Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Memórias

por blogdobesnos, em 17.04.12

Memórias. Todos as temos, mas nem sempre serão fonte de prazer, de riso, de alegrias. O que guardamos em nós não são lições edificantes, ou pelo menos não o são sempre. Então, se queremos escrever sobre memórias, o melhor é que façamos um pacto decisivo: ou publicamos a verdade ou a mascaramos, não só para nos pouparmos mas, igualmente, para pouparmos os demais que tiveram a ventura ou desventura de participar das mesmas.

Ao escrevermos memórias, temos de ser piedosos, mas não indulgentes.

Sempre carregamos em excesso nos sentidos, nos sentimentos, nas culpabilidades, como se fossemos juízes equidistantes do que já sucedeu. Ao escrevermos, podemos pensar que, se fosse hoje, teríamos tal ou qual ação ou reação, e a partir daí, teremos a tendência a julgarmos a posteriori. De todo modo, escrever sobre este tema acaba por passar por um exercício de ficção, por um romance. Estamos, de certo modo, falando sobre o que desconhecemos. Por outro lado, autobiografias podem levar à autocontemplação, o que é mais do que esperado.

Há pessoas importantes, ou assim entendidas, cujas memórias devem trazer no mínimo traços que provoquem inveja, ou os sentimentos do poder e da glória. Não nos atrevemos a lançar sombras sobre os ícones. Eles que assim permaneçam, totens de nossas imagens mentais. O contrário disse é degradar alguém, ou sua obra, ou acotovelar a memória em escaninhos estéreis. De todo modo, não é fácil sequer que determinadas lembranças aflorem: menos ainda, sermos intelectualmente honestos.

Quem se habilita?

Quem quer por alguém como se herói fosse, como se líder fosse, quem quer fabricar ou autofabricar imagens, cenários, alter egos? Por fim, qual a vantagem disso tudo, senão a de sabermo-nos todos humanos, sujeitos, portanto, às curvas mais ou menos suaves dos nossos destinos? Quem nos fornecerá o passaporte, já que Alice desapareceu, há tanto, para seu país, que, aliás, não é exatamente o das maravilhas?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:50

Em nome de Deus

por blogdobesnos, em 17.04.12

A relação do homem com Deus anda muito complicada, diria que, no mínimo atendendo a preceitos capitalistas. Em outros termos, parece que a criatura cobra do criador o fato de ter sido pelo mesmo criada. O filho exige do pai coisas que são insensatas.

Pais sabem, no fundo, embora disfarcem ou se refugiem para isentar-se, que, em verdade a vida dos filhos é obra deles, filhos. É claro que os pais responsáveis e amorosos procuram, por todos os meios, ensinar aos filhos, dar-lhes os exemplos, mostrar-lhes quais as diferenças entre os caminhos a abandonar e a seguir. No entanto, haverá um momento em que o filho não mais verá seus pais como heróis, como as únicas referências em suas vidas. Filhos amadurecem ou não, estudam ou não, trabalham ou não, mercanciam ou não mas, de todo, filhos crescem. E, ao fazê-lo, buscam sua independencia, senão plena, ao menos discursiva. Há mesmo um momento em que filhos pensam que pais atrapalham suas vidas, o que se não é uma mentira deslavada, também não é uma verdade absoluta.

Somente mais tarde filhos entenderão os pais. Tempus regit actum, diriam os romanos. No entanto, quando se pensa metaforicamente em Deus, a sua imagem institucionalizada é a do Pai, um Pai Maior, assim, em maiúsculas. E, sendo assim tão Onipotente, Onisciente, Criador, os pais e filhos terrenos, crendo-se suas criaturas, passam a querer que o Pai lhes dirima as dúvidas, os afaste dos obstáculos, lhe providencie uma vida boa, saudável, longa e frutuosa, um perdão em todo redimidor das faltas cometidas e um séquito de desejos e pedidos infindáveis e por vezes inalcançáveis.

Ao instituir Deus, as religiões oficiais e oficiosas instituiram também a Benção do Arrependimento. Tudo é possível desde que nos arrependamos sinceramente do que fizemos. A Benção do Arrependimento é a grande borracha que apagará nossos limites do consciente e do inconsciente. É a nossa Fenix rediviva, é o nosso encontro com os Deuses. A Benção, portanto, é o caminho que perseguimos diariamente. Como sempre, continuamos sem alterar uma vírgula os nossos comportamentos, as nossas idiossincrasias, os nossos ódios, as nossas pequenas e grandes vilanias, pois possuímos, escondida em nossa cartola de coelho o momento do arrependimento primal.

Enquanto isso, requeremos a Deus, solicitamos a Deus, imploramos a Deus, nos martirizamos em nome de Deus, nos suicidamos em nome de Deus, matamos em nome de Deus, provocamos guerras e extermínios em massa em nome de Deus, rezamos homilias eternas em nome de Deus, nos sacrificamos a nós e aos demais em nome de Deus, ateamos fogo em nome de Deus e, talvez o pior de tudo, cremos ou mentimos crer que há pessoas especiais, iluminadas, que falam institucionalmente em nome de Deus. De certo modo, convenientemente nos associamos às mesmas, com a esperança de que sobrem, afinal, alguns lucros em meio à tanta dedicação. Talvez por isso enriqueçamos tanto os esclarecidos, os que falam A Palavra Divina.

Somos filhos que não crescemos, somos eternamente infantis, somos especialmente manipuladores. Deus, efetivamente, não pode nos tratar como adultos. De certo modo, somos pífios e, assim sendo, não nos compete querer mais do que, como crianças desamparadas, acorrermos aos seus Braços pedindo perdão para fazer exatamente igual depois. Ao jogar tudo em Deus, nos divorciamos da realidade, do que podemos fazer, esquecemos que temos livre arbítrio e de que, para o bem ou para o mal, construímos nossa casa.

Somos, ao tudo e ao cabo, regentes de um mundo que, invariavelmente nos ameaça, nos fustiga, nos tem como reféns. Fomos nós que o quisemos assim, que o fizemos assim, enquanto, entre lágrimas e arrependimentos, nos fartávamos do nome de Deus, justificativa para todos ou quase todos os crimes que, invariavelmente, cometemos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:49

Pendulo

por blogdobesnos, em 17.04.12

Quando digito, o pensamento vaga, se solta, nem sempre se tenta admitir como tal. Controlo o que posso, tento explicitar exatamente o que quero escrever, mas não consigo; por vezes a ficção me trai e me expõe como sou ou como gostaria de ser. O ficcionista pode brincar de ser assassino, de ser ralé, de ser anjo, de ser feminino, de ser solitário, de ser um míssil, pois tudo escoa sob o manto de sua – por vezes desvairada – imaginação. Nada é tão inverossível quanto a escrita, desde que ela não seja pública, sorumbática, discursiva. As vidas não são memorandos, então viva a tragédia, o romance, o inusitado, o prenhe, o absurdo!

Podemos criar seres mitológicos, podemos criar mundos, podemos destruir ilusões, fabricar ironias, lidar com o infinitamente menor e com o que se nos avizinha de medos, de frustrações, de desejos,  podemos criar sentimentos, cenários, confusões, humores, amores, tudo, tudo em favor da escrita e do sentido em que ela opera. Personagens que crescem, partos que se sucedem, histórias malresolvidas, olhos de lassidão, tudo cabe quando estamos assim, sós, cavaleiros quixotescos empunhando teclados, manejando canetas, manipulando lápis, deixando fluir os pensamentos que convivem dentro de um espaço particular, privado, ousado, como uma mente que é individual, mas que também é coletiva, porque a vida é plural.

Nossos ressentimentos, nossas mentiras, ideias, idiossincrasias, pontos de fuga, nosso rufianismo e violências podem estar aqui, comprimidas em uma linha, em um parágrafo, em uma palavra. Não sei quem criou a criação, mas, em tudo o criador abriu espaços para que nos movamos em direção àquilo que quisermos, ao frio, ao calor, à tepidez.  A escrita é um pouco assim, movimento, vontade de dizer, vontade de calar, um pouco de mudez, sempre que necessário for. Escritores são assim, um pendulo em constante movimento.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:48

Assim, flutuo

por blogdobesnos, em 17.04.12
Assim, flutuo

Não foram poucas as vezes em que o tempo escorreu entre os meus dedos, em que a vontade não foi suficientemente grande para que eu pudesse enfrentar aquilo que me afrontava. Reconheço agora, com o passar das oportunidades, o que em minha vida se fez poeira, o que declinou em mim, inclusive posso ter a nitidez de que, embora em meio a muitos, cada vez mais eles diminuem, findam por se ausentar. No final da minha vida estarei só, da mesma maneira em que ingressei no mundo. Minha morte será então um exercício de descoberta. Por ora, aferro-me à vida, como quem se nutre de sua própria necessidade. Importa viver, importa fazer, e, dizem alguns, minha vida é valiosa.

Caí muitas vezes no conto ácido e espesso da paixão, e dela, francamente, até hoje não me desencantei, pois muitos dos prazeres que tive tiveram ali a sua origem. Paixão pela paixão, pelo desejo puro e simples, mas com o decorrer dos anos, percebi que sorrisos de amigos sumiram, simplesmente porque eles, os amigos, igualmente o fizeram. Me dei conta do que os outros esperavam que eu fizesse, como queriam que eu me comportasse, como desejariam que houvesse um padrão muito nítido no que faria ou deixaria de fazer e, por outro lado, como os contrariei, como os deixei insatisfeitos. Decorrências da própria paixão, por um lado, e da inadequação por outro.

Lutei muito, mas não venci, pelo menos até hoje, a expectativa daqueles que me amam, pois as exigências são de diversas ordens, e eu não dou conta delas. Sou crítico, abusivo, por vezes destemperado, mas me ponho ao par dos meus conflitos. Talvez me amem apaixonadamente ou me odeiem com um certo lustro de raiva mal disfarçada pela educação.

Sou um ponto flutuante, não tenho as características das certezas absolutas, e nem sou dono de convicções irretorquíveis. Simplemente flutuo, mas as vezes o peso de tudo me faz tão denso que desabo, que não há força que me mova, que me altere o ritmo de lassidão. Não tenho medo do futuro, não renego o que passei, sequer de admitir meus incontáveis erros. Disse Seneca que é impossível nadarmos duas vezes no mesmo rio, fato que a física quantica confirmaria séculos depois.

Assim, flutuo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:46

Eu e o enxame

por blogdobesnos, em 17.04.12

Este é um post antigo, mas merece ser publicado.

Ocorreu em 2009, por aí. Hilton.

 

Falo com uma colega a respeito de irmos para um evento, as Conversações Internacionais sobre Educação promovidas pela Secretaria Municipal de Educação. Ela me pergunta que horas a escola liberaria os alunos para que os professores fossem assistir a inauguração do evento, no centro da cidade, hoje à noite.

“Às cinco da tarde, parece”, respondi.

Ela considerou que iria ao centro (onde ela mora) e teria tempo de “um lanche rápido” antes de estar lá no cais do porto (local do evento) as 19 horas. E eu, o que iria fazer? me perguntou.

“Vou pra casa, faço a barba, tomo um banho, faço um lanche, troco de roupa e vou”, foi o que disse.

Ela: “Mas aí você não vai estar lá às sete”, disse a controller.

Eu: “ A maioria dos colegas vai fazer isso; é muito ruim trabalhar a tarde inteira e ir para um evento sem tomar um banho, de barba por fazer e com fome. Além disso, há tempo suficiente”.

The controller: “Não, na EJA não, todos vão juntos”.

Esta última frase teve um objetivo sentencial.

De repente muita coisa ficou clara, o porquê de me sentir, muitas vezes, inadequado e desconfortável na escola. Nada como prestar atenção ao cotidiano. No livro “Vida para consumo”, S. Bauman, em sua habitual acuidade fala a respeito de um conceito que serve justo como uma luva na situação descrita: o conceito de enxame.

