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Gaarder: entrevista

por blogdobesnos, em 13.04.12

ENTREVISTA

“É possível que a filosofia seja mais atraente”

Jostein Gaarder, escritor norueguês

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Seu livro mais famoso, O Mundo de Sofia, vendeu 40 milhões de exemplares (no Brasil, já se encontra na 25ª edição) e foi traduzido para mais de 55 línguas. Agora, o norueguês Jostein Gaarder, um ex-professor que ainda fala com surpresa do sucesso da obra de estreia, está no Brasil para promover o lançamento de mais um romance que aborda questões filosóficas a partir de um enredo simples. O Castelo nos Pirineus, lançado este mês pela Companhia das Letras, é a história de um casal de ex-amantes, Steinn e Solrun, que, por meio de uma tensa troca de e-mails, tenta entender as razões da separação. Ele é um cientista que crê na razão nos moldes iluministas; ela, uma mística que se aferra ao Livro dos Espíritos, de Alan Kardec. A narrativa desfiada por Gaarder reserva surpresas para ambos.

Gaarder falará hoje a cerca de 700 professores convidados no Salão de Festas da Reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), às 9h. O evento inaugura o módulo Fronteiras Educação – Diálogos com Professores, uma parceria do Fronteiras do Pensamento com o Instituto Claro. O Fronteiras do Pensamento é apresentado pela Braskem e tem patrocínio de Unimed Porto alegre, Gerdau, Grupo RBS, Instituto Claro e Refap, com apoio cultural da UFRGS, da Anhanguera Educacional e da prefeitura de Porto Alegre. (*)

Na sexta-feira, por telefone, de São Paulo, Gaarder conversou com Zero Hora por meia hora. Recordou a passagem pela Jornada Literária de Passo Fundo (“Uma cidade pequena”), em 2005, e disse que Porto Alegre é conhecida na Europa e em todo o mundo em razão “daquela conferência ambiental”. Perguntado por ZH se se referia ao Fórum Social Mundial, afirmou que sim. A seguir, uma síntese da conversa:

Zero Hora – Em sua visita anterior ao Brasil, em 2005, o senhor disse que, mesmo sendo uma pessoa religiosa, preferia ver as grandes indagações sobre o mundo e a existência humana tratadas por cientistas, e não por filósofos. Continua pensando assim?

 

Jostein Gaarder – Sim. Quis dizer que o debate filosófico foi dominante durante séculos. Hoje, acredito que é mais importante ler os cientistas. Preferiria discutir a natureza do universo com um astrônomo ou um astrofísico do que com um filósofo. Algumas das grandes questões filosóficas deixaram o âmbito da filosofia e são melhor trabalhadas pelos cientistas. Há uma filosofia local na ciência, e mesmo uma religião. O astrônomo britânico Stephen Hawking disse anos atrás que estava fazendo algo como procurar as impressões digitais de Deus.

ZH – O que falta aos filósofos nesta época?

Gaarder – Essa é uma questão relevante em meu livro O Mundo de Sofia. A filosofia é muito acadêmica. Muitas pessoas têm medo de mergulhar na filosofia porque ela soa muito seca. Definitivamente, há grandes questões filosóficas sobre as quais se pode falar muito claramente. É possível que a filosofia seja mais atraente e acessível.

ZH – Em passagem por Porto Alegre na semana passada, o crítico Terry Eagleton assinalou que o assim chamado “debate sobre Deus” voltou à moda. Isso o surpreende?

Gaarder – Talvez isso ocorra em razão de um revival do sentimento religioso. Eu era estudante no começo dos anos 1970, e todos víamos a religião como algo que tinha ficado para trás. Víamos que havia um número grande de pessoas envolvidas com religião, mas que estavam erradas. Você pode encontrar fundamentalismo entre os cristãos, e também fundamentalismo islâmico. Na Europa, recebemos mais e mais imigrantes desses países (muçulmanos). Isso estimulou o debate entre crença e conhecimento, crença e ciência. Esse foi um grande debate que começou com Charles Darwin (biólogo britânico, autor de A Origem das Espécies e da teoria evolucionista). Eagleton está completamente certo ao dizer que há um revival. E então se vê uma reação contra as tendências religiosas, como a de Richard Dawkins, que escreveu um livro chamado Deus – Um Delírio. Adoro Dawkins e seus livros, mas acredito que naquele livro ele está indo um pouco longe, como um fundamentalista ao contrário. Penso que ele está se tornando muito racionalista.

ZH – Dawkins é justamente um cientista que escreve sobre religião.

Gaarder – Sim. Creio que esse debate é interessante. Acredito que há três coisas que sempre acompanham os seres humanos: uma delas é o sexo, outra é a guerra e a terceira é a religião. Quando era jovem, acreditava que um dia não haveria guerras, acreditava nos ideais pacifistas. Também acreditava que o fundamentalismo religioso desapareceria completamente em poucas décadas. Mas estava errado. E com certeza o sexo nunca morrerá, porque nesse caso a humanidade também morreria.

ZH – O Castelo nos Pirineus é uma história de amor, como A Garota das Laranjas. Desta vez, porém, o pano de fundo é o conflito entre razão e misticismo. Como o livro surgiu?

Gaarder – Minha primeira intenção era tratar a questão da religião de um ponto de vista cético. Optei por contar o encontro de dois ex-amantes que têm interpretações completamente diferentes sobre a separação. E quanto mais escrevia sobre Solrun (a heroína), mais queria ouvi-la. Hoje, considero aquele debate entre os dois como algo que ocorria no interior de minha própria mente. E também me entendo muito mais. Não sabemos o que é o universo. Acredito totalmente na ciência, mas nenhum cientista pode nos dizer o que foi o Big Bang. Meu livro é uma história de amor, uma história psicológica. Assim como A Garota das Laranjas, trata-se de uma história de amor e também sobre grandes questões, sobre vida e morte. Creio que todos os meus livros têm essa dimensão filosófica.

ZH – Qual dos dois personagens tem mais de Jostein Gaarder: Steinn, o racionalista, ou Solrun, a transcendentalista?

