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por blogdobesnos, em 11.04.12

FAPA/2004 – Profª Maria Costella

 

Influência social da alfabetização: competência e exclusões

Porto Alegre, 10/06/04

 

Hilton Besnos

 

Introdução.

Vivemos em um mundo fragmentado, simbólico e complexo. Fragmentado não somente no sentido do conhecimento, mas também quanto às instituições e aos relacionamentos, sejam interpessoais ou formais. Simbólico porque somos inundados por signos, ícones e  linguagens que muitas vezes não se revelam diretamente, mas se constroem e aos seus significados na cotidianiedade do mundo midiático e estético. Complexo porque as relações de produção e as relações sociais cada vez mais são dependentes e porque igualmente estão em franca dependência as políticas macroeconômicas dentro de um processo de globalização.

Dentro de tal mundo complexo um fator primordial é a educação, que serve como acesso privilegiado a esse mundo mutável e com consideráveis modificações paradigmáticas. Assim, a educação é um elemento diferenciador para o entendimento crítico desse mundo mobile e de suas mediações.

Inserta no processo de intencionalidade educacional encontramos a alfabetização, ou seja  domínio não só da leitura e da escrita, mas especialmente o entendimento e a significância das narrativas diversas com as quais o homem estrutura sua história pessoal e constrói sua criticidade.

Apreciar essas aquisições e termos uma visão sociológica da alfabetização é que move este trabalho, estendendo-se às apreciações sobre outros aspectos no que concerne a real aquisição de uma cidadania participativa, do qual o processo educacional é um dos principais vetores.

O sentimento de desfiliação. O não-pertencimento.

A impressão geral que acode o homem é a de desfiliação, de não-pertencimento. É claro que existem laços que se pretendem regionalizados e mesmo pessoais – família, estado-nação, cultivo de determinadas crenças e costumes, valores morais e éticos, patriotismos, nacionalismos etc, mas mesmos  esses são passíveis de fluidez.

O sentido de não-pertencimento radica num complexo de situações dentre as quais podemos apontar (a) a degradação do estado de bem-estar social (welfare state) e o conseqüente processo erosivo dos direitos sociais, (b) a impossibilidade do atendimento demandado pela sociedade, por parte das instituições do estado-nação, (c) a mudança dos modos de produção industrial pós-fordistas e (d) as novas formas de trabalho e de produção e suas desregulamentações.

Tal desfiliação inclui aspectos ligados a alteração do sistema de crenças e de modos pelos quais as pessoas resolviam seus problemas ou mantinham seus entornos sociais, bem como a tentativa de generalização e homogeneização da cultura e um forte apelo ao mundo do espetáculo e do consumo alienante, características das ideologias neoliberal e neoconservadora, cuja face econômica e política é a globalização de mercados, de serviços e de instâncias culturais.

Segundo TOURAINE (1998) esse sentimento de desfiliação provoca no homem duas atitudes básicas: (a) a alienação ao mercado, ou seja, isolando-se  em um nicho sem caráter identitário próprio ou (b) passa a ser um ativista convicto, muitas vezes mesmo perdendo o foco de seu ativismo. Alternativamente pode ingressar em alguma sociedade com caráter rígido no que tange a sua estruturação. De qualquer modo, busca, especialmente no segundo caso, afirmar sua identidade, podendo alinhar-se ideologicamente ou ao multiculturalismo ou à homogeneização cultural. Existe uma terceira via, que é a da hibridização cultural, em movimentos de complexidade cada vez maiores.

O homem consome-se dentro de uma semântica simbólica.

O homem passou a ser considerado basicamente um consumidor, e seu nível econômico e aquisitivo um parâmetro no qual é inserto ou não no processo produtivo, operando restrições ou benefícios quanto ao acesso a bens culturais, de saúde, educação e de possibilidades financeiras e de habitação, além de outros privilégios estéticos e profissionais.

Habitamos um mundo altamente matematicizado e codificado; dependemos de nossa capacidade e habilidade de lidarmos com o simbólico e o abstrato. As tecnologias forçaram novas releituras de tais continentes e contingências e o homem teve de se adaptar às mesmas. É possível que nossos conterrâneos dos séculos imediatamente anteriores tivessem dificuldades para entenderem e se movimentarem dentro de tais entornos sociais e tecnológicos.

Cartões de crédito e de débito, sociedade de informação e as tecnologias de comunicação, um mundo promovendo o espetáculo, ingressos, internet, placas de trânsito, cartões de benefícios estatais, acessos eletrônicos às caixas bancárias, fichas de ônibus, preenchimento de modelos, simbologias de caráter mundial, celulares, aviões, telex, fax, máquinas de lavar, de passar, ônibus, corredores de  trânsito, agrobusiness, plotters, enfim há uma multiplicidade que não somente éescrita mas especialmente deve ser entendida.

O signo criou uma linguagem própria, advinda especialmente da explosão tecnológica havida a partir da segunda metade do século XIX, representando uma abstração na qual o homem passou de criador a criatura, sendo

“…arrastado cada vez mais velozmente por forças que foram originariamente criadas por ele. Nesse torvelinho desenfreado, ele pensa, calcula, trabalha com abstrações cada vez mais afastadas de sua vida concreta.” (FROMM, 1985) .

Importa situarmos o homem historicamente, embora tenhamos a convicção que o processo de globalização não é uniforme nem traz as mesmas conseqüências a todas as áreas e perspectivas sociais. Contudo, muitas vezes o embate local x global passa despercebido, mas é relevante sabermos que há sempre um viés ideológico agregado aos movimentos políticos-econômicos e suas conseqüências sociais, que não raro se dispersam nos fazeres do cotidiano.

Aqui  abordaremos a alfabetização e suas conseqüencias hominizadoras e para as alteridades sociais imbricadas nessa discussão.

Alfabetização ou alfabetizações: uma leitura de mundo.

TORO (1997) aponta em seu Código da Modernidade as competências e habilidades mínimas para uma participação produtiva no século XXI. Devemos entender  “competências e habilidades” no sentido de capacitar o homem a mover-se e decidir de modo eficaz dentro de um mundo com as características acima esboçadas.

Dentro desse codice encontramos como primeiro ítem o domínio da leitura e da escrita; como segundo a capacidade de fazer cálculos e de resolver problemas; como terceiro a capacidade de analisar, sintetizar e interpretar dados e situações; como quarto a capacidade de compreeender e atuar em seu entorno social; como quinto receber criticamente os meios de comunicação: como sexto a capacidade para localizar, acessar e usar melhor a informação acumulada; sétimo a capacidade de planejar, trabalhar e decidir em grupo.

Em entrevista à revista NOVA ESCOLA ON LINE (2002, jan. fev., Ed. 149, ) TORO acrescentou uma oitava competência que seria a de criar no estudante uma mentalidade internacional.

“Quando esse jovem chegar à idade adulta, seu campo de ação não será apenas o bairro ou a cidade: será o mundo.” (TORO, 2002)

Além do domínio da leitura e da escrita, TORO descreve ainda a leitura da imagem, ou seja, o deslocamento do escrever para o de descrever uma semântica coerente com os sistemas de comunicação atuais, nos quais a imagem tem uma valência própria e fundamental.

A alfabetização  tem implicações que perfazem um limite inicial entre a inclusão ou a exclusão social. Resta claro que a mesma além de ser um direito a ser suportado pelo estado, não possui uma face somente individual: não. Trata-se também de uma estratégia do estado-nação, de um imperativo para que o mesmo possa manter e desenvolver sua cultura própria e criar um mecanismo eficaz para a melhoria de qualidade de vida de seus cidadãos, qualificada basicamente pelo acesso aos bens culturais e de consumo e pela satisfação profissional.

Não se trata apenas da alfabetização no sentido de decodificar os signos da língua escrita ou mesmo da construção frasal: é necessário que o educando entenda o significado do que lê e consiga aportar suas idéias e convicções por escrito,  conferindo significância ao aprendizado.

Atualmente se fala ainda de uma outra alfabetização considerada fundamental para uma movimentação eficiente em nosso contexto social: a matemática, onde entende-se leitura no sentido da compreensão e do escrever tal linguagem, como ocorre nas séries iniciais de escolarização. Há então uma abrangência cada vez maior em referência à alfabetização e suas conseqüências sociais e interpessoais.

Por outro lado, a alfabetização pode ser entendida dentro de dois grandes movimentos: o construtivista, baseado nas experiências de Ferrero e Teberovsky, com apoio na teoria genética piagetiana, e a teoria do letramento.

A teoria da psicogênese de Ferrero.

A psicogênese da língua escrita estriba-se nos trabalhos de Piaget e especialmente nas pesquisas efetivadas por Emilia Ferrero. A aquisição da representação escrita da linguagem tem sido tradicionalmente considerada como uma aquisição escolar. Contudo o conhecimento tem início, contudo, no período pré-escolar e também a aquisição da língua materna.