Para o autor, o enxame “…não são equipes, não conhecem a divisão de trabalho. São … agregados de unidades dotadas do autopropulsão unidas unicamente …. pela solidariedade mecânica”, manifestada na reprodução de padrões de comportamentos semelhantes e se movendo numa direção similar”. …  “Os enxames, de maneira distinta dos grupos, não conhecem dissidentes, nem rebeldes – apenas,  por assim dizer,  ‘desertores’, ‘incompetentes’ e ‘ovelhas desgarradas’. As unidades que se desviam do corpo principal durante o voo apenas ‘ficaram para trás’, ‘perderam-se’ ou ‘cairam pelo caminho’.” Em um enxame ” não há intercâmbio, ou cooperação ou complementaridade, apenas a proximidade física e a direção toscamente coordenada do movimento atual.”

Ora, se ao conceito de enxame acrescentarmos o de panóptico,  um centro de controle e de vigilancia full time, onde o observado tem suas ações e inações contabilizadas como em um banco 24 horas, que credita pontos positivos e debita desvios comportamentais, entenderemos um pouco do meu desconforto.

Em minhas vivências, embora muitas vezes – na maioria, presumo, não tenha conseguido alcançar meus objetivos, sempre busquei privilegiar a inteligência interpessoal, o que, entendo, é uma forma de arte. Divorciado do comportamento gestor busquei sempre alternativas humanas de me relacionar com terceiros, fossem pessoas de carne e osso, fossem instituições. Não me arrependo, nem creio que deva ser diferente. No entanto, o enxame me aborrece profundamente.

Eu não me adapto àquele, não sou autopropelido, abomino seguir ordens quando quem as dá não tem capacidade  para tanto. No caso, a minha colega se entende assim, o que me causa uma irritação maior.  Uma das características do imbecil é tentar impor sua vontade mas não ter experiência real suficiente para fazê-lo. A estupidez não respeita a inteligência alheia. Pelo contrário, quer produzir não grupos de trabalho, não equipes, mas simplesmente enxames.

O imbecil ou, no caso, a imbecil não se furta de dar palpites desastrosos e confundir conceitos. É-lhe necessário, a todo tempo e a toda hora, estabelecer ligações baseadas na fofoca, no desacato e nas pequenas e abundantes misérias humanas. O poder que possui é circunstancial, não respeitoso e absolutamente inócuo. Talvez por isso eu tenha tanta dificuldade para conviver com tais personalidades. Na verdade eu as incomodo, não de modo proposital, mas por minhas posturas. Nada pior para um rebanho do que uma ovelha desgarrada. No meu caso específico, propositadamente.

Ah, sim, é claro que fiz o que disse que iria fazer, e cheguei por volta de 19 horas e trinta no evento, sem qualquer prejuízo, nem para mim muito menos para o evento, que mostrava painéis sobre educação. No entanto, a carcereira do panóptico deve ter anotado em seus escaninhos o meu débito, para cobrar a qualquer hora e em qualquer circunstãncia, de preferência a menos apropriada para tanto.

Não importa, não reconheço a minha dívida.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:45

Nicht so gut

por blogdobesnos, em 17.04.12
Rate This

 

Resistência ao Nazismo

Homem contraria a multidão e se nega a saudar Hitler.

A foto foi feia em 1936, no Porto de Hamburgo, e o homem que resiste na imagem é August Landmesse, operário do estaleiro de Hamburgo. Landmesse foi expulso do Partido Nazista em 1935 por ter se caso com uma judia. Em 1941, foi enviado à guerra e algum tempo depois desapareceu em combate, tendo sido como morto. Sua história ganhou publicidade em 1991 quando August foi identificado. Sua filha o reconheceu quando a foto foi publicada em um jornal alemão. A imagem tornou-se recentemente uma febre em redes sociais como o Facebook.

Fonte: Felipe Sáles, da Revista de História da Biblioteca Nacional

http://www.revistadehistoria.com.br/secao/nota/a-coragem-de-dizer-nao

Retirei em 26/02/2012

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:39

Viagens e sabores locais

por blogdobesnos, em 17.04.12
Rate This

 

Viagens e sabores locais

Muitas vezes, quando viajamos, ignoramos tudo que circunda o ponto de chegada, normalmente por que, mesmo em férias, nos planejamos para seguir determinadas metas. Então, o que é circunstancial passa batido, os entornos passam batidos, e, de certo modo, perdemos muitas fragrâncias, muitas sensações, muitos finais de noite em locais que talvez achássemos interessantes, mas que, provavelmente não conheceremos, o que é uma pena.

Passe de carro pelas estradas de Minas e você entenderá o que estou dizendo. Pequenas cidadezinhas, vilarejos que se espraiam pelas montanhas como pequenos cartões postais que convidam a dar uma parada, caminhar um pouco pelas suas ruas e descobrir a beleza do simples, do natural, mas o automóvel, na estrada principal, não baixa de cem por hora.

Se não apreciamos tudo que gostaríamos, seria razoável aproveitar o que é possível. As coisas, as pessoas, as ladeiras, os sorrisos, a arquitetura, os costumes e a música locais, os cheiros, as conversas, o outro, enfim, tudo passa como uma folha em branco. Adotamos o ritual e como uma novidade balsâmica, como uma inviolabilidade civilizatória, e assim perdemos os sabores locais. E os locais não são transferíveis, não são globalizados e no interior do Brasil, com a graça de Deus, uma moda de viola é mais apreciada que a Britney Spears ou a Lady Gaga.

Sabores locais são intransferíveis, quase que inegociáveis. Como os seus olhos quando, apressados, ignoram os meus.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:20

Saber se dar valor, by Rose Chiappa

por blogdobesnos, em 17.04.12

 

Ontem, fui ler a letra da canção que tornou Whitney Houston conhecida aqui no Brasil: Greatest love of all. Eu me lembro de quando essa música estourou por aqui junto com sua cantora, era o ano de 1986, eu tinha 16 anos e, como todas as minhas amigas, me derretia ouvindo esta música que julgávamos ser uma canção de amor, nenhuma de nós entendia inglês e não havia ainda Internet a nos oferecer a tradução da música e os vídeo clipes não eram legendados, aliás, sequer havia programas específicos de vídeo clipes naquela época. Havia a palavra “love” na música, não havia? Isso e mais a forma apaixonada com que Whitney a cantava nos dava a certeza de que era uma canção de amor, então quando era executada no rádio, abraçávamos nossos ursinhos de pelúcia e ficávamos a sonhar com um grande amor. Então, meus mitos foram sendo derrubados: grandes amores são tão raros quanto ossadas de mamute, amor não traz felicidade (não trouxe para mim) e a canção fala sobre crianças e ensiná-las a ter autoestima. Acho que foi na rádio Cidade que eu ouvi a tradução de Greatest love of all e perdi meu interesse por ela, isso já por volta de 1988.

Vinte e seis anos se passaram, sua cantora está morta e, há algum tempo, voltei a me interessar pela música, afinal, promover a autoestima é importante para uma professora do Laboratório de Aprendizagem. Hoje, não preciso da tradução de uma rádio para entender a sua letra, isso é uma coisa que ainda me espanta: a capacidade que eu tenho hoje de entender o que é cantado nas canções que me encantavam, quando eu ainda não dominava a língua inglesa. E lendo a letra de Greatest love of all não posso deixar de ficar chocada, triste e pensar que Whitney deveria ter prestado mais atenção ao que estava cantando e seguido o conselho que cantou na música que a tornou mundialmente conhecida.

Greatest love of all é basicamente uma canção que fala sobre autoestima, sobre se dar valor, amar a si mesmo, não se deixar diminuir ou não se sentir diminuído por ninguém e fala da importância de ensinar estas lições às crianças. Greatest love of all também deixa muito clara a ideia de que é preciso saber amar a si mesmo e de que este é o amor mais importante.

A tragédia de Whitney foi não ter seguido os conselhos que ela cantou tão apaixonadamente em Greatest love of all. Ela apaixonou-se por um traste – tudo bem, isso é perfeitamente compreensível e desculpável, quase toda mulher já se apaixonou por um traste em sua vida, há mulheres que se apaixonaram por mais de um traste e há aquelas que  se apaixonam por trastes (acontece, infelizmente, eu mesma faço parte do último grupo). A tragédia de Whitney é que ela se apaixonou por um traste, casou com ele e deixou que ele destruísse a sua vida, a sua carreira e o seu talento. Whitney permitiu que esse homem a convencesse que ela valia pouco. No fim das contas, o amor de Whitney por si mesma não era tão grande ou forte e ela aceitou as traições e bebedeiras de Brown, passou a consumir cocaína e crack – drogas que lhe foram apresentadas pelo marido, e se permitiu abusar física e psicologicamente por ele. O que Whitney não percebeu é que os sentimentos que ela nutria por Brown eram mais fortes do que o amor e o respeito por si mesma, não viu que ela valia mais do que aquilo e passou a viver na sombra dele, permitiu que ele embaçasse a sua luz, fazendo exatamente o contrário do que cantou.

Mulher nenhuma deveria acreditar que vale menos do que o traste que a abusa. Nós deveríamos ter a capacidade de ensinar às nossas meninas que nenhum amor pode ser maior do que o amor por si próprias. Nenhuma mulher deveria se amar tão pouco a ponto de continuar com o traste que a maltrata, que a abusa, que a espanca. Whitney não encontrou inspiração na música que cantou, foi sua filha, Bobbi Cristina, quem abriu os olhos de Whitney para o seu valor. Em entrevista para Oprah, Whitney contou do dia em que Bobby cuspiu em seu rosto e que sua filha viu e perguntou:

- Mamãe, ele cuspiu em você?

- Está tudo bem, filhinha… – teria sido a resposta de Whitney à filha horrorizada com o que presenciara.

E sua filha, uma criança ainda, lhe devolveu:

- Não, mamãe, não está tudo bem. Ele não pode fazer isso com você…

Ouvir essa verdade tão simples, tão contundente e tão sábia da boca da própria filha acordou Whitney para o seu valor, para o que ela estavapermitindo que fizessem com ela e, em seguida a este fato, Whitney deixou o traste e entrou com o pedido de divórcio. Pelo que eu me lembro, se não estou confundindo com outra história, Bobby Brown era tão violento que, para deixá-lo, Whitney saiu de casa com a roupa do corpo, saiu dizendo que ia comprar leite e uma amiga mandou para o aeroporto a passagem que a tiraria da cidade.

Agora é torcer para que sua filha aprenda as lições que sua mãe não aprendeu e saiba se dar valor. Realmente, Whitney deveria ter ouvido mais Greatest love of all.

ROSE CHIAPPA

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:15

Chatice abissal

por blogdobesnos, em 17.04.12
 
Rate This

 

 

Sair de casa significa ingressar em um mundo no qual te pedem. Como eu fumo, a coisa fica ainda pior. Pedem cigarro, pedem fogo, pedem dinheiro, contam histórias  – claro – todas dramáticas para, logo em seguida, vir o pedido.

De carro, sempre vou encontrar, ou mais provavelmente serei encontrado pelos seres de flanelinha, aqueles que irão cuidar, arrumar uma vaguinha, defender até a morte os meus direitos de motorista, os que vão me ensinar a manobrar, etc, tudo isso até o momento em que eu me afaste, para que então volatizem, desapareçam, sumam, virem fumaça.

Andando de carro em Porto Alegre, se não houver o encontro fatal com os flanelinhas não oficiais, haverá a prestimosa EPTC Empresa Portoalegrense de Transporte e Circulação, que providencialmente criou as faixas azuis de estacionamento, que servem para que paguemos por estacionar em via pública, não contraprestando qualquer serviço, a não ser manter o zelo de aplicar multas de transito aos motoristas que desavisadamente infringirem alguma regra de estacionamento.

