre as duas. 

 

Quero mais uma vez utilizar a abordagem de três pólos da significação para continuar a refletir sobre essa noção de inteligência coletiva. Podemos distinguir, no desenvolvimento cultural, três direções principais que correspondem aos três pólos de significação.  Há uma inteligência técnica que, evidentemente, é própria da espécie humana porque fomos nós que desenvolvemos a maioria dos instrumentos e continuamos sempre a inventar ferramentas.

 

Desenvolvemos armas, desenvolvemos a arquitetura, a agricultura, a indústria, a engenharia, a tecnologia etc., e portanto, há toda uma forma de pensamento coletivo que é técnico. Mas há também outra forma de pensamento, que é o abstrato, o pensamento conceitual, formal, que não trata da materialidade física mas incide sobre os signos. São as matemáticas, as artes, a literatura, a comunicação, a semiótica. É muito difícil separar esses dois tipos de pensamento porque as grandes civilizações técnicas são também civilizações que possuem uma escrita, que desenvolveram as artes, as ciências abstratas etc. Não podemos ter um sem outro. 

 

Há, ainda, um terceiro pólo, que é um pólo relacional, aquele das relações entre os seres humanos, ou o pólo político, religioso, que concerne à regulação da agressividade entre as pessoas. É isso que eu chamo de inteligência emocional. 

 

Se nós devemos refletir sobre o que é inteligência coletiva é preciso conceber que ela se desenvolve quase que necessariamente nessas três dimensões, que não podem ser separadas, pois são as três dimensões da significação. Então vocês podem entender quando Edgar Morin diz que se pensamos uma coisa independentemente das outras, estamos condenados a não entender o que está em jogo.

 

 

Bloco 5 – Economia da reprodução 

 

 

Talvez, um dos fatores mais importantes na evolução cultural é a forma como as idéias se reproduzem. No início da história da humanidade as idéias eram transmitidas oralmente e se reproduziam de geração em geração. As idéias também eram transmitidas pelos rituais conjuntos, pelas ferramentas, por tudo que podia constituir uma memória. O essencial da memória era concluído nas lendas, que eram transmitidas no seio de tribo de geração em geração. Com o aparecimento da escrita aparece também uma espécie de memória autônoma das idéias, que podem durar no tempo independentemente do sopro vivo de uma pessoa que está tentando transmitir essa idéia.

 

Hoje, podemos ler Platão, mesmo que ele tenha escrito algo há dois mil e quinhentos anos. Os arqueólogos podem decifrar o que os egípcios haviam gravado em hieróglifos nos templos. A escrita não só cria um vínculo entre gerações maiores mas permite um acúmulo de conhecimentos no interior de uma sociedade que é também muito maior e permite, além disso, uma organização da sociedade muito mais complexa do que uma sociedade sem escrita. O Estado, por exemplo, como forma política, seria muito menos desenvolvido se não houvesse a escrita. A ciência seria impensável, as religiões como as conhecemos também.

 

O que eu quero dizer é que os meios de comunicação são como órgãos de reprodução ou como a memória das idéias. Quanto mais esses órgãos de comunicação se aperfeiçoam, mais essa memória se torna vasta e mais o ecossistema das idéias se transforma, a inteligência coletiva aumenta, se complexifica e evolui com rapidez.    

 

Com a invenção da imprensa chega-se a uma situação ainda mais biológica, pois as formas culturais são quase capazes de reproduzirem-se por si mesmas. Podemos ir mais longe ainda se pensarmos no telefone, no cinema, nas mídias hertzsianas. E finalmente hoje nós temos um ecossistema de idéias no qual, quando uma representação se encontra em algum lugar do ciberespaço, ela está ao mesmo tempo em todo o lugar da rede. Portanto, é uma situação de ubiquidade, o que, evidentemente, nunca aconteceu na história da humanidade. E nós só conhecemos essa situação há dez ou quinze anos.

 

É algo muito novo e é muito difícil dizer a que civilização essa nova situação, esse novo ambiente ecossistêmico da cultura vai nos levar. Há essa noção de ubiquidade e também a noção de interconexão, pelo menos de interconexão possível de todas as idéias, com os hipertextos da web, com o correio eletrônico e “links” no e-mail. Isso oferece a possibilidade de mostrar coisas em tempo real na escala planetária, o que é totalmente novo na história da cultura. Vocês podem imaginar o que isso representa para a inteligência coletiva. 

 

Finalmente, há essa capacidade autônoma de ação dos signos. Poderíamos falar de robôs, de inteligência artificial, de vida artificial etc., mas estou me referindo a algo mais comum, que todos nós conhecemos, que é o software. São fragmentos de escrita capazes de agir uns sobre os outros, ou de fazer agir os mecanismos que acionam robôs, por exemplo, e que vivem no ciberespaço.

 

Creio que é muito importante considerar essa nova situação da vida cultural na qual muitas coisas surpreendentes podem acontecer e na qual creio que devemos apreender as possibilidades mais emancipadoras, porque não é garantido que as melhores coisas aconteçam. Isso depende de nós. É preciso entender que todas essas coisas são possíveis e que elas dependem não só de nossa ação individual, mas da forma como vamos nos organizar para que as melhores coisas aconteçam. 

 

Para refletirmos  um pouco mais sobre essa noção de idéia, podemos nos deter sobre o que muitas pessoas chamam de economia da informação, economia do conhecimento.  Como podemos articular essa noção de economia do conhecimento com a perspectiva da inteligência coletiva? Eu vou adotar uma perspectiva que é clássica em economia, que consiste em distinguir o capital do trabalho. Vou definir antes o que é capital. Qual é o significado etmológico de capital? Etmologicamente, capital significa cabeças de gado. Capital vem de caput, cabeça em latim. Quando se dizia, na época bíblica, que Abraão tinha um capital, isso significava que ele possuía um rebanho. E a principal particularidade do capital é que ele é capaz de se reproduzir. O rebanho é capaz de se reproduzir, de produzir filhotes. 

 

Antes mesmo de termos rebanhos, a primeira coisa que consideramos capital foram as mulheres. Mas se vocês estudarem o sistema elementar de parentesco de Lévi- Strauss, vocês verão que as mulheres nas sociedades arcaicas são consideradas como a riqueza principal e a razão disso, provavelmente, é que são as mulheres que fazem as crianças, que as reproduzem, pelo menos numa primeira visão ingênua. Portanto, o trabalho, naquela época, consistia na caça e na colheita para manter a fonte da reprodução. Isso corresponde, aliás, à época da oralidade. Na época da revolução neolítica, no momento em que se sistematiza a agricultura, a criação de animais etc., a fonte principal da reprodução são os grãos e os rebanhos e o trabalho principal será a criação de gado e a agricultura. 