Há uma evolução da escrita na criança que é influenciada pela ação das instituições educativas, que muitas vezes apenas dá atenção ao seu próprio formalismo. Isso significa que a escola adota, não raro, uma representação excludente, a partir do momento em que trata o conhecimento previamente adquirido como inexistente e aplica um formulismo tradicional no encaminhamento das questões da aprendizagem.

Para os adeptos da psicogênese há etapas sucessivas que se interligam em termos de mecanismos constitutivos que justificam a seqüência dos níveis sucessivos. A estruturação piagetiana vem daí, no sentido de que existem estádios de compreensão e de aquisição da escrita, devendo tais estádios conformarem-se com o desenvolvimento psico-motor da criança.

Da mesma forma com que Piaget classificou diferentes fases dentro do crescimento, igualmente tais fases seriam reproduzidas dentro de uma estrutura voltada para a alfabetização.

O quadro abaixo sintetiza o acima formulado. Contudo, achamos desnecessário aqui desenvolvermos a teoria piagetiana da psicogênese, mas sim demontrar a compatibilidade afirmada entre a mesma e a teoria da psicogênese da língua escrita, cujos trabalhos foram desenvolvidos especialmente por Emilia Ferrero.

Emília Ferreiro Piaget
Pré-silábicaSilábicoSilábico-alfabético

 

Alfabético

Sensório motor (zero a dois anos)Pré-operatório (dois a sete anos)Operatório concreto (sete a doze anos)

 

Operatório formal (doze e acima de doze anos)

 

Habitando e entendendo o mundo letrado.

O letramento implica mais do que a apropriação do código escrito, porque a proficiência em tal área traz implicações enormes a auto-imagem e à participação social do indivíduo no meio social.  Não basta aqui a mera apropriação, nem o “saber ler e escrever”; mais que isso implica no uso da tecnologia da escrita e da leitura para situar-se e compreender o mundo através de uma prática consciente e contínua, aumentando o grau de criticidade a partir do momento em que estrutura seu discurso.

A palavra “letramento” tem origem na palavra inglesa “literacy”. Contudo o letramento em verdade  é o estado que o indivíduo ou o grupo alfabetizado passam a ter sob o impacto de tais mudanças em suas próprias vidas e na vida social e comunitária.

“Implícita nesse conceito está a idéia de que a escrita traz conseqüências sociais, culturais, políticas, econômicas, cognitivas, lingüísticas, quer para o grupo social em que seja introduzida, quer para o indivíduo que aprenda a usá-la. Em outras palavras: do ponto de vista individual, o aprender a ler e escrever – alfabetizar-se, deixar de ser analfabeto, tornar-se alfabetizado, adquirir a ‘tecnologia’ do ler e escrever e envolver-se nas práticas sociais de leitura e de escrita – tem conseqüências sobre o indivíduo, e altera seu estado ou condição em aspectos sociais, psíquicos, culturais, políticos, cognitivos, lingüísticos e até mesmo econômicos; do ponto de vista social, a introdução da escrita em um grupo até então ágrafo tem sobre esse grupo efeitos de natureza social, cultural, política, econômica, lingüística. (…). Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), a aptidão para ler e roduzir textos – dos mais variados gêneros e temas – com proficiência é o mais significativo indicador de um bom desempenho lingüístico e, conseqüentemente, de letramento. Um escritor competente deve, portanto, saber selecionar o gênero apropriado a seus objetivos e à circunstância em que realizará seu discurso.” (BONAMINO, COSCARELLI et FRANCO, 2002)

Assim considerado, o letramento é mais que um movimento de alfabetização porque embora entenda a aquisição da leitura e da escrita como uma apreensão eficaz de uma tecnologia própria, estende sua atenção às nuanças políticas e sociais e de um quefazer crítico, preocupando-se com o discurso e com a capacidade de mobilidade que o aprendente tenha em razão do mundo simbolico e letrado onde se insere.

Também de considerarmos que, em assim ocorrendo o letramento opõe-se energicamente ao conceito de analfabetismo funcional. Aqui, é de dizer-se que o analfabetismo funcional ocorre quando a pessoa ou o grupo embora detenha a capacidade de ler e escrever não possui a capacidade de entendimento do que lê ou escreve. Há, aqui uma dissociação entre o uso do código escrito e a capacidade real de compreensão do mesmo código, aplicado às situações do dia-a-dia.

Uma visão sociológica da alfabetização.

Compreendida a partir de seu significado social e político, a aquisição lingüística ganha um outro status no discurso pedagógico porque o desafio que hoje se coloca à construção da sociedade democrática ultrapassa a dimensão técnica do ensinar as letras, as sílabas e as palavras.

“Quando grande parte da população fica à margem do mundo letrado e os homens são impedidos de se constituírem enquanto sujeitos, há que se (re)considerar a exclusão social, um processo nem sempre evidente pela sutileza de seus mecanismos constituídos dentro e fora da escola.” (SILVA).

Todos os anos alunos são excluídos de seu primeiro instrumento de ascensão social e de auto-estima, a leitura e escrita. Alunos que chegam a escola já com conhecimentos prévios e válidos para a o processo de alfabetização são submetidos a produção de linguagem, a métodos mecânicos de alfabetização, voltados para decifração e calcados no adestramento.

Não seria impeditiva do seu sucesso na alfabetização essa desconstrução da experiência do aluno como produtor de linguagem? E não estaria aí uma explicação possível para o sempre presente fracasso escolar neste processo? Cada vez mais o Brasil vai acumulando analfabetos, e isso pode ser entendido igualmente em relação aos processos cognitivos de outras áreas “marcadas” do conhecimento formal ( matemática,  geográfica, história, tecnológia e assim por diante).

O jornal Zero Hora, em setembro de 2003, publica: “Só um em cada quatro brasileiros entre 15 e 64 anos demonstram plena habilidade de leitura e escrita”. Isso significa que apenas 25% dos brasileiros têm domínio pleno desta habilidade. Por seu turno os projetos para de alfabetização se limitam em ensinar o aluno a ler e escrever, relegando a capacidade de compreensão e expressão do estudante.

Quão enorme é a dificuldade das classes populares e trabalhadores desprivilegiados no acesso, desde cedo, à leitura (cultura letrada). Quanto à aquisição do gosto pela leitura, Zero Hora aponta que a mãe é a principal responsável pela influência positiva (41% dos casos), seguida pelos professores (36%) e os pais, genericamente (24%).

Nas classes economicamente de classe baixa certamente a escola foi o primeiro lugar em que as crianças tiveram acesso ao mundo letrado e ortográfico.  Quantos pais dessas crianças habitualmente lêem jornal? Quantos pais e professores habitualmente liam para as crianças e alunos quando estes eram mais jovens? Porque existe uma inércia tão grande por parte da sociedade e dos governos em relação a esses fatos?

Ora, se nem a escola, que deveria ser um centro de cultura letrada muitas vezes discrimina, direta ou indiretamente seu aluno, porque o mesmo iria dar significância à alfabetização e às diversas leituras do mundo, seja no sentido estético seja no sentido crítico?

«À medida que o analfabetismo vai sendo superado, que um número cada vez maior de pessoas aprende a ler e a escrever, e à medida que, concomitantemente, a sociedade vai se tornando cada vez mais centrada na escrita (cada vez mais grafocêntrica), um novo fenômeno se evidencia: não basta apenas aprender a ler e a escrever. As pessoas se alfabetizam, aprendem a ler e a escrever, mas não necessariamente incorporam a prática da leitura e da escrita, não necessariamente adquirem competência para usar a leitura e a escrita, para envolver-se com as práticas sociais de escrita (…) Esse novo fenômeno só ganha visibilidade depois que é minimamente resolvido o problema do analfabetismo e que o desenvolvimemnto social, cultural, econômico e político traz novas, intensas e variadas práticas de leitura e de escrita, fazendo emergirem novas necessidades além de novas alternativas de lazer» (SOARES, 1998, pp.45/46)

A escola deveria andar ao lado das demandas sociais. Afinal, não é possível que somente alunos oriundos da classe de domínio social tenham uma efetiva educação formal de qualidade.

Independente da realidade social na qual o professor constrói sua aula, deve acreditar em seus alunos sejam pobres ou ricos, filhos de papeleiros ou de empresários e na sua capacidade para aprender. Cabe-lhes instigá-los e não ficar perdendo tempo precioso apenas com lugares comuns irrogando culpas aos mesmos pelas não-aprendizagens.

Segundo FREIRE COSTA (1994) “ Em face da criança que fracassa, raramente a escola ou mesmo os profissionais de instituição especializados levantam problemas como: a estrutura da escola e estrutura social, a inadequação dessa estrutura em face da situação real da vida da criança.”

Quando falamos em alfabetização e questões sociais, não podemos deixar de falar sobre a cultura letrada também conhecida como letramento. O letramento no Brasil, conforme nos explica SOARES (1998), está associado ao fenômeno de superação do analfabetismo e à valorização da escrita. Muitos crêem que alfabetização e letramento são dissociados mas uma completa a outra. As crianças não tem que somente aprender a usar os símbolos (letras), mas sim compreendê-las dentro de um significado maior, que as induza a uma curiosidade cognitiva real, no dizer de FREIRE.