De modo genérico, a cidade está cada vez mais ficando assemelhada a  um nicho do politicamente correto, o que significa que há um sentimento de patrulha ideológica que perpassa aos comportamentos do dia-a-dia; se você fuma, te olham de modo reprovador, e mais, se autorizam a te recriminar publicamente, independentemente da situação. Se você responde, passa por grosseiro.

Porto Alegre iniciou uma bela campanha para que as pessoas estendam a mão e possam atravessar faixas de segurança; bastou isso para que as mesmas entendam que podem cruzar as faixas sempre, mesmo com semáforo aberto para o tráfego. Por aqui todos querem ser sujeitos de direitos e obrigar aos outros, mas poucos se colocam em uma situação de empatia. Na real não se quer saber nada do outro, especialmente se esse outro não fizer parte da nossa tribo, do nosso grupo, do nosso clã.

 

A palavra é essa mesma: clã (ou guilda, como querem os fãs de Fairy Tail).

 

Fairy Tail é um anime, que é uma animação no estilo japonês, em estilo mangá.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 04:12

Eu e o Oberdan

por blogdobesnos, em 17.04.12
Posted on 2 de fevereiro de 2012
 Rate This

 

 

Pois aí estou eu, segundo o Oberdan, meu querido ex-aluno e possuidor de um traço único, qaue você pode apreciar no blog CARTONS DO OBERDAN http://cartoonsoberdan.blogspot.com/

Ele foi preciso no desenho, na época eu costumava ir à escola com a camiseta do Boca Juniors, e com esse aspecto totalmente despojado que vocês podem apreciar. Não se iludam, o traço do Oberdan é preciso. Foi uma homenagem que ele fez para os professores da EMEF Chico Mendes, e todos os desenhos estão muito parecidos às pessoas.

Atualmente o Oberda, que tive o prazer de dar aula de matemática na EJA da Chico Mendes na noite, faz os cartoons do programa Pretinho Básico, da Rádio Atlântida, do Grupo RBS.

Obrigado, Oberdan, pelo seu traço, um grande abraço!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 04:00

Imperfeito, impermanente e incompleto

por blogdobesnos, em 17.04.12
 
http://revistatrip.uol.com.br/revista/186/reportagens/imperfeito-impermanente-e-incompleto.html
08.03.2010 | Texto por e fotos: Jamie Brisi
Wabi-sabi é um conceito japonês que defende a beleza de tudo que não é perfeito. Isso vale tanto para um xícara de chá com rachaduras quanto para um skate Dogtown com um buraco no shape cometido por algum garoto desajeitado

 

Imagem: Jamie Brisick

O Dogtown de Jamie Brisick com as marcas do tempo: Quando um garoto arranca um naco do seu shape, isso é uma preparação para você cair na real

O Dogtown de Jamie Brisick com as marcas do tempo: Quando um garoto arranca um naco do seu shape, isso é uma preparação para você cair na real


Eu ouvi a palavra “wabi-sabi” pela primeira vez quando tinha 13 anos. Era o fim dos anos 70, e eu havia acabado de ganhar um skate Dogtown novinho em folha. Ele tinha aquela cruz sinistra da marca na parte de baixo, cavidades para as rodas entalhadas à mão e um tail lustroso de compensado duplo. Eu estava em êxtase. Cobri o shape com verniz para não desbotar, colei cuidadosamente a lixa e o levei para treinar na rampa do quintal de um amigo. O skate parecia mágico sob meus pés. Quando dei uma virada no topo do quarter-pipe, eu soube imediatamente que aquele era o melhor skate que já tive. Naquela noite, eu o limpei com uma velha camiseta e dormi com ele ao lado da minha cama.

E, no dia seguinte, enquanto andava com skatistas da vizinhança na mesma rampa, um garoto cabeludo, chapado, perdeu o equilíbrio e bateu em mim, arrancando um naco de três polegadas do meu skate. Eu fiquei arrasado. Inevitavelmente, os skates terminam lascados, mas eu sentia que aquele pedaço de madeira no chão poderia muito bem ser meu dedo mutilado. Eu voltei para casa desnorteado, minha mãe e meu pai me consolaram, e meu irmão mais velho me ajudou a colar o pedaço quebrado no lugar.

“Wabi-sabi”, disse K.D., nosso amigo eternamente descalço, praticante de ioga, quando lhe mostrei o shape danificado no dia seguinte.

“O quê?”

“Wabi-sabi, cara. É algo como: dê boas-vindas à imperfeição. A vida é passageira, transitória, como seu skate.”

Devo dizer que K.D. usava mantos como Jesus, mijava ao ar livre porque “toda vez que damos a descarga nós desperdiçamos um galão de água” e estava sempre disposto a novas viagens de LSD de três dias. Balancei minha cabeça e saí andando de skate, confuso, me perguntando que língua ele estava falando.

Não ouvi a palavra wabi-sabi novamente até 20 anos mais tarde. Foi bem na época em que o designer David Carson fez o projeto gráfico da Trip. Meu amigo Vavá Ribeiro, fotógrafo da revista, e eu estávamos tentando descrever a estética aleatória, acidental de Carson. “É como se ele colocasse uma xícara de café em cima da foto, e essa xícara deixasse uma mancha que seria incorporada ao resultado”, tentei explicar.

“Wabi-sabi”, sentenciou Vavá. E alguns dias depois ele me presenteou com um livro chamado Wabi-sabi: a arte japonesa da impermanência.

OTIMISTA E MALEÁVEL
As palavras wabi e sabi não são de fácil tradução. Wabi pode significar simplicidade rústica, frescor e quietude ou elegância discreta. Pode também se referir a acidentes e anomalias ocorridos no processo de construção que conferem singularidade ao objeto. Sabi é a beleza ou serenidade que vem com o tempo, quando a vida do objeto e sua impermanência são evidenciados pelo desgaste ou por qualquer conserto visível.

“Wabi-sabi é otimista. É ver beleza onde pessoas menos criativas enxergam defeitos”

Wabi-sabi é igualmente difícil de definir em palavras. O termo se refere a uma abrangente estética japonesa baseada na aceitação da transitoriedade. “Wabi-sabi cultiva tudo que é autêntico ao reconhecer três realidades simples: nada dura, nada é completo: nada é perfeito”, diz uma de suas definições.

Em termos mais coloquiais, wabi-sabi é o pacote completo; admite o defeito; revela a história, o desgaste e o sofrimento. Quando você pendura uma foto no seu banheiro e o vapor faz suas pontas curvarem, isso é wabi-sabi. Quando a pintura da porta descasca ou uma aranha faz uma teia no canto da sua garagem ou a xícara de chá de sua vó ganha rachaduras que parecem fios de cabelo depois de três gerações de uso, isso é wabi-sabi.

Wabi-sabi é otimista. É ver beleza onde pessoas menos criativas enxergam defeitos. É também maleável. Quando algumas gotas de azeite mancham seu vestido limpinho no almoço, não se trata de um descuido, mas de uma magnífica imperfeição. Quando um colega de classe pisa sem querer no seu tênis branco reluzente, deixando uma mancha cinzenta, isso é o tempo que se acelera. E quando um garoto desajeitado arranca um naco de seu novo e adorado skate, e você tem 13 anos e ainda é inocente, isso é uma preparação para você cair no mundo real, em que as coisas inevitavelmente se desintegram.

 

Leonard Cohen resume bem a ideia: “Existe uma rachadura, uma rachadura em tudo. E é assim que a luz consegue entrar”.

 

*Jamie Brisick é ex-surfista profissional, escritor e colaborador do The New York TimesThe GuardianDetails. Mora em Nova York.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 03:54

Cafezinho, cigarro e macho alfa

por blogdobesnos, em 17.04.12
Rate This

 

Leão marinho por stefani_marcelo

http://www.flickr.com/search/?q=macho+alfa&z=e&page=8

 

 

Hoje. Estou em uma cafeteria, bem próxima de casa. Em Porto Alegre, faz 37 graus centígrados e, tirando as sombras eventuais, tudo ferve. Estou na rua, em uma mesinha, na qual estão um cafezinho, mineral com gás gelada, servido em um copo alto, com muito gelo e a sempre necessária rodela de limão, além de uma carteira de cigarro.

Um grupo de adolescentes vitaminados se aproxima. Um deles, com uma camiseta escrita “gangster” e com um cabelo que para alguns lembraria o Neimar, mas que para mim recorda a gravura de um estegossauro, olha a carteira de cigarro e diz alguma coisa incompreensível, o que significa que quer um cigarro. Com uma certa agressividade, apanha o isqueiro, acende o cigarro que lhe estendo, me olha com um jeito superior e se vai.

Observo-o com atenção. “Já dei muita aula para muitos semelhantes a você”, penso. “Não mais”, concluo, pensando em minha aposentadoria. O moço já vai adiante, com seu ar arrogante de macho alfa, devidamente escudado por seus pares. Eu permaneço aqui, tomando minha água mineral com gás. Por fim, me acode o pensamento: “você tem a sua força e eu, a minha escrita”, para logo em seguida sorrir. “Pensamento tolo, o meu… afinal ele nunca na vida vai me ler…”

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 03:51

Eu

por blogdobesnos, em 17.04.12

Eu 1

O músico britânico Boy George foi acusado de acorrentar e abusar de um homem em seu apartamento, em novembro de 2007, porém, em fevereiro de 2008, George disse que é inocente.

Fonte: http://celebridades.uol.com.br/album/ap_escandalos_sexuais_album.jhtm

 

 

Como nasci em 1954, vivi uma época musical maravilhosa. Além do Festival de San Remo, por exemplo, que assisti, pela tv, e cujas músicas tocavam normalmente nas rádios brasileiras, todas então, AM, terminei por escutar Gigliola Cinquetti, Rita Pavone, Sergio Endrigo, Roberto Carlos, The Platters, The Beatles, Rolling Stones, Supremes, Elvis Presley, Paul Anka, Neil Sedaka, Louis Armstrong, Carlos Gardel, Pixinguinha, Adoniran Barbosa, Milton Nascimento, Os Mutantes, Cartola, Paulinho da Viola, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Gal Costa, Rosemary, Caetano Veloso, Ella Fritzgerald, Cauby Peixoto, Chico Buarque, Vinícius e Toquinho, Jovem Guarda, Elis Regina, Demonios da Garoa, MPB, que isso me tornou razoavelmente seletivo.

O que hoje é arquivo no You Tube, para mim são trechos de realidade, momentos vividos entre todos os sentidos e sentimentos registrados por alguma música de qualidade. Somente em meio a vida, surgiu o conceito de música brega, mas não me intimidei com o rótulo. Enfim, cada momento de minha vida foi marcado por música.

Sendo de 1954, não era necessário o erotismo que não raro descamba para a safadeza pura e grossa. Claro que não sou moralista, mas, sinceramente, essas produções cinematográficas misturadas a seios e bundas siliconadas são absolutamente dispensáveis, assim como músicas burras alimentadas a grosserias habituais. O talento, me parece, não se nutre de mamilos (polêmicos?) ou de gemidos. De todo, alguns exemplos do que me marcou estão por aí, espalhados pelo blog.

Abraços!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 03:47

Stevie Jobs Image

por blogdobesnos, em 17.04.12
  

The Jobs tribute that went viral
A Hong Kong design student’s poignant tribute to Apple founder Steve Jobs became an internet hit on Thursday with its minimalist, touching symbolism and brought a job offer and a flood of commemorative merchandise using his design. Jonathan Mak/Reuters/Courtesy

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 03:45

Caráter

por blogdobesnos, em 17.04.12

O único paradigma humano real é o caráter, os demais são infindos pontos de interesse que flutuam, aqui e ali sem qualquer outro sentido senão confirmarem a si próprios e influírem sobre a sociedade, criando ou mantendo estruturas de poder. O caráter é ouro, é uma permanência de e em honra, coragem, fidelidade, conferindo o sentido mais real da locução fiducia latina e é um sinal que te distingue dos que não o possuem e te aproxima dos melhores.