 

Com o alfabeto, podemos dizer que a nova fonte de reprodução, que é capaz de ter filhotes, é o dinheiro. Vocês podem perceber que vai ocorrendo um grau de abstração suplementar , e é através do comércio que somos capazes de fazer com que o dinheiro se reproduza e se multiplique. Temos, então, um novo tipo de trabalho que se generaliza, o do artesão e o do comerciante.

 

Na época da imprensa, as instalações industriais e as máquinas tornam-se a fonte de reprodução.  A fábrica reproduz mercadorias, como se fosse uma grande matriz. E notem bem, a primeira máquina industrial que reproduziu mercadorias em série foi a imprensa, ou seja, a primeira coisa que nós reproduzimos em série, de forma industrial, foram as idéias. E depois fabricamos roupas, produtos mecânicos etc. 

 

Se observarmos o desenvolvimento do rádio, da televisão, do disco veremos até que ponto essa reprodução automática incide, ainda hoje, sobre mercadorias informacionais, imateriais. Antes o trabalho importante era o do operário, o do engenheiro que constrói e mantém as máquinas. E hoje? Hoje, é claro, as etapas anteriores não desapareceram.

 

Por exemplo, a agricultura vai existir, provavelmente, por muito tempo ainda. Mas é evidente que há cada vez menos pessoas trabalhando na agricultura, porque temos meios industriais para fazê-la de forma mais eficaz. Hoje, então, a fonte de riqueza, aquilo que é capaz de reproduzir-se, o rebanho que dá o leite, a carne, a lã, são as idéias.

 

Quem são as pessoas mais ricas do mundo hoje? São as pessoas que têm a sua fortuna baseada na propriedade intelectual: pessoas que trabalham com software, certos artistas, pessoas que vivem da própria imagem, porque a imagem é uma idéia. Não apenas idéias científicas, filosóficas, mas todo o tipo de idéias. Pode ser música, um jogo de futebol, por exemplo.

 

 

Bloco 6 – Capital de inteligência coletiva

 

 

 

Gostaria, para encerrar, de analisar  essa inteligência coletiva com conceitos econômicos, e sempre com aqueles três pólos de significação. Começando pelo pólo físico, natural, temos o que se pode chamar de capital técnico. Como exemplo, pensemos nesse nosso encontro. Para que ele acontecesse precisamos de um prédio – isso ajuda muito – e também de um microfone, um computador, uma tela. Há um ambiente físico que favorece nosso trabalho.

 

Um ambiente físico que é constituído, por exemplo, por estradas e veículos, que permitem que as pessoas se encontrem, que as idéias circulem. O capital técnico não é  apenas o ambiente físico. É também a mídia, os jornais, o radio, a televisão, os livros e, finalmente, os computadores e a Internet que são, hoje, a ponta mais avançada, mais eficaz, mais rápida na facilitação da inteligência coletiva. 

 

No pólo do signo temos o que se pode chamar de capital cultural, ou seja, a memória gravada da cultura. Por exemplo, as bibliotecas. Não estou falando aqui dos prédios, dos livros, mas sim do conteúdo, da organização da estrutura abstrata das idéias, que são visualizadas, são representadas por signos.

 

Há, então, as enciclopédias, os manuais de aprendizagem escolar e há hoje a web que, de certa forma, representa o conjunto dos conhecimentos que são – ainda não completamente, o conjunto todo – potencialmente, assintaticamente, os conhecimentos produzidos pela humanidade. As novas idéias só poderão crescer em um solo que absorveu, que contém toda a memória da humanidade e quanto mais memória esse solo tiver mais idéias novas poderá fazer crescer. 

 

Eu sou a favor da cibercultura mas não acho que devemos fazer tábula rasa do passado, esquecer a antiga cultura. Ela é um tesouro inestimável que devemos conservar preciosamente, manter viva o mais tempo possível, pois é sobre ela que podemos construir o novo. Portanto, o capital cultural é, de certa maneira, a memória gravada da evolução cultural, que nos oferece uma enorme quantidade de idéias, de inspiração até hoje. 

Finalmente, o terceiro pólo é o que se denomina capital social, que são os vínculos entre os seres humanos e, particularmente, não apenas a quantidade como a qualidade desses vínculos.

 

Por exemplo: será que confiamos uns nos outros? Ou somos honestos e sinceros ou então passamos nosso tempo a imaginar estratagemas maquiavélicos para nos apunhalarrmos uns aos outros pelas costas. Se nos encontramos no primeiro caso, podemos imaginar que a cooperação intelectual irá funcionar um pouco melhor. Se praticamos o amor ao próximo  será muito mais fácil cooperar, ter idéias juntos e melhorar nossa situação comum. Mas se nós passamos nosso tempo a nos mentir, a trairmos nossa confiança, é provável que a cooperação intelectual não funcione muito bem.

 

Existe, pois, o clima que reina numa população e esse clima, diria eu, é uma questão de cultura, depende do regime político, das leis etc. Podemos dizer que, provavelmente, uma situação democrática é melhor que uma situação de ditadura, porque há menos violência social, há mais liberdade de expressão, as idéias podem circular mais livremente. 

 

Portanto, há toda essa noção de capital social e há o que poderemos chamar de capital intelectual, ou seja, as idéias originais que foram produzidas pela população em questão. Se se tratam de idéias concretas, podem ser traduzidas como propriedade intelectual mas, se forem idéias abstratas são de propriedade comum, pois não pode haver propriedade com relação às idéias abstratas. Mesmo as idéias concretas depois de um certo tempo passam de propriedade intelectual  privada para o domínio público. 

 

Além das idéias que são produzidas pela população existe também as competências que dizem respeito a essas idéias que a população produz, o ecossistema que ela nutre. Esses dois aspectos, as idéias originais e as competências reais e vivas formam o capital intelectual, que é alimentado pelo capital social, pelo cultural e pelo técnico que, por sua vez são alimentados por ele. 

 

Tentei representar as relações entre essas quatro dimensões da inteligência coletiva. Na base está tudo o que é concreto, físico, material e que constitui as condições de possibilidade do resto, porque se não temos as cidades, as ruas, os veículos, os meios de comunicação, provavelmente a inteligência coletiva rapidamente encontrará limites.

 

É preciso que muitas pessoas estejam em relação intensa umas com as outras para que cheguemos ao grau de cultura e civilização em que estamos, por mais limitado que esse grau seja, pois existem piores. Esse capital técnico é a condição do capital social. A Internet, por exemplo, nos permite estabelecer relações uns com os outros, trocar e-mails, participar de fóruns de discussão que, eventualmente, terminam em encontros reais.

 

Esses novos meios de comunicação oferecem condições ao desenvolvimento do capital social. Oferecem condições, também, ao desenvolvimento do capital cultural, já que nunca houve tanta informação ou conhecimento que foi publicado “on line”. Além disso, essas informações e conhecimentos têm “links”, hipertextos entre si. O capital técnico oferece, pois, as condições de um aprimoramento do capital cultural. 

