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Relendo Blade Runner

por blogdobesnos, em 04.04.12

Relendo Blade Runner

 

Hilton Besnos

 


Faculdade Porto-Alegrense de Educação, Ciências e Letras

 

 

Prof. Aline Sudbrack

 

 

É possível fazermos várias leituras de Blade Runner pois o filme é uma metáfora angustiante sobre valores e questões filosóficas que se identificam com o homem. De onde viemos, quem somos, para onde vamos? Quais as respostas dadas a essas questões numa sociedade futurista, mas cujos paradigmas são econômica e socialmente os da pós-modernidade?

 

Los Angeles, em 2.019, é uma cidade que vive permanentemente sob chuva ácida. Sua arquitetura é melancolicamente linear e prática. Milhões de pessoas circulam em tal purgatório, onde naves trafegam com outdoors eletrônicos, anunciando Budweiser, Coca-Cola e toda a parafernália midiática que hoje conhecemos tão bem. Embora produzido em 1982, Blade Runner não é datado, pois cada vez mais se aproxima da realidade. Ou, em outras palavras, nos aproximamos dele.

 

O filme conta a estória de quatro andróides (replicantes) que possuem inteligência, força e elasticidade superiores aos engenheiros que os criaram. Contudo, não têm memória, sentimentos, e suas vidas extinguem-se em quatro anos. Evadem-se da colônia onde eram escravos; prolongarem suas existências – metáfora da imortalidade – depende de uma solução tecnológica da Tyrrel Corp., que os criou. Em seus percursos, cometeram crimes – mataram humanos – e são caçados pela polícia de Los Angeles, EUA, através de um agente especial – Deckard -, um ex-policial, ex-Blade Runner, ou caçador de andróides.

 

Nos momentos finais do filme, o replicante Roy Batty diz, que “seus olhos viram o que nenhum humano veria, e que todos esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva.” Ainda existe uma ligação amorosa entre Deckard e uma replicante, Rachael. Na última cena, ele reflete que não sabe quando tempo ela teria de vida mas que, afinal, isso não era tão importante “…porque nenhum de nós sabe quanto tempo viverá.” (fala de Deckard).

 

Eixos de significação 

 

A historicização


O replicante que se volta contra a criatura, personificada por uma corporação – a Tyrrel Corp. – deseja a vida, deseja uma memória, ou seja, deseja historicizar-se. Outrossim, os mesmos desenvolveram sentimentos e comportamentos semelhantes aos humanos. No entanto é uma memória residual, programada.

 

“Se lhes for dado um passado, será criada uma base para a emoção”, é a resposta do policial Bryant, que convoca Deckard para a caçada aos andróides. “Replicantes não deveriam ter emoções. E ‘Blade Runners’ também não”, objeta esse último.

 

Os replicantes não são robóticos, no sentido clássico. Seu corpos são semelhantes aos humanos, imersos em sangue, plasmas, necessidades. Assim, não podem se conformar com o próprio ato da criação, que lhes dá apenas quatro anos de vida. O desejo de historicizar-se é aqui um prolongamento de uma nova situação tipicamente gerada pelo avanço da tecnologia: a bioética.

 

Agora mesmo vivemos no país uma discussão a respeito de alimentos trangênicos. O que temos visto é que um tema seríssimo é reduzido a questões meramente comerciais. Com os replicantes ocorre o mesmo. Eles são fabricados para colonizar lugares em que a presença humana seria insuportável. São, portanto, tratados como produtos, escravos.

 

Em um determinado trecho do filme, o todo-poderoso presidente da Tyrrel Corp – Dr. Eldon Tyrrel – interpretado por Joe Turkel – refere-se à política da empresa dizendo:

 

“Replicantes são comércio. O ideal é a humanização”. (nesse sentido)

 

A angústia vivida pelos replicantes é a da negação da essência da vida, que é historicizar-se, ter uma memória “real” e não virtual, manter relações reais. Podemos, então, estabelecer duas visões interessantes.