Quem tem caráter sacrifica muitas vezes seus interesses reais pelo que lhe torne a consciência tranquila, não por pieguice nem pela vaidade fútil da admiração alheia, mas, simplesmente, por valores acreditados. Talvez por isso o caráter não seja um bem circulante, no comércio. Sua maior riqueza está ligada ao Nome, não aquele que se associa à arrogância, às fortunas, aos interesses apócrifos e mesquinhos, mas, tão-só ao Nome.

O Nome e o caráter se retroalimentam, são autopoiéticos e associam-se de tal modo que se tornam indissociáveis e indissolúveis. São ambos, o Nome e o caráter, símbolos plenos de respeito e de autoridade. Ambos são reconhecidos quase como uma entidade.

Porém, como todos os demais paradigmas, também o caráter há de ser ensinado e aprendido. Não pode ser ensinado por quem não o ostenta, não pode ser aprendido por quem coloca o mundo a seus serviços e vontades.

O caráter faz com que dúvidas sejam afastadas, partindo de princípios simples e universalmente reconhecidos. É aprendido todos os dias, desde que nascemos, e se traduz pela serenidade em reconhecer-se no Outro, naquele que não somos, mas poderíamos ser. Assim, o caráter prescinde de grandes discursos, de eloqüências e de suportes ideológicos e/ou religiosos. Ao caráter, basta ver-se no Outro. Ao caráter, basta manifestar-se em relação ao Outro. Ao caráter basta bastar-se.

Ter caráter é compromissar-se com aquilo que aprendemos. Talvez, aí, resida o verdadeiro espírito de fraternidade: solidarizar-me com o que sei, com o que acredito, e não transigir por interesses mesquinhos. Quando me solidarizo com o Outro, o faço comigo mesmo, me torno congruente ante minhas convicções, que não são pedras, e, especialmente, me torno congruente ante minhas escolhas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 03:29

O ônibus e a moça

por blogdobesnos, em 17.04.12
Rate This

 

EM PORTO ALEGRE HÁ CORREDORES DE ÔNIBUS E ali ônibus somente abrem e fecham suas portas apenas uma vez, e não adianta fazer absolutamente nada para mudar isso,  pois a flexibilidade é zero. Por que eu não sei, mas é o que acontece. Não importa o seu ar de desespero. Portas cerradas não serão abertas. Solidariedade zero, regras dez a pronto. Simplesmente funciona desse jeito. 

Início da tarde, estava esperando o ônibus, quando uma moça entrou em carreira no corredor, pedindo para embarcar, mas o motorista, com a sensibilidade de uma jamanta descendo morro abaixo, simplesmente fechou a porta praticamente no rosto da menina e arrancou. A menina então começou patetica e desesperadamente a correr ao lado do ônibus. Ela se expôs, inclusive a tropeçar e se machucar gravemente. O ônibus, impávido colosso, simplesmente ignorou o fato e prosseguiu Protásio Alves acima. Pelas tantas a moça desistiu de sua corrida.  

Foi aí que uma senhora, ao meu lado, comentou: “se ela caísse e morresse atropelada, eu ía ser a favor do motorista”, disse, porque “as regras são as regras”. Fiquei pensando sobre aquilo. É claro que a moça havia se arriscado demais, mas o que me chamou a atenção foi o argumento utilizado. Novamente nenhuma solidaridade. Afinal, é um erro correr atrás de um ônibus, mas somos seres humanos, portanto não somos previsíveis, nem somos preordenados para seguirmos convenções ditadas por terceiros. 

O que levou a moça a correr, é algo que jamais saberemos, mas o que eu sei é que cada vez mais nos comportamos em relação aos outros como coisas mandando ordens para outras coisas, como robos programados por um sistema neurótico que cada vez menos entendemos, mas, paradoxalmente, que tenta regrar nossas vidas.

A senhora falou com uma frieza e disse claramente que se a moça tivesse sido liquidada, seria problema dela. Nenhum comentário ou alusão ao fato do perigo que ela corria, apenas uma frase que justificaria mesmo a morte de alguém. Não seguir regras. 

Cada vez menos praticamos a empatia, e menos ainda de sermos humanos e não macchina. Somos, em boa parte, uns parvos que tomam a si regras administrativas como se elas realmente fossem ditadas por um espírito superior. Alguma coisa aqui, sem dúvida, se perde aqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 03:02

Mais é menos

por blogdobesnos, em 17.04.12

Mais é menos

 
 
 
 
 
 
Rate This

 

Alegria por Gabri Le Cabri

 http://www.flickr.com/search/?q=alegria&z=e&page=7 

 

Chega de dia de luta! 

Quero um dia de descanso, de paz, de conversas, de músicas, de risadas abertas e sinceras, um dia inteiro de confraternização! 

Chega de dia de luta! Chega de atos públicos, de audiências, de reuniões intermináveis, chega de carrancas! Quero um dia-noite suave, com murmúrios, com vagares, com vinhos e carícias inclusas… 

Chega, por favor, basta de discursos, de compromissos, de chateações, de discursos universitários, de grandes propósitos, de constrangimentos obrigatórios e ocasionais! 

Quero oxigênio, quero alegria, menos ruído, menos desgaste, menos explicações, menos rodeios, menos argumentos, menos circunlóquios, e muito, mas muito mais vida!!!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:47

Meus três filhos

por blogdobesnos, em 17.04.12

TENHO tres filhos. 

O primogenito, Gabriel, é herdeiro da geração baby boom

Aliás, eu mesmo sou um baby boomer posterior (nascidos entre 1954 e 1964), enquanto ele é um membro da geração Y (entre final dos anos 70 até meados de 1990)a primeira geração a adotar amplamente todos os meios de comunicação possíveis e as tecnologias da informática. As características das gerações são diferentes entre si, mas ele viu seus pais trabalharem toda a vida para construir uma carreira e uma aposentadoria sólida dentro do possível. Então, embora faça parte de um mundo bem mais tecnológico, sonha e produz com vistas em um futuro baseado na criatividade e no trabalho duro para realizar seus desejos, entre os quais se encontram viagens, gastronomia, cultura.

A construção que impôs a si mesmo é de uma carreira seqüencial,  Embora tenha no trabalho do pai e da mãe uma referência, meu filho não deixa de aproveitar o que eu, muitas vezes, deixei; não perde oportunidades para suas autogratificações. Tour de force são necessários, mas os prazeres de uma atividade criativa como publicitário e designer, aos quais se ajuntam prazeres estéticos e culturais o mantêm ligado em uma vida mais fluída e dinâmica.

Gabriel circula em um meio que Bauman denomina de líquido, e as questões postas no limite de uma vida pontilhista, onde desponta o consumismo e a constante re-identificação com vistas a inserção social não lhe são desconhecidas. Contrariamente, lhe são bastante próximas, sendo absolutamente indispensável tal conhecimento dentro de seu méttier.

No entanto, justamente por ser herdeiro de um baby bomer posterior, prazos são indispensáveis, compromissos são para serem cumpridos e caráter é algo que se leva no DNA.

Quando me separei de sua mãe, Gabriel, claro, sofreu, mas um ano depois, já estabelecido e iniciando com uma colega sua própria agência de design, me chamou para dizer que não precisava mais da pensão alimentícia que eu lhe pagava à época. Disse que já se autosustentava e que, portanto, não achava mais necessária a proteção paterna neste sentido. Ajuntou que sabia que poderia sempre contar comigo. Até hoje, Gabriel não me pediu mais um centavo, o que prova não apenas que estava certo desde que tinha dezoito anos e que caráter é uma característica da educação que recebeu.

Gabriel oscila entre o mundo do produtor, segundo Bauman, e do consumidor, entre a obrigação e o prazer, entre as viagens de avião a negócios e aquelas feitas para turismo. Citando Rifkin, na obra clássica “O fim do emprego”, meu filho está bem distante de ser uma pessoa com a qual o mercado se desimporta; méritos, trabalhos e conquistas pessoais e profissionais são seus créditos intransferíveis, bem como um sentido de empatia que é admirável. 

Meu filho Gabriel, com quem discuto de quando em quando, em tudo responsável, meticuloso, humano e criativo. 

Tenho três filhos. 

Miguel, geração Z. 

Como Gabriel, voltado para a criatividade, na qual se mesclam o talento e o estudo constante, contínuo. Miguel será músico; decidiu com base em sua vocação desde os onze anos, quando misturava os sons de violões e guitarras. Ele tem nos ensinado que ser músico é um caminho que envolve dedicação, sensibilidade e muito trabalho. Percebo que Miguel quer ter uma vida mais para Domenico di Masi do que para indústria, comércio ou administração. Não lhe importam, absolutamente, as competições e as armadilhas do mundo gerencial. Miguel não acha que é looser quem não ganha muito dinheiro ou não tem sua posição social reconhecida entre seus pares. Aliás, os conceitos que envolvem uma vida predatória ou extremamente competitiva não lhe são caros. Miguel não é darwinista, nem pretende, hoje, alçar voos nos quais tenha de comprometer seus valores pessoais.

Ele desenha sua vida como quem aprende música, uma vida gratificante, boa de ser vivida, sem os incômodos e os percalços que a excessiva competição no mercado exerce sobre nossas redes neurológicas, o que não significa que vá, facilmente, abrir mão do que entenda correto e do que entenda seja seu merecimento.

Com vinte e quatro anos, provavelmente estará recebendo o diploma de músico; portanto, com baixa idade terá ainda todo o tempo do mundo para se dedicar e se focar em seus interesses. No entanto, talvez, já agora, seja esse o seu marco principal, o de enxergar a realidade com olhos de quem se sabe inserido e não com os olhos de quem tenha de juntar coisas para se sentir inserido. Não quer ter uma vida na qual misture compromissos inadiáveis, pílulas para dormir, outras para acordar e se sinta, ao fim e ao cabo, infeliz e depressivo. Miguel sorri um sorriso amplo, franco, desmedido, mas também é capaz de se aborrecer muito facilmente quando situações antagônicas lhe são propostas. E quando se aborrece, faz questão de demonstrar o que pensa. 

Às vezes, olhando meu filho e conversando com ele, penso que, em verdade, ele nos ensina muitas coisas, dentro do que conhece e de suas experiências. Como ser dedicado ao que elegeu, como ser honesto em suas convicções e como não querer se expor em um mundo de conveniências e de altíssima competitividade social, talvez sejam apenas algo do que aprender. 

Tenho três filhos. 

Matheus, o atual, o da geração blz, aquele que não nasceu, mas que (quase) foi o produto de um download, tem apenas nove, mas todas as esperanças, todos os sorrisos, todos os amuos, todas as descobertas, todas as perguntas, todas as novidades do mundo, que cabem dentro de um corpo e de uma mente para os quais o mundo da informática e da comunicação interativa são tão comuns e habituais como trocar de roupa.

Matheus tem um grande nível de informação, mas também tem infância, o que significa andar de skate, ficar horas conversando com seu amigo Pedro, ir para o parque, ler, ir à escola (meninas, nessa fase, nem pensar!, pois são umas chatas!, como todo mundo sabe…).

Afora a escola, tem aula de taekwendo e de inglês, e a sua vida se mistura com às dos heróis, dos games, das eternas e constantes novidades (você sabia que kauai, em japones quer dizer legal, no mesmo sentido de cool, em inglês? Não? pois tenha um menino Matheus e você saberá).

Ele tem todo o conhecimento para aprender, tem toda uma amplitude para descobrir, todos os caminhos para trilhar, e para nós, pais, resta a sabedoria de Khalil Gibran: temos de nos lembrar que filhos são flechas disparadas para o futuro e que pais são os arcos que os tensionam e lhes dão um caminho de valores a serem respeitados.