 

Quando as pessoas mantêm boas relações, relações frequentes, relações de confiança e dispõem de uma memória informacional, numerosa e bem organizada, podemos afirmar que elas estão em boas condições de inventar coisas novas e desenvolver sua competência pessoal. E essa inventividade ( que não é a relação das pessoas entre si, nem dos signos entre si) é  a relação das pessoas com as idéias. Nós oferecemos nossa energia, nossa atenção, nossas emoções e em troca as idéias  nos dão mais capital social, mais capital cultural e mais capital técnico. 

 

Existe um ciclo. Estou convicto de que há meios de compreender cada vez melhor como funciona esse ciclo. Nós estamos apenas no início, a nova situação criada pelo desenvolvimento do ciberespaço de repente nos abre um novo campo de pesquisa e compreensão que, na verdade, é o campo de pesquisas sobre a inteligência coletiva humana, sobre aquilo que é cooperação intelectual, sobre aquilo que é construir juntos idéias e selecioná-las para o melhor bem de todos.

 

Mas estamos ainda no começo, é como se estivéssemos no início do período neolítico: pegamos os grãos que encontramos no campo, os  selecionamos e vamos inventar o trigo. Então, ao invés das idéias crescerem desse jeito, vamos tentar sistematizar o modo de fazer e vamos inventar “raças” de idéias, como inventou-se o milho, o trigo, o arroz, como se inventou o cachorro, o cavalo, a galinha, o pato. Como faz o pato, que barulho ele faz ? Quando ensinamos às crianças como o pato faz, nós as introduzimos em uma etapa muito importante no desenvolvimento da humanidade.

 

É a etapa do neolítico, quando inventou-se a escrita, a criação de animais, a agricultura etc. Podemos imaginar que daqui a alguns anos, talvez daqui a alguns séculos, teremos passado uma nova etapa comparável àquela do neolítico, na qual teremos aprendido a criar e cultivar as idéias. Quando eu digo que sou favorável a uma ciência da inteligência coletiva, é dessa ciência que estou falando, e espero que nós sejamos, cada vez mais numerosos para nos engajarmos nessa empreitada.

 

Muito obrigado.   

 

 

Fonte: http://www.crmariocovas.sp.gov.br/esp_a.php?t=001

 

 

 

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publicado às 19:02

Oposições e individualidades

por blogdobesnos, em 02.04.12

Se tem algo que me cansa é ler textos cuja marca ideológica é quase insultuosa, no sentido de não respeitar a opinião do outro. Para quem tem por hábito agir assim, não é possível a divergência, porque se esta ocorrer, acontecerão as infindáveis discussões para provar que o meu ponto de vista é o melhor. Normalmente parte-se para a ironia ou a desqualificação do infeliz que comigo não compactua.  

 

Então, se o sujeito tem um blog dito de esquerda, tenderá a bater sem dó nem piedade em quem tenha uma opinião de direita. É importante (não se sabe por que e nem para quem) provar que , no fundo, quem não compartilha do meu prato, dos meus talheres, é mau. Com um certo cuidado retórico, poderei também dizer que o oponente ideológico representa o mal. Isso vale, evidentemente, para o sujeito de direita em relação ao de esquerda.

 

Sempre pensei que isso é por demais arriscado, pois você acaba por contratar para si mesmo um papel muito claro: o do megafone. Sou megafone quando me obrigo, seja por convicção, seja por maneirismo, a endossar determinados pontos de vista, mesmo que com os mesmos eu discorde, para simplesmente sentir-me acolhido, respeitado por um determinado grupo político, social, econômico, cultural e assim por diante.

 

Quando Bauman (1) analisa as questões de recriação identitária, fala sobre as complexidades da filiação e, no mundo atual mundo do consumo, da constante (re)criação identitária. Não basta que eu seja de tal ou qual maneira e que pense de modo a me filiar a essa ou aquela posição, mas, especialmente, eu devo parecer isso. Daí seguirmos tendências não só do ponto de vista do consumo, mas também no que concerne a matriz ideológica na qual pretensamente estamos imersos.

 

Dufour (2) ao pensar a pós-modernidade diz que grandes categorias de pensamento orientadores do sujeito no modernismo encontram-se atualmente em vias de descrédito, e uma delas é o sectarismo político, enquanto protagonista da história do Estado, baseada esta em duas grandes vertentes: a do território e a do sangue – em suma, da terra dos pais. Retornando a Bauman, o mesmo problematiza a questão do envolvimento, aqui visto no sentido de compromisso.

 

Em um mundo fluido, no qual as tradições são muito mais resultados de uma sociedade de produtores, moderna, há uma tendência a que os comprometimentos escoem pelo ralo, atendendo às necessidades cada vez mais pragmáticas e individualistas da formação do próprio homem como mercadoria.

 

O que se observa hoje em dia é que as defesas radicais em relação à posições políticas cada vez vem diminuindo sua aceitação entre os mais jovens. Isso não se dá por acaso, e Dufour é muitíssimo claro em perceber tal fenômeno, que é buscado pela cooptação das consciências aos rituais capitalistas pós-modernos. Antes de se agregar a uma determinada ideologia, seguindo os padrões rituais do momento, os jovens aderem à causas específicas. O mesmo homem que protesta contra a mortandade das baleias pode não aderir ao discurso político que denuncia, por exemplo, guerras étnicas e limpezas raciais. O mesmo jovem que vai às ruas contra o governo A ou B ou C se aliena das verdadeiras causas que fizeram com que tais governos dessem oportunidade para tais protestos. Em suma, o político, enquanto discurso, se esgota.

 

Há, contudo, aqueles que acreditam, que crêem nas bandeiras que pretendem honrar. São os modernos, aqueles cujo sacrifício em relação a uma causa faz parte de sua história pessoal. São os que ficam, os que enfrentam lutas para que todos colham seus benefícios. E são esses também os desacreditados dentro dos parâmetros pós-modernos. Ao dar voz e atividade às suas lutas, são eminentemente simbólicos, algo que não interessa à circulação de mercadorias (novamente Dufour) pois não são acríticos.

 

No entanto, há muitas vezes o discurso pelo discurso, e é contra esse que estou me insurgindo. Não é possível que se ridicularize alguém pelas suas idéias. E é isso que vejo muito, até porque não se discutem idéias, se discutem e se estereotipam pessoas. Os que ridicularizam normalmente são aqueles que vestem fantasias indicativas da sua tribo.

 

Assim como todo jovem rebelde punha as mesmas calças jeans, blues nos anos 70 e, a partir daí compunham um uniforme adequado, absolutamente reconhecíveis, bem como os nemos tem as suas insígnias, os partidários da direita política costumam ostentar sorrisos cínicos e argumentos identificáveis pelo sarcasmo com que conduzem seus argumentos, que provavelmente cairão no vazio pois os ignorantes da esquerda não irão entendê-los, enquanto os da esquerda preferem uma sisudez perplexa e um negar absolutamente histérico a qualquer coisa que não lhes seja ao menos retoricamente favorável. E assim, vão compondo seus tipos, seu life stylle, seus esgares.     