 

Paulo Freire diz que o destino ontológico do homem é ser mais, e não ser menos; aqui entendido ser menos como um homem robotizado, imerso num mundo que não entende, no qual está adaptado sem consciência crítica, submetido à tiranização.

 

Como dar um sentido humano a seres que foram criados para serem humanos em tudo, mas que, na sua própria gênese, contém um dispositivo biológico que os impede de viver mais do que quatro anos, que não têm memória, que foram criados para serem escravos, mas que, em razão de suas interações com o mundo, desenvolveram sentimentos e desejos rudimentares?

 

A repressão, contudo, não está interessada nisso. O medo, o estranhamento, a inadaptação em relação ao novo que se rebela, não está programada, e, por isso, é necessária a eliminação dos mesmos dentro de uma lógica que absolutamente não está afastada da nossa realidade atual.

 

A ética, uma das questões mais antigas entre os homens, igualmente é repelida pelos criadores dos replicantes. Em primeiro lugar, o comércio, em segundo, e como meta, a humanização. Não nos parece, também, que essa visão pragmática esteja afastada, infelizmente, de nossa realidade atual.

 

 

Neo-homens e submissão replicante

 


Em Blade Runner agudiza-se a visão de Marx, no sentido da luta de classes e da exploração do trabalho. Cria-se eufemisticamente uma nova classe: a dos neo-homens, resultados hi-tech de uma produção industrial. Alegoricamente temos agora, além das classes sociais ligadas ao marxismo histórico, outras duas: a classe dos que são e a dos que não são homens. Nesta encontram-se os replicantes Nexus-6, sufocados entre uma vida de escravos em razão de uma programação geneticamente engendrada e o desejo de virem a ser humanos.

 

Os replicantes são produtos industriais que irão colonizar locais insuportáveis aos homens (em última análise, seus criadores), mas que desenvolveram requintes de inteligência artificial – IA – que os colocam na situação de quase-homens.

 

O filme, então, passeia entre o rigor da mais-valia marxista e a angústia do existencialismo sartriano. No primeiro caso porque a apropriação do trabalho e de seu produto potencializa o capital da Tyrrel Corp., dentro de uma visão escravocrata, por um lado, mas obtendo todo o lucro possível por outro. E lucro é um conceito capitalista. No segundo caso porque o primeiro princípio do existencialismo sartreano é o de que o homem precede a essência, ou seja, o homem existe, surge no mundo e só após se define. A consciência do homem sendo reflexiva, lança-o para fora de si, fazendo-o interagir com o mundo. O homem é, pois, seu projeto.

 

De todo modo, na essência do processo genético dos replicantes está a marca biológica do comportamento de submissão, a programação no sentido do seu não-devir, a impossibilidade da construção de sua história, seja por subtração de sua memória ou pela incapacitação de criar uma base emocional. Contudo, por não tratar-se de uma inteligência meramente robótica e mecânica, surgiu o momento de a mesma indagar-se a respeito de sua própria existência; ao contemplar o que lhe estava reservado, rebelou-se contra seu criador. Ora, constatada a insubmissão, a lógica do establishment só aponta duas alternativa: ou cooptar os Nexus-5 envolvidos ou eliminá-los. O exterminador Deckard é, então, ungido a promover a segunda via.

 

 

A narração do mundo e a poesia

 


O homem estrutura a sua vida, reconta suas experiências, dando-lhe significado e significância através da contextualização. Em outros termos, trafega sua identidade entre seus pares, conta-lhes as novidades, suas apreensões, ensina, faz-se professor e aluno, conquista e sofre, influi e é influenciado dentro das possibilidades narrativas do seu discurso. Apropria-se de sua história e dá cor aos seus sentimentos.

Aos replicantes, contudo, tal contexto narrativo é disperso, corroído por sua não-experiência passada. A falta de uma identidade real é o signo da impessoalidade, e mesmo a busca de uma sobrevida implica mais em um pensamento abstrato matemático do que em uma elaboração de vivência baseada em formas empíricas.