O mundo de Matheus é um mundo de histórias, nem sempre completas, e um mundo inquieto, porque é uma circunstância de sua época.

Matheus, de modo geral, lembra um pouco o menino maluquinho, do Ziraldo. Que bom que é assim e que bom que possamos crescer junto a ele e às suas cotidianas invenções!   

Tenho três filhos. 

Diferentes entre si, com quase dez anos de diferença entre eles, Miguel, Gabriel e Matheus, três gerações distintas, três cabeças, três corpos e três caminhos. Que Deus me oriente de modo a preservá-los com seus valores e suas educações, e que eu possa servir-lhes, antes de tudo, de exemplo e de honradez. Afinal, no fundo, continuo sendo um baby boomer. Já não tão convicto, mas dentro das circunstâncias, ainda alguém do século passado. 

Amo a todos e agradeço a Deus por me permitir estar tão próximo dos três. Um dia, serei lembrança. Que, quando isso acontecer, eles possam ter belas lembranças, e terei conquistado o que, para mim, é o mais valioso. 

Beijos, 

hILTON

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:45

Cofee

por blogdobesnos, em 17.04.12
Posted on 1 de novembro de 2011
Rate This

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:39

A chatice

por blogdobesnos, em 17.04.12

A chatice

 
 
 
 
 
 
Rate This

 

Cansaço, tédio. Chame como quiser. por ju_lya

Cansaço, tédio. Chame como quiser. por ju_lya

http://www.flickr.com/search/?z=e&w=all&q=cansa%C3%A7o&m=text

 

 

A CHATICE não seria o que é se não fosse agregada à inoportunidade. A maioria dos chatos são inoportunos, não tendo a mínima piedade dos que, eventual ou permanentemente lhe são próximos. Embora todos tenhamos nossos momentos de inoportunidade, os chatos elevam tais situações eventuais à categoria de arte, o que os tornam razoavelmente desagradáveis, tendendo a exibir seu indefectível umbigo como se fora a Capela Sistina. Encarceirados em seu ego, os mesmos podem nos levar ao desequilíbrio emocional, pois são, igualmente, invasivos. Para aqueles, os demais devem se comprazer, se conformar em ceder seus espaços e paciências a Sua Magestade, El Rey.

O chato, portanto, é narcisista e egóico. Como entende que o mundo é feito para si, e não o contrário, os aborrecedores de plantão adoram a submissão de terceiros, assim como sempre estão levantando argumentos que à poucos – senão a eles próprios – interessam; contam aí, claro! com a submissão de seus súditos, vitimados por tais intromissões. O que para os simples mortais é tomado como um ingente exercício de parcimônio e temperança urbana, é encarado pelo chato como uma prova de sua soberania.

E assim segue El Rey, pontilhando a sua passagem com um palavrório desmedido, desinteressante e invasivo do qual, infelizmente, somos todos, manu militari, vítimas… 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:37

Imbecilidade on demand

por blogdobesnos, em 17.04.12
Rate This

 

Be stupid por --- KORGAN ---

http://www.flickr.com/search/?q=stupid&z=e&page=7

 

 

Há cerca de trinta anos atrás, eu habitualmente assistia Documento Especial – televisão verdade, na extinta TV Manchete, apresentado pelo ator Roberto Maya e dirigido por Nelson Hoineff, isso na década de 80. Em um  determinado programa o tema era a violência, e entrevistado, o saudoso sociólogo Betinho, irmão do Henfil e que mais tarde seria o detonador da campanha Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida,  disse estar convencido de que havia uma campanha mundial da mídia para imbecilizar as pessoas. Cada vez mais me convenço de que ele estava certo.  

Embora todos nós saibamos que uma das funções dos meios de comunicação é o entretenimento, hoje assistimos a um fog imagético, no qual as celebridades (ou pseudocelebridades) são diuturnamente um dos alicerces da midia.  Basta lermos qualquer jornal,  em qualquer meio, e veremos como isso é real. Lembro de uma palestra do Frei Beto, aqui em Porto Alegre, quando o mesmo lermbrava que na cidade onde nascera, durante sua e que, com o passar dos anos, quando retornou, a relação se invertera.   

Vivemos uma época hedonista, em que o cultivo ao corpo e às suas formas desejáveis são uma das pontas do iceberg denominado consumo, a ponto de mexer com a identidade das pessoas. É claro que não sou contra a saúde, nem contra a geração saúde; o que noto, contudo é uma supervalorização da beleza, ou natural ou artifical, ou, em outros termos, o domínio da imagem sobre o conteúdo.   

Por outro lado, é óbvio que um meio midiático é pressionado pelos vetores capitalistas, e que uma bela imagem vende muito, e isso movimenta o sistema de modo geral, onde muitos ganham e outros assumem o desejo de confundir sua própria imagem com a do personagem em tela, em exposição. A pergunta é, até que ponto seremos meros telespectadores passivos e passaremos a usar nossa capacidade de crítica? No que tal inércia contribui para que não nos assenhoremos de nossas vontades, para que construamos algo realmente melhor, levando em consideração a comunidade, e não apenas nossos próprios umbigos?  

Talvez Betinho levasse em consideração todos esses aspectos, e bem mais do que eles, quando iniciou sua campanha a favor da cidadania; já em 1980, a inatividade social o incomodava; as pessoas aderirem à imbecilidade era uma hipótese concreta. Hoje, temos um mundo bem diferente daquele que o sociólogo explicitava: a sociedade mudou, mas determinados padrões colaboram, de modo intensivo, para que não desprezemos sua sugestão.   

Havia um tempo em que o mercado se identificava apenas com o lucro auferido realmente, fruto da sua atividade-meio. Produzia-se, havia uma demanda, os produtos postos eram comprados, e assim o capitalismo buscava sua predominância sobre o socialismo, o comunismo e as ditaduras de estado. Era uma época de produtores. O estado, por sua vez, preocupava-se com a cidadania e com suas mazelas, o que gerou o welfare state, o estado de bem estar social, da aquisição dos direitos.  

Atualmente o welfare state se degrada, por sofrer ataques constantes através de um capitalismo que passou a se notabilizar pela customização, pela enxurrada de produtos cada vez mais tecnológicos e “na medida” dos desejos dos consumidores e pela busca da simbiose entre identidade pessoal e consumo. Agora, dominar as mentes e as vontades é bem mais interessante do que, simplesmente mercanciar.  

Prepara-se um futuro voltado para as corporações e mitifica-se a capacidade das mesmas em proporcionar-nos uma vida edulcorada e fantasiosa; de outra forma, incrementa-se a não capacidade crítica. A massa dorme embalada aos sons e às idéias que misturam o exótico,a o virtual e se habituam a uma linha discursiva esteticamente linear, normalizada e normatizada, enquanto o mundo é (re) criado e lhe é servido on demand

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:35

Original e cópia

por blogdobesnos, em 17.04.12
Rate This

 

Xerox Ensemble por Blog Simonette

Xerox Ensemble, por Blog Simonette

http://www.flickr.com/search/?q=xerox&z=e&page=13

 

 

O que construo, mesmo que seja sobre outra imagem ou tema, é algo novo, ou seja, a novidade é perene. Mesmo a cópia não é o original, portanto, se não o é, é outra coisa. Se eu reprografo algo, aquele é o original, e por isso foi reprografado; assim, desimportando quais sejam os meios virtuais, mecanicos ou de outra ordem que sejam utilizados, o original não se repete. Cabe aqui, talvez, a lição famosa de Heráclito, de que “Não poderias entrar duas vezes no mesmo rio”.  

O que fazemos é nos aproximarmos, o mais possível, do original, sendo impossível mais do que uma aproximação. Ser original, portanto, implica muitas vezes em termos copiadores. Na linguagem da internet, no que se refere às redes sociais e semelhantes, seguidores. As celebridades, de modo geral, tem muitos seguidores em tais redes. Ao fim e ao cabo, ilusão que procura dilatar de modo artificial nossos próprios limites.   

A quebra identitária nos torna mais próximos do objeto a ser seguido; há uma psicopatologia envolvida no processo, de tal modo que, não raro, ansiamos por compartilhar do sucesso de outrem, e nos frustramos quando nos encontramos em face de nossas próprias realidades ou, em outros termos, nos reconhecemos em nossos limites. Aqui, compartilhar é desfrutar com, em um processo de seguir junto com o outro, mesmo que não o conheçamos. Nossos desejos conformam-se à aceitação por esse outro e, nesse sentido, abandonamos parte do que somos para sermos o que o aquele é. Melhor dizendo: o que o outro representa ser.  

Uma boa parte de nossas vontades segue essa trilha tortuosa, no qual flutuam a aceitação e o abandono; a conformação e a naturalização, o virtual e o real. Oscilamos, somos pêndulos e podemos passar um largo tempo assim, se interiorizarmos esse processo, se o naturalizarmos. Necessitamos de que alguém, algo, uma entidade, uma idéia, um ideário, um Messias possa nos orientar dentro de um mundo no qual poucas referências ainda podem receber esse nome.  

As religiões sabem disso, a realpolitik sabe disso, os obscuros funcionários, os mass midia sabem disso, e também o sabem os apresentadores de programas de televisão, de rádio, os locutores sabem disso, os criadores de necessidades artificiais e, especialmente, o sempre intencional e intangível mercado, ou, em outras palavras, a mercancia que objetiva o trânsito de mercadorias e de créditos não apenas em nível real mas em instâncias psíquicas e identitárias.  

Não importa o que somos, seremos mais se naturalizarmos tais relações propostas com base em nossas carências e inações. De qualquer modo, sempre podemos escolher a cópia que faremos, e que mais nos agradará na medida em que crermos que dela necessitamos.  Nosso exercício de criatividade, contudo, não vai muito além disso.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:33

Escrever

por blogdobesnos, em 17.04.12
Rate This

 

  • Projeto Máquinas - momento 03 por pessôa & lacerda

http://www.flickr.com/search/?q=escrever&z=e&page=5

 

 

Escrever todos os dias não é uma tarefa fáci e implica, muitas vezes, em ter um “estoque” em reserva, como se fosse  um dispensário onde guardamos um número razoável de assuntos que serão apresentados em um menu de acordo com as nossas necessidades. Mas, pensando bem, qual a necessidade que temos de possuir uma reserva, se não utilizamos a escrita de maneira profissional e não temos um compromisso, uma obrigação a ser cumprida?  

Sabemos que os cronistas, os escritores profissionais, os bloggers, de modo geral, tem reservas pessoais. Eu, por acaso, não tenho, ou se tenho, não utilizo muitas vezes, o que significa que o assunto, que o foco do que escrevo vem, muitas vezes, de modo aleatório. Fosse um trabalho o que faço, teria de estar cingido ao que vai pelo mundo, ao noticiário, ao que é trend, ou no mínimo faz parte do conjunto do mundo do entretenimento, pois é o que se escreve para a massa das pessoas. Se escreve o que é, em boa parte, sacramentado pelos mass midia. Caramba, nem publicitário eu sou, então não preciso ter um foco específico.  

Estou aqui para contar coisas que julgo interessantes ou, simplesmente, para trocar idéias. Meu foco principal é a educação, mas não só ela… sou um ser que não se conforma unicamente a uma classificação genérica, o que penso que é bom, embora me leve, muitas vezes a ser considerado um outsider, embora o meu comportamento seja convencional.  

Sou funcionário público, em vias de me aposentar, sou professor de matemática e ciências, mas não acho que isso seja o fundamental para minha vida, embora só possamos honestamente dizer isso quando alcançamos determinados objetivos. Não gosto, na verdade, de ser chamado de professor, porque no sentido geral, professor é entendido como o profissional que está por demais ocupado com o currículo formal, com o tempo, com as notas dos alunos.  