Gaarder – Quando comecei a escrever o livro, me sentia definitivamente muito mais próximo de Steinn, o racionalista. Ele não é apenas um racionalista, mas alguém que admite fazer grandes perguntas. Mas também me sinto mais próximo desse ponto de vista transcendentalista ou espiritualista do que quando comecei a escrever o livro. Tive de escrever com propriedade sobre Solrun, trabalhei em favor dela. Mas a pergunta foi clara, e me sinto mais próximo de Steinn. A crença dela é muito específica, ela crê no Livro dos Espíritos (de Alan Kardec, obra máxima da doutrina espírita).

ZH – O Mundo de Sofia vendeu 40 milhões de exemplares. Pelo menos no Brasil, o senhor é mais popular do que Ibsen, dramaturgo norueguês que foi um dos pais do teatro moderno.

Gaarder – Certo.

ZH – O que pensa disso?

Gaarder – Bem, creio que as pessoas no Brasil deveriam ler mais Ibsen. (Risos.) Com certeza. Quando escrevi O Mundo de Sofia, imaginei que o livro seria lido por poucos. Ainda estou impressionado com isso. Subestimei o fato de que os seres humanos em geral, como eu, se fazem perguntas sobre quem somos, de onde viemos, o que é o universo. Essa abordagem universal, não apenas em O Mundo de Sofia, fez com que felizmente fosse aberto um caminho para outros livros meus.

ZH – Dos três grandes temas citados pelo senhor – sexo, guerra e religião –, já escreveu sobre o primeiro e o último. Algum dia escreverá sobre a guerra?

Gaarder – É uma boa pergunta. A guerra nunca me atingiu. Mas há algo que me atinge todos os dias e sobre o qual quero escrever: o grande desafio ambiental. Isso é um tipo de guerra, uma guerra para defender nosso planeta da eliminação, do fim de toda a civilização. O que são a literatura e a arte? São a celebração da consciência humana. A arte e a literatura têm de ser a vanguarda na defesa da consciência humana. Somos capazes de destruir a humanidade. Destinei parte dos direitos de O Mundo de Sofia para fundações ambientalistas.

luiz.araujo@zerohora.com.br

 
(*) Assisti ao evento, no qual Gaarder falou, entre outros assuntos,  a respeito da questão ambiental, citando o exemplo dos combustíveis fósseis. “É preciso alternativas”, disse, ressaltando que o mundo que todos conhecemos se baseia em um modelo de obtenção de energia que remonta à revolução industrial, com base na exploração massiva de carvão e de petróleo. Ao fim do encontro, leu um manifesto sobre as questões energéticas e do meio ambiente. Quanto ao papel do professor, enfatizou que ele deve ser um bom contador de histórias, no sentido de buscar formar jovens e adolescentes que se tornem cidadãos com um senso crítico e social desenvolvido. O salão de festas da UFRGS estava lotado, e não foi sem merecimento. A condução da palestra foi muito interessante, inclusive por que o escritor relatou processos que levaram aos seus livros. Sempre há dificuldades, mas sempre há alternativas possíveis, desde que tenhamos condições de vê-las e colocá-las em prática.

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publicado às 23:16

A outra margem

por blogdobesnos, em 13.04.12

Lendo o romance policial “Morte de um holandes”, de Magdalen Naab, Ed. Novo Século, 2009, li, na página 287, verso:

 

“Sobre a Autora. Magdalen Naab nasceu em Lancashire em 1947 e se formou ceramista. Em 1975, abandonou a ceramica, vendeu a casa e o carro e se mudou para Florença, com o filho, sem mesmo conhecer ninguém e sem falar italiano, para se dedicar à carreira de escritora de tramas policiais e de livros infantis. Faleceu em 2007″.

 

Mais não disse.

 

Ora, Lancashire é um condado que fica ao noroeste da Inglaterra, Reino Unido. Florença, todos sabem, fica na Itália. A par de algumas situações já sabidas, algumas mais próximas, outras mais distanciadas, fiquei refletindo sobre o que faz alguém tomar a si a sua própria história, no sentido de modificá-la, o que faz com que procure criar uma nova configuração para sua vida, ao invés de simplesmente continuar em sua zona de conforto. Não, as agruras e as necessidades não explicam tudo, apenas existem. Às vezes mesmo as chateações, os descontentamentos, as possíveis aflições não passam de um limite suportável. Então por que sair de onde nos encontramos, por que arriscar-se, ao invés de culpar o destino, os infortúnios, as circunstâncias, por que não alimentar o sentimento próprio de culpa, por que tentar moldar seu destino, enquanto seria bem mais palatável juntar-se aos milhões que se encontram engessados a uma vida que por vezes abominam, mas cuja abominação já se tornou tão familiar, tão introjetada, tão comum e rotineira, que preferimos ignorá-la a tentarmos efetivamente algo melhor? As forças do hábito, da conveniência, os pesos vastos das obrigações e das convenções sociais por vezes tornam a vida absolutamente insossa e mesmo indiferente.

 

Àqueles que partiram da zona de conforto, que se arriscaram, que preferiram o arriscar-se, resta o signo do movimento. Ninguém aprende, vivencia novas experiências, se transforma a si e aos outros sem o movimento que muitas vezes não é simples nem fácil, não é livre de obstáculos, de angústias, mas é o que nos impulsiona à frente. É claro que o lançar-se traz seus riscos e suas inquietações, não raro ficamos frustrados, somos incompreendidos, não poucas vezes temos de vencer a inércia que nos prende ao conservadorismo, a um laissez faire sem contestações. O desejo, a auto-confiança, contudo, impulsionam e a pulsão da libido vivifica. Embora transportemos nossas casas, nossos sentidos, nossos sentimentos, é atávico que, além de sermos seres sociais e comunais, igualmente somos nomades.

 

Levemos, portanto conosco as nossas tendas, de maneira que aprendamos a nos mover buscando novos horizontes, de maneira que nos sintamos mais realizados. Felizes, fazemos nossas circunstâncias felizes. Se não nadarmos, jamais seremos o que Michel Serres chama de terceiro instruído. Vamos, mergulhemos. A outra margem nos espera.

 

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publicado às 22:08

Sobre o neoliberalismo

por blogdobesnos, em 13.04.12

Neoliberalismo: interpretando algumas questões

1 – O que é o neoliberalismo?

