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Desde que purguemos

por blogdobesnos, em 12.04.12

Não há qualquer problema em simular, bastando elevar a mentira a níveis de arte. Podemos optar entre só-mentir, dissimular, iludir, enganar, ser subreptício, enfim, exercer todo o arco de opções possível no sentido de elevar a nossa vontade, necessidade ou auto-estima ao grande simulacro onde, além do já visto, haverá a desídia, a calúnia, a malícia, o sarcasmo, a ironia, a subserviência, a traição. Como sabemos, contudo e de longa data, obter-se o simulacro é mais trabalhoso, pois, normalmente envolve terceiros. Aqui talvez seja necessária a coação,  a intimidação, mesmo o suborno ou as promessas compensatórias. Dependendo das circunstâncias, mesmo a fé ou o peso esmagador da organização pode gestar um criadouro de submissos, a partir de suas próprias mediocridades e zonas de conforto. De todo modo, em meio ao processo, você se sentirá íntimamente imundo, covarde e tão abominavelmente estúpido que poderá vislumbrar, talvez pela primeira vez na vida, os efeitos que a falta de caráter causam. Chegará, pior, o dia em que os que hoje lhe adulam, lhe bajulam e lhe são subalternos, dirão ou farão entender que o conhecem tão perfeitamente como sua própria sombra, que lhe esquadriam os pensamentos e as vontades. Cuidado. Aproxima-se o momento em que sua prepotência vai começar a ser insuficiente e, tal como uma casa, mostrar suas primeiras fissuras, seus incontidos sinais de ruína, em que a sua estupidez será como um tapete de grosserias a demonstrar sua verdadeira face, tempo em que as suas desinteligências serão vistas e comentadas por todos, ridicularizadas a olho nu.

 

Não se esqueça, o poder não é uma passagem de mistérios, mas um pêndulo, no qual somos apenas pontos flutuantes, não mais que isso. Nos iludimos aqui e ali, como se fossemos os reis de um castelo, e nos desiludimos enormemente quando chegamos a conclusão que o rei está nu e que o castelo é de cartas (marcadas). Vítimas de nossas próprias negligências e depredados em nossas mercancias de papel machê,  nada mais nos resta do que apreciarmos a nós mesmos no espelho. Após um banho gelado. 

 

Haverá um tempo em que a simples e pura luz da simplicidade será suficiente para nos sufocar de tal modo que mesmo o ar parecerá ter envelhecido, como uma dessas capas antigas que se coloca sob o sofá e que  findam por encher-se de pó, mais feito de memórias do que de sonhos. Nos sentiremos então, como que revestidos por uma sombra andrajosa, gosmenta,  um réptil rastejando entre pedras, uma casquinha de estrume seco e contagioso. Então nossos desejos serão apenas isso, arcos sem flechas, céus sem estrelas, neblinas de horrores e de velhas passagens obscuras. Será então necessária uma depuração, que deixe a amargura construir sua casa e que a angústia, o dolo e a exposição das chagas trará engulhos a quem você mais conhece: você mesmo.

 

Só após a purgação estaremos prontos, afinal, para começar a aprender.

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publicado às 02:54

Eu, Saramago e L'Osservatore Romano

por blogdobesnos, em 12.04.12

De José Saramago li, até o momento, dois livros,  A caverna e Ensaio sobre a cegueira. Ambos me impressionaram muito e me fizeram ter uma outra relação com a escrita. Há escritores que são definitivos e Saramago, em minha opinião, é um deles. Não só pelo estilo, mas pelas histórias, ambas comovedoras e extremamente humanas. Os seus livros, em vários momentos, alternavam frases de chumbo, pensamentos de angústias remotas, opções fluidas como desenhos feitos a dedo em areias de praia. O peso de ser humano alternado com a possibilidade de ser mais do que a si próprio se admite. O autor ajudou na minha formação dentro das suas histórias; misturei-me e sofri com seus personagens, muitas vezes ri junto com eles. Enquanto a previsibilidade cinza da Caverna me engessava e me fazia observar a loucura de vidas sem sentido, Ensaio sobre a cegueira me fez lembrar como somos todos cegos e de que modo lidamos com essa incapacidade de ver, que é a mesma de nos movermos. Talvez a maior formação seja a que vem através dos livros, onde podemos observar não somente a decorrência dos personagens, mas, especialmente, as nossas próprias excitações e melancolias. Me vi através do que Saramago me fez ver, e essa lição é inesquecível.