Prefiro dizer que amo lecionar, mas que, na minha visão, isso não é exatamente ser professor, mas, de algum modo interagir com o mundo, com as idéias e – porque não – divagar com meus alunos, quando eles me solicitam. Embora seja rigoroso muitas vezes, no fundo as minhas relações com os alunos são afetuosas, mas não a ponto de considerá-los meus filhos e muito menos me atormentar com infundados sentimentos de pátrio poder ou de culpa quando deva estabelecer limites. 

Continuo, a meses parcos da minha aposentadoria, achando que é uma maravilha dar aula a um público interessado e, para isso, muitas vezes a escuta tem uma enorme relevância. Não adianta uma menina adolescente, por exemplo, saber o que é uma membrana citoplasmática, se ela não entender porque menstrua em ciclos regulares. Quem dá aula na periferia das capitais sabe – ou deveria saber – muito bem disso.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:28

Próximo post

por blogdobesnos, em 17.04.12

Próximo post

Rate This

 

Aperto de mãos por zerojuniorx

 

http://www.flickr.com/search/?z=e&w=all&q=aperto+de+m%C3%A3o&m=text

 

 

Noite gélida, dessas comuns em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, região sul do Brasil, fronteira com a Argentina e Uruguay,  Em junho,  julho e agosto faz muito frio, mas, como tudo, parece que o inverno gaúcho foi igualmente tocado pelas mudanças climáticas. Nesse ano da graça de 2011 fez muito, mas muito frio, mas também choveu acima da conta. E, em pleno agosto, os dias apresentaram sol, para, no final da tarde congelar, com variações de temperatura que oscilavam até dez graus positivos ou negativos.  

Em tais noites, parece que a temperatura e a umidade criam uma névoa branca, indizível, quase uma capa que parece cobrir a tudo e a todos com suas franjas de inverno.  O frio faz com que sintamos o corpo mais dolorido; há uma pressão maior dos músculos, que tendem a enrigecer como forma de compensar as baixas temperaturas; o corpo quer revisitar seu próprio conforto, mas não é fácil manter o aquecimento interno quando temos sensações térmicas abaixo de zero. Há um desconforto, que muitas vezes não pode ser compensado por jaquetas, casacos pesados, capas, et caterva, mas, apenas, suavizado.  

Sempre há, contudo, um grande charme no inverno rigoroso, ainda mais se pensarmos que o Brasil é praticamente um continente tropical. Logo, turistas afluem, muitos aos roteiros turísticos aqui do estado. Na verdade querem vivenciar os modelos de roupas elegantes, a savoir faire, os chocolates quentes, as cervejas mais pesadas… entim, algo da Europa que se possa vivenciar, pagar em reais e se divertir.   

Realidades menos felizes parecem se desvanecer, não criar asas. Também no inverno os pobres atrapalham àqueles que querem e estão acostumados a desfrutar o banquete interminável e intermitente do consumo. De vez em quando, doe-se algum casaquinho, alguma roupa velha que não mais iremos usar ou que está irremediavelmente demodèe e não mais se discutamos o assunto.   

Pois em pleno maio meu cunhado cearense, para minha satisfação, anunciou sua vinda para fazer sua primeira visita à irmã. Após algum tempo, ele trocou a data para setembro. Eu, anjo descolado, avisei-lhe que se viesse em junho, julho ou agosto, não sairia de casa, por melhor que se agasalhasse. Aceito o conselho, vindo da experiência, pudemos passar alguns dias de convívio e alegria. Fizemos o famoso circuito da serra gaúcha e, especialmente, conversamos muito e partilhamos pontos de vista. Realmente, está certíssima a frase de que só conhecemos uma pessoa quando viajamos com ela, o que aconteceu. Em mais de dez anos com sua irmã, nunca havia trocado tantas idéias com meu cunhado, e isso valeu muito.  

Sua família mora em Fortaleza, capital do tropicalíssimo Ceará e a minha micro-família em Porto Alegre. Quase cinco mil quilômetros de distância não é assim tão pouco. Em todos esses anos não havíamos tido tempo nem a oportunidade necessárias para conversar de modo tão profundo, e agora tivemos, embora a sua visita não demorasse sequer uma semana. Quando adultos, aprendemos a atalhar , e, as experiências conferem clareza para o; conseguimos distinguir perfeitamente a luz da escuridão, passando pelos meio-tons.  

Que bom que meu cunhado veio, que ótimo que, finalmente, pudemos conversar (bem) mais que o habitual. Como se costuma dizer, viajar é muito bom. Só assim temos o prazer da convivência e da troca de opiniões, ao mesmo tempo em que fugimos da pressa dos compromissos, dos trabalhos, enfim, das obrigações que, não raro, mais afastam do que aproximam.  

Abraço, João!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:26

Quotes 1

por blogdobesnos, em 17.04.12

Quando falamos com Deus, estamos no campo da teologia; quando Ele fala conosco, no da psiquiatria.


Mário Sérgio Cortella

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:24

Ouvidos de mercador

por blogdobesnos, em 17.04.12

Reconheço a incerteza e a insensatez de um mundo no qual as pessoas buscam se (re) construir de modo contínuo e às suas auto-imagens, para se sentir integradas e aceitas dentro dos nichos sociais, profissionais ou intelectuais que entendam devam pertencer.

Em uma sociedade de consumidores alienados, mesmo as pessoas se colocam como produtos, o que lhes afeta a própria identidade. Mais do que ter lido, observo mediações ilusórias em meio às mentiras comezinhas, aos olhares mortos, iluminados pela luz âmbar dos interesses, e, especialmente também me integro ao oceano de hipocrisia que parece sustentar a tudo e a todos, como um poder suprassocial que a tudo abarca.

Muitas das pessoas com as quais convivo parecem fazer parte de um carrossel de obviedades, onde a naturalização sem peias as traz como a cabresto, como uma marca de adoração. Tudo ao mesmo tempo e de modo fluido parece importar e desimportar; tudo é espaço aberto para negociações, lucros, perdas, investimentos, como se, de certo modo, todos nós estivéssemos em mercancia.

Convertidos em consumidores que a si mesmos consomem, temos pouco a (re) criar senão nossas próprias ilusões. Claro, aqui estou correndo o risco da generalização. Há muitas pessoas que são basicamente sinceras, dentro do espectro possível relegado à sinceridade dentro de um ambiente eticamente insalubre, no qual há uma interferência por vezes degradante entre o que é espaço público e espaço privado, entre o que busco especificar como área de cordialidade e área de negociação, entre direitos e deveres, entre gritos e sussuros.

A impressão é a de que o mundo todo mergulha em um fog de interdições normalizadas e normatizadas. É difícil manter o caráter, quando as circunstancias lhe convidam diuturnamente à canalhice institucionalizada e, talvez por isso, já naturalizada.

Sou assim convidado a me tornar, metaforica e socialmente, uma rede metabólica, na qual os contatos humanos nada mais são do que instâncias de ações-alvo. Just do it, é o que sugere firmemente a Nike, e isso parece ser um padrão bastante claro de comportamento. Agir, sem reflexão, condenarmos nós mesmos a uma flutuação incessante, possivelmente dentro de uma quebra discursiva.

Se as reações metabólicas induzem o incessante desequilíbrio de energias que também define a vida, no dizer de Capra, convivo com um leque de dessintonias sociais que, ao mesmo tempo em que perdura, refaz-se dentro de um espírito de descarte e de mútuas exclusões.

Muitos nos parecem perigosos, nos parecem ameaçar; a impressão que temos é de que são estrangeiros misteriosos, envoltos em brumas, o que nos agudiza o sentimento de insegurança. Somente resta, pois, aguardar que haja um reciclar contínuo, uma permanente troca de atores, mas isso, todos sabemos, é irreal e impossível. Neste baile, dançar como se quer não é requerido, mas dançar como todos dançam é o minimamente necessário. Tal processo naturaliza e equaliza o que, de natural e de equalizador nada possui.

A hipocrisia sacraliza um laço que não deve e não pode ser desatado; ela quem nos aplaca as insatisfações, nos faz sorrir de modo conveniente, nos faz calar quando nosso caráter nos empurra resoluto para a beira do abismo. Renunciamos ao caráter, embora ele lateje e nos acuse a cada vez que o violentamos. Nos acostumamos, talvez demasiadamente, a sermos auto-complacentes conosco e judiciosos com os demais. Afinal, temos de nos defender e isso implica não apenas em aceitação, mas em submetermos nós mesmos ao controle de um status estabelecido. Não somos o que pensamos ser, mas agimos como se fossemos.

A toda contradição se agrega um pouco de realismo, algo que nos diz: “não faça isso”, “não vá por ali”, “pare”, “reflita”, “tenha coragem”, “arrisque-se”. Em resposta, mercadorias que somos, somente nos resta, ao fim e ao cabo, nossos infalíveis e inefáveis ouvidos de mercador.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:09

O nada é a ausência de um tudo

por blogdobesnos, em 17.04.12

Nada é a ausência de um tudo, dizem os nordestinos do Brasil, com bom humor, mas com sabedoria. O nada tem massa? Não, filósofo, o nada é a ausência de massa, de temperatura, de pressão, de densidade, de ponto de fusão e de moléculas. O nada, então, seria o vácuo?  O vácuo é uma inspiração, um projeto divino, uma idéia, uma congregação niilista? O que é o nada, e como conseguir uma definição, se ele está no meio da dispersão, no mundo que não está ao nosso alcance? Que é o nada, senão uma pergunta especiosa, senão uma falta de dimensão, senão uma provocação ao ser, senão um derradeiro vazio, um oco?

O nada, sem dúvida, é filosófico; não lidamos bem com impossibilidades físicas, nem com dimensões que não podemos quantificar, metrificar, por em experimentações infinitas vezes até chegarmos a uma lei, filhos que somos da técnica e da linha reta já adivinhada por Descartes. O nada, em tudo parece nos levar à imobilidade absoluta, em que mesmo o tempo oscila e definitivamente pára.

Em 1925, Albert Einstein e Satyendra Nath Bose previram um quinto estado da matéria, que só se manifestaria proximamente ao zero absoluto, que seria a temperatura na qual todos os átomos de um corpo tivessem parado de se movimentar. No entanto, mesmo assim, não deixariam de ter massa, e se há massa há matéria, por evidente.

O mundo mental, os pensamentos, as emoções, tem massa? Estão encarnados aí algumas constantes físicas que desconhecemos, e será bem mais provável que aderindo a outros parâmetros que não os de Descartes, mas nos submetendo mais às leis da probabilidade e à física quantica de Eisenberg e seu  princípio da incerteza, possamos, quem sabe, montados em uma tecnologia exponencial, chegarmos à conclusão de que os nossos pensares, se tem capacidade para modificar algo, mesmo em nós, igualmente possuem alguns referenciais passíveis de serem chamados de grandezas.

O último limite, muito além dos estudos do genoma humano.

De todo, pensar é diferenciar-se do nada, estejamos falando do mundo mental, estejamos cogitando de um mundo imperceptível, adentrando caminhos neurais; muitas vezes cruzamos mares sem as respectivas cartas de navegação. Quando dormimos, nosso inconsciente gera mensagens que decodificamos como sonhos, e somos, em tudo, um antinada envolvidos em mundos de signos, significados e emergencias. O nada é, aqui, uma expectativa, talvez impossível dentro do campo físico e mental.

O zero, os números são criações culturais do homem e o que criamos não vem do nada, senão de uma parte do nosso mesencéfalo e do nosso hipotálamo. Somos um enorme inconsciente coletivo pulsante, uma comunidade que se refrata e, não raro, se desconhece. O não-ser, ainda assim, tem como espelho o ser. Perguntas necessitam de respostas, mas não há respostas sem perguntas. Portanto, há uma indissociabilidade verdadeira entre o que se pergunta e a resposta que se busca. Conforme dizem os sábios, uma pergunta é mais importante do que a resposta que a normaliza. Devemos saber perguntar.