 

No entanto, o que o drama expõe é a vontade de ser e a tristeza infinita por esse não-ser. A finitude programada é o que de mais cruel possa acontecer. Contudo, as duas últimas falas de Blade Runner apontam para a poesia, para o que mais humano possa existir. A constatação de que “todos esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva” é pura poesia, não apenas pelo que se lê, mas especialmente pelo subtexto aí contido. E no momento final, quando Deckard opta por Rachael, independentemente do que possa acontecer, há um liame que se chama amor.

 

Esse sentido poético empresta ao filme um caráter singular, que o faz transitar pelo tempo, metaforizar-se e conduzir seu espectador a observações sobre o que a ética humana possa ou não vir a cumprir.

 

 

Conclusão

 


Blade Runner tem, além do já comentado, uma trilha sonora primorosa. O filme tornou-se um cult movie, uma referência cultural dos anos 80, não só por sua arquitetura primorosa mas, especialmente, porque lida com valores com os quais a humanidade precisa encontrar-se, seja isso ou não uma utopia.

 

Procuramos aqui enfocar os dois diálogos finais, como já descritos, e a partir deles visualizamos três eixos de interesse: A historicização, Neo-homens e submissão replicante e, por fim, A narração do mundo e a poesia.

 

Esses eixos nos ocorreram no sentido de que a historicização significa aqui um reencontrar-se do ponto de vista sociológico, no sentido de construção da própria identidade humana; em se tratando de quase-homens, achamos oportuno uma breve visão a respeito do marxismo histórico e do existencialismo sartreano. Por fim, ao enfocarmos a narração do mundo e a poesia, novamente nos veio a imagem do quase-homem, algo perdido em um limbo eterno, aguardando, por ironia, que a vida possa ser estendida de modo a que a morte seja uma surpresa.

 

Foi uma experiência pessoal muito gratificante podermos falar a respeito de Blade Runner, embora reconheçamos que há um universo a ser explorado. Mas esse universo só existe na medida em que nos dispusermos, senão de modo competente, pelo menos de modo honesto a discutirmos suas implicações na vida de todos nós.

 

 

Anexos.

 

 

Ficha técnica de Blade Runner

 


Sinopse: Los Angeles , novembro de 2019. O ex-policial e ex-Blade Runner Deckard recebe a missão de eliminar um grupo de replicantes (andróides semelhantes a humanos, mas fisicamente aprimorados) revoltosos da nova geração Nexus 5. A caçada aos replicantes Nexus 5, seu envolvimento com a Rachael (que ele descobre também ser replicante) vão ocorrendo numa seqüência crescente em intensidade, que o faz questionar seus próprios conceitos, e, na visão do diretor Ridley Scott, até a própria identidade de Deckard é questionada… A maioria da população trocou a terra pelo Espaço, deixando para trás, para povoar o planeta, somente os desajustados e decadentes. Infiltrados nesta estranha e abandonada sociedade estão quatro replicantes, criaturas dotada de extraordinária força e inteligência, concebidas em laboratórios e praticamente indestinguíveis dos seres humanos. Programados para executar trabalhos servis nas colônias terrestres e usados em missões especiais pelas forças militares, os replicantes estão proibidos de voltar a Terra sob pena de destruição. Estes replicantes seqüestraram uma nave espacial, assassinando toda a tripulação e, neste momento, estão em Los Angeles passando-se por seres humanos. No início do século XXI, a corporação Tyrell aprimorou os robôs à Fase Nexus, ser idênticos a um humano, chamados Replicantes. Os Replicantes Nexus superavam em força e agilidade e igualavam-se em inteligência aos engenheiros que os projetavam. Eram usados como escravos na exploração e colonização de outros planetas.