Fashions, de todo, aguardando a hora do indizível prazer de, sem pudor, jogar a primeira pedra.

 

 

 

(1) Bauman, Szygmunt, in Vida para Consumo, Jorge Zahar Ed., 2008

 

(2) Dufour, Dany Robert, in A arte de reduzir as cabeças…….., Ed. Companhia de Freud, 2005

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publicado às 18:58

Pós-modernidade e pensamento crítico, Dany Robert Dufour

por blogdobesnos, em 02.04.12

Pós-modernidade e pensamento crítico

 


Dany-Robert Dufour

 


 

Tema lota auditório ENSP, publicada em 20/08/2007

 

 

 

 

“O capitalismo atual aposta cada vez mais na desinstitucionalização. Ele busca destruir a dependência simbólica indispensável à formação humana e à vida em sociedade. Sobram apenas as relações de força e a hiperviolência. É o darwinismo social, no qual só o mais forte sobrevive”.

A contribuição do pós-modernismo para o surgimento de um capitalismo ainda mais voraz e o papel das instituições, principalmente as de ensino, na formação do pensamento crítico e na resistência foi o tema da palestra ‘A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal’, do filósofo francês Dany-Robert Dufour, no Centro de Estudos da ENSP (CEENSP), realizado na quarta-feira (15/08). A atividade, aberta pelo diretor da Escola, Antonio Ivo de Carvalho, foi mediada por Ana Szapiro, psicanalista e professora da UFRJ.

 

Ao receber Dany-Robret Dufour, Antonio Ivo destacou a importância de sua presença e a pertinência da palestra, que lotou o Salão Internacional da ENSP.

 

“É muito gratificante ver que o CEENSP está buscando acompanhar e fomentar discussões sobre o que acontece no mundo contemporâneo e, principalmente, sobre tudo aquilo que se apresenta como um desafio à produção de conhecimento”, afirmou o diretor.

O convidado é autor de vários livros, dentre os quais, os já traduzidos ‘Lacan e o espelho sofiânico de Boehme’, ‘Os mistérios da trindade’ e a ‘Arte de reduzir cabeças’, e trabalha na fronteira entre a filosofia, a estética, a lingüística, a educação e a psicanálise, tendo a pós-modernidade como tema principal. No debate, após a palestra, que despertou bastante preocupação e interesse de pesquisadores e alunos presentes, Dufour respondeu a várias perguntas e discorreu sobre diversas questões.

 

“O Homo sapiens está sendo transformado pela indústria cultural em Homo zapiens”, disse, fazendo uma referência ao hábito de ‘zapear’ a TV com o uso do controle remoto. “A televisão, diante da qual as crianças permanecem longas horas do dia, está transformando a humanidade num bando de carneiros, cuja única capacidade é consumir”, enfatizou.

 

 

Revolta contra as instituições fortaleceu o capitalismo


De acordo com Dany-Robert Dufour, o ser humano vive constantemente sob duas formas de domínio. Da dominação política ou social, definida por Marx como o conjunto de meios pelo qual um grupo exerce poder sobre outros e pelo qual ele dissimula seus próprios interesses a fim de manter a dominação, o homem poderia escapar. Da dependência simbólica ou semiótica, no entanto, ele não pode escapar, sob pena de se perder totalmente. “O homem pode ser visto como um ser que nasce inacabado que, diferentemente dos outros animais, deve acabar-se fora da natureza, no âmbito da cultura, nas instituições”, explicou o professor, destacando o risco de se confundir as duas formas de poder: “Os pós-modernistas querendo destruir as formas modernas de domínio político e social, acabaram por facilitar a destruição do domínio simbólico e, dessa forma, fortalecer ainda mais o poder do capital”.

 

Para o palestrante, autores pós-modernos, como Michel Foucault (filosofia), Pierre Bourdieu (sociologia), Giles Deleuze e Félix Guattari (psicanálise), ao criticarem as instituições, compreendidas apenas como locais de perpetuação de poder e domínio dos corpos e das mentes, desconsideram que é nas instituições que os homens desenvolvem um pensamento crítico. As idéias de que “toda ação pedagógica é uma forma de exercício de poder” ou de que “a cultura é uma forma de repressão, de alienação” acabam por fazer que o principal objeto do pensamento moderno – o saber – vire motivo de desconfiança. Segundo ele, no novo paradigma, o sujeito moderno que, para viver na cultura, tinha muitas vezes que renunciar ao desejo, é substituído por subjetividades, teoricamente mais libertárias e menos controláveis pelas ainda existentes instituições de poder.

 

“Ao se perguntar qual seria a via revolucionária para se combater o capitalismo – se retirar do mercado ou ir de encontro a ele – Deleuze acreditou que seria possível ultrapassar o capitalismo desterritorializando mais depressa que ele e desestibilizando os fluxos de capital. Longe de ultrapassar o capitalismo, no entanto, o pesquisador simplesmente acelerou o seu curso. Hoje, podemos ver que os sonhos políticos do filósofo freqüentemente se realizam como pesadelos”, afirmou Dufour, completando: “Devíamos colocar uma placa, como aquelas de trânsito, onde se lê: é impossível ultrapassar o capitalismo pela esquerda. Ou seja, não dá para tentar correr mais que o capitalismo. É preciso voltar atrás e agir de maneira crítica, é preciso garantir o acesso das pessoas à função simbólica e fortalecer as instituições políticas. A esquerda também precisa entender que as instituições que eles sempre combateram eram a porção melhor do capitalismo”.

 

O resultado do movimento pós-moderno, na opinião de Dufour, é que entramos no tempo do capitalismo total, o qual não se interessa mais só pelos bens e por sua capitalização e que não se contenta apenas pelo controle social dos corpos. “O novo capitalismo, que não pode mais ser regulado pela esfera política, visa também, sob a aparência de liberdade, a uma profunda reestruturação das mentes e ao controle dos mecanismos de subjetivação”, reiterou, fazendo um alerta final: “Diante dessa situação, a hora é de resistência, de todas as formas de resistência que defendem a diversidade da cultura e as conquistas da civilização”.

 

ENSP: Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, Ministério da Saúde/ Governo Federal

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publicado às 18:54

Ameaças

por blogdobesnos, em 02.04.12

Estou saindo para a escola, agora de manhã e passo pelo Pronto Socorro. Na porta do mesmo, há um homem visivelmente bebado, que traz uma atadura à perna e outra no braço. Atravesso a rua para aguardar o ônibus. Minutos depois, quem está lá, no meio do corredor? Pois sim, ele. Nessa altura, já tinha arrancado uma das ataduras e providenciado uma pedra enorme. Agitando a funda improvisada, ameaçava as pessoas, especialmente as mulheres.  Quando o ônibus chegou, subi e tudo aquilo desapareceu da minha vista.