O nada se encontra, assim, como um exercício dialético entre o que é e o que não é, entre o que cumpre ser e o que não será. E um exercício dialético é, no mínimo, uma busca. No caso, dentro do nada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:07

Subreptícia

por blogdobesnos, em 17.04.12
Posted on 7 de junho de 2011
Rate This

 

"Final infeliz" por luxmasanthi

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=infeliz&z=e&page=7

 

 

Tu, mulher que se assemelha a uma cobra, com tua língua ferina e bipartida, por quanto ainda espalharás a pestilência de teu hálito maledicente entre os que cometem o infortúnio de te conhecer, serpente?

Tu, que carregas em ti a maldade, a solene maldade dos que consomem, espalham e se nutrem do pior dos féis, que é o da disseminação da discórdia, da intriga, do rematado e acabado vício de denegrir aos demais por toda a infelicidade que acumulaste em tua vida de ressentimentos;

Tu, ser abjeto, que recebestes do destino oportunidades para gerar bons sentimentos, tu que não passastes fome nem tivesses a miséria como companheira, que estudaste nas ciências das artes e das educações, que compartilhaste em tua vida o melhor e que, afundada em tuas próprias idiossincrasias, nada aprendeste;

Tu, que trazes em ti o vício da retaliação, que provocas nos outros engulhos graças às tuas conscientes vilanias, das quais se destaca a inveja, o opróbrio alheio e as perturbações dos espíritos, tu que brincas com a honra e o caráter dos demais que infelizmente convivem contigo por modo tão-só contratual;

Tu que carregas contigo a aberração das aberrações, que é a da alma torta e malformada, dos ódios amanhecidos pelos teus achaques de infelicitações, tu que resides dentro dos becos das tuas amarguras, no escaldar de tuas entranhas murchas e inférteis, tu que fosses a verminose que espalhou a moléstia do mal grado, do entorpecimento das virtudes,

Confesso-te, sinceramente,

Um dia serás maldita entre os teus, pois que aqueles que tem o desprazer de conviver contigo, passaram a te reconhecer como um nada, um desprezível ser-inseto, uma barata, uma ratazana que, por onde passa semeia doenças.

Um dia serás tragada pela tua vilania, e os que te sucederem terão vergonha de terem sido paridos de teu ventre murcho e enlameado pela desídia.

Um dia, e não falta tanto assim, a história dos que viveram próximos a ti, reconhecer-te-ão como uma nuvem negra, um desconsolo, uma perene lembrança de despautérios, um exemplo de maldade.

Um dia, talvez mesmo as sombras cubram a tua boca venenosa e a tua língua bipartida, pois que, para todo o começo há, felizmente, um fim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:05

Noite em Realengo

por blogdobesnos, em 17.04.12

Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem usar luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o
casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adultero poderá ter contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue, nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem sem sua permissão, os que cuidarem de meu sepultamento deverão retirar toda a minha vestimenta, me banhar, me secar me envolver totalmente despido em um lençol branço que está nesse prédio, em uma bolsa que deixei na primeira sala do primeiro andar, após me envolverem nesse lençol poderão me colocar em meu caixão. Se possível, quero ser sepultado ao lado da sepultura onde minha mãe dorme, minha mãe se chama Dicéa Menezes de Oliveira e está sepultada no cemitério Murundu. Preciso da visita de um fiel seguidor de Deus em minha sepultura pelo menos uma vez, preciso que ele ore diante de minha sepultura pedindo o perdão de Deus pelo o que eu fiz rogando para que na sua vinda Jesus me desperte do sono da morte para a vida eterna.

 

Eu deixei uma casa em Sepetiba da qual nenhum familiar precisa, existem instituições pobres, financiadas por pessoas generosas que cuidam de animais abandonados, eu quero que esse espaço onde eu passei meus últimos meses seja doado à uma dessas instituições, pois os animais são seres muito desprezados e precisam muito mais de proteção e carinho do que os seres humanos que possuem a vantagem de poder se comunicar, trabalhar para
se sustentar, os animais não podem pedir comida ou trabalhar para se alimentarem, por isso, os que se apropriarem de minha casa, eu peço por favor que tenham bom senso e cumpram o meu pedido, pois cumprindo o meu pedido, automaticamente estarão cumprindo a vontade dos pais.que desejavam passar esse imóvel para meu nome,todos sabem disso, se não cumprirem meu pedido, automaticamente estarão desrespeitando a vontade dos pais, o que prova que vocês não tem nenhuma consideração pelos nossos pais que já dormem, eu acredito que todos vocês tenham alguma consideração pelos nossos pais, provem isso fazendo o que eu pedi.

 

 

Carta deixada por Welligton Menezes de Oliveira, 24 anos, mais conhecido como o assassino do Realengo. Ele é responsável pela morte de 11 crianças na manhã desta quinta-feira (07 de abril de 2011), em ataque à Escola Municipal Tasso da Silveira, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:01

Vida de ponteiros

por blogdobesnos, em 17.04.12

Fonte:http://www.flickr.com/search/?q=forum+social&z=e&page=2

Fórum Social Mundial por RMS - Rede de Mobilização Social

 

Relógios tem ponteiros, setas que ordenam nossos tempos. Na Idade Média ficavam na Igreja da comunidade e marcavam somente as horas, não os minutos, pois aquelas estavam associadas aos rituais católicos, o que iria mudar drásticamente, quando a revolução industrial começou a se disseminar em vários locais da Europa, com consequencias locais e, mais adiante, com repercussões globais, de acordo com as tecnologias disponíveis na época. O tempo passou a ser dedicado, preferencialmente, à produção, além de o lazer ter sido devidamente demonizado (especialmente o lazer do trabalhador, bem entendido). Assim, os ponteiros dos relógios passaram a ditar o ritmo das atividades humanas, embora o ludismo não tenha concordado pacificamente. Por outro lado, foi estabelecido um fluxo de trabalho contínuo, no qual o tempo passou a ser rigorosamente fatiado entre o trabalho, o descando para o retorno ao trabalho e as férias – quando possíveis. Logo, os ponteiros dos relógios são as flechas que nos dizem o que devemos fazer e quando devemos fazer – compromissos, ordens, especulações, trabalho, lazer, tudo aponta para nós. Mesmo o prazer, se assim quisermos, atende uma estética que nos coordena desde que Ford inventou a linha de produção.

No filme O Exterminador do Futuro 2 (1), T 1000 transforma seu dedo indicador em um punhal mortal que trespassa a cabeça uma de suas vítimas, uma inocente dona de casa. Não deixa de ser curioso que quando buscamos saber as horas, os relógios analógicos apontem contra nossos corpos suas lâminas de ponteiros. Somos uma civilização dura: não faz muito tempo que nos demos conta de que o mundo e seus fenomenos funcionam em rede e que, efetivamente, o todo não pode  ser entendido, a não ser equivocamente, como a adição de suas partes constituintes. Contudo, apostamos teimosamente no poder lógico da reta, embora saibamos que ela não existe, de per si, na natureza. Retas são invenções humanas, mas não prestamos muita atenção no que o mundo tenta nos mostrar, ocupados que estamos em submetê-lo aos nossos interesses.

Somos especialistas, medimos, tornamos a medir, baseamos nossas vidas em dinheiro, consumo e em volatilidade. Esquecemos, por exemplo, que materias primas são  igualmente voláteis e, muitas vezes, não renováveis. Por agirmos assim, atendemos a parâmetros que não prestam atenção aos entornos, aos limites, às consequencias. Desperdiçamos energia. Vinte por cento da humanidade consome oitenta por cento da energia produzida pelo planeta, mas tratamos de tal assunto como se fossemos assistir a um desfile de Gauthier.

Rompemos cadeias alimentares e ecossistemas e pretendemos que não haja consequencias; focamos nossos esforços quanto as concessões de direitos, mas somos muitas vezes precários interpretadores dos deveres. Para obter lucros, tornamos áreas agricultáveis praticamente estéreis à outras espécies, porque estimulamos a monocultura e deixamos de explorar outras culturas voltadas diretamente para a alimentação. Destruímos matas nativas e não as reflorestamos na mesma proporção.  Os exemplos se multiplicam e, assim como os ponteiros dos relógios, apontamos laminas contra nossa maior casa, nosso planeta. Obstinadamente nos aferramos a uma visão menor de mundo, e os modelos políticos igualmente não tem demonstrado capacidade e feedbarck para lidar com tais problemas, envolvidos que se encontram com suas próprias idiossincrasias. É um mundo sem perguntas, apenas seguidor de modelos. Genericamente o papel de predadores históricos e sociais sempre nos caiu muito bem.

 Se observarmos, contudo, veremos já sinais de que as mudanças começam a trazer resultados práticos; de um certo modo é como se uma nova consciência se tivesse instalando lentamente. A consciência de que não podemos continuar a tratar as situações de modo isolado, nem de que podemos permitir visões parcialistas em termos uma noção do todo que está envolvido. Esses movimentos de rede acontecem especialmente nos países nórdicos, nos quais o nível de qualidade de vida já é bastante evoluído, e a renda per capital é distribuída de forma mais equitativa. Por outro lado, as organizações não governamentais cada vez mais buscam soluções que se dão através de projetos que necessariamente não precisam do capital estatal – e, portanto, da submissão direta ou indireta aos governos dos diversos países. Isso configura um substrato alentador, e permite que tenhamos possibilidades claras de um desenvolvimento auto-sustentável. Assim como os processos de globalização, essas entidades igualmente agem em nível mundial. Alguns exemplos conhecidos são o Greenpeace, o WWF, os Médicos sem Fronteiras, além dos tradicionais, como a Cruz Vermelha e assim por diante. O mesmo movimento socialmente garantidor e ecologicamente marcado ocorre e se multiplica em países que são tradicionalmente poluidores, como os Estados Unidos. A China, contudo, embora seja uma das maiores emissoras de gases poluentes do mundo, tem o escudo do crescimento economico e um regime político que não permite maiores voos em termos de organizações civis.

De todo modo, se nos acostumamos com as lâminas, talvez estejamos vivendo um momento em que finalmente nos acordamos para a realidade , e ela nos aponta para um futuro incerto e dramático se persistirmos pensando políticas internacionais como se estivéssemos no início do século XVII. Embora tenhamos possibilidade de nos filiarmos ou nos refugiarmos em vários movimentos e ideologias políticas, isso se revela insuficiente. Se os grandes dinossauros ainda permanecem íntegros na economia mundial, temos de aprender a conviver com eles e insistirmos no sentido de melhorar a vida de milhões de pessoas. E isso tem ocorrido através de três eixos principais: uma educação ética, a organização da sociedade civil e instrumentos públicos que cerceiem as possibilidades reais do exercício da estupidez institucional. É para esses três eixos que devemos estender nossas redes de atenção plena.