 

Informações Técnicas:


• Titulo original – Dia Perigoso Produção – EUA, 1981 – Duração: 117 minutos

• Direção: Ridley Scott

• Atores principais:

Harrison Ford – Rick Deckard

Rutger Hauer – Roy Batty

Sean Young – Rachael

Edward James – Gaff

M. Emmet Walsh – Bryant

Daryl Hannah – Pris

William Sanderson – J.F. Sebastian

Brion James – Leon

Joe Turkel – Dr. Eldon Tyrell

Joanna Cassidy – Zhora

 

 

Relacionamento com a IA (Inteligência Artificial)


• Visão artificial e reconhecimento de padrões: os replicantes possuíam características semelhantes às dos humanos, tanto na percepção de sons, visão, fala, como na distinção de objetos e seres vivos.

 

• Máquinas de aprendizagem: os replicantes aprendiam com as suas experiências, tanto com os seus erros como com seus acertos, o que auxiliava na ampliação de sua base de conhecimento.

 

• Compreensão da fala: a comunicação entre os humanos e os replicantes se dava através da fala, de forma tão natural que não era possível distinguir um homem de um replicante.

 

• Domótica: inicialmente os replicantes foram criados para realizar tarefas que os humanos não mais queriam fazer, tais como serviços braçais, ou muito corriqueiros.

 

• Lógica Difusa: os replicantes eram tão parecidos com os humanos que eles próprios tinham várias indecisões. Alguns nem mesmo sabiam se eles próprios eram robôs ou não. Suas decisões tinham que ser tomadas mesmo que não tivessem convicção do que era certo ou errado.

 

• Computação evolutiva: assim como os homens aprendem no decorrer do tempo, os replicantes evoluiram, com o objetivo de se tornarem completamente humanos.

 

• Robótica: as características programadas nos replicantes foram propositais para imitar os seres humanos, a fim de usá-las nas atividades anteriormente citadas, porém não previu-se que a evolução ocorreria também no modo de pensar dos replicantes, a ponto de desejarem direitos iguais aos homens.

 

 

 

Hilton Besnos

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publicado às 00:40

Meu filho músico, meu filho publicitário, meu filho-futuro

por blogdobesnos, em 04.04.12

Quando me separei, meu filho Miguel tinha sete anos. Imagino o seu sofrimento, a sua angústia, o seu não entendimento do que, na época, lhe foi posto. Graças a Deus e as nossas histórias pessoais, eu e minha ex-mulher prosseguimos, até hoje, com um bom relacionamento, o que me deixa extremamente grato. Por que relato isso? Porque dez anos se passaram: hoje o Mig tem dezessete e se prepara para o vestibular de música na UFRGS, o Gabriel é um homem totalmente formado e independente, construindo uma história de sucesso profissional, enquanto o Matheus já abandonou de vez o Pokemon e migrou para I love Carly.

 

Anteontem estava no Mig quando entrei em sua listagem de músicas no I Tunes. O que seria esperado de ser encontrado ali? Pancadões, DJs de gosto duvidoso, os simulacros de música que nos intoxicam a alma e nos estressam a paciência, o que ouço cantado pelos adolescentes todo o dia. Mas o que encontrei? Amy Winehouse, Santana, Jimmy Hendrix, Bob Dylan, Cartola, John Coltrane, Tom Zé, Vinícius e Toquinho, Bethania, Caetano, Buena Vista Social Clube, Legião Urbana, Beatles, Rolling Stones e assim por diante.  Quando você observa isso, fica muito claro que existe não apenas uma questão de gosto pessoal, mas formação. Ninguém consegue, aos dezessete, ter uma lista dessas se não tiver um registro interno que separe o joio do trigo.  Não se consegue escutar Chico Buarque ou Cartola, nesta idade, sem consequencias que reflitam diretamente em uma humanidade sensível, educada e voltada para o Outro. Quando entrei em seu quarto, ele tinha na sua frente uma tela de computador com uma partitura em que ele lia e fazia exercícios no violão.

 

Fiquei assim, meio tolo, olhando o Mig tocar, até porque partitura, para este escriba é uma linguagem totalmente desconhecida, embora saiba para que serve e ache muito bonito seu grafismo, mas a minha ignorância não me permite dizer nada além disso.  O Mig continuava ali, fazendo seus exercícios musicais e o pai bobo ali maravilhado. Quando o escuto, tenho a certeza absoluta de que meu filho nasceu para ser músico; também não me ocorre nenhuma atitude que não seja a de incentivo. Sempre disse a meus filhos que eles devem procurar profissionalmente algo que os tornem felizes. É a felicidade que diferencia uma vida interessante de uma vida comezinha, e é somente através do estímulo que a felicidade traz que nos destacamos nessa mesma atividade.