É da essencialidade do ensino tornar os objetos de estudo significativos para os alunos, espeicalmente no caso da alfabetização, àqueles que anteriormente nunca tiveram  acesso a livros, jornais revistas.

Talvez no momento em que os educadores não excluírem mais seus alunos pelo que cada um é, não tenhamos tanta evasão e repetência escolar; o lugar que deveria ser de acolhimentocolhimento continua fabricando a exclusão social.

Conclusão

A questão da alfabetização é portanto fundamental para melhorar a qualidade de vida das pessoas, mas o próprio processo deve ter em conta de que a mesma deve ser funcional, ou seja, não basta a aquisição do domínio do código escrito e da leitura, mas a ele deve somar-se a capacidade de interpretar o que ali está aposto ou o que irá escrever, de modo que a sua intencionalidade seja realmente expressa.

A não-alfabetização por seu lado é um marco claríssimo de exclusão social, uma vez que bloqueia o acesso às atividades produtivas formais, aumentando o cinturão de miséria intelectual e econômica. Por esses motivos, especialmente, os analfabetos tendem a serem socialmente segregados: por não terem condições mínimas formalmente reconhecidas pelo mundo da empregabilidade no sentido de melhorarem seu status profissional.

É óbvio que não é estritamente necessário que as pessoas sejam alfabetizadas para poderem trabalhar e se sustentarem, mas é igualmente claro que o analfabetismo é um fator impeditivo ao seu melhor acesso profissional. Por outro lado, não há sustentação cultural que não seja atingida pelo fato de não participar a pessoa da cultura letrada como cidadão.

“Aqui surge o problema da educação. Com razão, Dewey dizia que ‘educar significa enriquecer as coisas de significados’. Se duas pessoas assistirem a um mesmo filme, sendo uma instruída e outra analfabeta, na verdade verão dois filmes diferentes mesmo se acreditam ver o mesmo filme.” (DE MASI, et FREI BETTO,  2002)

Mesmo tendo o Estado renunciado a rede de proteção social (ou tendo sido lentamente forçado a abandoná-la, por pressões contigenciais), encarar a alfabetização seriamente é também um problema estratégico, um divisor entre a marginalização e o acesso social. E isso fundamenta  não apenas a cidadania, mas especialmente, um processo de humanização, afastando a miserabilidade econômica, social e ajudando a aplacar a violência dentro dos cinturões urbanos.

Bibliografia

Bologna, José Ernesto. (2002). Diálogos Criativos: Domenico de Masi: Frei Betto/ mediação e comentários José Ernesto Bologna. São Paulo. De Leitura.

Bonamino, Alicia, Coscarelli, Carla et Franco, Creso. Avaliação e letramento: concepções de aluno letrado subjacentes ao SAEB e ao PISA. Meio eletrônicohttp://www.scielo.br/pdf/es/v23n81/13933.pdf, outubro-2002. Consulta em 08-06-2004.

Freire, Paulo (1981) Educação e Mudança. Coleção Educação e Mudança, v. 1. (trad. Gadotti, Moacir et Martin, Lilian Lopes). Rio de Janeiro. Paz e Terra.

Fromm, Erich. (1985). Psicanálise da sociedade contemporânea. São Paulo: Círculo do Livro.

Garcia, Regina Leite et Oliveira (org), Anne Marie Milon et al. (1997). Alfabetização dos alunos das classes populares. São Paulo. Ed. Cortez.

Hargreaves, Andy. (2004). O ensino na sociedade de conhecimento: educação na era da insegurança. Porto Alegre. Artmed.

Toro, Bernardo. (2002). Código da Modernidade. Meio eletronico:http://novaescola.abril.uol.com.br/index.htm?ed/149_fev02/html/fala_mestre. Consulta em 02.07.2004.

Zero Hora . (2003) Reportagem especial. Brasileiro lê sem entender. Porto Alegre. Ed. Zero Hora

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publicado às 22:32

Traições do cotidiano

por blogdobesnos, em 11.04.12

É claro, há pessoas que traem, mas na medida em que nos habituamos a conhecê-las, as correntezas da traição bem poderiam ser melhor entendíveis ou, pelo menos, digeríveis. No entanto, mesmo que o tempo e a experiência nos ajudem a obter uma maior condescendência com a natureza humana em relação às suas incongruências e insatisfações, a traição em si nos põe em desafio quanto a nossa capacidade de tolerância. Uma traição aproxima perigosamente uma confiança pessoal estilhaçada, uma ação sub-reptícia, mal-formada e, não raro, torpe, produzida por outro, além do sentimento envenenado da injustiça. A complementaridade dessas circunstâncias pode gerar uma desconfiança genérica latente em relação não somente ao que traiu, mas a outros, indistintamente. Quem trai, normalmente, tem plena consciência dos sentimentos e dos sentidos do que está manipulando. É, portanto, a traição, o exercício da capacidade da vontade, de tornar vulgar e sem sentido a fidúcia depositada. É uma quebra unilateral de um comportamento mútuo que havia sido explícita ou implicitamente pactuado e que, não raro, pode ser confundido com um sentimento de fraternidade, de colaboração e de solidariedade. 

O ato infama quem o comete, não sua vítima. Por usar de subterfúgios, opera na escuridão de propósitos, no registro da maledicência. A traição é uma lâmina ativada por interesses que, no mais das vezes, são mesquinhos e interesseiros, alimentando novos potes de veneno. Não é incomum que a mesma se revele ao longo do tempo, especialmente se a autoria compete a um medíocre. Como se diz nos filmes redundantes das tardes de televisão: “sempre alguém dará com a língua nos dentes”, é o que ocorre, e muitas vezes de modo premeditado e com base em cálculos de probabilidade. Gestos, mesuras, cuidados demasiados, uma tendência a regular meticulosamente discursos, tudo isso pode denunciar quebras atitudinais. Trair demanda silêncios constrangedores, frases sufocadas, vírgulas demasiadas nos discursos, portas abertas para surpresas nem sempre gratificantes, comentários truncados, conversas rapidamente desfocadas. Quanto menos inteligente quem traiu, mais cedo se revelará o elo rompido. Quase uma relação matemática, onde a estupidez do protagonista insere uma função invariável. Dizem os judeus: “o que Paulo fala sobre Pedro revela mais sobre Paulo do que sobre Pedro”. 

Talvez a maior infâmia da traição seja a da provocação da injustiça a que só resta, em princípio, tentar tardiamente se defender. Não raro um descobre qual foi o outro que o difamou, o que torna a relação entre ambos bastante pior, dependendo do grau de proximidade entre ambos. Imaginemos colegas de trabalho que, portanto, não tem muito espaço de manobra… Os que traem, ao serem descobertos, serão adicionados aos pobres de espírito e lá ficarão no limbo dos descartáveis. Normalmente aqueles têm uma capacidade razoável de bajulação oca aos que detém o poder ou parcelas de poder. Para os últimos, são úteis embora não mais que um sabonete ou uma tábua de passar roupas, até porque o que revelam – esperando benesses – normalmente não tem poder para modificar nada estruturalmente, apenas despertar maiores ou menores ressentimentos. Quem trai faz parte de uma extensa e infinita romaria de leva-e-traz, diz-que-diz-que e interpretações obtusas e falsas a respeito do outro, geralmente eivadas pela malícia e maledicência. 

Só vejo, em princípio, uma forma de lidar com uma peçonha desta ordem: é mostrar claramente que tal serpente não é digna de crédito. Não lhe mostre os dentes, a não ser que seja para morder. Não compartilhe informações, menos ainda pessoais e  mantenha-se acima das pequenas e grandes vilanias, presentes em todas as áreas de nossas vidas. Ao perceber que você é um prato indigesto, o medíocre presente em todo traidor emitirá sinais de alerta e de reconhecimento. Assim como um ladrão de carros evita furtar um automóvel que tem alarme, ou que se encontre ostensivamente bem protegido, o traidor buscará outras vítimas de ocasião. Você é demais para ele, no sentido de que não tem força suficiente para se opor a você. Trate um traidor com inteligência, mas, se necessário, não economize pancadas. Um bom modo de se proteger é sendo competente no que faz, deixando claras as suas posições. De todo modo, mantenha a guarda alerta. 

Não importa o que ocorra, o traidor é um medíocre, alguém que não se sente incluído em um grupo de referência. Por não se sentir pertencente, não se sente responsável por qualquer grupo ou por qualquer pessoa; não o defenderá, mantendo, não raro, uma crítica severa, que advém de ressentimentos individuais. Isso ocorre mesmo que o medíocre tenha conseguido, sob esse grupo, algum tipo de ascendência profissional. Dizendo de outro modo, não há, para o medíocre, o exercício legítimo da autoridade, que se baseia ou no conhecimento, ou na experiência, ou na sabedoria ou ainda na liderança. Em não tendo isso, o medíocre precisa ter uma outra fonte de apoio, e esta consiste, em grande parte, da possibilidade de ele ser utilizável ou de cometer pequenas, médias ou grandes vilanias, comprometendo seus possíveis compromissos éticos, mais discursivos do que reais. Percebidos tais equívocos morais, os mesmos terminam por mais ainda afastar a pessoa indesejável do grupo ao qual a mesma reivindicará pertencimento. 