De  repente, e somos todos humanos para compartilhar da experiência da morte. Saramago a provou em 18 de junho, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias,   nos braços de sua amada Pilar Del Rio.  Teve enterro com honras de Chefe de Estado. Enquanto o mundo reverenciava respeitosamente a memória e a obra do primeiro escritor de língua portuguesa a receber o Premio Nobel de Literatura, em 1998, surgiu justamente do Vaticano, através do seu Jornal L’Osservatore Romano, uma crítica virulenta escrita por um Claudio Toscani, para o qual Saramago era ateu (coisa que o autor nunca negou), comunista (idem) e marxista (ibidem).  O Vaticano emitiu um juízo de valor sobre o cadáver de um homem que claramente não aceitava a própria instituição católica. Para o Vaticano, houve a vendetta que vilipendiou um morto. Cristo, tenho certeza, se me permite a Instituição Católica, não teria feito tal comentário desleal e desonroso. Parece que nos tempos atuais cada vez menos o Vaticano compactua com as palavras e com a vida do Filho de Deus, a quem diz representar na Terra.

Afinal, se Saramago não era católico, mas ateu, e sendo bastante impesssoal, qual o interesse do Vaticano  em uma retaliação post-mortem?

De todo modo, não tomem meus leitores a crítica ao que disse e mandou publicar o Vaticano como uma reprimenda ao Cristianismo;  respeito, por convicção própria, o direito universal de ter-se uma consciência religiosa, o que não me impede de fazer uma diferença bastante clara entre o que ensinam os ministérios e o que se pratica em nome de quem deveria ser maximamente respeitado.  Conforme se diz: o que Pedro diz sobre Paulo diz mais sobre Pedro do que sobre Paulo.

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publicado às 02:34

L'Osservatore Romano e Saramago

por blogdobesnos, em 12.04.12

Um dia depois da morte do escritor

Jornal do Vaticano define Saramago como “populista e extremista” 

19.06.2010 – 19:13 Por Lusa

O diário do Vaticano, “L’Osservatore Romano”, publicou hoje um artigo onde define o escritor José Saramago, que morreu ontem aos 87 anos, como “populista e extremista” de ideologia anti-religiosa e marxista.
O diário considera Saramago um ideólogo anti-religioso
 
O diário considera Saramago um ideólogo anti-religioso (Enric Vives-Rubio) 

Um dia depois da morte do Nobel da Literatura de 1998, o diário da Santa Sé publica um obituário intitulado “A (presumível) omnipotência do narrador”, assinado por Claudio Toscani. “Foi um homem e um intelectual de nenhuma admissão metafísica, ancorado até ao final numa confiança arbitrária no materialismo histórico, aliás marxismo”, lê-se no artigo.

“Colocado lucidamente entre o joio no evangélico campo de trigo, declara-se sem sono pelo pensamento das cruzadas ou da Inquisição, esquecendo a memória do ‘gulag’, das purgas, dos genocídios, dos ‘samizdat’ culturais e religiosos”, acrescenta.

O texto passa em revista a produção literária do escritor português, qualificando o romance “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991) de “obra irreverente” que constitui um “desafio à memória do cristianismo”.

“Relativamente à religião, atada como esteve sempre a sua mente por uma destabilizadora intenção de tornar banal o sagrado e por um materialismo libertário que quanto mais avançava nos anos mais se radicalizava, Saramago não se deixou nunca abandonar por uma incómoda simplicidade teológica”, escreve Toscani.

“Um populista extremista como ele, que tomou a seu cargo o porquê do mal do mundo, deveria ter abordado em primeiro lugar o problema das erróneas estruturas humanas, das histórico-políticas às socio-económicas, em vez de saltar para o plano metafísico”, acrescenta.

O artigo afirma que Saramago não devia ter “culpado, sobretudo demasiado comodamente e longe de qualquer outra consideração, um Deus no qual nunca acreditou, através da sua omnipotência, da sua omnisciência, da sua omniclarividência”.

Fonte: http://www.publico.pt/Cultura/jornal-do-vaticano-define-saramago-como-populista-e-extremista_1442720

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publicado às 02:31

Morre José Saramago

por blogdobesnos, em 12.04.12

MORRE, AOS 87 ANOS, O ESCRITOR PORTUGUES JOSÉ SARAMAGO.


Fonte: http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2010/06/morre-aos-87-o-escritor-jose-saramago.html

 

 

O escritor português José Saramago morreu aos 87 anos em sua casa em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, nesta sexta-feira (18). A informação foi divulgada pela família do escritor de “Ensaio sobre a cegueira” e confirmada em seu site oficial. Segundo sua mulher, a jornalista Pilar del Río, Saramago passou mal após tomar o café da manhã e recebeu auxílio médico, mas não resistiu e morreu. Ele sofria de leucemia e, nos últimos anos, havia sido hospitalizado em várias oportunidades devido a problemas respiratórios.