 

Creio que vivemos em uma época na qual é relevante que os pais não queiram determinar o futuro de seus filhos. Não adianta pressionarmos para que nossos filhos sejam arquitetos, promotores, advogados, médicos, engenheiros, se eles não se sentirem felizes. Os pais que desejam se realizar através dos filhos são um simulacro de pais. É importante que coloquemos em primeiro lugar os desejos e os sonhos dos nossos filhos. Eles viverão as suas vidas; se me couber algo no sentido de ajudá-los em termos de buscar o que entendem melhor, não tenho dúvida de que farei o bastante.

 

Sempre que vejo e escuto o Miguel tocar violão ou guitarra sei claramente que ele deve fazer isso e que a minha alma fica em paz; na verdade talvez ele nem saiba do tanto de alegria que me proporciona, de modo tão intenso e gratificante. Assim, vejo meus filhos crescerem, determinarem os rumos que darão às suas vidas. Daqui há alguns anos, o Matheus fará com que o processo se repita e eu espero poder – queira Deus – ajudar no seu caminho.

 

Citando o poeta, e todo poeta deve ser citado, me vem Khalil Gibran Khalil

 

Vossos filhos não são vossos filhos.


São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.


Vêm através de vós, mas não de vós.


E embora vivam convosco, não vos pertencem.


Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,


Porque eles têm seus próprios pensamentos.


Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;


Pois suas almas moram na mansão do amanhã,


Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.


Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,


Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.


Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.


O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força


Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.


Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:


Pois assim como ele ama a flecha que voa,


Ama também o arco que permanece estável.

 

Parabéns meus filhos amados, parabéns Miguel, por teres descoberto na linguagem dos deuses a tua linguagem, parabéns Gabriel, pela tua criatividade e teu espírito, parabéns Matheus, que irás crescer como um homem livre em vida e em significados.

 

Que a mão do Pai se extenda sobre vocês, e que a vida lhes sorria.

 

Shalom,

 

hILTON

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publicado às 00:24

Letras e Moleskine

por blogdobesnos, em 04.04.12

Desenho em uma Moleskine


Ontem tive um sonho encantador: letras e palavras brotavam do nada e fluíam para mim. Nada tinham de simétricas; antes, dançavam sob meus olhos e íam se transmutando continuamente e eu as tomava em minhas mãos, como se fossem sementes de plantas desconhecidas e maravilhosas. Com as miríades de letras poderia escrever relatórios de sorvetes, viagens para as Ilhas Maurício e Salomão, projetos de gotas de chuva, mapas de cartografia suméria, biografias de camelos, histórias de italianos argentinos, poemas de baunilha, romances de rock and soda, cronicas de tequila, redondilhas de ramblas, cartas para o tio Sigmund, memórias de excursões jamais havidas e uma infinidade de possibilidades que íam me arrastando até as pontas góticas dos efes, circulando os aros dos as e as intermináveis curvas do ge – que, como sabemos, é uma estranha montanha russa radical.

 

E – lá está ela – há uma agenda Moleskine, lendária, bela, simples, definitiva, que abrigava ali mesmo todas as letras, todos os pensamentos, e os ía ordenando assim em times new roman corpo 12 – mais clássico impossível – de acordo com a minha sensibilidade de escritor primário. E o sonho se ía assim, não sei por quanto tempo, que os sonhos talvez sejam os únicos sítios, os únicos territórios em que Chronos não apõe sua monótona, irretorquível e sonolenta presença, até que acordei, com o coração e a mente aquecidos e felizes.