O trágico de tudo, para o medíocre, é que ele se sabe e se reconhece assim, o que faz com que desenvolva uma baixo-estima engessante, podendo, por ressentimentos e frustrações, levá-lo a envenenar todo um ambiente, seja de trabalho, seja em sua vida pessoal. Aqui a traição do medíocre é um instrumento de transação de si mesmo em relação a um grupo ou uma barganha em relação a quem eventualmente detenha poder. Temos de considerar que instituições doentes estão mais propensas a terem de suportar medíocres, porque assim efetivou seu modus vivendi. Assim, as relações de dependência se estabelecem, pelo que sua posição deve ser firme, o que não indica inflexibilidade.

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publicado às 20:15

Dia e noite

por blogdobesnos, em 11.04.12
O dia é a indústria, é o empreendimento, é a fábrica, é o movimento; a noite não, a noite é a entrega, o tempo passando devagar, como biologicamente ele se fez, e não um tempo de horário de verão. A noite não é apenas um passar de horas, a noite é a própria hora a partir dos seus momentos de devaneio, de criatividade, de impulsividade. A noite revela os monstros e os bons; ela os absorve e os recebe na sua rede de estrelas. O dia não. O atavismo do dia é engolfar-se em si próprio, reto como uma lâmina. A noite? Ah, essa é curva, incerta, mal-sabida e mal-dormida. Mesmo que não sonhemos, a noite é um sonho, mesmo que sonambulemos por aí, a noite nos dá a notícia dos nossos desejos, os mais improváveis e os mais ternos. O dia é o sentido da produtividade, do ir para, do que deve ser produzido ou do que deve ser renunciado.

 

Os conhecimentos acontecem nos dias, os reconhecimentos, nas noites. Os gritos dos dias são os dos trens, dos automóveis, dos estacionamentos, dos elevadores, dos passos, dos compromissos e dos eventuais repousos para as novas jornadas de trabalho. Os gritos das noites são os dos sentidos e dos sentimentos, que variam desde o dormir simples com seus ruídos involuntários até os gritos de terror e os ronronares amorosos.

 


O dia é para todos, a noite só para os que, no fundo, não acreditam nos dias. 

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publicado às 20:10

Ensinamentos vegetarianos da Mariana, por Ana Godoy

por blogdobesnos, em 11.04.12

ENSINAMENTOS VEGETARIANOS DA MARIANA

 

Outra delícia de texto da Ana Godoy, diletíssima amiga!


Ainda que os tempos não sejam dos melhores, apesar do turbilhão que está sendo o meu existir nos últimos meses, agradeço à vida, sempre, por conseguir, ainda, aprender. E aprender com os filhos é a melhor coisa do mundo! Por mais que eu goste da aprendizagem formal, nenhuma teoria ou saber retórico suplanta o ensinamento de uma criança, que ensina sem saber que está ensinando, de uma forma absolutamente pura e sincera. Diferentemente de nós, adultos, seus discursos estão totalmente colados à sua prática pelo simples fato que eles não aprenderam, ainda, a dissociar essas duas coisas (que bom seria se nunca tivéssemos aprendido!).

Minha pequena Mariana, do alto dos seus 3 anos, chegou em casa semana passada toda faceira porque sua melhor amiga na escola, a Daniela, era, agora, vegetariana. “Sabe, mamãe, que a Dani agora não é mais carnívora?! Eu que contei pra ela não ser mais!” Confesso que fiquei meio gelada. A última vez que o Pedro (7) tentou convencer alguém a deixar de comer carne, arrumou uma confusão tal que tive que trocá-lo de escola! “Como assim, Mari, explica melhor….”, pedi. E ela explicou, direitinho, que tinha dito pra Dani que o chester que ela estava comendo no sanduíche um dia tinha sido um bichinho, que teve de ser morto para virar refeição. Conta a Mari que a Dani não acreditou muito, mas que no dia seguinte a mesma história se repetiu, tendo por protagonista, dessa vez, a salsicha do cachorrinho-quente e, por coadjuvantes, as balas de goma do aniversário de uma outra coleguinha. “E agora, mãe, a Dani disse que não vai mais comer bicho morto! E trouxe só pão com queijo hoje no lanche.” Fiquei muito emocionada com o jeitinho da Mari contando a sua história, e sobretudo com a sua carinha de satisfação; mas ainda estava preocupada….

Ao buscar as crianças na escola no dia seguinte, tentei fugir de fininho do pai da Dani, com medo de uma represália (não estava precisando de mais confusão pro meu lado!). Eis que, pra minha surpresa, ele veio me parabenizar pela filha que eu tinha! Disse que achou lindo a Dani contando pra ele e pra mãe como ela tinha aprendido, com sua amiga Mariana, que a gente não precisa se alimentar de animais “pra ficar forte”, e como é importante amar e respeitar os bichinhos. Ele, um uruguaio acostumadíssimo a comer carne todo santo dia, ficou tocado e se comprometeu a tentar uma dieta vegetariana não-ortodoxa. A mãe, ainda certa de que proteína animal fosse fundamental na dieta humana, ainda tentou, no domingo, oferecer um franguinho assado. O almoço em família, no entanto, foi frustrado com a choradeira da Dani, que, vendo o franguinho estaqueado no prato, armou a maior saia-justa pra mãe (que, graças aos deuses do Olimpo, não maldisse à Mariana nem a mim, mas resignou-se a tentar a tal dieta ovo-lacto vegetariana).

Estou feliz pela Dani e sua família que, com certeza, terão muito mais saúde e paz de espírito a partir de agora. Mas, sobretudo, muito orgulhosa da Mariana. Ela me mostrou não só que é possível, sim, tocar as pessoas nas suas crenças mais arraigadas, mas, principalmente, mostrou COMO fazê-lo. A Mariana sempre teve uma personalidade plácida, por essência. Diferentemente do Pedro-faca-nas-botas, que arma o maior barraco quando alguém nos convida pra um churrasco, fuma na frente dele ou maltrata um animal (mesmo sem querer, como outro dia quando ele presenciou o atropelamento de um bicho-cabeludo e ficou revoltado o dia inteirinho, querendo que eu pegasse a placa do carro e fosse à polícia!), a Mariana conseguiu convencer a amiga e a sua família por um meio pacífico, de amor. O amor feroz do Pedro é até certo ponto lindo de ver quando percebo a vida lhe saindo de dentro assim aos borbotões… Tenho certeza de que ele será um ferrenho defensor das causas ambientais. Imagino-o já dependurado em um mastro de navio com uma camiseta do Green Peace. Mas essa forma exarcebada de discurso causa por certo mais problemas do que soluções. Eu mesma já perdi a convivência de duas amigas por conta dos ímpetos do meu filho… E ele mesmo já perdeu oportunidades de convivência com os colegas porque os pais o julgam “xiita”… O que a Mariana me provou foi que o “afetivo é o mais efetivo” (não lembro qual psicanalista disse isso), que a doçura não prescinde a razão, que a paciência é uma virtude a ser cultivada e que a compaixão é a base de toda a sabedoria, inclusive (e sobretudo) da vegetariana. Se não comemos um animal em respeito à sua vida, como não respeitar o modo de viver de um outro semelhante, como não respeitar as opiniões contrárias (ainda que não façam sentido!), as diferenças (aliás, por enquanto, somos nós, vegetarianos, os diferentes)?!

Umas semanas atrás tivemos na região uma grande feira de agropecuária (a Expointer). O Pedro, ao ver uns vídeos sobre as crueldades a que os humanos expunham os animais que ali estavam saiu bradando; “Eu mato, eu mato esses caras!…” Furioso, enraivecido, se soubesse dirigir tinha pegado as chaves do meu carro e partido pra um confronto direto! A Mariana, vendo o furacão em ação, disse calmamente: “Pedro, aí tu vai ser igual a eles!” Ao que o pequeno parou e concordou: “É mesmo…” Ainda bem que temos, eu e o Pedro, a Mari pra nos lembrar dessas coisas…

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publicado às 19:53

El tiempo pasa

por blogdobesnos, em 11.04.12

Como escrever sobre nossas recordações, nossas passagens de vida? Devemos escrever sobre nossas vilanias ou apagá-las como irrelevantes? Pessoas que não são famosas (por qualquer motivo) ou que não foram tocadas pelo rei Midas trariam algum interesse em termos de leitura? Sem dúvidas, biógrafos e historiadores não haverá. Mário Quintana, grande pessoa e poeta, quando perguntado a respeito da possibilidade de ver sua vida posta em biografia, respondeu com o conhecido humor e sagacidade: “- Perdi o interesse pelo protagonista”. É inegável, contudo, que há uma tendência genérica em contar e recontar histórias (muitas vezes na versão dos vencedores) e criar estórias  (nem sempre a ficção imita a vida), construindo pontes de humanidade e de comunicação. Somos todos, com ou sem talento, oradores, praticantes naturais da interlocução. Adoramos comentar, ouvir, falar, interpretar, e essa condição bio-psico-social nos põe como tecelões de escritas, escribas muits vezes sem roteiro e sem sequer objetivos. No entanto, é na interação com o outro que aprendemos a ser o que somos, que passamos a nos reconhecer, que fazemos nossas intervenções no mundo. A tecnologia nos segue, tratando de estender nossas capacidades naturais. 