 

(1) O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (1991),  original Terminator 2: Judgment Day é um filme cujo diretor é John Cameron, continuação de The Terminator, de 1984.  O andróide citado é no post é T 1000, que tem a missão de matar John Connor. T 100o é de metal líquido, podendo assumir multivariadas formas.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 01:58

Imbecil: ser ou não ser

por blogdobesnos, em 17.04.12
Rate This

 

disfuncional por lobo suelto

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=imbecil&z=e&page=2

 

 

 

Devemos responder a um(a) imbecil? A resposta melhor seria não. Afinal, sabemos que não adianta discutirmos. A questão é que um(a) imbecil é alguém que está acostumado, muitas vezes, a invadir territórios mentais; se o faz conscientemente ou não, isso de certo modo desimporta, porque sabê-lo não pára a invasão. Em tais casos, cabe àquele(a) que teve seu território mental invadido decidir se retalia ou não. De quando em quando pondero e termino não respondendo, pois tenho a certeza de que nada mudará em função disso: nem o fato de me sentir muito aborrecido, menos ainda ver brilhar nos olhos do(a) imbecil um laivo de inteligência ou de bom humor, por moderados que sejam; em suma, sei que responder não é nada mais do que uma perda de tempo e um acréscimo de estresse desnecessário. Nem sempre, contudo, é possível a contenção. No livro Inteligência Emocional, de Daniel Goleman (mas não só aí), encontraremos o fato de que somos regidos pelo nosso inconsciente, e que podemos, sem um motivo  que aos demais possa parecer relevante  ou digno de discussão, nos deixarmos levar por um trem de emoções (a expressão é do livro citado). Assim como, quando em situação de risco ou perigo iminente nosso sistema límbico dispara, e temos uma descarga de adrenalina que impõe, necessariamente três alternativas, parar, fugir ou enfrentar o perigo ou o risco, sendo tal descarga instantânea, creio que algo assemelhado se dá quando somos colocados perto de um(a) imbecil(a) que explora argumentos estapafúrdios, ou que insiste, maliciosamente em uma estupidez renitente.

Ontem, por exemplo, acossado por profunda estupidez de uma imbecil, reagi. Não sei se o farei novamente, mas como ainda não sou nenhum exemplo de especial controle emocional e tenho lá certas idiossincrasias, como todos, não posso ter certeza que não repetirei a dose, nada homeopática, diga-se de passagem.

Há contudo uma espécie de gradação nos níveis de imbecilidade e de imbecilização. Há pessoas que congenitamente são imbecis e há aquelas que, às custas de um profundo despreparo para conviver socialmente, se tornam, ao longo da vida candidatos potenciais à imbecilidade, as que gravitam, de per si e de modo consciente em um mundo mental em que a estupidez toma a maior parte de suas mentes. Há ainda aquelas que, habituées de tais mudos, nos contemplam, obrigatoriamente com sua falta de perspectiva e de sagacidade. Mas há especificidades.

Há o imbecil (ou a imbecil) que eleva a Imbecilidade e a Estupidez a um padrão que deve ser respeitado por todos. Assim, sendo, há uma certa arrogância na imbecilidade. A pessoa imbecil crê que todos lhes devam justificativas e explicações, que há uma conspiração em marcha contra si, e que os demais devem se comprazer em, de modo submisso, dar guarida a sua imbecilidade, sob a pena de passar por insensível ou por mau educado quem não se curva à sua imbecilidade, que tem como porta bandeira a expressão não entendi. Uma vez aberto esse portal, os demais que se acomodem.

Há também a pessoa imbecil que prefere um outro tipo de discurso “olha, eu sou assim, mas sou, também, bom”, e os demais que se danem. A bordo de uma estupidez pré-concebida, tal representante prefere dizer que aos demais cabe submissão, devendo ser invariavelmente tal hipócrita ser entendido por quem tem o desprazer de privar de sua companhia.

Nos dois casos, existe arrogância e é presumida a submissão ou os indefectíveis agradinhos convenientes dos terceiros. Aliás, a uma determinada quadra, os demais não se importam mais com a imbecilidade, o desrespeito e a arrogância que dá sustento a tais criaturas, que passam a ser tratados como bobos da corte, tolos, pessoas néscias, que, em verdade, é o que são. No entanto, não é assim que se apresentam quando seus interesses são tocados,ou quando, por um motivo qualquer, alguém tenta lhes dizer que parafuso e girafa são coisas distintas. Lamentavelmente todo ou toda imbecil, então, promove um espetáculo de  fundo desagradável e/ou inconveniente. Todo ou toda imbecil se irroga a si próprio (a) um caráter de prioridade. Primeiro vê a si, depois contempla o seu ego e, por último, mercancia com o sentido de culpa dos demais.

Penso que merecem, sim, ser contestados, desnudados em sua estupidez. Afinal, se a estão usando como carta branca para seus destemperos, nada mais pedagógico que mostrar-lhes que os demais sabem que são imbecis. É preciso dar um limite à estupidez, pois ela viceja como uma progressão geométrica. Pelo menos saberá que não estamos alinhados, nem passivos e nem lhes rendemos honras.  É claro que isso tudo provoca um desgaste desnecessário, mas por vezes é indisponível o direito que temos de não aceitarmos tais estupidezas. Enquanto isso, o sistema límbico tudo controla.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 01:56

La diferencia entre un buen libro

por blogdobesnos, em 17.04.12

RIR +! Humor

 
 
 
 
 
 
Rate This

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 01:42

Interpretar é uma arte

por blogdobesnos, em 17.04.12

CPT +! Interpretar é uma arte

Rate This

 

Amigos, virtuais ou não, sempre amigos!!!! por Gabi Di Paolla

http://www.flickr.com/search/?q=amigos&z=e

 

 

 

Somos, de certo modo, responsáveis não apenas por nós, mas pelas nossas relações. Se eu escrever, na sequencia, que nos tornamos responsáveis por quem cativamos, serei acusado, primeiro, de plagiar lamentavelmente ” O pequeno príncipe” (1) e depois – os males da civilização burguesa – de ser piegas. O que ocorre é que, piegas ou não, mesmo pífio ou não, isso não vai muito longe da realidade. Quando, enfim, nos permitimos dar-nos a conhecer a outro, e não há, por trás disso, qualquer demanda negocial ou interesse material ou terceiras intenções escondidas, buscamos, sim, que de tal proximidade brotem raízes, frutos; talvez não propriamente um baobá nem um angico mas, pelo menos, um discreto parreiral. E assim vamos nos envolvendo em tais situações para concluirmos que, de quando em quando, necessitamos revisar nossa network e que podemos até nos arriscar a sermos autênticos e reais em relação à pessoas das quais nos aproximamos e que entendemos que igualmente aceitam nossa proximidade.

Se atravessamos algum problema e temos amigos, teremos, igualmente, sombras onde poderemos descansar, remansos que poderemos desfrutar, riachos onde beber, silêncios tão necessários quanto a fala; enfim, locais onde visões distintas das nossas poderão ser por vezes mais do que úteis, mas, talvez, salvadoras. No entanto, se nossas pretensas amizades não avançaram mais do que a modorra placentária de alguns hobbies desfrutados ou desfrutáveis convenientemente, nos daremos conta de que estamos sós.

Em tal processo de nos tornarmos apenas alguém só, renunciaremos talvez àquilo que poderíamos ter conseguido: o sustento da palavra amiga, o reconforto de uma companhia  presente, a ouvida e a escuta de alguém que nada mais tem por nós senão uma dadivosa sinceridade, a troca de experiências de modo desinteressado e, finalmente, as gentilezas próprias da amizade. Ao nos afastarmos disso acabamos, talvez não deliberadamente, por nos fragmentarmos. Ficamos então assim, como pedaços de um quebra-cabeça que, iniciado, se perde em nossos mais densos labirintos. Muitas vezes estendemos a mão de modo desinteressado, mas, não raro, a(s) pessoa(s) não entendem isso, tão mergulhadas estão em seus próprios cadinhos de amargura.

Compartilhar não é apenas rir, não é apenas confraternizar, mas desenvolver auto-confiança, em si e nos outros. Quando nossos propósitos leais não encontram guarida temos, portanto, de refletir: ninguém tem obrigação nenhuma de aceitar nossa confiança, nossa estima e nossa entrega, pois quem é amigo se entrega ao outro. Mais uma vez, sobrevindo a desilusão, aquele rosto, aquele figura irá parar em um arquivo no qual não gostaríamos: o da falta de paixão e o do início da indiferença.

É uma pena que, ao fundo e ao cabo, não saibamos compartilhar; mas pior ainda é não saber reconhecer, do alto da planície, a árvore verdejante e a planície estendida à frente de um profundo pantanal. Nem todos, contudo, tem capacidade para tanto, bastando-lhes, tão só recolher-se à si próprias, num mutismo que traduz bem mais a falta de uma leitura sensível do que a amizade que estendemos. Não adianta, portanto, saber ler. Interpretar, realmente, é uma arte.

 

(1) O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupery, Ed. Agir, BR.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 01:38

Help Japan

por blogdobesnos, em 17.04.12
 
 
 
 
 
 
Rate This

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 01:36

Os prostíbulos do capitalismo

por blogdobesnos, em 17.04.12

SIS +! Os prostíbulos do capitalismo

Rate This

 

dinheiro por Newton Calegari

Fonte: http://www.flickr.com/search/?w=all&q=DINHEIRO+&m=text

 

 

Este texto foi retirado, com autorização, do BLOG DO EASON

Site: http://easonfn.wordpress.com/2011/01/23/os-prostibulos-do-capitalismo/#comment-702

 

OS PROSTÍBULOS DO CAPITALISMO


Carta Maior


Emir Sader


Os chamados “paraísos fiscais” são verdadeiros prostíbulos do capitalismo. Nesses territórios se praticam todos os tipos de atividade econômica que seriam ilegais em outros países, captando e limpando somas milionárias de negócios como o comércio de armamentos, do narcotráfico e de outras atividades similares.

Os paraísos fiscais, que devem somar um total entre 60 e 90 no mundo, são micro-territórios ou Estados com legislações fiscais frouxas ou mesmo inexistentes. Uma das suas características comuns é a prática do recebimento ilimitado e anônimo de capitais. São países que comercializam sua soberania oferecendo um regime legislativo e fiscal favorável aos detentores de capitais, qualquer que seja sua origem. Seu funcionamento é simples: vários bancos recebem dinheiro do mundo inteiro e de qualquer pessoa que, com custos bancários baixos, comparados com as médias praticadas por outros bancos em outros lugares.

Eles têm um papel central no universo das finanças negras, isto é, dos capitais originados de atividades ilícitas e criminosas. Máfias e políticos corruptos são frequentadores assíduos desses territórios. Segundo o FMI, a limpeza de dinheiro representa entre 2 e 5% doi PIB mundial e a metade dos fluxos de capitais internacionais transita ou reside nesses Estados, entre 600 bilhões e 1 trilhão e 500 bilhões de dólares sujos circulam por aí. 

O numero de paraísos fiscais explodiu com a desregulamentação financeira promovida pelo neoliberalismo. As inovações tecnológicas e a constante invenção de novos produtos financeiros que escapam a qualquer regulamentação aceleraram esse fenômeno.

Trafico de armas, empresas de mercenários, droga, prostituição, corrupção, assaltos, sequestros, contrabando, etc., são as fontes que alimentam esses Estados e a mecanismo de limpeza de dinheiro.

Um ministro da economia da Suíça – dos maiores e mais conhecidos paraísos – declarou em uma visita a Paris, defendendo o segredo bancário, chave para esses fenômenos: “Para nós, este reflete uma concepção filosófica da relação entre o Estado e o indivíduo.” E acrescentou que as contas secretas representam 11% do valor agregado bruto criado na Suíça.
Em um país como Liechtenstein, a taxa máxima de imposto sobre a renda é de 18% e o sobre a fortuna inferior a 0,1%. Ele se especializa em abrigar sociedades holdings e as transferências financeiras ou depósitos bancários.

Uma sociedade sem segredo bancário, em que todos soubessem o que cada um ganha – poderia ser chamado de paraíso. Mas é o contrário, porque se trata de paraísos para os capitais ilegais, originários do narcotráfico, do comercio de armamento, da corrupção.

Existem, são conhecidos, quase ninguém tem coragem de defendê-los, mas eles sobrevivem e se expandem, porque são como os prostíbulos – ilegais, mas indispensáveis para a sobrevivência de instituições falidas, que tem nesses espaços os complementos indispensáveis à sua existência.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 01:16


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisa

Pesquisar no Blog  

calendário

Abril 2012

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930




Arquivos

  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D