 

Desvaneceram-se as letras, a Moleskine continua sendo um objeto de desejo e o dia aguarda que este estranho viajante arrebanhe sua pequena bagagem composta de lápis, caderno, canetas, celular, possivelmente o livro do momento – A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, emprestado pela bela Lisane – e, um tanto quanto sonolento, inicie sua diária navegação.

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publicado às 00:13

O negro e o afro-descendente

por blogdobesnos, em 04.04.12

Sempre tive a impressão de que a linguagem politicamente correta é um artifício, um embuste, uma máscara para encobrir realidades nem sempre agradáveis, que envolvem questões e dados sensíveis. Por exemplo, eu sou o que mesmo? Ah, sim: sou latino-americano, caucasiano-descendente e semita. Essa é a minha definição politicamente correta.  Se, contudo, falarmos linguagem de gente, sou brasileiro, branco e judeu.

 

Já os negros devem ser chamados de afro-descendentes, como se isso fosse um antídoto contra o racismo, como se isso purgasse a enorme dívida social, econômica e cultural que o Brasil tem para com mais de cinquenta por cento de sua população. Não importa o nome que se dê, o que importa é o que efetivamente se faz para minorar os estragos já feitos. Os negros, nesse país, tem uma enorme contribuição em todos os campos de cultura, além de outros. Basta, por exemplo, visitarmos o Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz, em São Paulo, para vermos a importãncia do negro nesse país.

 

Isabel Allende, iniciando sua brilhante participação em evento internacional (1), cita um aforisma judeu, que diz:  ” O que é mais verdadeiro que a verdade? A História “.  E a História diz claramente que os negros foram libertados da maldita escravidão brasileira através da Lei Áurea, de 13 de maio de 1888 para, no dia seguinte, serem jogados na rua, para uma nova vida de servidão cruel, injusta e desumana.

 

Somente no governo Lula, através da Lei 8.213/1991 e decorridos 103 anos da infamante situação à qual se expos toda a população negra, é implicada uma política que visa subverter tal quadro de insanidade social. Os que são contrários ao regime de cotas são os mesmos que chamam negros de afro-descendentes, mas que achariam muito exótico se fossem eles próprios chamados de caucasianos-descendentes. A razão é clara, a exceção é que deve ter uma nomeação explícita. Para os demais, basta a linguagem comum.

 

A arte da nomeação, portanto, atende a imperativos discursivos. Como temos, atualmente um modelo social no qual -  embora continue campeando a hipocrisia e a tendência ao regime de castas sociais - houve um suporte ideológico a múltiplos avanços democráticos obtidos graças aos movimentos sociais, político-institucionais e integrações emergentes (2) não é mais possível sustentar-se uma linguagem que não corresponda à tal momento histórico. Criou-se então uma linguagem anódina, cuja conveniência acompanha tal quadro. No entanto, nomear é insuficiente, assim como é bem mais fácil desejar do que arriscar-se à executar o objeto do nosso desejo.

 

Atualmente o campo de discussão dos direitos civis se ampliou significativamente, o que iniciou especialmente a partir dos anos de contestação do século XX. O fato é que a História não pode ser brecada e que parece que uma boa parte da humanidade permanece infensa aos seus ensinamentos. Não somos mais cidadãos porque concedemos chamar os negros de afro-descendentes, nem somos mais participativos porque modelamos nossos discursos a um padrão que se entenda mais progressista.

 

Somos mais cidadãos quando agimos buscando uma consciência política maior, quando saímos de um estado de intransigência para um de interação com o Outro. Somente passamos ao estágio da cidadania quando nos colocamos política e sensivelmente no lugar do Outro, e quando permitimos que ele se coloque em nosso Lugar. Talvez por isso o exercício democrático seja tão interessante e, em outros termos, tão complexo. Não basta sabermos que existe a negritude, senão quando nos pomos não ante a negritude, mas quando à mesma nos solidarizamos e nos integramos à mesma sem qualquer reserva mental.

 

Somos um país mulato, negro, ameríndio e talvez por isso sejamos felizes, tão diferentes dos países gelados da Europa com os quais nossa subserviente elite quer nos forçar a tomarmos como seguidores. Somos latino-americanos, africanos, somos a Geléia Real de Gilberto Gil e Torquato Neto. 