“Se queres ser universal começa por pintar a tua aldeia”, é o que diz Lev Tolstói, em Guerra e Paz. Talvez por aí faça sentido não uma biografia rançosa, um serviço de autos de cartório, uma fria linguagem burocrática, mas o compartilhamento de emoções, de sentidos, de signos e de significados. Embora cada um de nós tenha sua própria história, fruto de uma personalidade singular, os pontos de contato com o Outro são bastante fortes. Escrevo porque o Outro me pergunta e, em respondendo, encontro sentido na minha fala. Sou o Outro construído sobre minha identidade, e só a possuo porque, nesse Outro me reconheço, independentemente do que me motive em um dado momento da vida. El tiempo passa nos vamos poniendo viejos, é o que canta La Negra. O tempo não admite senão a sua passagem, a sua pretensa onipotencia,  e é ali que incrustramos nossas sombras, luzes, decisões, invejas, perfídias, tristezas, alegrias e frustrações. A história e o tempo nos vão dando as multifaces que temos como sendo nós próprios.

Imagino que, de aldeia e de global, flutuamos criando nossas existências. Conhecer tais pontos de flutuação ensinam uma história, um background que nos é imensamente caro e importante. Memória, representação, algo a dizer do que possamos imprimir como nosso. Biógrafos e historiadores não há, mas sim histórias que não foram escritas, poemas que ficaram ali, travados ou perdidos no meio das nossas vidas, controles que pensávamos eficientes mas que de há muito nós mesmos ajudamos a desativar. Tolstói está correto. Elucida Fernando Pessoa: ”As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”. Somos do Outro o que o Outro é de nós, e não podemos escrever senão para que construamos interstícios, espaços de agumentos que acessem duplamente o que sou e o que o Outro é. Personagens por vezes etéreos, vagamos na condução de nossa existência, plena de consciencia mas fortemente irrigada pelo inconsciente. Talvez por isso entendamos de modo tão íntimo o que nos toca em tal flutuação.

Não a escrita mas o caráter humano da biografia é deveras interessante. Afinal, cada vez que o personagem principal se desloca, flutuações acontecem. Miríades delas se tornam um quadro tão caótico que o afogamento é o previsto. Arriscar-se, o meio de toda educação.

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publicado às 19:50

Gabriel Besnos - Capitalismo,cultura e comunicação de massa

por blogdobesnos, em 11.04.12

Capitalismo, Cultura e Comunicação de Massa: as inter-relações no campo de batalha ideológico


Gabriel Besnos


O hábito pode levar ao esquecimento. A repetição contínua e cotidiana de certas rotinas reflete dimensões de um sistema histórico das quais nem sempre tomamos plena consciência. A automatização de algumas práticas sociais do dia-dia parece nos fazer crer que as coisas sempre foram como aí estão, quando na verdade elas são efeitos de uma determinada organização e concepção de mundo. O simples ato, impensado, de passar a roleta de um ônibus – e pagar por isso – é um sinal de que todos os nossos movimentos estão pré-condicionados a normas e conhecimentos culturais adquiridos em nossa formação social. Passar uma roleta não é inerente à natureza humana, mas sim uma ação condicionada por um conjunto de valores constitutivos de uma lógica: a lógica de um sistema, no caso o capitalismo. Esses condicionamentos indicam que existe neste sistema um alicerce para além da economia e da política.

Situações como “pagar a passagem do ônibus” fazem parte de uma regulação normativa da sociedade, que orienta as condutas sociais num sentido que as ordene, que as torne condizentes com os valores de convivência e coexistência no mundo capitalista. Outra maneira de regulação são classificações binárias, entre as inúmeras possibilidades de condutas sociais, do que é “bom” ou “ruim”, “aceitável” ou “condenável”, “normal” ou “anormal”. Também esta regulação da sociedade atua na construção de um certo “comportamento social padrão”. Ainda uma terceira forma de regulação, que ormalmente é acompanhada de resistência e conflito, diz respeito a tentativas localizadas de romper com um determinado modo de fazer as coisas em favor de outro que seja considerado pela autoridade (ou pela maioria) local mais interessante. Aí há uma substituição deliberada, consentida ou não, de alguns valores e significados por outros.

Todas essas formas de regulação da vida social se dão através da manipulação da cultura. A cultura é justamente a síntese dos valores que alicerçam um sistema, é uma soma de ações (no plano real) e de formações discursivas (no plano simbólico) em uma determinada conjuntura, em um contexto histórico específico (o capitalismo, no nosso caso). Qualquer prática social pressupõe condições culturais e discursivas que lhes atribuem significado. No artigo “A cultura como campo de batalha ideológico do sistema mundial moderno”, Immanuel Wallerstein afirma que “a cultura, isto é, o sistema de idéias da economia mundial capitalista, é o resultado das nossas tentativas históricas coletivas para entrar num acordo com as contradições (…) deste sistema particular”. Segundo o autor, a cultura como instrumento de contenção das contradições sistêmicas recebeu dois significados. O sentido I refere-se à cultura como conjunto de características atribuídas aos diferentes grupos a fim de diferenciá-los uns dos outros. Por esse raciocínio, uma mesma pessoa pode participar de “culturas” múltiplas e multifacetadas. Já o sentido II do termo cultura vincula-se a uma percepção de que existe uma hierarquia intragrupal: superior e inferior. Esta lógica fundamenta, por exemplo, a oposição que vemos e fazemos entre as artes “superiores” e a prática cotidiana. A cultura no sentido II não distingue os grupos entre si, mas os indivíduos dentro de um mesmo grupo. Essas duas definições de cultura são importantes porque sustentam o ziguezague ideológico entre teorias universalistas e racistas-sexistas que, num par simbólico, formularam as respostas históricas da sociedade às contradições do capitalismo. Mas que contradições são essas?

Wallerstein faz um levantamento de seis características contraditórias do capitalismo, e aponta como o universalismo e o racismo-sexismo atuam na contenção destas contradições a partir da manipulação da cultura. Essa centralidade que Immanuel Wallerstein confere à questão cultural na análise do capitalismo e seu modus operandi – verificada também em outro teórico que dá sustentação a este trabalho, Stuart Hall – o inscreve como crítico de um certo reducionismo materialista que ameaçou dominar as discussões nas ciências sociais durante um longo período.

A primeira característica do capitalismo é a existência de uma única divisão do trabalho, que submete diferentes culturas (no sentido I) a uma rede interestados, enredando sociedades absolutamente distintas num sistema de produção de bens, de trocas de capital, de investimento, de comércio, de serviços. Essa expansão em escala global, claramente universalista, encoberta a existência de uma hierarquia interestados (entre as culturas no sentido I) e intraestados (entre as culturas no sentido II), que se nutre da ideologia racista-sexista. Não se pode esquecer que, na formação universalista dos estados nacionais, diferentes (e às vezes antagônicas) culturas (no sentido I) foram colocadas “num mesmo saco”. Em nível local e mundial, portanto, percebem-se relações assimétricas. A união econômica entre os estados no capitalismo é comandada pelas nações desenvolvidas e justificada pela ideologia universalista, mesmo submetendo e gerando miséria à grande maioria das nações, subdesenvolvidas. A hierarquia entre as diferentes culturas (sentido II) dentro de um mesmo estado, seja ela por classe social, etnia, cor da pele, são justificadas historicamente por ideologias racistas-sexistas. A primeira contradição apontada por Wallerstein acerca do capitalismo é justamente o fato de as pressões econômicas serem majoritariamente internacionais e as políticas pontos nacionais. Como as ações podem ser explicadas e justificadas nestes dois níveis? Através do emprego das ideologias universalistas e racistas-sexistas, simbioticamente.

É importante salientar que a expansão do capitalismo está sustentada por um movimento mundial da informação, que confere aos meios de comunicação de massa um papel infra-estrutural no sistema. A mídia é uma das mais poderosas ferramentas de expansão do capitalismo, e portanto um veículo das ideologias que fazem a contenção das contradições do sistema, o universalismo e o racismo-sexismo.