É uma teoria na qual a economia serve de parâmetro às atividades humanas, pretendendo dar-lhe uma ética com base em uma filosofia própria. Alicerça-se no mercado que, por seu turno através de sua auto-regulação traria a justiça social nas relações humanas. Tal revelou-se distorcido em razão de que o mercado absolutamente nada tem a ver com parâmetros de justiça ou injustiça social.

2 – Em que consiste o programa de ajustes para a América Latina?

Liberdade de circulação dos capitais, bens e serviços. Os capitais são especulativos, não produtivos. Liberdade de comércio significa termos vantajosos para as transssnacionais que pertencem, em sua maioria aos Estados Unidos.

Estabelecimento de sistemas de pressão econômica contra os mercados nacionais; estabelecimento de privilégios às empresas detentoras do capital através de uma relação promíscua com o estado-nação.

Erosão das redes de segurança concernentes à face social do estado (declínio progresssivo do welfare state) e incremento aos processos de privatização. Menor peso às organizações de trabalhadores, sindicatos, etc. Transferências de capitais através das infovias.

3 – Quais são as raízes históricas do neoliberalismo?

As mesmas derivam-se de um mix de fatores políticos, culturais e conjunturais, em movimentos havidos em áreas de política macroeconômica. Os fatores arrolados são:

o Renovação da mentalidade conservadora que surgiu como um contraponto à manifestações e fatos de cunho cultural e políticos que abalaram estruturas conservadoras, especialmente nas décadas de 60 e 70 nos países desenvolvidos, mormente nos Estados Unidos. Alguns deles seriam a liberação sexual através da pílula, as mudanças de costumes, a guerra EUA – Vietnane, a ascenção das minorias discriminadas socialmente, como os negros, as mulheres, os homossexuais, lésbicas, etc. Os governos representativos do conservadorismo foram os de Reagan, nos EUA, M. Tatcher na Inglaterra e H. Köhl na Alemanha;

o O desgaste do estado de bem estar social. Os conservadores entenderam que as redes de proteção social (previdência, saúde, seguro desemprego, etc) oneravam demais os estados-nações e que tais custas serviam unicamente para manter uma máquina estatal ociosa e pesada, com uma burocracia cara e influente. Os demais cidadãos não deveriam arcar com tais ônus, com tais “prejuízos sociais” causados pelos párias da sociedade (no sentido de Bauman). Dentro do princípio capitalista os pobres eram pobres como um exercício de opção social, preferindo serem assistidos socialmente a trabalhar.

o Transformação industrial que implicou no avanço tecnológico aplicado às empresas, em que os processos de automação e robotização diminuíram a participação dos trabalhadores nos custos e nas responsabilidades sociais. A desregulamentação dos mercados cada vez mais proporcionaram o esvaziamento dos sindicatos e a deslocalização das atividades produtivas.

o Ascenção do capital especulativo: com base em facilidades técnicas e na liberação via desregulamentação do fluxo dos capital, há uma migração de dinheiro superior a dois trilhões de dólares/dia. Tal capital é meramente especulativo e não aplicado em atividades produtivas, ou seja, não há uma geração de empregos compatível com tal aplicação de capital, mas simplesmente o acúmulo de mais capital. O capital não tem qualquer preocupação com níveis de empregabilidade ou mesmo com estabilidades dos estados-nações, pois tem força suficiente para predar as economias desses países.

o Ascenção de uma nova classe dirigente, que perfaz análises de instrumentos simbólicos (especialmente nas políticas de macro-econoomia e mercados financeiros), não raras vezes contando com informações privilegiadas, tentando antecipar terrenos ou nichos de mercado onde possam as empresas obterem mais lucro real. Tais profissionais são eminentemente cosmopolitas, trabalham em rede e exercem atividades de consultoria em diversas áreas estratégicas (finanças, criação, publicidade, mídia, tecnologias diversas, engenharias de sistemas, etc). Tal classe dirigente é uma elite que fundamenta os processos de fundo da globalização.

o A queda do marxismo real que, para os conservadores significou a ruína do socialismo, maior inimigo do capitalismo.

o O domínio econômico e financeiro das multinacionais que solapam o poder dos estados-nação graças a sua concentração de capital e pela possibilidade de interferência na formatação política desses mesmos estados.

4 – Quem são e o que argumentam os ideólogos do neoliberalismo?

Friedrich Hayeck e Milton Friedman. Argumentam que o mercado é uma instituição universal que, em sua melhor forma é perfeito, no sentido de opoortunizar a todos liberdade de opções. Isso, à evidência não é uma verdade mas, de toda forma, é o que apregoam e fundamenta o pensamento neoliberal.

5 – Comente algumas conseqüências do neoliberalismo.

A dispersão do welfare state trouxe muitas conseqüências, entre as quais a incapacidade de gerenciamento de uma parcela da sociedade que, por motivos vários, deixou o mercado de trabalho. Ora, a teoria neoliberalista parte do princípio da privatização dos papéis que anteriormente eram da competência do estado-nação. Isso significou que, afastado o estado, essa parcela da população desempregada passou a gerir por conta própria sua incapacidade financeira de auto-sustentação. Em outros termos, cresceu a miserabilização de enormes estamentos sociais. Por outro lado, houve, em razão disso uma bipolaridade cruel, representada por aqueles que tem capacidade de participar de uma sociedade altamente voltada para o individualismo endêmico e o consumismo e por outra, representada por aqueles que cada vez mais vêem-se privados de condições reais para a volta à atividade produtiva, tornando-se párias em relação àqueles primeiros. E, pior de tudo, as sociedades não sabem o que fazer com os párias, a não ser criminalizá-los e cada vez mais vê-los como perigosos e estranhos.

Ser estranho significa ser diferente, e os imensos movimentos migratórios dos párias sempre são acompanhados por uma ideologia dominante que busca sua exclusão social. A questão é que não é possível uma lógica simples de coooptação dos diferentes pois eles mesmos contrapõem sua ideologia e seus modos de vida, que são fundo para o brilho dos socialmente ascendentes, dos que podem deslocalizar-se e são recebidos com as honras e glórias devidas a quem detém o capital. Ser pária e não ser uma “reserva de mão-de-obra” é uma das conseqüências do neoliberalismo., gestado dentro de desejos sempre irrealizáveis mesmo por quem detenha realmente oportunidades de acessar o mundo globalizado.

6 – Dar um parecer sobre neoliberalismo.