 

 

 

(1) http://www.ted.com/talks/lang/por_br/isabel_allende_tells_tales_of_passion.html

 

(2) Aqui a expressão é utilizada no sentido empregado por Steven Johnson, no livro Emergência – A dinâmica de rede em formigas, cérebro, cidades, Ed. Jorge Zahar, 2003.

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publicado às 00:07

O grande canalha

por blogdobesnos, em 04.04.12

Eu até iria escrever sobre outro tema, mas este tomou a minha mente. O gande canalha é sombrio, não se expõe, mas manobra pelos bastidores, sempre procurando atender as suas conveniencias, que quase sempre tem prioridade sobre qualquer outro assunto, colega, ou algo que não seja o atendimento aos seus interesses. O mérito do mesmo é justamente ser melífluo, criar de modo sutil situações para que os outros façam o que ele deveria ter feito ou deveria fazer. Com tal objetivo, adota não raro um ar distante, evasivo, tendo o máximo cuidado, contudo, de estar próximo a quem detenha alguma parcela de poder. Fica ali pendurado, esse papagaio de pirata, apenas aguardando o momento de bicar a oportunidade que queira para, após, retornar ao ombro amigo que o agasalha.

 

O grande canalha é uma pessoa óbvia, dessas cuja palavra tanto faz quanto desfaz; ou seja, sem eira nem beira, sem um passado a recomendar e sem um futuro promissor, trata-se de alguém gris, que apenas contribui para si mesma. Não há, para ela um grupo de coesão, nem sentido de identidade pois, na primeira oportunidade não exitará em constranger um grupo ou uma pessoa  atendendo única e exclusivamente ao seu interesse, que não pode ser adiado ou menosprezado. Também não lhe importa se outros o tratam de modo apreciável, leal, porque àqueles vê apenas instrumentos que servem aos seus objetivos. Talvez por isso viva só, sem amigos leais, tendo, daí, que estribar-se em quem detem alguma possibilidade de lhe facilitar a vida. O grande canalha não elogia; bajula. Por uma questão estritamente de conservar-se a si próprio, circula ao lado de quem é competente. Não busca aprender, mas simplesmente sugar um pouco de tal vivência, para não engolfar-se a si próprio na mediocridade que o aprisiona.

 

O grande canalha não é autêntico, sempre preservando um sorriso à la Mona Lisa, enquanto sua biruta procura desesperadamente saber para que lado sopram os ventos mais favoráveis. Somente após tal descoberta, dirá o que melhor lhe interessar. O grande canalha, no fundo, é um réptil. Como todo réptil, contudo, inspira cuidados, já que a distância nem sempre é possível, embora evidentemente necessária. Cultiva interesses como papoulas de ópio, ao mesmo tempo em que se reveste de uma capa de bom-mocismo, já de toda rota.

 

É interessante também o fato de que ele traz em seu arsenal a mais profunda indiferença ao fato de saber que terceiros o crêem e o vêem assim, como um grande aproveitador. Não liga absolutamente para isso, pois seu pudor profissional já se foi consumido há muito tempo. Sua imagem já se dissipou, se esboroou, já foi para o buraco, e ele sabe disso, então vai procurando despojos aqui e ali, aproveitando expedientes que possa conseguir graças ao seu comportamento nebuloso. Outra de suas características é a de que ele, como já dissemos, não se posiciona:  na maioria dos casos quer que outros falem por ele, por um motivo bastante banal: se houver problemas no discurso, ele dirá: “mas não fui eu que disse isso”, repetirá ad nauseam, enquanto fará um sorriso incidental, quase cândido.

 

É claro que nós o conhecemos, basta pensar um pouco e – bingo! – lá estará ele com sua indefectível parcimônia, sua contumaz obviedade, sua expressão de pano. Achou? Fácil, não. Afinal, esse canalha, por ser grande, já é, de muito, figurinha marcada…

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publicado às 00:05


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