Lembrando os teóricos da Escola de Frankfurt, com seu conceito de Indústria Cultural, os meios de comunicação de massa são responsáveis pela produção em série de bens culturais para satisfazer de forma ilusória necessidades geradas pela estrutura de trabalho. A Escola de Adorno, Benjamin, Habermas, Horkheimer, interpreta a mídia como expressão de um objetivo estrutural e sistêmico, a economia mundial capitalista, atuando em nível de dominação simbólica – através da educação, do lazer, da cultura.

Sobre esta primeira característica apontada por Wallerstein com relação ao capitalismo – a formação de uma malha interestados -, a Indústria Cultural tem larga atuação. Onipresentes, os meios de comunicação de massa estruturam-se em grandes redes que detêm o monopólio da informação. Multinacionais como Time Warner, Walt Disney, News International, transmitem ao mundo as mensagens oficiais, ou seja, aquelas que são ou do interesse ou retrato de uma concepção de mundo dos países desenvolvidos. Ainda que haja resistência interna nos países, a força econômica das grandes agências de notícias ou dos impérios de entretenimento, somada à fraqueza e dependência da maioria das empresas de mídia locais / regionais, acabam consolidando uma fonte única de informação, que atinge a ampla maioria da população.

A segunda contradição apresentada por Wallerstein diz respeito ao sentimento de populações incorporadas pelo capitalismo em seu processo cíclico de expansão e contração: a adesão ao sistema dominante é uma modernização ou ocidentalização? Será manejando a cultura através de formações discursivas que o universalismo considerará o mundo ocidental a fonte da verdadeira modernidade – impondo suas religiões, sua linguagem ou sua tecnologia -, e o racismo-sexismo irá se manifestar pelo desprezo das nações desenvolvidas aos países (e às culturas) que rejeitarem a ocidentalização / modernização.

Neste caso, a manutenção ou homogeneização das identidades culturais nas diversas nações é o foco central da contradição capitalista. De acordo com os frankfurtianos, a Indústria Cultural realiza o segundo movimento, a partir de uma cultura dominante. Exemplo deste processo é o cinema norte-americano, ícone de um processo comumente chamado de McDonaldização do mundo, porque despeja por todos os cantos do globo não só os bens de consumo, mas ícones, culinária, entretenimento e estilo de vida dos Estados Unidos da América. Esta tendência fica bastante esclarecida na colocação de Stuart Hall em “A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo”:

“Os efeitos do processo de ‘globalização’ – enfraquecendo a relativa autonomia dos estados nacionais na determinação das políticas culturais em seus próprios territórios soberanos e aumentando as pressões por políticas do tipo ‘céu aberto’, de internacionalização dos mercados culturais – têm tido um papel cada vez mais significativo, uma vez que está ocorrendo uma tendência, à qual não se tem dado muita importância, de retomada da monopolização pelas transnacionais globais.”

Eixo principal da economia mundial capitalista, a acumulação infindável de capital é apontada por Wallerstein como uma terceira característica do sistema, responsável por situações em que, apesar da lógica vigente ser de defesa dos auto-interesses, o empregado deve sempre se sujeitar à busca incessante de seu patrão por saldos positivos, aliando trabalho mais árduo e salário mais reduzido. Esta contradição evidente do modo de produção capitalista é contida pela tentativa de ideologizar a desigualdade e a assimetria, a partir de um discurso baseado no mérito universal do trabalho árduo, componente bastante visível da cultura ocidental, que cria no imaginário coletivo a percepção de sucesso e realização pela mobilidade social. Esta faceta da cultura ocidental é amplamente difundida através dos meios de comunicação de massa, em seu jornalismo, em sua dramaturgia. O racismo-sexismo, quando usado, associa a baixa remuneração ao “padrão inferior” de cultura (sentido II) do grupo discriminado.

O progresso é inevitável, custe o que custar. Alto valor do capitalismo, a tecnologia alimenta a necessidade permanente de mudanças no sistema de produção. A mesma modernidade que nutre o sistema lhe é uma ameaça, na medida em que coloca em risco a legitimidade das suas autoridades, historicamente calcadas na tradição, na antiguidade; aí reside a quarta contradição estudada por Wallerstein. O apelo universalista nesses casos é para a revolução necessária, o desenvolvimento nacional, quiçá um “espetáculo do crescimento”. Já o racismo-sexismo fica arraigado na postura patriótica, dificilmente não experimentada por algum país.

A Indústria Cultural atua também de forma isolada nos seus países, apesar de o foco dos estudos frankfurtianos estarem numa teoria crítica da comunicação de massa em escala global. São notáveis os casos de alinhamento (ou não) dos meios de comunicação de massa com os governos locais e sua capacidade, através de padrões de manipulação da grande imprensa, de legitimar posturas favoráveis ou contrárias às autoridades em questão. A mídia é constantemente um poderoso instrumento de que políticos lançam mão para sua permanência ou alçada ao poder, em todos os países.

No estudo das mass media, posteriormente a Adorno, Benjamin, Horkheimer, os estudos de recepção darão atenção não só ao emissor. Teóricos como Jesús Martín-Barbero deslocam o olhar para o receptor, usuário dos meios, capaz de processar as informações de múltiplas maneiras, inclusive como elementos constituintes de uma identidade cultural (patriótica, por exemplo). O foco deste trabalho, no entanto, está na Indústria Cultural frankfurtiana, sobretudo a teoria crítica de Adorno, e as suas relações com o capitalismo e a cultura.

Quinta característica do capitalismo, a polarização é uma das faces mais cruéis do sistema – e também uma das mais visíveis. O acúmulo de riqueza por uma minoria e o empobrecimento da grande massa populacional do globo é o retrato acabado da assimetria do sistema mundial moderno. O princípio capitalista é crescer, expandir; Immanuel Wallerstein afirma que “todos os parâmetros absolutos assumiram, com o tempo, a forma de uma projeção linear ascendente. Desde o início, a economia mundial capitalista tem tido cada vez maior atividade produtiva, cada vez maior produção de ‘valores’, uma população cada vez maior, invenções cada vez mais numerosas”. Esta riqueza superlativa não é traduzida, no entanto, em melhoria generalizada das condições de vida da população mundial, porque a renda está concentrada. A contradição está no contraste que o sistema capitalista produz entre o “luxo” e o “lixo”: a opulência do capital em oposição aos bolsões de miséria, à fome, à violência crescente que é fruto da concentração de renda.

A realidade empírica é crua: o capitalismo não apresenta nada em termos sociais que não um abismo cada vez maior entre ricos e pobres. Já a ideologia oficial universalista encarrega-se de difundir o “desenvolvimentalismo”, para legitimar a polarização através de um discurso frágil de que todos os estados tem a possibilidade de desenvolver-se. A partir deste ponto, revelam-se os rasgos racistas-sexistas da ideologia oficial, tecidos na afirmação de que o “atraso” de alguns estados é uma recusa voluntária dos mesmos à modernidade. Nações desenvolvidas passam a servir de modelo para as subdesenvolvidas (que vivem momentos históricos e possuem culturas – no sentido I – radicalmente diversas, na maioria das vezes).

Ancorada no sucesso das potências mundiais, a Indústria Cultural faz o proselitismo capitalista. Imagens, textos e sons vendem a cultura “empreendedora” das nações vencedoras, a propaganda do sistema, a exemplificação do estado rico possível no mundo moderno, através de manifestações seguidamente triunfalistas (caso notório de algumas películas hollywoodianas). Também visões racistas têm grande circulação nos meios de comunicação de massa dominantes, instrumentando a ideologia oficial com seus bens culturais. Claro, há tecnologia de mídia para todos os lados. TVS orientais travam seu embate com o ocidente, veículos ocidentais aderem ao anti-americanismo. Também caberão ideologias racistas-sexistas nessas empreitadas. Há espaço para muita informação, mas também há domínio do mercado global, há constrangimento econômico. Principalmente, há uma maioria sendo atingida pelas mensagens prontas dos estados pujantes.

O último ponto de Wallerstein na caracterização do capitalismo é a sua condição de sistema histórico, sujeito a um ciclo de vida. A característica sui generis desse sistema, contudo, é a acumulação infindável de capitais, que pressupõe uma possibilidade ilimitada de expansão. Mesmo assim, a decadência foi um sentimento experimentado inclusive pelos países mais ricos e poderosos. O autor pondera que deve-se encarar a possibilidade de morte do sistema mundial e o declínio de países em escala local, apresentando também a forma de ação das duas ideologias conservadoras na negação deste processo.

Conservadores racistas-sexistas atribuirão a decadência a uma liderança incapaz transitória ou, no caso de morte definitiva, ao poder em demasia delegado à grupos de cultura inferior (no sentido II). Universalistas tratarão de denunciar o igualitarismo intelectual e negarão a autoridade da elite científica. Wallerstein também aponta para a possibilidade de ideologias progressistas que saudariam a morte como transição: na versão universalista, ela é inevitável, na racista, uma retomada dos grupos superiores.