O neoliberalismo é uma ideologia que busca manter os mercados em permanente pulsação, em evidente busca pelo lucro, e que dá fundamento ao capitalismo. Em nossa opinião, temos de pensar o neoliberalismo em termos de práxis, no mínimo configurá-lo como uma ideologia que é justificadora. Aqui deu-se uma peculiaridade, na qual o mercado necessitava justificar-se pela produção da injustiça social que gerava. Do ponto de vista meramente voltado para a estratégia econômica de alguns em detrimento de outros (esses a maioria) justifica-se o neoliberalismo, como justifica-se qualquer outra ideologia.

A questão não é econômica, é de fundo social. A produção e o mantenimento dos quadros de miséria no mundo é uma responsabilidade que evidentemente não pode ser reportada ao neoliberalismo, porque é-lhe anterior. No entanto, a ideologia neoliberal dá sustentabilidade ao continuum dessa miséria e de seu crescimento. Isso ocorre porque não existe qualquer elemento que não seja absolutamente voltado para uma praxis que desconstitui a trajetória humana. Uma vez fixado o objetivo são traçadas estratégias no sentido de alcançá-lo. Contudo tais estratégias poderão trazer situações nas quais o deslocamento dos capitais tragam o risco de uma pobreza endêmica, o resultado de uma terra arrasada. Pois bem, a ideologia neoliberal não se preocupa nem se ocupa com isso. Em suma, ela privilegia o capital, independentemente de qualquer outra adequação às realidades sociais.

O neoliberalismo está vinculado ao neoconservadorismo, que procura trazer uma complementação ideológica importante àquele braço econômico da fusão do primeiro ao segundo, que denomina-se de globalização. Ao neoconservadorismo cabe ressaltar alguns valores que contrapõem-se a solidariedade, ao comunitário, ao interesse público. Contrariamente, àquele aderem o individualismo exacerbado, a indiferença social e o caráter privatista e privatizante, igualmente, aqui, dos espaços públicos.

Tais valores ou desvalores são observados em práticas onde radica a mercancia e a atividade expeculativa. Atualmente um dos interesses mais agudos do neoliberalismo é forjar uma instância na qual haja um convencimento de que o neoconservadorismo está correto ao expor os párias da sociedade ao mesmo tempo em que procura cada vez mais dar um caráter privatizante às necessidades humanas.

Privatizar, aqui, não significa necessariamente tão-só abstrair da esfera pública mas, especialmente desregulamentar, ou seja, criar jogos nos quais os jogadores não saibam as regras mas que sejam impelidos ao mesmo ou, ainda, que as regras do jogo sejam marcos ilusórios, modificáveis a cada nova expectativa do mercado, ou, em outras palavras às possibilidades de obtenção de lucros cada vez maiores.

O neoliberalismo é pois a ideologia que saúda a passagem da modernidade para a pós-modernidade e que se configura em um centro de referência econômica na qual a descentralização e o espetáculo do consumo são regentes supremos em face do descompromisso com qualquer instância que não seja a abstração jogada e não raro perdida pela maioria das pessoas, que vêem desfazer-se seus sonhos de vida e sua capacidade de auto-administração sustentável.

7 – Que relações podem ser estabelecidas entre o neoliberalismo e educação, tanto no sentido amplo (toda a sociedade) quanto restrito (escola/universidade)?

Uma das pontas do neoliberalismo e vertente lógica do mesmo é o neoconservadorismo. Contudo, enganam-se os que pensam que ser neoconservador é buscar trazer do fundo para o contraste todos os valores conservadores. Não, e justamente aí vem o sentido de neo, ou seja, apenas algumas dessas características são trazidas para o contraste: o egoísmo, o individualismo, o pensar em si próprio, a não identificação e o descompromisso, seja político, seja social. Outros estamentos como ética, por exemplo, não são vistos com bons olhos pelos neoconservadores, pois não condizem com uma sociedade apoiada no deus mercado.

Em conseqüência temos um apartheid social que se reproduz no campo do conhecimento. Ocorre então que a denúncia marxista no sentido de haverem dois tipos básicos de educação, um para as classes dominantes e que teria um caráter mais e uma educação mais diretiva e mais restritiva para os filhos das classes dominadas é tristemente atual. A primeira teria uma ênfase na capacidade de deslocamento e de criatividade, enquanto à segunda adeririam padrões mais voltados para a obediência e para a disciplina. Em suma, nada que Weber não tenha já explicitado em termos de pedagogia do cultivo (associada às classes socialmente hegemônicas) e especializada (associada às classes trabalhadoras e economicamente hiposuficientes).

Ora, a questão ideológica é o motor em tais colocações sociais, no sentido de mantenimento dos padrões que interessam às classes hegemônicas. Por isso alguns “sensos comuns” são sequer discutidos e perpassam por todas as classes sociais, mas são geradas sempre nas instâncias de domínio. Na verdade tais “obviedades” igualmente irrigam os sistemas escolares formais, que não dissociam tais ideologia de sua práxis. Assim sendo, são instrumentos eficazes na continuidade dos pensamento associados as classes dominantes.

Um exemplo de tais obviedades seria uma resposta padrão observada em alunos de classes populares: ao dizerem porque vem à escola, não é nada incomum dizerem que vem a escola “ser alguém”. Nesse sentido, o “ser alguém” está associado à condição de ascenção econômica e social, e não a verdadeiramente constituir-se como uma pessoa dentro de um processo social e histórico. Assim, a representação da escola muitas vezes não está devidamente percebida como um canal para o conhecimento, mas uma chave de acesso à melhores condições econômicas. Dentro de tal lógica, ser melhor, ser alguém é ter melhores condições financeiras. Esse papel de representação da escola, contudo, embora tenha sido objeto já de espancamento por muitos dos que trabalham diuturnamente em tais agências, não abandona o imaginário popular.