“Hoje, sexta-feira, 18 de junho, José Saramago faleceu às 12h30 horas [horário local] na sua residência de Lanzarote, aos 87 anos de idade, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença. O escritor morreu estando acompanhado pela sua família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila”, diz uma nota assinada pela Fundação José Saramago e publicada na página do escritor na internet.

De acordo com a agência de notícias EFE, os restos mortais de Saramago serão levados a um cemitério de Lisboa em data ainda não especificada. Um serviço fúnebre deve ser realizado ainda nesta sexta, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias. O autor de “O evangelho segundo Jesus Cristo” e “Ensaio sobre a cegueira” vivia em Lanzarote, no arquipélago espanhol  desde 1993 com sua esposa.

José Saramago na cidade espanhola de Lanzarote,  nas Ilhas Canárias, em  1996
José Saramago pelas lentes do fotógrafo Sebastião Salgado, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias em 1996 

Livros de José Saramago

Terra do Pecado (1947)
Os Poemas Possíveis (1966)
Provavelmente Alegria (1970)
Deste Mundo e do Outro (1971)
A Bagagem do Viajante (1973)
As Opiniões que o DL Teve (1974)
O Ano de 1993 (1975)
Os Apontamentos (1976)
Manual de Pintura e Caligrafia (1977)
Levantado do Chão (1980)
Memorial do Convento (1982)
O Ano da Morte de Ricardo Reis (1988)
História do Cerco de Lisboa (1989)
O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991)
In Nomine Dei (1993)
Ensaio sobre a Cegueira (1995)
Cadernos de Lanzarote (1997)
Todos os Nomes (1997)
O Conto da Ilha Desconhecida (1998)
Cadernos de Lanzarote 2 (1999)
A Caverna (2000)
A Maior Flor do Mundo (2001)
O Homem Duplicado (2002)
Ensaio sobre a Lucidez (2004)
Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido (2005)
As Intermitências da Morte (2005)
A Jangada de Pedra (2006)
As Pequenas Memórias (2006)
O Caderno (2009)
A Viagem do Elefante (2008)
Caim (2009)

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publicado às 00:24

Cansaço

por blogdobesnos, em 12.04.12

Há momentos em que você cansa de falar, de argumentar, de tentar provar as suas teses. O interlocutor não quer ouvir ou se coloca em uma posição sistemática de obstrução, quando não de confronto. Por mais evidente que seja o que você diga, tudo ao outro soa como estranho, exótico, intraduzível, como se estivéssemos falando a respeito das leis de probabilidades de Heinsemberg ou de algum intrincado cálculo diferencial. Ou sobre metafísica.

Esqueça, você simplesmente não quer ser escutado, porque a dor causada pelas suas palavras e pelo simples bom senso pode ser dilacerante. Para tudo que você diz, parece necessário um decodificador. Ora, não o escutam por ignorância ou por evidente malícia, talvez mesmo pela abjeta combinação de ambas. Pode jogar o decodificador no lixo, porque não é ele que não está funcionando direito.

Observando os néscios, os medíocres, os ignorantes e os galardoados imbecis, aprendemos a ser mais reflexivos, mais honestos conosco e com os outros.  Vemos claramente o que vale e o que não vale a pena ser discutido.  O que dita tal juízo não é a conveniência, mas o conhecimento do humano ante as armadilhas dos pretensos poderes, das instabilidades emocionais e da vaidade exacerbada, que não raramente se transforma em arrogância. Por outro lado, a contemplação da estupidez e da intolerância nos ensina, e muito. De certo modo, nos depuramos, como se tomássemos  um banho reconfortante, por não sermos o que outros são e, especialmente, por não nos portarmos do modo como outros se portam.

Para Lacan, somos referenciados pelo Outro, esse grande Sujeito que nos é básico para que nos reconstruamos e possamos ter uma idéia mais clara sobre como nos constituímos enquanto seres identitários. O outro nos questiona: como agiríamos em tal ou qual situação, o que faríamos, qual seria o nosso procedimento, quais seriam as nossas escolhas? Não raro nos desapontamos, e a maturidade nos alcança quando aprendemos a transigir, a negociar, especialmente a arte da renúncia. Aprendemos inclusive a saber quando estamos ou quando não estamos perdendo nosso tempo, fruto de nossas experiências. Acho que estou precisando escutá-las.

Afinal, como se diz por aqui, não vale a pena gastar pólvora em chimango morto.

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publicado às 00:22


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