 

Há um fundamento nisso tudo. Parece que há pessoas que chegaram ao mundo marcadas pela infelicidade e cuja revolta extrapola o razoável. Há uma odiosidade embutida em tais almas, que me faz crer, sinceramente, que elas estão aqui para aprender, mas que terão de voltar muitas vezes até chegarem a ser pessoas que possam conviver com outras. O que o impulsiona a ameaçar de modo tão deliberado pessoas a que ele não conhece? Temperamento de terrorista, ódio ao mundo, mas, especialmente, a si mesmo.

 

O ato de alienar-se da vida é suficientemente forte para desimportar-se inclusive com a incolumidade física do outro? Ameaçar para que, por que. qual o motivo que se impõe à humanidade? Talvez algum dia eu aprenda. O ônibus rolava na pista, cada vez mais me aproximava da escola, enquanto o pobre infeliz, sem dúvida, se afastava de tudo, imerso em sua própria miséria.

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publicado às 18:48

Merry Merry Christmas

por blogdobesnos, em 02.04.12

Hey, você, amigo, amiga, companheiro, blogueiro, escultor, pensador, enfim, todos que nos visitaram em 2009, vai aí um aviso:

 

2010 será beautiful, lindo, querido, amorável, papai-noelino, amado, delicioso, hidratado, colorido, multiesportivo, sexy, sensual, porreta, libidinoso, aproveitável, útil, rememorável, inesquecível, marcante, fully, pleno, ambíguo, misterioso, very happy, licencious, gostoso, inteligível, amigável, querido, amistoso, levemente gótico, suavemente frutado,  licoroso, dadivoso, plácido, belo, colossal, maravilhoso, prét-a-porter, jazzístico, eletronico e suavemente funk.

 

2010 será o dobro de todos os nossos maiores desejos, vontades, buscas, afirmações, poderes. 2010 será muito mais do que alguém um dia imaginou ter e, além disse, será uma casa no campo, com tamanho ideal, pau a pique e sapê. E se você acha que não será assim 2010, quem é você que não sabe o que diz, meu Deus do céu, que palpite infeliz!

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publicado às 18:47

Discurso de posse de Pepe Mujica, Presidente do Uruguay

por blogdobesnos, em 02.04.12

HOLA:


Les envío esta exquisitez que fué el discurso del recientemente electo presidente de la República Oriental del Uruguay Don José Alberto Mujica Cordano (El Pepe),

 

Dirigente histórico y fundador del Movimiento de Liberación Tupamaros. 

 

Queridos amigos:


La vida ha sido extraordinariamente generosa conmigo.

 

Me ha dado un sinfín de satisfacciones más allá de lo que nunca me hubiera atrevido a soñar.

 

Casi todas son inmerecidas.

 

Pero ninguna más que la de hoy: encontrarme ahora aquí, en el corazón de la democracia uruguaya, rodeado de cientos de cabezas pensantes.

 

¡CABEZAS  PENSANTES!


A diestra y siniestra.

 

Cabezas pensantes a troche y moche, cabezas pensantes pa’ tirar pa’ arriba.

 

 ¿Se acuerdan de Rico Mac Pato, aquel tío millonario del pato Donald que nadaba en una piscina llena de billetes? El tipo había desarrollado una sensualidad física por el dinero.

 

Me gusta pensarme como alguien que le gusta darse baños en piscinas llenas de inteligencia ajena, de cultura ajena, de sabiduría ajena.

 

Cuanto más ajena, mejor.

 

Cuanto menos coincide con mis pequeños saberes, mejor.

 

El semanario BÚSQUEDA tiene una hermosa frase que usa como insignia: “Lo que digo no lo digo como hombre sabedor, sino buscando junto con vosotros”.

 

Por una vez estamos de acuerdo.

 

¡Si estaremos de acuerdo!

 

Lo que digo, no lo digo como chacarero sabiondo, ni como payador leído, lo digo buscando con ustedes.

 

Lo digo, buscando, porque sólo los ignorantes creen que la verdad es definitiva y maciza, cuando apenas es provisoria y gelatinosa.

 

Hay que buscarla porque anda corriendo de escondite en escondite. Y pobre del que emprenda en soledad esta cacería.

 

Hay que hacerlo con ustedes, con los que han hecho del trabajo intelectual la razón de su vida.

 

Con los que están aquí y con los muchos más que no están.

 

DE TODAS LAS DISCIPLINAS


Si miran para el costado van a encontrar seguramente algunas caras conocidas porque se trata de gente que se desempeña en espacios de trabajo afines.

 

Pero van a encontrar mucho más caras que les son desconocidas, porque la regla de esta convocatoria ha sido la heterogeneidad.

 

Aquí están los que se dedican a trabajar con átomos y moléculas y los que se dedican a estudiar las reglas de la producción y el intercambio en la sociedad.

 

Hay gente de las ciencias básicas y de su casi antípoda, las ciencias sociales; gente de la biología y del teatro, y de la música, de la educación, del derecho y del carnaval.

 

Y en tren de que no falte nada, hay gente de la economía, de la macroeconomía, de la microeconomía, de la economía comparada y hasta alguno de la economía doméstica.

 

Todas cabezas pensantes, pero que piensan en distintas cosas y pueden contribuir desde sus distintas disciplinas a mejorar este país.

 

Y mejorar este país significa muchas cosas, pero desde los acentos que queremos para esta jornada, mejorar el país significa empujar los complejos procesos que multipliquen por mil el poderío intelectual que aquí está reunido.

 

Mejorar el país, significa que dentro de veinte años, para un acto como este no alcance el Estadio Centenario, porque al Uruguay le salen ingenieros, filósofos y artistas hasta por las orejas.

 

No es que queramos un país que bata los récords mundiales por el puro placer de hacerlo.

 

Es porque está demostrado que, una vez que la inteligencia adquiere un cierto grado de concentración en una sociedad, se hace contagiosa.

 

INTELIGENCIA DISTRIBUIDA


Si un día llenamos estadios de gente formada va a ser porque afuera, en la sociedad, hay cientos de miles de uruguayos que han cultivado su capacidad de pensar.

 

La inteligencia que le rinde a un país es la inteligencia distribuida.

 

Es la que no está sólo guardada en los laboratorios o las universidades, sino la que anda por la calle.

 

La inteligencia que se usa para sembrar, para tornear, para manejar un autoelevador o para programar una computadora.

 

Para cocinar, para atender bien a un turista, es la misma inteligencia.

 

Unos subirán más escalones que otros, pero es la misma escalera.

 

Y los peldaños de abajo son los mismos para la física nuclear que para el manejo de un campo.

 

Para todo se precisa la misma mirada curiosa, hambrienta de conocimiento y muy inconformista.

 

Se termina sabiendo, porque antes supimos estar incómodos por no saber.