Por outro lado, as origens das escolas públicas realmente buscavam o conservadorismo social e a preparação para a mão-de-obra ausente de criticidade. Em outros termos, o neoliberalismo, ao ignorar as situações reais das pessoas, tem interesse em preservar em termos escolares uma nova ilusão, que é a do sujeito epistemológico puro, que pode, sim, ser comparada ao mercado puro. Da mesma forma como o mercado proporcionaria condições iguais a sujeitos iguais, e que os diferenciais na vida seriam únicamente creditados à ação ou inação das pessoas, igualmente o sujeito epistemológico é uma visão purista e mistificada, a partir da qual se elegeram duas vertentes importantíssimas na configuração das escolas formais: (a) a noção de que se há um sujeito que aprende ( e ligado à episteme, conhecimento), os outros sujeitos deverão aprender utilizando basicamente os mesmos padrões-referenciais, não distinguindo individualidades, e (b) o sujeito epistêmico ajudou sim a construir os cortes lógicos das diversas disciplinas, que o tinham como referência fulcral no procedimento do ensinar.

Quer-se com isso dizer que o pensamento neoliberal tem sim a ver com a configuração do quefazer escolar; outro ponto importante de ser abordado é a questão de que o ideário capitalista acompanha sim o estudante, bastando, para isso vermos como uma boa parte dos mesmos opera motivado pelos critérios de avaliação, modelando de certa forma seu comportamento (como sugeriu fortemente Skinner) em razão não do conhecimento, mas de tais critérios avaliativos. Estuda-se porque quer-se a nota, a aprovação. E esse comportamento é absolutamente capitalista e neoliberal: fazemos algo porque queremos que esse algo, no mínimo, oportunize lucro. Evidentemente que no caso do ensino ocorre uma inversão: a avaliação (na maior das vezes excludente e classificatória) passa a reger o comportamento do aluno, e não o conhecimento.

Há outras vertentes que podem ser exploradas, mas cremos que não devemos nos alongar mais em tais possibilidades.

30 de maio de 2004-05-30

Hilton Vanderlei Besnos

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publicado às 04:33

Minha alma é um tinteiro seco - Lyslei Nascimento

por blogdobesnos, em 13.04.12

MINHA ALMA É UM TINTEIRO SECO

Lyslei de Souza Nascimento1

Para Wander Melo Miranda

Todos os anos, os devotos italianos de San Gennaro vão a Nápoles e participam do rito que envolve a fantástica liquefação do sangue do mártir exposto em duas âmbulas. A fé, simulação cega de certezas de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem, é o poderoso vetor que faz o sangue coagulado dissolver-se.

O santo, decapitado na perseguição perpetrada por Diocleciano, teve suas relíquias conduzidas à Catedral de Nápoles pelo Rei Fernando da Espanha, em 1495. A cerimônia do milagre de San Gennaro é aberta a um sem número de peregrinos que podem ver exposto o sangue e, também, segundo a tradição, a liquefação e a ebulição do precioso líquido. Se o sangue não se liqüefaz, é mau presságio.

As ampolas ou âmbulas são relicários religiosos, objetos de encerramento que gozam do júbilo do oculto, do misterioso e do sagrado. Também possuem, esses continentes, a propriedade de manter segredos que esperam para serem revelados. Segundo Danielle Régnier-Bohler2, os relicários são guardiões de uma quintessência e de uma memória narrativa, além de se constituírem como metáforas de uma perenidade desejada pelo fiel.

As âmbulas podem ser vistas como as copas da carta de tarô, o crisol dos alquimistas ou o tinteiro do narrador-escritor em O castelo dos destinos cruzados, de Italo Calvino.3

O relicário de Calvino escapa, no entanto, ao sagrado e ao ritual que as âmbulas de San Gennaro e as relíquias ostentam. O Cálice Bento, o Santo Graal e outros signos que circulam na tradição religiosa e literária vêm envoltos em construções imaginárias do sagrado, daquilo que foi separado para a veneração. O papel do fiel é, portanto, crer, sem sombra de dúvida, no Santo Graal que, às vezes, pode ser, não só o cálice que contém o sangue de Cristo, como também o livro que contém a chave para a vida eterna. O Santo Graal, como descreve a lenda medieval, é um vaso de esmeraldas usado por Jesus na última ceia e com o qual José de Arimatéia teria recolhido o sangue de Cristo quando este teve o seu coração transpassado pela lança de um centurião. A lenda aparece a partir do século XII, nos romances de cavalaria como Perceval ou Le Conte du Graal, 1182, de Chretién de Troyes.

Ambas as representações dessa tradição, o cálice e o livro, veiculam a idéia de uma vida eterna e sem males e partem da premissa metafísica da fé.

Em Calvino, no entanto, a alma é um tinteiro seco. O cálice e o tinteiro se identificam à medida que alojam a tinta/sangue da escrita. O relicário de Calvino está seco. No fundo dessa copa – depositária infinita de referências literárias e pictóricas – descansa a tinta/sangue. Enquanto o texto que se apoia na fé, ilusão de quem crê, busca incessantemente o milagre – da liquefação do sangue de San Gennaro para a boa sorte ou o Santo Graal, para a vida eterna -, o texto de Calvino apoia-se na leveza poética que a ciência pode alcançar na literatura.

A leveza atua sobre a tinta seca dos múltiplos textos cruzados que compõem o resíduo no fundo do tinteiro e impelem o narrador-escritor a liqüefazer os textos que, às vezes, teimam em se apresentar sob o peso da tradição. O que faz a tinta de Calvino escorrer e criar novos e inusitados rastros sobre o papel é a busca alquímica de quem intenta, pela literatura, o conhecimento das coisas, retirando, no entanto, todo o peso da linguagem, fazendo dela e com ela a leveza do viver. A pena, o cálamo, a esferográfica de Calvino parecem indicar sempre uma encruzilhada de múltiplos caminhos que seguem o fio negro de tinta sobre o papel: o caminho das paixões – uma via de fato, agressiva, de cortes nítidos – e o caminho do não-saber, que requer reflexão e um lento aprendizado.

No tinteiro seco de Calvino, subjaz a multiplicidade das referências e inferências que a memória do leitor pode fazer. São imagens de borrões e de rasuras no pergaminho do escritor. O cálice/tinteiro religioso transborda, outros cálices estão vertiginosamente cheios e ainda se continua a beber no copo alheio, mas o tinteiro de Calvino está seco. Sua escrita tem, nessa representação, um subsolo que pertence a certas categorias da renda4. Calvino acaba por filigranar e socavar, através de evocações mnemônicas, os textos que estão precariamente sedimentados na tinta com que escreve. Em estado de dicionário estão todas as leituras e imagens – memórias infinitas, impossíveis de seguir, de rastros e rasuras – que constituem esse palimpsesto.