Para a morte do sistema capitalista a Indústria Cultural não parece oferecer muitas respostas. Denúncia de uma época, a Escola de Frankfurt transformou as suas teorias sobre os meios de comunicação de massa também em um movimento anti-sistêmico, de grande alcance no meio acadêmico. Os media foram atrelados ao mundo administrado do capitalismo (expressão cunhada por Adorno), como ferramentas de sua dominação sobre o indivíduo no campo simbólico, discursivo, cultural. Independentemente da atualidade ou não das teorias conspiratórias frankfurtianas, elas constroem a base para a percepção de que entender o sistema mundial moderno passa pelo estudo crítico da Comunicação de Massa: onipresente, sustentáculo das trocas de informações, símbolos, mensagens e discursos no sistema capitalista. A Escola de Frankfurt apresentou teorias que convergem em muitos aspectos com a concepção que Imannuel Wallerstein atribui a cultura. O campo de batalha ideológico do sistema mundial moderno é espelho das tentativas de construção do sonho liberal – reflete as ideologias que se defrontaram para acomodar as contradições do sistema, o mosaico das experiências coletivas, as normas, as formulações simbólicas do mundo capitalista.

Na “Dialética do esclarecimento”, Adorno e Horkheimer denunciam a racionalidade contemporânea instaurada na ciência, na indústria, na organização política e moral, a fim de revelar que o nazi-facismo é inerente ao processo de modernização burguesa. Esta intenção foi uma bandeira dos pensadores de Frankfurt. Percebe-se aí, por exemplo, uma aproximação clara com Immanuel Wallerstein, que coloca a ideologia racista-sexista não como mero fenômeno político, mas elemento constitutivo do sistema capitalista, em um par simbólico com o universalismo.

Para Immanuel Wallerstein, o sonho liberal é universalista, preconiza a ciência e a assimilação política, e a globalização vigente é um reflexo de que movimentos sistêmicos e anti-sistêmicos atuaram ao longo da história (conscientemente ou não) para sua realização. Todas as alternativas de defesa (contra suas próprias contradições e contra as conjunturas) parecem contempladas pelo sistema capitalista. As experiências históricas totalitárias, o nazi-facismo, as ditaduras latino-americanas, foram respostas que o próprio sistema arregimentou para conter suas contradições, através da ideologia racista-sexista.

Sistema excludente, o capitalismo apóia-se enormemente na cultura para existir e resistir aos seus percalços cíclicos. Pode-se dizer que o sistema mundial moderno é constituído de uma economia mundial capitalista e de uma cultura mundial capitalista, ou seja, de um sistema de idéias, de um “campo de batalha ideológico” próprios, nas palavras de Immanuel Wallerstein. Capitalismo, para além de qualquer reducionismo materialista, é também discurso.

“Não deve nos surpreender, então, que as lutas pelo poder sejam, crescentemente, simbólicas e discursivas, ao invés de tomar, simplesmente, uma forma física e compulsiva, e que as próprias políticas assumam progressivamente a feição de uma ‘política cultural’.”

(HALL, Stuart in A centralidade da cultura)

Referências Bibliográficas:

1. WALLERSTEIN, Immanuel. A cultura como campo de batalha ideológico.

2. HALL, Stuart. A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo.

3. ADORNO, Theodor e HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos.

4. RAMONET, Ignacio. A Tirania da Comunicação.

5. BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão.

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publicado às 18:35

Yves de La Taille - Violência na telinha

por blogdobesnos, em 11.04.12

VIOLÊNCIA NA TELINHA


Yves de la Taille

 

“Televisão, violência e infância”, copyright Folha de S. Paulo, 18/03/01

 

 

“Vamos diretamente ao ponto: sim, ou não, a presença de inúmeros programas de televisão contendo inúmeras cenas de violência levam as crianças a apresentarem, elas mesmas, comportamentos violentos? Penso que devemos, antes de mais nada, admitir que pouco sabemos sobre a influência da televisão sobre o comportamento das pessoas.

Não somente é extremamente difícil aquilatar tal influência (há tantas outras a que uma pessoa está diariamente submetida) como o fenômeno televisão é ainda recente e muito dinâmico (a TV dos anos 60 é bem diferente da de hoje, por exemplo). Logo, devemos abandonar qualquer veleidade de afirmar que a referida influência existe ou não existe, ou é de um certo tipo ou de outro. Mas tal prudência não implica adiar o debate, pois alguns conhecimentos psicológicos sobre o desenvolvimento da criança nos permitem fazer algumas hipóteses sérias.

Um primeiro dado diz respeito à presença ou ausência de tendência agressiva natural nos seres humanos. Ora, hoje admite-se que tal tendência existe. Logo, devemos descartar a hipótese de que a criança nasceria ‘boa’, ‘pacífica’, e que a probabilidade de ela entrar em conflito com outras pessoas e a vontade de agredi-las seriam só decorrências das influências de uma sociedade adulta violenta, má, que perverteria a natureza inocente das crianças.

Uma das tarefas da educação consiste, pelo contrário, em levar a criança a colocar limites aos comportamentos que traduzem sua agressividade e a canalizar essa para ações pessoal e socialmente produtivas. Portanto, parece-me errado afirmar que exemplos de violência, sejam eles dados por adultos de carne e osso ou apresentados em filmes e programas de televisão, tornam violentos seres que, sem esses modelos, seriam absolutamente pacíficos. Todavia, parece-me igualmente errado daí chegar à conclusão de que tais exemplos nada mais fazem do que referendar uma natureza bélica inevitável.

Um segundo dado deve ser lembrado: a infância é a época da construção da identidade, ou seja, da árdua tarefa de ir decidindo qual a melhor resposta para a pergunta ‘quem sou eu?’. Tal resposta é sempre valorativa no sentido de que as imagens que cada um tem de si remetem a categorias como bom, mal, desejável, indesejável, certo, errado etc. Em uma frase: ser é ser valor. Pois bem, nessa construção da identidade, os valores que a sociedade adulta preza e promove têm grande influência. E aqui reencontramos o tema da violência. A pergunta a ser feita não é se a violência está presente ou não nas manifestações culturais (na verdade, sempre esteve presente), mas sim como é interpretada do ponto de vista dos valores.

É justamente nesse ponto que pode-se falar em influência da TV nos comportamentos infantis. Se os programas, além de exacerbar sua presença, associam a violência a determinados valores positivos, eles aumentam a probabilidade de as crianças construírem uma identidade na qual os comportamentos violentos ocupam lugar central.

Ora, hoje, esse é o caso de muitos programas: o recurso à violência é apresentado sempre como legítimo, superior ao uso da inteligência, como único recurso para ‘resolver conflitos’, como fonte de poder e glória. Em resumo, assiste-se às vezes a uma sacralização da violência, que pode levar jovens a construírem sua identidade e seu orgulho em torno dela. Em compensação, pode haver programas que também encenam a violência, mas com significado moral bem diferente: em vez de ser sacralizada, ela é situada num conjunto de valores que a transcendem.

Para ilustrar o raciocínio, tomemos o personagem Zorro, cujos seriados eram muito populares décadas atrás. Zorro emprega a violência? Sim. Ele luta? Sim. Ele é forte? Sim.

Mas vamos pensar um pouco mais sobre esse personagem. Qual é o motivo de sua violência? Lutar contra a injustiça. Quando ele a emprega? Quando os recursos da inteligência não são mais possíveis. Que tipo de violência emprega? Aquela que visa neutralizar o adversário. Que recompensa há para a violência? Nenhuma do ponto de vista financeiro e também nenhuma (pelo menos direta) do ponto de vista da reputação ou da glória, já que o herói esconde-se sob o anonimato de um pacato fazendeiro.

Pois bem, se analisarmos muitos dos programas que hoje encenam a luta, a violência, teremos um quadro valorativo diferente. O motivo da violência é, frequentemente, aniquilar o outro, não porque é injusto, mas simplesmente porque fere interesses pessoais, porque ele representa o ‘não-eu’. A violência, traduzida pela força bruta de músculos e armas poderosíssimas, é apresentada como único e legítimo recurso. A violência não visa apenas neutralizar o adversário, mas sim destruí-lo por completo, matá-lo. E a recompensa é o poder e a glória.

É plausível pensar que o problema não é tanto a presença ou ausência de violência nos programas que é importante levar em conta, mas sim o tratamento ético dado a ela. A televisão não gera a violência, mas pode participar de um processo que a autoriza, a legitima, a glorifica.

Se hoje a violência tem aumentado na sociedade ocidental como um todo, não é apenas em razão das condições sociais (desemprego, exclusão social), mas também pelo fato de muitas pessoas a ela associarem sua auto-estima, sua identidade. Trata-se de um fenômeno cultural amplo, do qual a TV é apenas uma parte. Mas o fato de ela ser apenas parte do processo não a redime em absoluto. A dignidade impõe que ela reflita sobre seu papel social. (Yves de La Taille é professor livre-docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e autor, entre outros, de ‘Piaget, Vygotsky, Wallon: Teorias Psicogenéticas em Discussão’)”

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publicado às 18:32

AVATAR, por Marina Silva

por blogdobesnos, em 11.04.12

Avatar, por Marina Silva


Marina Silva é candidata à Presidência do Brasil, pelo Partido Verde, em 2010.