 

Aprendemos porque tenemos picazón y eso se adquiere por contagio cultural, casi cuando abrimos los ojos al mundo.

 

Sueño con un país en el que los padres le muestren el pasto a los hijos chicos y le digan: “¿Sabés qué es eso?, es una planta procesadora de la energía del sol y de los minerales de la tierra”.

 

O que les muestren el cielo estrellado y hagan piecito en ese espectáculo para hacerlos pensar en los cuerpos celestes, en la velocidad de la luz y en la transmisión de las ondas.

 

Y no se preocupen, que esos uruguayos chicos igual van a seguir jugando al fútbol.

 

Sólo que, en una de esas, mientras ven picar la pelota puedan pensar a la vez en la elasticidad de los materiales que la hacen rebotar.

 

CAPACIDAD DE INTERROGARSE


Había un dicho: “No le des pescado a un niño, enséñale a pescar”. Hoy deberíamos decir: “No le des un dato al niño, enséñale a pensar”.

 

Tal como vamos, los depósitos de conocimiento no van a estar más dentro de nuestras cabezas, sino ahí afuera, disponibles para buscarlos por Internet.

 

Ahí va a estar toda la información, todos los datos, todo lo que ya se sabe. En otras palabras, van a estar todas las respuestas.

 

Lo que no van a estar son todas las preguntas. En la capacidad de interrogarse va a estar la cosa.

 

En la capacidad de formular preguntas fecundas, que disparen nuevos esfuerzos de investigación y aprendizaje.

 

Y eso está allá abajo, marcado casi en el hueso de nuestra cabeza, tan hondo que casi no tenemos conciencia.

 

Simplemente aprendemos a mirar el mundo con un signo de interrogación, y esa se vuelve la manera natural de mirar el mundo.

Se adquiere temprano y nos acompaña toda la vida.

 

Y sobre todo, queridos amigos, se contagia.

 

En todos los tiempos, han sido ustedes, los que se dedican a la actividad intelectual, los encargados de desparramar la semilla.

 

O para decirlo con palabras que nos son muy queridas: ustedes han sido los encargados de encender la admirable alarma.

 

Por favor, vayan y contagien. ¡No perdonen a nadie!

 

Necesitamos un tipo de cultura que se propague en el aire, entre en los hogares, se cuele en las cocinas y esté hasta en el cuarto de baño.

 

Cuando se consigue eso, se ganó el partido casi para siempre. Porque se quiebra la ignorancia esencial que hace débiles a muchos, una generación tras otra.

 

EL CONOCIMIENTO ES PLACER


Necesitamos masificar la inteligencia, primero que nada para hacernos productores más potentes. Y eso es casi una cuestión de supervivencia.

 

Pero en esta vida, no se trata sólo de producir: también hay que disfrutar. Ustedes saben mejor que nadie que en el conocimiento y la cultura no sólo hay esfuerzo sino también placer.

 

Dicen que la gente que trota por la rambla, llega un punto en el que entra en una especie de éxtasis donde ya no existe el cansancio y sólo queda el placer.

 

Creo que con el conocimiento y la cultura pasa lo mismo.

 

Llega un punto donde estudiar, o investigar, o aprender, ya no es un esfuerzo y es puro disfrute.

 

¡Qué bueno sería que estos manjares estuvieran a disposición de mucha gente!

 

Qué bueno sería, si en la canasta de la calidad de la vida que el Uruguay puede ofrecer a su gente, hubiera una buena cantidad de consumos intelectuales.

 

No porque sea elegante sino porque es placentero. Porque se disfruta, con la misma intensidad con la que se puede disfrutar un plato de tallarines.

 

¡No hay una lista obligatoria de las cosas que nos hacen felices! Algunos pueden pensar que el mundo ideal es un lugar repleto de shopping centers.

 

En ese mundo la gente es feliz porque todos pueden salir llenos de bolsas de ropa nueva y de cajas de electrodomésticos…

 

No tengo nada contra esa visión, sólo digo que no es la única posible.

 

Digo que también podemos pensar en un país donde la gente elige arreglar las cosas en lugar de tirarlas, elige un auto chico en lugar de un auto grande, elige abrigarse en lugar de subir la calefacción.

 

Despilfarrar no es lo que hacen las sociedades más maduras.

 

Vayan a Holanda y vean las ciudades repletas de bicicletas. Allí se van a dar cuenta de que el consumismo no es la elección de la verdadera aristocracia de la humanidad.

 

Es la elección de los noveleros y los frívolos.

 

Los holandeses andan en bicicleta, las usan para ir a trabajar pero también para ir a los conciertos o a los parques.

 

Porque han llegado a un nivel en el que su felicidad cotidiana se alimenta tanto de consumos materiales como intelectuales.

 

Así que amigos, vayan y contagien el placer por el conocimiento. En paralelo, mi modesta contribución va a ser tratar de que los uruguayos anden de bicicleteada en bicicleteada…

 

INCONFORMISMO


Les pedía antes que contagien la mirada curiosa del mundo, que está en el ADN del trabajo intelectual.

 

Y ahora agrando el pedido y les ruego que contagien inconformismo.

 

Estoy convencido que este país necesita una nueva epidemia de inconformismo como la que los intelectuales generaron décadas atrás.

 

En el Uruguay, los que estamos en el espacio político de la izquierda somos hijos o sobrinos de aquel semanario Marcha del gran Carlos Quijano.

 

Aquella generación de intelectuales se había impuesto a sí misma la tarea de ser la conciencia crítica de la nación.

 

Anduvieron con alfileres en la mano pinchando globos y desinflando mitos. Sobre todo el mito del Uruguay multicampeón.

 

Campeón de la cultura, de la educación, del desarrollo social y de la democracia.

 

¡Qué íbamos a ser campeones de nada!

 

Y menos en esos años, en las décadas de los cincuenta y sesenta, donde el único récord que supimos conseguir fue la del país de Latinoamérica que menos creció en veinte años.

 

Sólo nos superó Haití en ese ranking.

 

Esos intelectuales ayudaron a demoler aquel Uruguay de la siesta conformista.

 

Con todos sus defectos, preferimos esta etapa, donde estamos más humildes y ubicados en la real estatura que tenemos en el mundo.

 

Pero tenemos que recuperar aquel inconformismo y tratar de metérselo debajo de la piel al Uruguay entero.

 

Antes les decía que la inteligencia que le sirve a un país es la inteligencia distribuida.

 

Ahora les digo que el inconformismo que le sirve a un país es el inconformismo distribuido.

 

El que ha invadido la vida de todos los días y nos empuja a preguntarnos si lo que estoy haciendo no se puede hacer mejor.

 

El inconformismo está en la naturaleza misma del trabajo que ustedes hacen. Se precisa que se nos haga a todos una segunda naturaleza.

 

Una cultura del inconformismo es la que no nos deja parar hasta conseguir más kilos por hectárea de trigo o más litros por vaca lechera.