As imagens de transbordamento e de sede insaciável contrapõem-se à imagem austera e elegante do tinteiro seco. A tinta seca, longe de ser um empecilho à escrita, apresenta-se, em Calvino, como uma soma das multiplicidades textuais que compõem a escrita. Os livros se respondem, combatem-se, completam-se reciprocamente e é no contexto cultural em que esses textos são produzidos que cada operação do escritor ganha sentido. Esse trabalho fabulatório está para o compor e o recompor, o reduzir pouco a pouco o tom da matéria verbal grandiloqüente até chegar no nível de um balbucio de sonâmbulo.5

A primeira imagem evocada, cálice/relicário, é da sacralidade da escritura com sua solenidade que se quer transcendente para o homem. A segunda, tinteiro/tinta, é sobretudo uma desconfiança no fazer dos homens e na auto-construção do seu destino. O texto, por essa via, perde a aura e se apresenta como artefato e matéria literária.

A tinta seca no tinteiro elegante está para o exercício da memória do escritor e do leitor; parceria indispensável nesse empreendimento. Tudo o que se aprendeu de cor, o que se recitou mentalmente, o que se fundou num repertório de textos é continuamente revolvido pela pena do escritor. O texto disperso na memória volta a se apresentar fluido na reescrita, sem vibração nostálgica, mas sempre como um texto que é lido/escrito pela primeira vez e que pode ser considerado como um arquivo dos materiais acumulados pouco a pouco, ao longo de estratificações sucessivas de interpretações iconológicas, de humores temperamentais, de intenções ideológicas, de escolhas estilísticas.6

A espessura que a tinta seca pode evocar liga-se ao peso do existir dentro da tradição. O resíduo da tinta apresenta-se como um repertório iconográfico de textos que, em Calvino, aparecem sobrepostos, em palimpsestos que subjazem na memória. A suspensão da capacidade da tinta de escrever, sua concretude, pode, ao apresentar-se, paradoxalmente, como uma espécie de resíduo alquímico em que a pena do escritor explora confins negros do pensável, materiais narráveis, possibilidades discursivas.

O milagre da pena do escritor consiste, assim, em liqüefazer a tinta seca e reescrever com leveza os textos sedimentados na memória ou extrair dos resíduos das narrativas tinta para novas histórias. Do caos primitivo da tinta seca, escoam possibilidades de matizes e nuanças de outros textos que anelam pela travessia do leitor.

Copas, vasos, relicários, âmbulas, crisóis e tinteiros são todos depositários da tinta/sangue com que se escreve a ficção. A intervenção da pena do escritor, de sua esferográfica, no entanto, dissolve o peso da escrita que se quer, como afirma Calvino, leve como as densas colchas de asas de borboletas; as pegadas de cascos alados que são mais leves que as patas dos insetos; um polvilhar dourado sobre as folhas, como deixam cair certas libélulas. Esses rastros servem, porém, como guia no emaranhado de possibilidades narrativas.7

A tinta residual e condensada no fundo do tinteiro lembra a nigredo, da alquimia. Mircea Eliade em Ferreiros e Alquimistas8, associa à cor negra a redução de substâncias à matéria prima, à massa confusa. A tinta seca de Calvino, vista como essa massa residual informe, corresponderia ao Caos, pensado na Alquimia. Uma das máximas dos alquimistas aconselha: “Não efetue qualquer operação antes que tudo tenha sido reduzido à Água”. Semelhantemente, em Calvino, o texto só pode ser gerado se a condensação da tinta – resíduos de tantos textos – for diluída para se obter a leukosis, a albedo: ressurreição da nigredo – da tinta negra – em uma outra narrativa.

Tal qual o alquimista, o escritor deve obter a dissolução dessas substâncias textuais para que haja possibilidade de engendrar novas e inesperadas tramas. Para o escritor-alquimista, o conhecimento do mundo é a dissolução de sua compacidade9, a prima matéria, a massa confusa, o abyssus. De uma certa forma, uma volta a um estado primordial em que a divina tintura pode fluir, sem perder de vista que

dessa esfera árida partem todos os discursos e poemas e todas as viagens através de florestas batalhas tesouros banquetes alcovas nos trazem de volta para cá: o centro de um horizonte vazio.10

No Castelo dos destinos cruzados, o centro do horizonte vazio parece ser, ironicamente, o lugar de onde e para onde convergem todas as narrativas. A redução do resíduo à tinta liqüefeita é que fundamenta essas novas narrativas. O fenômeno da regressão – a volta da matéria em sua forma líquida, portanto, narrável, sujeita à escrita – pode ser relacionado, também, ao nascimento e à morte. Morte iniciática tal como se depreende da nigredo, da putrefactio, da dissolutio. Para a alquimia, toda morte é, antes de tudo, uma reintegração na Noite cósmica, no Caos pré-cosmológico, enfim, um retorno à fase seminal da existência. Logo, a criação (uma nova escritura), como aparecimento de Formas, é efeito de uma morte iniciatória e a ressurreição corresponderia ao redimensionamento da materia prima – onde se contempla o Todo e se decidem as Escolhas – em uma nova materia. Para Calvino, toda narrativa é percorrida pela sensação da morte em que parecem debater-se, ansiosamente, personagens reais e fictícios que se agarram nos liames da vida.11

A carta da morte no Tarô, assim, pode ser lida em sua ambigüidade como portadora de raízes adubadas de cadáveres mal curtidos e de ossos depenados que, entre sepultamentos e exumações, possibilitam a reescrita. A transformação alquímica, como recomenda o Liber Platonis Quartorum, deve ocorrer num occipício como vaso, uma vez que o crânio é o receptáculo do pensamento e do intelecto (os capitis… vas mansionis cogitationis et intellectus; citado por Jung em Psychologie und Alchemie, p. 363). O alquimista em seu laboratório diante do crisol se assemelha ao escritor em seu escritório diante do tinteiro e ao São Jerônimo dos quadros citados por Calvino. O simbolismo mineralógico, os rituais metalúrgicos, as magias do fogo e as crenças na transmutação dos metais em ouro aproximam-se do trabalho do escritor com as palavras.

A descida aos Infernos – a morte iniciatória – e a experiência que transforma a tinta seca em tinta líquida se traduzem através do simbolismo saturnino, da melancolia, da contemplação de crânios.