 

 

Teve um momento, vendo Avatar, que me peguei levando a mão à frente para tocar a gota d´água sobre uma folha, tão linda e fresca. Do jeito que eu fazia quando andava pela floresta onde me criei, no Acre.

 

Lembranças


A guerreira na’vi bebendo água na folha como a gente bebia. No período seco, quando os igarapés quase desapareciam, o cipó de ambé nos fornecia água. Esse cipó é uma espécie de touceira que cai lá do alto das árvores, de quase 35 metros, e vai endurecendo conforme o tempo passa. Mas os talos mais novos, ainda macios, podem ser cortados com facilidade. Então, a gente botava uma lata embaixo, aparando as gotas, e quando voltava da coleta do látex, a lata estava cheia. Era uma água pura, cristalina, que meu pai chamava de água de cipó. E aprendíamos também que se nos perdêssemos na mata, era importante procurar cipó de ambé, para garantir a sobrevivência.

 

Me tocou muito ver a guerreira na’vi ensinando os segredos da mata. Veio à mente minhas andanças pela floresta com meu pai e minhas irmãs. Ele fazia um jogo pra ver quem sabia mais nomes de árvores. Quem ganhasse era dispensada, ao chegar em casa, de cortar cavaco para fazer o fogo e defumar a borracha que estávamos levando. A disputa era grande e nisso ganhávamos cada vez mais intimidade com a floresta, suas riquezas e seus riscos.

A gente aprendia a reconhecer bichos, árvores, cipós, cheiros. Catávamos a flor do maracujá bravo pra beber o néctar, abrindo com cuidado o miolinho da flor. Lá se encontrava um tiquinho de mel tão doce que às vezes dava até agonia no juízo, como costumávamos dizer.

 

É incrível revisitar, misturada à grandiosidade tecnológica e plástica de Avatar, a nossa própria vida, também grandiosa na sua simplicidade. Sofrida e densa, cheia de riscos, mas insubstituível em beleza e força. Éramos muito pobres, mas não passávamos fome. A floresta nos alimentava. A água corria no igarapé. Castanha, abiu, bacuri, breu, o fruto da copaiba, pama, taperebá, jatobá, jutai, todas estavam ao alcance. As resinas serviam de remédio, a casca do jatobá para fazer chá contra anemia. Folha de sororoca servia pra assar peixe e também conservar o sal. Como ele derretia com a umidade, tinha que tirar do saco e embrulhar na folha bem grande, que geralmente nasce em região de várzea. Depois amarrava com imbira e deixava pendurado no alto do fumeiro para que o calor mantivesse o sal em boas condições. Aprendi também com meu pai e meu tio a identificar as folhas venenosas que podiam matar só de usá-las para fazer os cones com que bebíamos água na mata.

 

Ficção e realidade


O filme foi um passeio interno por tudo isso. Chorei diversas vezes e um dos momentos mais fortes foi quando derrubam a grande árvore. Era a derrubada de um mundo, com tudo o que nele fazia sentido. E enquanto cai o mundo, cai também a confiança entre os diferentes, quando o personagem principal se confessa um agente infiltrado para descobrir as vulnerabilidades dos na’vi. E, em seguida, a grande beleza da cena em que, para ser novamente aceito no grupo, tem a coragem de fazer algo fora do comum, montando o pássaro que só o ancestral da tribo tinha montado, num ato simbólico de assunção plena de sua nova identidade.

 

O filme também me remeteu ao aprendizado ao contrário, quando fui para a cidade e comecei a aprender os códigos daquele mundo tão estranho para mim. Ali fui conduzida por pessoas que me ensinaram tudo, me apontaram as belezas e os riscos. E também enfrentei, junto com eles, o mal e a violência da destruição.

 

Impossível não fazer as conexões entre o mundo de Pandora, em Avatar, e nossa história no Acre. Principalmente quando, a partir da década de 70 do século passado, transformaram extensas áreas da Amazônia em fazendas, expulsando pessoas e comunidades, queimando casas, matando índios e seringueiros. A arrasadora chegada do “progresso” ao Acre seguiu, de certa forma, a mesma narrativa do filme. Nossa história, nossa forma de vida, nosso conhecimento, nossas lendas e mitos, nada disso tinha valor para quem chegava disposto a derrubar a mata, concentrar a propriedade da terra, cercar, plantar capim e criar boi. Para eles era “lógico” tirar do caminho quem ousava se contrapor. Os empates, a resistência, a luta quase kamikaze para defender a floresta, usando os próprios corpos como escudos, revi internamente tudo isso enquanto assistia Avatar.

 

A ficção dialoga muito profundamente com a realidade. Seres humanos, sem conhecimento sensível do que é a natureza, chegam destruindo tudo em nome de um resultado imediato, com toda a virulência de quem não atribui nenhum valor àquilo que está fora da fronteira estreita do seu interesse imediato. No filme, como o valor em questão era a riqueza do minério, a floresta em si, com toda aquela conectividade, toda a impressionante integração entre energias e formas de vida, não vale nada para os invasores. Pior, é um estorvo, uma contingência desagradável a ser superada.

 

Síndrome do invasor


Encontrei na tela, em 3D e muita beleza plástica e criatividade, um laço profundo e emocionante com a nossa saga no Acre, com Chico Mendes. E percebi que, assim como no filme, éramos considerados praticamente alienígenas, não humanos, não portadores de direitos e interesses diante dos que chegavam para ocupar nosso espaço.

 

É uma visão tão arrogante, tão ciosa da exclusividade do seu saber, que tudo o mais é tido como desimportante e, consequentemente, não deve ser levado em conta. É como se se pudesse, por um ato de vontade e comando, anular a própria realidade. Como se o que está no lugar que se transformou em seu objeto de desejo, fosse uma anomalia, um exotismo, uma excrescência menor.

 

E, afinal, essa arrogância vem da ignorância e da falta de instrumentos e linguagem para apreender a riqueza da diferença e extrair dela algum significado relevante e agregador de valor. Numa inversão trágica, a diferença é vista apenas como argumento para subjugar, para estabelecer autoritariamente uma auto-definida superioridade. Poderíamos chamar tudo isso de síndrome do invasor, cujo principal sintoma é a convicção cega e ensandecida, movida a delírios de poder de mando e poder monetário, de ser o centro do mundo.

 

No Acre nos deparamos com muitos que viam nossos argumentos como sinônimo de crendices, superstição. Coisa de gente preguiçosa que seria “curada” pelo suposto progresso de que eles se achavam portadores. Por outro lado, também chegaram muitos forasteiros que, tal como a cientista de Avatar e o grupo que a seguiu, compreenderam que nosso modo de vida e a conservação da floresta eram uma forma de conhecimento que poderia interagir com o que havia de mais avançado no universo da tecnologia, da pesquisa acadêmica e das propostas políticas de mudanças no modelo de desenvolvimento que eram formuladas em todo o mundo. Com eles, trocamos códigos culturais, aprendemos e ensinamos.

 

Avatar nos leva a tomar partido


Fiquei muito impressionada como esse processo está impregnado no personagem principal de Avatar. Ele se angustia por não saber mais quem é, e só recupera sua integridade e identidade real quando começa a se colocar no lugar do outro e ver de maneira nova o que antes lhe parecia tão certo e incontestável. Sua perspectiva mudou quando viu a realidade a partir do olhar e dos sentimentos do outro, fazendo com que a simbiose presente no avatar, destinado a operar a assimilação e subjugação dos diferentes, se transformasse num poderoso instrumento para ajudá-los a resistir à destruição.

Pode-se até ver no filme um fio condutor banal, uma história de Romeu e Julieta intergalática. Não creio que isso seja o mais importante. Se os argumentos não são tão densos, a densidade é complementada pela imagem poderosa e envolvente, pelo lúdico e a simplicidade da fala. Se houvesse uma saturação de fala, de conteúdos, creio que perderia muito. A força está em, de certa maneira, nos levar a sermos avatares também e a tomar partido, não só ao estilo do Bem contra o Mal, mas em favor da beleza, da inventividade, da sobrevivência de lógicas de vida que saiam da corrente hegemônica e proclamem valores para além do cálculo material que justifica e considera normais a escravidão e a destruição dos semelhantes e da natureza.

 

Achei meu “povo”


E, se nada mais tenho a dizer sobre Avatar, quero confessar que aquele povo na’vi tão magrinho e tão bonito foi para mim um alento. Quando fiquei muito magra, na adolescência, depois de várias malárias e hepatite, me considerava estranha diante do padrão de beleza que era o das meninas de pernas mais grossas, mais encorpadas. Sofria por ser magrinha demais, sem muitos atributos. Agora tenho a divertida sensação de que, finalmente, achei o meu “povo”, ainda que um pouco tarde. Houvesse os navi na minha adolescência e, finalmente, eu teria encontrado o meio onde minhas medidas seriam consideradas perfeitamente normais.

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publicado às 18:25


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