 

Todo, absolutamente todo, se puede hacer hoy un poco mejor que ayer.

 

Desde tender la cama de un hotel a matrizar un circuito integrado. Necesitamos una epidemia de inconformismo.

 

Y eso también es cultural, eso también se irradia desde el centro intelectual de la sociedad a su periferia.

 

Es el inconformismo el que ha ganado el respeto a pequeñas sociedades y a lo que hacen.

 

Ahí andan los suizos, cuatro gatos locos como nosotros, que se dan el lujo de andar por ahí vendiendo calidad suiza o precisión suiza.

 

Yo diría que lo que de verdad venden es inteligencia e inconformismo suizos, ese que tienen desparramado por toda la sociedad.

 

LA EDUCACION ES EL CAMINO


Y amigos, el puente entre este hoy y ese mañana que queremos tiene un nombre y se llama educación. Y mire que es un puente largo y difícil de cruzar.

 

Porque una cosa es la retórica de la educación y otra cosa es que nos decidamos a hacer los sacrificios que implica lanzar un gran esfuerzo educativo y sostenerlo en el tiempo.

 

Las inversiones en educación son de rendimiento lento, no le lucen a ningún gobierno, movilizan resistencias y obligan a postergar otras demandas.

 

Pero hay que hacerlo.

 

Se lo debemos a nuestros hijos y nietos.

 

Y hay que hacerlo ahora, cuando todavía está fresco el milagro tecnológico de Internet y se abren oportunidades nunca vistas de acceso al conocimiento.

 

Yo me crié con la radio, vi nacer la televisión, después la televisión en colores, después las transmisiones por satélite.

 

Después resultó que en mi televisor aparecían cuarenta canales, incluidos los que trasmitían en directo desde Estados Unidos, España e Italia.

 

Después los celulares y después la computadora, que al principio sólo servía para procesar números. Cada una de esas veces, me quedé con la boca abierta.

 

Pero ahora con Internet se me agotó la capacidad de sorpresa. Me siento como aquellos humanos que vieron una rueda por primera vez.

 

O como los que vieron el fuego por primera vez. Uno siente que le tocó en suerte vivir un hito en la historia.

 

 Se están abriendo las puertas de todas las bibliotecas y de todos los museos; van a estar a disposición, todas las revistas científicas y todos los libros del mundo.

 

Y probablemente todas las películas y todas las músicas del mundo.

 

Es abrumador.

 

Por eso necesitamos que todos los uruguayos y sobre todo los uruguayitos sepan nadar en ese torrente.

 

Hay que subirse a esa corriente y navegar en ella como pez en el agua. Lo conseguiremos si está sólida esa matriz intelectual de la que hablábamos antes.

 

Si nuestros chiquilines saben razonar en orden y saben hacerse las preguntas que valen la pena.

 

Es como una carrera en dos pistas, allá arriba en el mundo el océano de información, acá abajo preparándonos para la navegación trasatlántica.

 

Escuelas de tiempo completo, facultades en el interior, enseñanza terciaria masificada. Y probablemente, inglés desde el preescolar en la enseñanza pública.

 

Porque el inglés no es el idioma que hablan los yanquis, es el idioma con el que los chinos se entienden con el mundo.

 

No podemos estar afuera. No podemos dejar afuera a nuestros chiquilines. Esas son las herramientas que nos habilitan a interactuar con la explosión universal del conocimiento.

 

Este mundo nuevo no nos simplifica la vida, nos la complica. Nos obliga a ir más lejos y más hondo en la educación. No hay tarea más grande delante de nosotros.

 

EL IDEALISMO AL SERVICIO DEL ESTADO


Queridos amigos, estamos en tiempos electorales.

 

En benditos y malditos tiempos electorales.

 

Malditos, porque nos ponen a pelear y a correr carreras entre nosotros. Benditos, porque nos permiten la convivencia civilizada.

 

Y otra vez benditos, porque con todas sus imperfecciones, nos hacen dueños de nuestro destino.

 

Aquí todos aprendimos que es preferible la peor democracia a la mejor dictadura.

 

En los tiempos electorales, todos nos organizamos en grupos, fracciones y partidos, nos rodeamos de técnicos y profesionales, y desfilamos frente al soberano.

 

Hay adrenalina y entusiasmo. Pero después, alguien gana y alguien pierde. Y eso no debería ser un drama.

 

Con unos o con otros, la democracia uruguaya seguirá su camino e irá encontrando las fórmulas hacia el bienestar.

 

Nos toque el lugar que nos toque, allí vamos a estar tratando de poner el hombro.

 

Y estoy seguro de que ustedes también. La sociedad, el Estado y el Gobierno precisan de sus muchos talentos.

 

Y precisan aún más de su actitud idealista. Los que estamos aquí, nos acercamos a la política para servir, NO para servirnos del Estado.

 

La buena fe es nuestra única intransigencia.

 

Casi todo lo demás es negociable.

 

Gracias por acompañarme.

 

 

 

- Pepe Mujica.

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publicado às 18:24

Espaços in anima

por blogdobesnos, em 02.04.12

Ao criar espaços, estabelecemos dependências, funcionalidades, limites, tempos e condições de uso desse mesmo lugar. Lugares têm intencionalidades, atendem necessidades, cumprem desejos em projetos que derivaram de vontades precisas.  Normalmente são nomeados e a partir daí se inserem em uma rede de significados, de representatividades, sugerindo alterações em seu entorno. Há toda uma geografia humana e histórias de vida ligadas aos locais criados pelo homem e tal interação influi sobre os nossos discursos, sendo uma das mais claras evidências do nosso ingresso no mundo simbólico.

 

Nossa vida é plena de significantes, expectativas, representações e signos que nos ligam às memórias e projetam nossos futuros, àqueles que nos são caros, aos acontecimentos que ajudaram a determinar nossas visões sociais, culturais e identitárias. Não há humanidade sem o simbolismo agregado aos lugares, aos locais, às experiências, às nossas buscas constantes. Cidades, por exemplo, constituem, por sua natureza, ambientes complexos; mesmo que tenham sejam objeto de planejamento urbano constante, vão se modificando ao longo do fluir do tempo. Bairros comerciais nascem algumas vezes das pranchetas dos arquitetos, mas, outras vezes, do complexo movimento das ruas, num fenômeno que é chamado de emergência. 

 

A linguagem das calçadas, os acessos criados diariamente pelos centros de interesse, as necessidades de maiores velocidades de trânsito e o estrangulamento de pontos gerados por esse mesmo trânsito, as ruas mais coloridas culturalmente, os bairros periféricos, a expansão mais ou menos limitadas pelas necessidades, o comércio, os serviços oferecidos, os deslocamentos, a violência urbana e suas tribos, constituem um elenco muitas vezes errático que modificam e (re)criam espaços, catedrais, main streets e equipamentos urbanos ali agregados; a tradição e a tensão gerada pela complexidade havida em bairros produzem histórias locais, representatividades. 