A figura de Cronos-Saturno simboliza o Grande Destruidor que é o Tempo, e portanto não só a morte (= putrefactio) como também novo nascimento. Saturno, símbolo do Tempo, é muitas vezes representado com uma balança na mão. (…) Não se deveria esquecer nesse “domínio da Balança” (que os torna oniscientes e clarividentes), nessa familiaridade com a obra do Tempo (a putrefactio, a Morte que destrói omne genus et formam), nessa “sabedoria reservada apenas àqueles que anteciparam durante a vida a experiência da morte, a explicação da célebre “melancolia saturnina” dos magos e alquimistas?12

Calvino, na proposta das lições americanas sobre a exatidão, evoca Maat, a deusa da balança. A precisão é explicada pelo escritor como um projeto de obra bem definido e calculado, como a evocação de imagens visuais nítidas, incisivas, memoráveis e como uma linguagem que seja a mais precisa possível como um léxico que traduziria as nuanças do pensamento e da imaginação. Essa preocupação com aponta para o trabalho diligente do escritor-alquimista e sua tendência à introspecção própria aos melancólicos. Segundo Calvino:

Os antigos nos ensinam que o temperamento saturnino é próprio dos artistas, dos poetas, dos pensadores, e essa caracterização me parece correta. É certo que a literatura jamais teria existido se uma boa parte dos seres humanos não fosse inclinada a uma forte introversão, a um descontentamento com o mundo tal como ele é, a um esquecer-se das horas e dos dias fixando o olhar sobre a imobilidade das palavras mudas. Meu caráter apresenta sem dúvida os traços tradicionais da categoria a que pertenço: sempre permaneci um saturnino, por mais diversas que fossem as máscaras que procurasse usar. Minha veneração por Mercúrio talvez não passe de uma aspiração, um querer ser: sou um saturnino que sonha ser mercurial, e tudo o que escrevo se ressente dessas duas influências.13

O escritor-alquimista efetua, com o crisol/tinteiro, o engendramento de uma narrativa que traz inscrito o traço daquele que a concebeu e de quantos textos o escritor/leitor percorreu em sua vida. Tanto mais, diz Calvino, que Balança é o seu signo zodiacal. Contrapondo Mercúrio (as trocas, o comércio, a destreza) e Saturno (a melancolia, a solidão, a contemplação), Calvino opera os dois pratos da Libra e tal qual o trabalho quase obsessivo e maníaco do alquimista-escritor, a narrativa ressurge como mosaicos construídos pelo desfiar/fiar de tradições e textos que constituem o tecido narrativo. Assim,

todas aquelas copas não passam de tinteiros secos à espera de que da negrura da tinta venham à tona os demônios as potências do ínfero os papões os hinos à morte as flores do mal os corações na treva, ou bem que paire aí o anjo melancólico que destila os humores da alma e extravasa extratos de graça e epifanias.14

________________________________________

1 UFMG.

2 RÉGNIER-BOHLER, Danielle. Ficções. In: ARIÈS, Philippe e DUBY, Georges. História da vida privada: da Europa feudal à Renascença, p. 334 – 335. (Histoire de la vie privée, vol. 2: De l’Europe féodale à Renaissance).

3 CALVINO, Italo. O castelo dos destinos cruzados. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. (Il castello dei destini incrociati).

4 CALVINO, 1993, p. 131.

5 CALVINO, 1993, p. 155.

6 CALVINO, 1993, p. 156.

7 CALVINO, Italo. Op. Cit., p. 48.

8 ELIADE, Mircea. Ferreiros e alquimistas. Rio de Janeiro: Zahar, 1979, p. 118 – 130.

9 CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. Trad. Ivo Barroso, 1991, p.21. (Lezioni americane: Sei proposte per il prossimo millennio).

10 CALVINO, 1993, p.58.

11 CALVINO, 1991, p. 46.

12 ELIADE, 1979, p. 124.

13 CALVINO, 1991, p. 64-65.

14 CALVINO, 1993, p. 128.

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publicado às 04:14

Um pouco sobre o hoje

por blogdobesnos, em 13.04.12

Às vezes, olhando alguns filmes, gostaria que os mesmos fossem estritos, datados, ou seja, retratassem uma época específica. Easy Rider, por exemplo, é datado. Vários filmes históricos ou com fundo histórico também. Eles nos fazem refletir a partir de um fato ou de uma conjugação de fatos passados. O que assusta, ao ver Laranja mecânica é que ele é atualíssimo; há um pouco dele pulsando diuturnamente na sociedade, há um “Alex” que se reproduz potencialmente em cada movimento de agressão e violência. No entanto, da mesma forma que Laranja Mecânica, quando assistimos documentários sobre violência e crimes já institucionalizados, ou seja , quando tratamos de fatos e propensões criminosas, nos damos conta de que não se trata de uma configuração em que há um bandido e do outro lado, um mocinhoo. Os tempos de Roy Rogers já se vão longe, e o Zorro já desceu de seu cavalo há muito tempo. Mesmo Super Homem (pasmemos!) já tem suas crises existenciais. Mas, retornando, há uma dubiedade, uma duplicidade na questão da violência.

No documentário assistido, uma fala é fundamental: “Será que a sociedade não quer uma polícia corrupta? Será que a sociedade quer uma polícia que efetivamente entre na casa do meninão rico de Copacabana e o leve preso, ou ao seu pai, ou a todos juntos?” Então, como fica a sociedade? Embora seja doloroso concordar, essa indagação vai remeter às épocas ditatoriais, mas antes, bem antes dela, quando D. João VI fugindo das Terras D’Além Mar, com Napoleão em seu encalço, distribuía as melhores casas existentes no Rio de Janeiro para parte da Corte que o acompanhara em fuga, e os moradores eram postos na rua; quando Isabel terminou com a escravidão por pressão política inglesa, bem como anteriormente o próprio D. João havia, por recomendações inglesas “aberto os portos às nações amigas”, eufemismo para contentar novamente a Inglaterra… Quanto de corrupção e de violência patrocinada pela ação ou inação estatal geraram o caos que ora estamos vivendo?

Hà mais de dez anos, uma reportagem apontava que a favelização no entorno das grandes cidades brasileiras vem aumentando de forma constante, o que é outra maneira de dizer que a miséria cada vez mais campeia…Para onde irmos? Para a confiança celestial de que nada acontecerá, para as casas prisões que temos hoje em dia, abarrotadas de cercas e que podem ser abertas todas com um piscar de olhos? Talvez estejamos reintroduzindo um conceito já perdido de idade média, contraponto à idade pós-industrial e cibernética…

A questão é pois de todo urgente, e soluções extremas, como a pena de morte já provaram ser apenas um modo de vendetta oficial, mas de modo algum podem sequer constranger o aumento e o perpetuar da violência, tomando-se como referência os Estados Unidos. Somos então cativos da violência? Ela nos toma e joga com nossas vidas da maneira que bem entende? Infelizmente, por enquanto, sim.

Ao Estado também cabe uma parte enorme, talvez infinita quanto ao propagar da violência. Não se trata aqui, de dizermos o óbvio, ou seja, de que os recursos para combatê-la são sempre inferiores, são uma capilaridade em face do jorro de projetos criminosos… O Estado que não protege seus cidadãos é o mesmo que patrocinou a miséria que aí está, uma insidiosa combinação de torpe distribuição de renda, um incremento às favelizações, à propagação de um ensino elitista e quando não de duvidosa qualidade, ao difícil acesso à justiça e à exclusão dos menos aquinhoados no processo produtivo… Essas condições elevam o potencial de criminalidade, elevam a propensão ao violento, ao grosseiro, àquilo que estigmatiza a pessoa como se ela pertencesse a uma classe inferior. Assim criam-se os nichos de riqueza, os nichos de pobreza, enquanto os investimentos em saneamento e em educação em todos seus níveis não crescem…

Verificamos pois que em plena época pós-industrial, em que nunca a humanidade teve à sua disposição tanta tecnologia para melhorar significativamente seu padrão de vida, continuamos atrelados às idéias de fundo político que se caracterizam por simplificações incabíveis onde o complexo é o que prepondera. Peguemos, por exemplo, uma Dinamarca. Qual a contribuição da Dinamarca para os índices altíssimos de criminalidade no mundo? Quase nenhuma. Não há analfabetismo, a maioria esmagadora da população (mais de noventa por cento) possuem casa própria, os serviços de saúde e de saneamento funcionam.

Há então que se ver até que ponto as políticas globais de um país favorecem ou não, propositadamente ou não, trazem um discurso meramente repressivo ou trazem, de outro lado, preocupações emergentes com a sanidade de sua população. A partir dessa mediação é que poderemos alcançar uma mediação institucional que permita, ao menos, enfrentar o caos. Temos de definir não só uma estética, mas a ética dessa estética. Ou, como diria Freire, temos de sair do nível de consciência semi-intransitiva, como sociedade e como prática governamental…

Hilton Vanderlei Besnos

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publicado às 02:44

A volta do chacal - Juremir Machado da Silva

por blogdobesnos, em 13.04.12

A volta do chacal

Juremir Machado da Silva é jornalista do Correio do Povo, de Porto Alegre, RS

 

Décio Freitas adorava citar uma frase, atribuída a Charles Darwin, segundo a qual há um chacal que dorme dentro de cada um de nós. Ainda bem que o bicho passa a vida dormindo nas estranhas da maioria das pessoas. Quando desperta, porém, faz estragos enormes. O goleiro Bruno, do Flamengo, está sendo devorado pela fera. Tinha tudo: fama, dinheiro e futuro profissional. Faltava-lhe, pelo jeito, superego. Limites. Valores. Educação. Foi decretada a sua prisão preventiva. Tudo indica que ele reforçará, como lembrou um ouvinte da Rádio Guaíba, a equipe do Bangu. Bangu II. A hipótese de que tenha mandado matar a mãe do seu filho, emparedar os ossos e dar a carne aos cachorros, faz pensar num conto terrível de Edgar Allan Poe, “A queda da casa de Usher”, que, obviamente, Bruno não leu. A sua brutalidade é natural.
Ou é cultural? Social? Faz sentido pensar em queda quando a decadência dos costumes se mostra tão forte e o império vacila. O crime supostamente praticamente a mando de Bruno teria explicação na sua origem social? O miserável transformado em milionário precoce graças ao futebol, sem passar por um processo educativo, uma formação cultural, teria feito de Bruno um homem sem limites, capaz de matar para não pagar uma pensão? Em outras palavras, Bruno seria o produto de seu meio marginalizado e sem freios? O que pensar, então, dos jovens estupradores de Florianópolis? Adolescentes de classe média alta, como todos sabem agora, graças à internet, praticaram outro crime hediondo: estupraram uma colega de 13 anos. O chacal despertou dentro deles.
Qual a explicação para o crime desses garotos? Falta de freios, de limites, de valores, de educação? São eles produtos de um meio social marcado pela prepotência, pela arrogância e pela convicção de impunidade, no qual os pais não se atrevem mais a cercear ou punir os filhos? O crime de Bruno é o resultado da boçalidade de um meio violento e exposto às drogas, o meio das favelas? O crime dos bad boys de Florianópolis é o resultado da boçalidade de um meio violento e exposto ao consumo de drogas, o meio dos ricos, sem medo de nada, fúteis e alheios à batalha diária para ganhar a vida? De um lado, o crime dos, geralmente, sem pais e parâmetros. Do outro lado, o crime dos filhinhos de papai sem limites. O chacal não escolhe classe social. Há alguma diferença nesses crimes?
Num caso, a morte. No outro, a humilhação suprema. Num caso, adultos. No outro, menores de idade. Num caso, a exposição absoluta em todas emissoras de televisão. No outro, silêncio absoluto nos telejornais nacionais da emissora com maior audiência e liberdade aos criminosos. Sintoma de que a liberdade de expressão e a justiça são sempre socialmente limitadas. Depende de quem faz o quê. Vale para todos. A espetacularização da violência reproduz as posições na sociedade. Talvez por isso muita gente queira “regulamentar” a internet, onde todos se exprimem e até o criminoso a usa para se vangloriar do crime cometido. Se não se pode dominar o chacal, que se amordace o papagaio. O chacal gosta de extremos sociais.

Postado por Juremir Machado da Silva – 08/07/2010 09:38

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publicado às 02:42


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