 

Eu, por exemplo, me lembro de estar em Florianópolis, SC,  com meu pai, quando ele perguntou se eu queria assistir a última partida do Inter nos Eucaliptos: a data era 26 de março de 1969 e eu tinha, então,  14 anos. Disse, ansioso, que queria, e, após almoçarmos, pegamos um avião (minha primeira viagem de avião) e descemos no Salgado Filho. Fomos para casa, na esquina da Vicente da Fontoura com a São Manoel, onde minha mãe nos olhou com espanto e, após o banho, estávamos prontos para o jogo: meu pai Israel com seu radinho de pilha e sua camisa vermelha aberta ao peito, e lá fomos nós, para um evento emocionante, onde terminamos a noite com uma goleada do Inter sobre o Rio Grande, por 4 a 1, com Tesourinha no campo e com a torcida cantando os hinos de amor “Papai é o Maior/ papai é que é o tal/ que coisa louca/que coisa rara/papai não respeita a cara”. Enfim, apagaram as luminárias e apenas a luz dos isqueiros ficaram acesas, enquanto Tesourinha retirava uma das redes de goleira.

 

Nunca vou esquecer dos Eucaliptos, das suas arquibancadas de madeira, do som que ouvíamos ali, da vibração da torcida que ultrapassava todos os limites. Hoje, cada vez que passo pelos Eucaliptos, me lembro especialmente dessa última noite, mas também dos momentos em que passávamos lá, eu, meu pai e nós todos que formamos a paixão vermelha.

 

Estela, uma das minhas cunhadas, que mora em Fortaleza, Ceará, nunca mais quis retornar, mesmo de visita, para Jaguaruana, cidade próxima, onde ela e seus irmãos nasceram. A emoção e as lembranças coordenam tal decisão. Não quer ir lá pois sabe que a casa onde os pais viveram, onde passou a sua infância, correu e brincou, onde nadava no riozinho próximo, onde aprendeu as primeiras letras, não existe mais. Ela reconheceria a rua, mas um pedaço de si própria já havia sido arrancado, não existia, a referência dos bons tempos de infância não mais estaria lá.

 

Então, cada vez que toca no assunto, alterna a alegria das lembranças com uma tristeza cava, profunda, ao saber que sequer a casa não mais existe. Prefere então reter na memória aquela fase de sua vida; de quando em quando vem de Jaguaruana algum primo, que a procura para dizer a respeito de alguém que ela conheceu, mas sempre existe, aqui e ali, o travo da perda de referência da casa, do local  físico que poderia catapultar seus sentimentos para a felicidade. Não há, no entanto, nada mais que possa ser feito, nesse sentido. O simbólico se perdeu, restando apenas as memórias. Porque turvar isso com uma realidade bruta?

 

Meu amigo Delmar, que já viajou para Bélgica, Holanda, África do Sul, Canadá, Turquia, e por aí afora, portanto um cidadão do mundo, se encantou muito em 2009 quando visitou Fortaleza, Ceará, especialmente em relação à arquitetura, aos edifícios bem estruturados, coloridos, com curvas, sinuosidades. Chamou-lhe a atenção a criatividade, a beleza que parece flutuar pela cidade, desde a avenida Beira Mar até a Aldeota, bem como as funcionalidades da Cidade dos Funcionários até os espaços urbanos bem pensados.

 

De modo geral, para ele, Fortaleza tem absolutamente tudo que uma grande cidade deve possuir, mas com um jeito mais relaxado, mais maneiro, que lembra a praia. E ele conhece Santiago, conhece Nova Iorque, conhece Bremen, conhece Berlim. Não se trata, segundo ele, de comparar as cidades, mas sim de efetivamente se deixar encantar com uma bela capital brasileira, sem “o colonialismo que implica em louvar valores, culturas e locais estrangeiros, ao mesmo tempo em que cremos que o que é nosso não tem valor algum”. Não é uma posição xenofóbica, bem o contrário disso, é apenas o reconhecimento de que no Brasil há culturas, criatividade e belezas especialmente representativas.

 

Poderia prosseguir bem mais, mas não é suficiente para concluirmos que espaços criados pelo homem não são apenas geográficos, não são somente locus, mas que, ao criá-los, seja aqui ou na Birmânia, seja em Londres ou em Moçambique, seja aqui em Porto Alegre ou em Belfast, também se adere ao local uma dimensão espaço-temporal, uma linha discursiva, uma trajetória que se modifica e que pode igualmente nos modificar. Nossas casas são nossos espaços, e isso fica muito claro quando a olhamos com criticidade: sempre vamos nos encontrar aqui e ali, em algum enfeite, em algum quadro, em alguma tendência personalíssima que, embora se adapte à planta do imóvel, tem basicamente impresso nosso jeito de ser.

 

Quando vemos fotos antigas da cidade onde moramos, somos invadidos pelas nossas memórias, pelas nossas transitoriedades e parece que embarcamos em uma viagem na qual tentamos resgatar nossas histórias, mas não apenas as nossas, que não somos protagonistas (e seríamos ingênuos se pensássemos assim), mas, em especial, as nossas circunstancialidades. Nos reconhecemos aqui e ali, aos nossos amigos, às oportunidades que passaram ou que aproveitamos, aos points onde costumávamos nos juntar com amigos. De certo modo, as fotos não são das cidades, mas são as nossas, embora, teimosamente não apareçamos expressamente nas mesmas. Estamos lá.

 

In anima.

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publicado às 15:10

Passeio socrático

por blogdobesnos, em 02.04.12

PASSEIO SOCRÁTICO

Frei Betto

Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças. “Quem trouxe a fome foi a geladeira”, disse.

 

O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes etc. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável.

 

É próprio do humano -e nisso também nos diferenciamos dos animais-, manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico. A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais. Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis. Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela.

 

Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos “Manuscritos econômicos e filosóficos” (1844), ele constata que “o valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem valor para nós”.

 

O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão.

 

Para o povo maori da Nova Zelândia, cada coisa, e não apenas as pessoas, tem alma. Em comunidades tradicionais da África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígine cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém.

 

Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um vinho guardado na adega, uma jóia? Assim como um objeto se associa ao seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife. Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famoso estilista; a gata borralheira transforma-se em Cinderela…

 

Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, do poder. Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração, depressão, infelicidade.

 

Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela, mas não é ela: bens, cifrões, cargos etc. Comércio deriva de “com mercê”, com troca. Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas. Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações de vizinhança, como ainda ocorre na feira.

 

Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo. “Nada poderia ser maior que a sedução” -diz Jean Baudrillard- “nem mesmo a ordem que a destrói”. E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja.

 

Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo.

 

“Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático”, respondo.

 

Olham-me intrigados. Então explico: Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas.


E, assediado por vendedores como vocês, respondia:


“Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz”

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publicado às 14:57


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